{"id":594,"date":"2009-12-12T13:50:28","date_gmt":"2009-12-12T15:50:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=594"},"modified":"2009-12-21T22:20:41","modified_gmt":"2009-12-22T00:20:41","slug":"contemporaneos-da-duvida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/contemporaneos-da-duvida","title":{"rendered":"CONTEMPOR\u00c2NEOS DA D\u00daVIDA"},"content":{"rendered":"<p><strong>1. Introdu\u00e7\u00e3o: Miss\u00e3o no inverno.<\/strong><\/p>\n<p>A neve foi fatal para Francis Bacon e Ren\u00e9 Descartes. Uma experi\u00eancia criog\u00eanica com carne de frango em 1627 exp\u00f4s demais ao frio o ex-chanceler da corte de Jaime I, enquanto uni convite da Rainha Cristina, da gelada Su\u00e9cia, atraiu Descartes para a pneumonia e a morte em 1650.<\/p>\n<p>Mas os dois contempor\u00e2neos t\u00eam mais coisas em comum do que os rigores do clima. Cercados pelo muro alto da escol\u00e1stica, eles compartilharam da insatisfa\u00e7\u00e3o diante de uma filosofia que, acreditavam, nada acrescentava \u00e0 vida humana. E estimulados pelo dinamismo da sua \u00e9poca, de inven\u00e7\u00f5es e descobertas, souberam lan\u00e7ar os alicerces de um conhecimento sintonizado com as novas conquistas da aventura humana.<\/p>\n<p>Os dois possuem tamb\u00e9m a feliz combina\u00e7\u00e3o entre a dura disciplina e a ousadia. A primeira prov\u00e9m de r\u00edgida forma\u00e7\u00e3o religiosa e a segunda foi gerada pelas necessidades das classes a que pertenciam &#8211; a burguesia comerciante e propriet\u00e1ria de terras, no caso da fam\u00edlia de Descartes, e a nobreza aburguesada da Inglaterra, no caso de Bacon. Esses fatores influ\u00edram em temperamentos decididos, que desde cedo revelaram uma voca\u00e7\u00e3o explosiva, a miss\u00e3o de servir a humanidade. Entre 1619 -quando Descartes teve o insight dessa miss\u00e3o num rigoroso iiryerno na cercanias de Ulm, na Alemanha &#8211; e 1620 &#8211; quando Bacon lan\u00e7ou sua principal obra, o Novo Organum &#8211; o mundo come\u00e7ou a provar de receitas in\u00e9ditas que o lan\u00e7aram numa espiral de renova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas o que caracteriza a compara\u00e7\u00e3o entre os dois fil\u00f3sofos n\u00e3o \u00e9 a identidade, mas as diferen\u00e7as de seus m\u00e9todos, definidos a partir de um obst\u00e1culo evidente: a percep\u00e7\u00e3o humana. Bacon quer libertar os sentidos dos preconceitos cevados no h\u00e1bito, na tradi\u00e7\u00e3o e na heran\u00e7a cultural &#8211; e atrav\u00e9s da experi\u00eancia e da observa\u00e7\u00e3o chegar a s\u00ednteses esclarecedoras sobre a funcionamento da natureza. O processo indutivo fica assim colocado a servi\u00e7o da evolu\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia. Descartes \u00e9 tamb\u00e9m radical na sua desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos sentidos, mas n\u00e3o abra\u00e7a o empirismo e coloca todas as fichas na dedu\u00e7\u00e3o racionalista para se chegar ao conhecimento: &#8220;Na verdade, n\u00e3o percebemos qualquer objeto, tal como \u00e9, apenas pelos sentidos (mas somente por nossa raz\u00e3o, que se exerce sobre os objetos sensoriais&#8221; (Princ\u00edpio 73, citado por Edwin Burtt).<br \/>\nA seguir, vamos esmiu\u00e7ar um pouco esses dois caminhos.