{"id":824,"date":"2009-12-13T19:13:35","date_gmt":"2009-12-13T21:13:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=824"},"modified":"2009-12-21T22:07:10","modified_gmt":"2009-12-22T00:07:10","slug":"fichas-do-cine-sagu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/fichas-do-cine-sagu","title":{"rendered":"FICHAS DO CINE SAGU"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nei Ducl\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 fui s\u00f3cio-propriet\u00e1rio de uma sala de cinema. Exercia uma fun\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica: era o porteiro. A vizinhan\u00e7a fazia fila para ver os filmes mudos, que a velha m\u00e1quina projetava no len\u00e7ol estendido na parede dos fundos de casa. L\u00e1 apareciam, invariavelmente, Charles Chaplin (que cham\u00e1vamos de Carlitos), O Gordo e o Magro e outros comediantes que n\u00e3o identifico mais.<\/p>\n<p>Nos cinemas da cidade, j\u00e1 existia o Cinemascope, aquela tela enorme que provava a exist\u00eancia de Mois\u00e9s na pele de Charlton Heston. Como atrair gente com tamanha concorr\u00eancia? T\u00ednhamos um acervo limitado, e a plat\u00e9ia come\u00e7ou a se cansar. Certa feita, um garoto muito pequeno queixou-se, choroso, do repeteco, mas ouviu a frase salvadora do adulto que o acompanhava: \u201cFica quieto, guri, que depois tem sagu\u201d.<\/p>\n<p>As toneladas de sagu que se fazia em casa costumavam sobrar em panelas enormes. Gelado, era servido, de gra\u00e7a, aos potes, a \u00e1vidos cin\u00e9filos. Id\u00e9ia, claro, do meu irm\u00e3o nascido empres\u00e1rio, a de agregar valor \u00e0 gasta programa\u00e7\u00e3o. A entrada era um custo, mas o sagu compensava. Garantia qu\u00f3rum para o porteiro de olhos brilhantes diante dos lucros.<\/p>\n<p>Era um tro\u00e7o organizado. As pessoas iam at\u00e9 o caixa, devidamente gerenciado pelo meu irm\u00e3o, e l\u00e1 eles recebiam uma ficha colorida de pl\u00e1stico duro, numerada. Seria o maior charme se as cadeiras fossem personalizadas, mas a ficha era apenas a coisa mais pr\u00f3xima de um bilhete de cinema que disp\u00fanhamos. Servia para dar credibilidade ao neg\u00f3cio, j\u00e1 incrementado pela exist\u00eancia de um lanterninha.<\/p>\n<p>A ficha vinha dos cassinos, do jogo pesado, tipo de pecado que devassava as virtudes do cofre, exposto na sala para quem passasse na rua. Um cofre que meu pai religiosamente abria para l\u00e1 depositar, ou tirar, tudo o que era inacess\u00edvel \u00e0 inf\u00e2ncia. Dizem que chamava a aten\u00e7\u00e3o da cobi\u00e7a alheia, mas nunca fomos invadidos ou assaltados.<\/p>\n<p>Naquele tempo, podia-se ter um cofre bem \u00e0 vista de todos e ainda dormir na cal\u00e7ada no ver\u00e3o, coisa que meu pai fez regularmente at\u00e9 1964. Mas isso faz parte de um Brasil que foi jogado no lixo, quando havia paz na diferen\u00e7a, soberania nacional e seguran\u00e7a na cidade e no campo. Coisas antigas, como se sabe. Trocamos tudo isso pelas promessas de um futuro melhor.<\/p>\n<p>Cobrimos os trilhos com asfalto de m\u00e1 qualidade, apodrecemos os dormentes, lotamos de autom\u00f3veis os caminhos feitos para carro\u00e7as, privatizamos o ensino e a sa\u00fade, aprovamos os alunos por decreto, enchemos a cabe\u00e7a da meninada com bobagens, e depois nos perguntamos por que o pa\u00eds ficou assim. Ora, ficou dessa maneira porque isso faz parte da natureza humana, entende? Isso acontece em qualquer pa\u00eds do mundo, entende? Sermos campe\u00f5es mundiais em homic\u00eddios \u00e9 uma coisa normal, entende?<\/p>\n<p>O que chamam de economia informal era nossa brincadeira de crian\u00e7a. Pela quantidade de pessoas que sobrevivem no nosso capitalismo de farol (ou sinaleira) podemos notar que o pa\u00eds n\u00e3o conseguiu amadurecer. Os neg\u00f3cios da inf\u00e2ncia hoje s\u00e3o mais pesados. Nada comparado ao \u00e1rduo trabalho de montar um cinema completo e roubar espectadores de Hollywood.<\/p>\n<p>O dinheiro que arrecad\u00e1vamos era todo reinvestido, pois t\u00ednhamos uma meta maior. Para isso, criamos novos empreendimentos. Quermesse, onde eu me encarregava da pescaria e das latas empilhadas. Rifas, como a vez em que vendemos a chance de algu\u00e9m ganhar um viol\u00e3o, sem dizer que se tratava de um pequeno instrumento de pl\u00e1stico vagabundo. Quando meu irm\u00e3o foi entregar a prenda para o feliz ganhador, que estava fazendo a barba no lugar sagrado onde os homens adultos discutiam pol\u00edtica e futebol, quase foi linchado. O barbeiro, homem experiente que exibia sua perna queimada por um lan\u00e7a-chamas na Segunda Grande Guerra, deu-lhe um corrid\u00e3o. \u201cIsso \u00e9 viol\u00e3o que se apresente, seu! \u201d. Para n\u00f3s, n\u00e3o houvera m\u00e1 f\u00e9. Ningu\u00e9m perguntou que tipo de viol\u00e3o era.<\/p>\n<p>A meta maior era nosso time de futebol, que ainda dispunha das mensalidades dos s\u00f3cios (todos os guris da rua e arredores). Soube que o mesmo time, 50 anos depois de fundado por cinco garotos, foi campe\u00e3o da cidade em 2007. Algo sobreviveu daquela \u00e9poca: n\u00f3s, hoje mais antigos que nossos pais; e o time que ganhou o campeonato na ra\u00e7a, gra\u00e7as aos meninos que mant\u00eam a saga que vem de longe, a do pa\u00eds que um dia resgatar\u00e1 sua grandeza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As toneladas de sagu que se fazia em casa costumavam sobrar em panelas enormes. Gelado, era servido, de gra\u00e7a, aos potes, a \u00e1vidos cin\u00e9filos. Id\u00e9ia, claro, do meu irm\u00e3o nascido empres\u00e1rio, a de agregar valor \u00e0 gasta programa\u00e7\u00e3o. A entrada era um custo, mas o sagu compensava. 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