{"id":903,"date":"2009-12-13T21:05:19","date_gmt":"2009-12-13T23:05:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=903"},"modified":"2009-12-21T22:01:35","modified_gmt":"2009-12-22T00:01:35","slug":"de-repente-o-genio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/de-repente-o-genio","title":{"rendered":"DE REPENTE, O G\u00caNIO"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>A vida \u00e9 estranha. Consegue se realizar pelo detalhe, amparado pela obra. O que voc\u00ea faz enquanto vive \u00e9 uma arquitetura anterior e an\u00f4nima ao momento do brilho extremo, o detalhe. Robinho pedalou a vida toda, mas s\u00f3 no jogo do dia 17\/10\/07, no Maracan\u00e3, contra o Equador, definiu seu destino no grande concerto da cria\u00e7\u00e3o. Todo mundo viu. Ele levou o advers\u00e1rio para o canto sem \u00e2ngulo, o que d\u00e1, em princ\u00edpio, um pouco de tranq\u00fcilidade ao oponente. Este, confiante de que a bola n\u00e3o encontrar\u00e1 o caminho do gol (a geometria dispon\u00edvel n\u00e3o permite) dedica-se a uma impossibilidade: tirar a bola dos p\u00e9s do g\u00eanio.<\/p>\n<p>Robinho conseguiu metade do que queria. Demarcou seu territ\u00f3rio longe dos outros defensores, tendo como obst\u00e1culo apenas o cara marcado para morrer. Precisava que fosse intensificada a certeza de que n\u00e3o conseguiria fazer nada ali naquele peda\u00e7o morto de \u00e1rea. Por isso desenhou a letra, quando o corpo todo se retorce para que os p\u00e9s troquem de posi\u00e7\u00e3o. A letra significa que o p\u00e9 direito funciona como o esquerdo ou vice-versa. Costuma ser execrada como firula, perda de tempo. Quase sempre d\u00e1 errado. No caso da partida de ontem, com uma sele\u00e7\u00e3o sub suspeita depois do zero a zero contra a Col\u00f4mbia, a letra era, mais do que nunca, fora de hora.<\/p>\n<p>O chute de letra tem como princ\u00edpio desarmar as expectativas dos inimigos. O lance aparentemente desengon\u00e7ado de Robinho, no lugar de lan\u00e7ar a bola para o miolo do drama, manteve a leonor a seus p\u00e9s. Foi sorte, pensaram todos, quis chutar acabou driblando sem querer. E agora? O &#8220;certo&#8221; seria avan\u00e7ar naquele espa\u00e7o criado pela letra surpreendente, ir em frente, pedalar novamente. Mas Robinho fez o contr\u00e1rio. Mergulhou ainda mais fundo nesse ponto morto da pequena \u00e1rea, onde o destino certo \u00e9 desperdi\u00e7ar tudo pela linha de fundo.<\/p>\n<p>Essa insist\u00eancia no buraco negro da jogada fez com que o advers\u00e1rio mais pr\u00f3ximo aumentasse em confian\u00e7a, pois um raio n\u00e3o cai duas vezes na mesma cabe\u00e7a. J\u00e1 tinha havido os dribles, a firula, o sarro. Agora era simplesmente decidir, tirar-lhe o biro\u00e7o dos p\u00e9s e recome\u00e7ar tudo com um tiro de meta. Mas Robinho, ao contr\u00e1rio dos outros, tem duas pernas, dois p\u00e9s, que jogam simultaneamente. N\u00e3o se trata da id\u00e9ia comum do ambidestro. Mas o da coreografia dispondo de cada p\u00e9 como um ser \u00e0 parte, que jogam um com o outro como dois moleques em rua de terra em declive.<\/p>\n<p>Um p\u00e9 passa para o outro, fazendo com que o equatoriano enfrente dois Robinhos de uma s\u00f3 cabe\u00e7a. Ele j\u00e1 est\u00e1 batido e o g\u00eanio, em curva e diagonal, se livra da sua marca\u00e7\u00e3o para chutar l\u00e1 onde a coruja pia. Caprichosa, orgulhosa do momento, a bola fez justi\u00e7a e sobrou nos p\u00e9s de Elano, que saiu de bra\u00e7os abertos para ningu\u00e9m. Todos ca\u00edram em cima de Robinho, que tinha chegado ao detalhe supremo da sua obra, arduamente constru\u00edda em anos e anos de exerc\u00edcio.<\/p>\n<p>Poderia dar tudo errado. Poderia at\u00e9 ser tudo sorte. Mas sabemos que n\u00e3o foi. Simplesmente sobrou, foi fora da ordem mundial. A jogada pertence, desculpem a insist\u00eancia, ao Brasil soberano, o pa\u00eds que ensina a voar. Kak\u00e1 foi perfeito no seu gol colocado longe de toda a quadratura, no \u00e2ngulo extremo do seu talento. Foi merecidamente aplaudido como o melhor do mundo. Kak\u00e1 se enquadra nesse universo do futebol. Robinho \u00e9 de outra t\u00eampera.<\/p>\n<p>Robinho \u00e9 uma rara manifesta\u00e7\u00e3o do g\u00eanio. E quando o g\u00eanio se manifesta, voltamos a ter esperan\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um p\u00e9 passa para o outro, fazendo com que o equatoriano enfrente dois Robinhos de uma s\u00f3 cabe\u00e7a. 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