<\/p>\n<p><strong>2. Descartes: A matem\u00e1tica do ser.<\/strong><\/p>\n<p>Da variedade de leituras de e sobre Descartes, precisamos, para efeitos desse semin\u00e1rio, selecionar alguns argumentos para entender pelo menos os aspectos principais da sua proposta.<\/p>\n<p>A partir do texto de Edwin Arthur Burtt, a pesquisa nos levou ao ensaio &#8220;Vida e Obra&#8221;, de Jos\u00e9 Am\u00e9rico Motta Pessanha, publicado na Cole\u00e7\u00e3o Os Pensadores, da Nova Cultural, que cita o livro Geometria, de 1637: &#8220;Em mat\u00e9ria de progress\u00f5es matem\u00e1ticas, quando se tem os dois ou tr\u00eas primeiros termos, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil encontrar os outros&#8221;. Pessanha escreve que &#8220;essa id\u00e9ia de uma ordem natural, inerente \u00e0 progress\u00e3o do conhecimento, \u00e9 fundamental para o projeto cartesiano de construir uma matem\u00e1tica universal.&#8221;<\/p>\n<p>Bastaria, portanto, criar uma cadeia de raz\u00f5es para desvendar um termo desconhecido. Mas para que isso aconte\u00e7a, \u00e9 preciso trabalhar com aquilo que for verdadeiro e s\u00f3 \u00e9 verdadeiro o que for evidente, o que for intu\u00edvel com clareza e precis\u00e3o. Como ter certeza das evid\u00eancias? O truque usado por Descartes foi ampliar a d\u00favida at\u00e9 o m\u00e1ximo, num processo radical de filtragem.<\/p>\n<p>Desse processo, ele tira uma certeza &#8211; &#8220;Se duvido, penso**. Por enquanto, essa constata\u00e7\u00e3o faz parte apenas da subjetividade, do interior do homem, pois nada garante que ela exista no mundo objetivo. Mas j\u00e1 \u00e9 o primeiro elo de uma cadeia de raz\u00f5es. O desdobramento natural \u00e9: &#8220;Se penso, logo existo&#8221;, ou seja, existo como coisa pensante. &#8220;Do pensamento ao ser que pensa&#8221;, diz Pessanha, &#8220;realiza-se ent\u00e3o o salto sobre o abismo da objetividade.&#8221;<\/p>\n<p>Como explica Burtt, o dualismo cartesiano \u00e9 formado por duas entidades independentes, o mundo de corpos (res extensa) e o reino do interior (res cogitans). A ess\u00eancia do primeiro \u00e9 a extens\u00e3o e a do segundo \u00e9 o pensamento. Um consiste numa enorme m\u00e1quina matem\u00e1tica, estendida no espa\u00e7o, que n\u00e3o depende em qualquer medida do pensamento e todo o seu mecanismo continuaria a existir e a operar mesmo que n\u00e3o existisse qualquer ser humano. Nela, n\u00e3o h\u00e1 espontaneidade em ponto algum; tudo continua a mover-se em concord\u00e2ncia fixa com os princ\u00edpios da extens\u00e3o e do movimento. Tudo acontece de acordo com a regularidade, a precis\u00e3o e a inevitabilidade de uma m\u00e1quina que opera suavemente.<\/p>\n<p>O outro \u00e9 formado de esp\u00edritos pensantes, sem extens\u00e3o. &#8220;O que Descartes pretendia dizer era que, por meio de uma parte do c\u00e9rebro, uma subst\u00e2ncia desprovida de extens\u00e3o entrava em rela\u00e7\u00e3o efetiva com o reino da extens\u00e3o&#8221;, escreve Burtt Enquanto o universo da mat\u00e9ria estende-se infinitamente por todo o espa\u00e7o, o universo da mente fica encerrado em uma s\u00e9rie de pequenas e insignificantes localiza\u00e7\u00f5es no interior dos corpos humanos.