{"id":724,"date":"2009-12-12T22:26:54","date_gmt":"2009-12-13T00:26:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=724"},"modified":"2009-12-21T22:27:42","modified_gmt":"2009-12-22T00:27:42","slug":"esse-estranho-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/esse-estranho-amor","title":{"rendered":"ESSE ESTRANHO AMOR"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<br \/>\n<\/strong><br \/>\nO amor \u00e0 P\u00e1tria \u00e9 um sentimento estranho. N\u00e3o faz sentido amarmos algo que n\u00e3o tocamos, j\u00e1 que na\u00e7\u00e3o \u00e9 mais do que paisagem geogr\u00e1fica, \u00e9 um peda\u00e7o inacess\u00edvel de pano, longe, ao vento. \u00c9 um come\u00e7o de hino, um sotaque, um andar, um reclame. N\u00e3o implica rebento, n\u00e3o faz parte do mundo animal, n\u00e3o tem liga\u00e7\u00f5es de sangue. Pa\u00eds \u00e9 como um parente distante, sobre o qual desconhecemos a origem, n\u00e3o reconhecemos la\u00e7os, desconfiamos. N\u00e3o est\u00e1 inclu\u00eddo na natural prote\u00e7\u00e3o que damos ao objeto amado, quando agarramos, beijamos, suamos, lambemos o que gruda e arranha .<\/p>\n<p>P\u00e1tria n\u00e3o tem corpo, \u00e9 mais um acordo, uma id\u00e9ia, no m\u00e1ximo duas cores (as outras s\u00e3o coadjuvantes). Ent\u00e3o, que estranha compuls\u00e3o \u00e9 essa que nos inunda quando abra\u00e7amos a bandeira e gritamos o nome do pa\u00eds que imagin\u00e1vamos n\u00e3o amar mais? Talvez porque o amor \u00e0 P\u00e1tria, ao contr\u00e1rio do ego\u00edsmo dos amantes, seja aberto, amplo, generoso, que se espraia pelo tempo, praias, horizontes. E volte, sempre que houver motivo ou o dever nos chame.<\/p>\n<p>O amor \u00e0 P\u00e1tria \u00e9 o primeiro a ser negado quando nosso representante, no lugar de evitar o gol do advers\u00e1rio, contribui com ele por omiss\u00e3o ou soberba. Quando a reitera\u00e7\u00e3o dos crimes comp\u00f5e a identidade do pa\u00eds que dever\u00edamos amar. Basta o galo cantar uma s\u00f3 vez para trairmos a devo\u00e7\u00e3o c\u00edvica que deveria nos nortear. No varejo, nos dias que se sucedem sem nenhuma gra\u00e7a, vemos o amor \u00e0 P\u00e1tria escoando pelo ralo. \u00c9 o Brasil, dizemos, e damos o assunto por encerrado.<\/p>\n<p>Chegamos at\u00e9 a admirar os outros, que por suas p\u00e1trias possuem um amor sem d\u00favidas, j\u00e1 que vivem batendo no peito as heran\u00e7as, como se o sentimento fosse invis\u00edvel e precisassem, a cada momento, confirm\u00e1-lo diante de todos. N\u00f3s somos diferentes. Nosso amor \u00e0 P\u00e1tria \u00e9 muito mais estranho. Perdemos a pista de suas fontes. N\u00e3o h\u00e1 o que amar, pensamos, num pa\u00eds t\u00e3o pr\u00f3ximo e distante. Por isso, talvez, emigramos. Queremos esquecer a exclus\u00e3o, a viol\u00eancia, o vexame.<\/p>\n<p>Mas basta um garoto desconhecido, vindo do Brasil profundo, com fam\u00edlia t\u00e3o comum, como a nossa, um garoto pouco expl\u00edcito, j\u00e1 que a m\u00eddia aposta sempre no mesmo, que rompe a barreira com sua musculatura de escamas, ganhe um suado ouro no mais extremo Oriente, para que, pronto, o estranho amor volte \u00e0 tona como um n\u00e1ufrago dado por perdido. T\u00ednhamos esgotado a cota de esperan\u00e7a. Est\u00e1vamos mortos, abra\u00e7ados a poucos bronzes. Veio C\u00e9sar, de um c\u00e9u limpo, para chorar o que negamos.<\/p>\n<p>Talvez pelo peso excessivo dessa responsabilidade, que a na\u00e7\u00e3o inteira, com um p\u00e9 atr\u00e1s, torta de tantas derrotas, tenha colocado sem querer em seus ombros, fez com que C\u00e9sar Cielo Filho desandasse a chorar sem consolo. Como se recuper\u00e1ssemos as cachoeiras que matamos, como se voltassem os rios que se tornaram espa\u00e7os sedentos. Foi a \u00e1gua limpa do seu choro o sintoma de algo maior que nos transcende. Foi vergonhoso, reconhecemos. Onde se viu um pa\u00eds chorar por um peda\u00e7o de ouro, depois de tanto que tivemos em nossas entranhas e que foram espalhados pelos esgotos da Hist\u00f3ria e do mundo?<\/p>\n<p>Nem dev\u00edamos estar escrevendo essas coisas. N\u00e3o merecemos esse ouro. Essa medalha pertence ao garoto e seus pares, sua modalidade, sua fam\u00edlia. No m\u00e1ximo \u00e0 sua cidade, jamais ao pa\u00eds que, no entanto, amamos. Estranho, \u00e9 poss\u00edvel que n\u00e3o seja a P\u00e1tria o algoz que tememos. Talvez tenha conserto, e seja bom e certo bater no peito e nos insurgir quando amea\u00e7am ber\u00e7o e destino, o \u00fanico lugar do qual jamais escaparemos. Ser\u00e1 esse o caminho, depois de tanto erro?<\/p>\n<p>N\u00e3o sabemos, C\u00e9sar, Cielo, Filho. Saberemos quando tivermos tua garra e chorarmos a alegria de sentir esse amor estranho, o amor ao Brasil, a na\u00e7\u00e3o soberana. Queremos fazer parte desse ouro. Acolha-nos, C\u00e9sar, com teu poder mutante. O que chora quando a bandeira, majestosa, sobe e o Hino Nacional nos toca, como um tiro certeiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O amor \u00e0 P\u00e1tria \u00e9 o primeiro a ser negado quando nosso representante, no lugar de evitar o gol do advers\u00e1rio, contribui com ele por omiss\u00e3o ou soberba. Quando a reitera\u00e7\u00e3o dos crimes comp\u00f5e a identidade do pa\u00eds que dever\u00edamos amar. 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