{"id":837,"date":"2009-12-13T19:19:24","date_gmt":"2009-12-13T21:19:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/deve-ser-o-verao"},"modified":"2009-12-21T22:34:24","modified_gmt":"2009-12-22T00:34:24","slug":"deve-ser-o-verao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/deve-ser-o-verao","title":{"rendered":"DEVE SER O VER\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Vamos para a praia, nos dizia o pai na hora mais forte do calor, a\u00ed pelas tr\u00eas da tarde. Desc\u00edamos em disparada os dois quarteir\u00f5es que nos afastavam o rio e ca\u00edamos na \u00e1gua. Era dif\u00edcil entrar, porque as pedras do fundo, barrento, nos impunham cautela em cada passo. \u00c1gua pelo peito os mais velhos, pela cintura a meninada. As mulheres mais velhas, \u00e1gua pela canela. As mais mo\u00e7as, dificilmente iam. Era programa de crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando crescemos e adquirimos confian\u00e7a suficiente para ir sem acompanhamento dos adultos, prefer\u00edamos a prainha embaixo da ponte, que tinha uma vantagem, dava tamb\u00e9m para pescar piavas, os peixes corredores, e uma desvantagem, havia muito \u00f3leo boiando, resultado do com\u00e9rcio e do transporte gerados pela destilaria.<\/p>\n<p>NADO LIVRE- Meu pai tentava me ensinar, em v\u00e3o, a nadar. N\u00e3o tinha paci\u00eancia para professor e cada orienta\u00e7\u00e3o era uma ordem que meu corpo n\u00e3o obedecia. Afundava toda vida. Rio correntoso, era dif\u00edcil ficar \u00e0 vontade naquelas \u00e1guas. Admirava a capacidade que meu pai tinha de boiar, o que fazia com o maior desplante do mundo, colocando as m\u00e3os por tr\u00e1s da cabe\u00e7a e fazendo aparecer a ponta dos p\u00e9s para dizer que n\u00e3o estava pisando no fundo, ou seja, que n\u00e3o havia truque e essa era sua especialidade.<\/p>\n<p>S\u00f3 quando aos nove anos conheci o mar entendi o segredo o equil\u00edbrio, porque a \u00e1gua leve e salgada me fazia flutuar e a onda servia de incentivo para eu dar as primeiras bra\u00e7adas. Quando voltei para o rio naquele ver\u00e3o quis saber se o truque funcionava. Deu certo. Mas no rio aprendi apenas o nado livre, o popular nado que te deixa com a cabe\u00e7a de fora, olhando tudo, pois em rio de muito imprevisto \u00e9 preciso ficar atento.<\/p>\n<p>S\u00f3 na piscina pude desenvolver o nado cego, aquele em que voc\u00ea solta o ar pelo nariz dentro da \u00e1gua e adquire um ritmo de competi\u00e7\u00e3o. A dist\u00e2ncia da piscina era 25 metros e eu n\u00e3o parava enquanto n\u00e3o chegava aos mil metros, coisa que me deixava completamente mareado, mas naquela \u00e9poca eu acreditava em exerc\u00edcio. Hoje sou como os \u00edndios, que gostavam mesmo era de ficar na rede. Nada mais natural.<\/p>\n<p>VENTOS &#8211; Depois de um ano frio, nublado, chuvoso e ventoso, o ver\u00e3o come\u00e7a a dar as caras e com ele a volta do povo inseto. \u00c9 a aglomera\u00e7\u00e3o compulsiva de todos os espa\u00e7os. O tr\u00e2nsito \u00e9 feito de carros, caminh\u00f5es, \u00f4nibus, pedestres, bicicletas, motos, tudo junto, ao mesmo tempo. D\u00e1-se r\u00e9 na estrada que virou avenida. Uma pequena curva para fazer a manobra \u00e9 completamente tomada por adolescentes em convescote. Voc\u00ea desvia do carro apressado e tem que cuidar o ciclista. A preferencial \u00e9 onde cada um anda.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de regras, mas de vontade. Cruzam-se os espa\u00e7os na maior sem cerim\u00f4nia e fique atento se a placa do seu carro n\u00e3o \u00e9 local. Mas o ver\u00e3o de dia claro e quente, com uma leve brisa, \u00e9 sempre um acontecimento. De manh\u00e3, as ondas fazem repuxo e redemoinho e um mergulho sempre implica um esfor\u00e7o de se manter perto da praia. Mais tarde, o mar fica mais amig\u00e1vel e te banha sem pedir ped\u00e1gio.<\/p>\n<p>Mas pode haver um caranguejo de tocaia, uma concha afiada, um bicho qualquer que gruda no calcanhar. Bem na beirinha, \u00e9 o momento de se deixar levar pela onda que finda e volta para brincar mais at\u00e9 o quebra-mar. \u00c9 quando voc\u00ea fica \u00e0 merc\u00ea desse deus travesso, a divindade sem fim azul e gigantesca, que se mostra cor de chumbo todo o inverno e que agora torna-se transparente como alma de anjo. Lembro o tempo que fiquei longe daqui. Parece um outro mundo, em que as ruas nunca acabam na praia.<\/p>\n<p>VIAGEM &#8211; Conheci poucos lugares que possuem o mar como companhia. Viajei quase nada e nunca fui \u00e0 Bahia ou ao Nordeste. Jamais peguei um avi\u00e3o para Mar Del Plata e desconhe\u00e7o outra identidade que n\u00e3o o Atl\u00e2ntico. Preso no pa\u00eds continental, numa parte m\u00ednima dele, o vasto espa\u00e7o que disponho do Brasil soberano me basta, porque viagem para mim \u00e9 mudan\u00e7a radical e o pouco que me desloquei serviu para transformar minha cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando viajo, vou duas horas antes para a rodovi\u00e1ria ou aeroporto e ningu\u00e9m ag\u00fcenta esperar comigo. Sou um habitante da espera, coisa ensinada por minha m\u00e3e, que n\u00e3o queria nunca perder o hor\u00e1rio da partida. Talvez seja uma resist\u00eancia \u00e0 viagem, vontade de ficar, de voltar logo. Talvez. Mas toda partida tem uma recompensa: a paisagem muda e o cora\u00e7\u00e3o se transporta para longe das amarras. Assim como voc\u00ea entra no mar: tudo se descarrega e voc\u00ea volta habitado pelos esplendores do ver\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vamos para a praia, nos dizia o pai na hora mais forte do calor, a\u00ed pelas tr\u00eas da tarde. Desc\u00edamos em disparada os dois quarteir\u00f5es que nos afastavam o rio e ca\u00edamos na \u00e1gua. Era dif\u00edcil entrar, porque as pedras do fundo, barrento, nos impunham cautela em cada passo. \u00c1gua pelo peito os mais velhos, pela cintura a meninada. As mulheres mais velhas, \u00e1gua pela canela. As mais mo\u00e7as, dificilmente iam. 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