<\/p>\n<p>Descartes foi muito bem sucedido no trabalho de estabelecer pontes entre mundos aparentemente incompat\u00edveis. Logo depois que teve seu insight em Ulm, ele conseguiu, com a geometria anal\u00edtica, descobrir uma correspond\u00eancia explicita e absoluta entre os n\u00fameros e o espa\u00e7o. Com isso, as rela\u00e7\u00f5es espaciais poderiam ser vertidas para a aritm\u00e9tica e a \u00e1lgebra e as verdades num\u00e9ricas representadas sob o ponto de vista espacial. O reino da f\u00edsica ficava assim ser redut\u00edvel a qualidades geom\u00e9tricas. Como a natureza \u00e9 um mundo geom\u00e9trico e seus objetos s\u00e3o grandezas em movimento, dotadas de extens\u00e3o e figura\u00e7\u00e3o, a matem\u00e1tica teria condi\u00e7\u00f5es de decifr\u00e1-la.<\/p>\n<p>Descartes chegou a esses resultados depois de uma constata\u00e7\u00e3o. Segundo Pessanha, ele tinha descoberto que apesar da solidez e perfeito encadeamento, as matem\u00e1ticas serviam de base para um campo limitado de aplica\u00e7\u00f5es. Ao mesmo tempo, embora dotadas de t\u00e3o grande riqueza racional, elas n\u00e3o ensinavam nada de fundamental para os problemas da vida, que permaneciam objetos de especula\u00e7\u00f5es vagas. Sua ambi\u00e7\u00e3o ia al\u00e9m da geometria anal\u00edtica. Ele queria &#8220;unificar, com o aux\u00edlio do instrumental matem\u00e1tico, todo o vasto campo de conhecimentos, at\u00e9 ent\u00e3o dispersos em d\u00e9beis constru\u00e7\u00f5es isoladas. Mas para isso era necess\u00e1rio que, antes, o terreno fosse preparado de modo a que nele n\u00e3o medrasse qualquer d\u00favida. S\u00f3 ent\u00e3o a \u00e1rvore da sabedoria poderia expandir-se com o pleno vi\u00e7o da certeza. &#8221; ,<\/p>\n<p>Artigo de Jean-Luc Marion publicado na se\u00e7\u00e3o Cultura do Caderno 2 do jornal &#8220;O Estado de S\u00e3o Paulo&#8221; (12\/10\/96), adverte que precisamos ficar atentos para evitar as id\u00e9ias cristalizadas sobre o assunto, j\u00e1 que hoje imp\u00f5e-se resgatar o autor da &#8220;escola'&#8221; formatada ao seu redor, o cartesianismo. Marion atualiza a import\u00e2ncia de Descartes em tr\u00eas aspectos principais:<\/p>\n<p>a) Ele desenvolveu seu M\u00e9todo para unificar as ci\u00eancias em um s\u00f3 saber humano, a partir de ent\u00e3o universal. Mas segue-se um paradoxo: as certezas da ci\u00eancia repousam em fundamentos \u00ed\u00ednitos. Dessa quest\u00e3o as ci\u00eancias n\u00e3o conseguem sair e principalmente penam freq\u00fcentemente por permanecer;<\/p>\n<p>b) N\u00e3o sabemos ainda qual a identidade do Ego de Descartes (ele nem emprega o termo &#8220;sujeito&#8221;), e \u00e9 por isso que ainda o estudamos;<\/p>\n<p>c) N\u00e3o sabemos a ess\u00eancia do Deus de Descartes. Ele d\u00e1 in\u00fameros nomes a uma ente n\u00e3o-conhecido?( Descartes tenta provar a exist\u00eancia de Deus pelo M\u00e9todo: como um ser limitado e imperfeito poderia conceber o infinito e a peifei\u00e7\u00e3o? Essa concep\u00e7\u00e3o divina dentro do homem seria a marca do artista em sua obra.)<\/p>\n<p>Para Marion, Descartes se antecipa em formular antes e melhor do que os fil\u00f3sofos de hoje, as quest\u00f5es do nosso tempo. Mesmo lan\u00e7amento m\u00e3o de artif\u00edcios como a teoria do v\u00f3rtice &#8211; citada por Burtt, que ocultava as causas das varia\u00e7\u00f5es f\u00edsicas no meio ambiente vago e invis\u00edvel &#8211; ele conseguiu contrapor-se a uma concep\u00e7\u00e3o teleol\u00f3gica e espiritual dos processos da natureza e que controlara o pensamento humano por mil e quinhentos anos.