{"id":857,"date":"2009-12-13T19:31:47","date_gmt":"2009-12-13T21:31:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=857"},"modified":"2009-12-21T21:47:12","modified_gmt":"2009-12-21T23:47:12","slug":"guerra-total","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/guerra-total","title":{"rendered":"GUERRA TOTAL"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>O Brasil sempre esteve em guerra. No in\u00edcio, havia a obriga\u00e7\u00e3o de todo senhor de engenho dispor, por lei, de determinado n\u00famero de armas e muni\u00e7\u00e3o, devidamente guardadas em dep\u00f3sito definido em suas dimens\u00f5es exatas. Essa e outras informa\u00e7\u00f5es, contidas no trabalho da historiadora Nanci Leonzo, da USP, sobre as For\u00e7as Armadas da Am\u00e9rica Colonial portuguesa, s\u00e3o pouco conhecidas, porque o livro jamais foi publicado devidamente, numa editora importante e com tiragem decente. Junto ao conflito permanente, foi constru\u00edda, a ferro e fogo, a vers\u00e3o do pa\u00eds pac\u00edfico.<\/p>\n<p>Um fato como o bombardeio da cidade de S\u00e3o Paulo por duas semanas, que colocou em fuga metade da popula\u00e7\u00e3o de 700 mil habitantes em julho de 1924, coincidiu com a pol\u00eamica de que nunca houve bombardeio. Os livros da \u00e9poca reproduzem esse debate, totalmente absurdo diante das evid\u00eancias do canhoneio e da metralha. Esconder batalhas e mortandades e s\u00f3 se referir a elas como acontecimentos isolados serve a v\u00e1rios interesses inconfess\u00e1veis.<\/p>\n<p>Mas o assunto guerra est\u00e1, aos poucos, saindo do amadorismo e dos limites do memorialismo, para alcan\u00e7ar status de ci\u00eancia, gra\u00e7as \u00e0s pesquisas e o fim das resist\u00eancias em reconhecer que somos um pa\u00eds como os outros. Se voc\u00ea juntar Pernambuco em 1817, Cabanagem e Farrapos em 1835, Paraguai em 1865, Federalista em 1893, Canudos em 1898, Chibata em 1910, Contestado em 1912, Copacabana em 1922, as guerras de 1923, 1924 e a Coluna Prestes na agonia da Rep\u00fablica Velha, a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, a Paulista de 32, a Intentona em 35 e somar os atuais \u00edndices de viol\u00eancia urbana e rural, chegaremos \u00e0 assombrosa conclus\u00e3o que adoramos nos tirotear sem descanso.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da Rep\u00fablica, os acordos existentes vieram por \u00e1gua abaixo com a expuls\u00e3o do Imperador. O resultado foi a guerra total. \u00c9 comum colocar a chamada Revolu\u00e7\u00e3o Federalista de 1893 como o embate entre dois campos bem espec\u00edficos, os pica-paus e os maragatos. Mas a trama \u00e9 bem mais complexa. Num conflito que tinha como um dos seus slogans &#8220;N\u00e3o damos nem pedimos quartel&#8221;, a mortandade, at\u00e9 hoje pouco dimensionada, se alastrou pelo pa\u00eds, j\u00e1 que todo o territ\u00f3rio nacional esteve conflagrado.<\/p>\n<p>No filme &#8220;A vida secreta das palavras&#8221; (2005), de Isabel Coixet, a refugiada Hanna, interpretada por Sarah Polley, conta como foi torturada pelos soldados s\u00e9rvios, povo ao qual pertencia. Os B\u00e1lc\u00e3s, depois do esfacelamento da Iugosl\u00e1via, mostraram o que acontece quando um acordo pol\u00edtico e social, ao ser rompido, explode em carnificina generalizada. E n\u00e3o era apenas por motivos \u00e9tnicos ou posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Uma vez, na televis\u00e3o, vi um oficial de um pa\u00eds africano denunciando que as pessoas saqueavam sem inspira\u00e7\u00e3o alguma de ideologia ou ra\u00e7a, era apenas a barb\u00e1rie se manifestando.<\/p>\n<p>\u00c9 importante estudar a guerra no Brasil. Dizer que nos libertamos de Portugal de forma incruenta, por exemplo, \u00e9 se render \u00e0 vers\u00e3o do diplomata Oliveira Lima, veiculada no final do s\u00e9culo 19. A vers\u00e3o fazia parte dos neg\u00f3cios de estado. Mas a verdade \u00e9 que de 1821 a 1823 o Brasil lutou para se separar, com batalhas no Nordeste com mais de 400 mortos, segundo o historiador Jos\u00e9 Hon\u00f3rio Rodrigues.<\/p>\n<p>Mergulhar na guerra serve para revelar as feridas ainda abertas, redimensionar o papel do hero\u00edsmo, e lan\u00e7ar alguma luz na surrada identidade nacional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No in\u00edcio da Rep\u00fablica, os acordos existentes vieram por \u00e1gua abaixo com a expuls\u00e3o do Imperador. O resultado foi a guerra total. \u00c9 comum colocar a chamada Revolu\u00e7\u00e3o Federalista de 1893 como o embate entre dois campos bem espec\u00edficos, os pica-paus e os maragatos. Mas a trama \u00e9 bem mais complexa. 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