<\/p>\n<p>A estagna\u00e7\u00e3o do conhecimento &#8211; contra o qual Descartes e Bacon se insurgiram &#8211; era provocada por um poder absolutista que opunha nobreza e burguesia para manter-se no poder e que, se estimulava a burguesia, n\u00e3o se dispunha a colocar todas as armas nas m\u00e3os dessa classes emergente. Isso ficou claro na Fran\u00e7a com a ascens\u00e3o do Cardeal Richelieu &#8211; que esteve no poder de 1624 a 1642 &#8211; e na Inglaterra com a indiferen\u00e7a de Jaime I em seguir as instru\u00e7\u00f5es de Bacon de patrocinar as ci\u00eancias.<\/p>\n<p>Essa press\u00e3o absolutista serviu para tolher a a\u00e7\u00e3o dos dois fil\u00f3sofos, que, cada um a seu modo, apesar de irem longe nas respectivas obras, apenas esbo\u00e7aram o progresso cient\u00edfico. Bacon, devido \u00e0 sua carreira pol\u00edtica e Descartes, por medo da Inquisi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o exploraram ao m\u00e1ximo as suas propostas, mas a poss\u00edvel rebeldia seria suficiente para levar essa tarefa a bom termo?<\/p>\n<p><strong>3. Bacon: o fim do desperd\u00edcio.<\/strong><\/p>\n<p>Artes\u00e3os tinham inventado a imprensa, a p\u00f3lvora e a b\u00fassola sem nenhum projeto sistem\u00e1tico e no entanto essas descobertas revolucionaram o mundo. O que poderia ser feito se houvesse planejamento e coordena\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias? &#8220;Minha inten\u00e7\u00e3o1&#8221;, escreve Bacon no livro &#8220;O Progresso da Ci\u00eancia&#8221;, \u00e9 fazer o circuito do conhecimento, observando quais as partes que est\u00e3o sendo desperdi\u00e7adas, n\u00e3o foram cultivadas e est\u00e3o abandonadas pela ind\u00fastria do homem; com vistas a engajar, por um fiel mapeamento dos tratos desertos, as energias de pessoas p\u00fablicas e privadas no seu melhoramento.&#8221;<\/p>\n<p>Essa proposta &#8211; que \u00e9 a ess\u00eancia da sua utopia, revelada no livro &#8220;Nova Atl\u00e2ntida&#8221; -serviu de roteiro para as gera\u00e7\u00f5es seguintes dos cientistas. N\u00e3o \u00e9 por nada que a Real Academia inglesa e a Enciclop\u00e9dia francesa rendem tributo a ele. Segundo C. Hill, no cap\u00edtulo &#8220;Francis Bacon e os Parlamentaristas, no livro &#8220;Origens Intelectuais da Revolu\u00e7\u00e3o Inglesa, ele criou um programa de coopera\u00e7\u00e3o e consci\u00eancia de objetivos a mercadores, artes\u00e3os e fil\u00f3sofos e ao mesmo tempo erradicou a culpa na ci\u00eancia, sintonizando-;* com a teologia. Como a ci\u00eancia era virtuosa, foi apoiada pelo Parlamento ingl\u00eas e isso foi fundamental para o progresso cient\u00edfico no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a ci\u00eancia, com a proposta de Bacon, ganhou status social e coer\u00eancia filos\u00f3fica, afastando-se da imagem passadista da magia e da alquimia. Ele proporcionou uma teoria que conjugava dois fatores. Por um lado, o otimismo coerente sobre o futuro da humanidade. Por outro, a cr\u00edtica a Arist\u00f3teles e aos escol\u00e1sticos, considerados n\u00e3o apenas in\u00fateis, mas malignos. A compreens\u00e3o da verdade era uma maneira de reparar o pecado original. Foi uma san\u00e7\u00e3o moral que livrava a ci\u00eancia do mero utilitarismo.<\/p>\n<p>Bacon compreendeu que a intelig\u00eancia e o saber eram decisivas para resolver conflitos, numa \u00e9poca em que o capital libertava o indiv\u00edduo e convertia-se no grande igualador de homens, demonstrando ser mais poderoso do que o nascimento e a casta. De fam\u00edlia aristocr\u00e1tica, filho de alto funcion\u00e1rio de governo e m\u00e3e erudita, vislumbrou na carreira pol\u00edtica uma maneira de desenvolver seus m\u00e9todos e aplic\u00e1-los para o progresso da humanidade. De r\u00edgida forma\u00e7\u00e3o escol\u00e1stica, ele achava que a filosofia tinha ficado est\u00e9ril por mais de mil anos porque precisava de um novo m\u00e9todo para torn\u00e1-la f\u00e9rtil. &#8220;Passar al\u00e9m de Arist\u00f3teles usando a luz de Arist\u00f3teles \u00e9 pensar que uma luz tomada por empr\u00e9stimo pode aumentar a luz original de onde ela \u00e9 tomada, &#8220;escreve ele no Novo Organum, citado por Will Durant no manual &#8220;A Hist\u00f3ria da Filosofia&#8221;, da Cole\u00e7\u00e3o os Pensadores.<\/p>\n<p>O primeiro passo \u00e9 despir a mente de preconceitos e predisposi\u00e7\u00f5es e resgatar a inoc\u00eancia da percep\u00e7\u00e3o, identificando quatro classes de erros. A primeira s\u00e3o os \u00eddolos da Tribo, comuns a toda humanidade. &#8220;A mente humana s\u00e3o como aqueles espelhos irregulares que d\u00e3o propriedades suas a diferentes objetos e os distorcem e os desfiguram&#8221;. Suspeitar de tudo o que a mente capta deve ser a regra primordial para evitar essa armadilha. A segunda classe de erros s\u00e3o os \u00eddolos da Caverna, pois &#8220;todo mundo tem uma caverna que refrata e descolore a luz da natureza&#8221;.<\/p>\n<p>A terceira s\u00e3o os \u00eddolos de Mercado, nascidos do com\u00e9rcio e da associa\u00e7\u00e3o dos homens entre si, pois &#8220;de uma inata a de uma prejudicial e inapta forma\u00e7\u00e3o de palavras surge uma maravilhosa obstru\u00e7\u00e3o da mente&#8221;. E a \u00faltima s\u00e3o os \u00eddolos da o Teatro, pois &#8220;todos os sistemas de filosofia recebidos n\u00e3o passam de tantas pe\u00e7as teatrais, representando mundos criados por elas mesmas segundo um estilo irreal e c\u00eanico.&#8221;<\/p>\n<p>Contrapondo-se ao dogma e \u00e0 dedu\u00e7\u00e3o. Bacon descreve o m\u00e9todo cient\u00edfico da investiga\u00e7\u00e3o. A experi\u00eancia que se manifesta por acidente \u00e9 emp\u00edrica, se for provocada \u00e9 experimento. A hip\u00f3tese arranja e delimita o experimento e desse processo infere-se axiomas. Dos axiomas estabelecidos, parte-se para novos experimentos. &#8220;Temos que colocar a natureza na c\u00e2mara de tortura e faz\u00ea-la testemunhar&#8221;. Ele acha que a natureza s\u00f3 ser\u00e1 dominada se for compreendida. Para Bacon, \u00e9 preciso reunir elementos de toda a parte, fazer pesquisa conjunta, estreitando e fechando o campo de investiga\u00e7\u00e3o, para capturar a presa &#8211; o conhecimento.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo de indu\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa simples enumera\u00e7\u00e3o de dados, mas uma t\u00e9cnica de classifica\u00e7\u00e3o e a elimina\u00e7\u00e3o de hip\u00f3teses. Atrav\u00e9s do progressivo cancelamento de poss\u00edveis explica\u00e7\u00f5es, s\u00f3 deve restar uma. O item mais \u00fatil dessa t\u00e9cnica \u00e9 a Tabela do Mais ou Menos que relaciona ocasi\u00f5es em que duas qualidades ou condi\u00e7\u00f5es aumentam e diminuem juntas e assim podem revelar uma rela\u00e7\u00e3o causai entre os fen\u00f4menos que variam simultaneamente.<\/p>\n<p>Unindo o desenvolvimento das matem\u00e1ticas e da astronomia, a medicina paracelsana e a tradi\u00e7\u00e3o puritana, Bacon conseguiu convert\u00ea-las num sistema intelectual que refor\u00e7ou o movimento cient\u00edfico de maneira incalcul\u00e1vel.<br \/>\n<strong><br \/>\n4. Bibliografia<\/strong><\/p>\n<p>BURTT, EDWIN ARTHUR &#8211; Descartes, Cap\u00edtulo TV in &#8220;As Bases Metaf\u00edsicas da Ci\u00eancia Moderna &#8211; Bras\u00edlia, Ed. Universidade de Bras\u00edlia, 1991.<br \/>\nDESCARTES, REN\u00c9\u00a0\u00a0 &#8211; Discurso sobre o M\u00e9todo &#8211; Para Bem Dirigir a Pr\u00f3pria Raz\u00e3o e Procurar a Verdade nas Ci\u00eancias, tradu\u00e7\u00e3o de M\u00e1rcio Pugliesi e Norberto de Paula Lima, S\u00e3o Paulo, Hemus, 1995.<br \/>\nDURANT, WILL &#8211; Francis Bacon, Cap\u00edtulo III in A Hist\u00f3ria da Filosofia, Cole\u00e7\u00e3o Os Pensadores, S\u00e3o Paulo, Nova Cultural, 1996.<br \/>\nHILL, C. &#8211; Francis Bacon e os Parlamentaristas, cap\u00edtulo 3 in &#8220;Origens Intelectuais da Revolu\u00e7\u00e3o Inglesa, S\u00e3o Paulo, Ed. Martins Fontes, 1992<br \/>\nMARION, JEAN-LUC &#8211; Ren\u00e9 Descartes \u00e9 Resgatado do Cartesianismo in Cultura, Caderno 2, jornal O Estado de S\u00e3o Paulo, 12\/10\/96.<\/p>\n<p>PESSANHA, JOS\u00c9 AM\u00c9RICO MOTTA &#8211; Vida e Obra, ensaio in &#8220;Descartes, Cole\u00e7\u00e3o Os Pensadores, S\u00e3o Paulo, Nova Cultural, 1996. (&#8230;) &#8211; Cap\u00edtulo 20 de &#8220;Francis Bacon&#8221;, Cole\u00e7\u00e3o Os Pensadores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A neve foi fatal para Francis Bacon e Ren\u00e9 Descartes. Uma experi\u00eancia criog\u00eanica com carne de frango em 1627 exp\u00f4s demais ao frio o ex-chanceler da corte de Jaime I, enquanto uni convite da Rainha Cristina, da gelada Su\u00e9cia, atraiu Descartes para a pneumonia e a morte em 1650. Mas os dois contempor\u00e2neos t\u00eam mais coisas em comum do que os rigores do clima. Cercados pelo muro alto da escol\u00e1stica, eles compartilharam da insatisfa\u00e7\u00e3o diante de uma filosofia que, acreditavam, nada acrescentava \u00e0 vida humana. E estimulados pelo dinamismo da sua \u00e9poca, de inven\u00e7\u00f5es e descobertas, souberam lan\u00e7ar os alicerces de um conhecimento sintonizado com as novas conquistas da aventura humana<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[15],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/594"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=594"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/594\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1706,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/594\/revisions\/1706"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=594"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=594"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=594"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}