{"id":986,"date":"2009-12-14T00:47:33","date_gmt":"2009-12-14T02:47:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.consciencia.org\/nei-wp\/wordpress\/?p=986"},"modified":"2009-12-21T22:17:17","modified_gmt":"2009-12-22T00:17:17","slug":"as-verdades-definitivas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/as-verdades-definitivas","title":{"rendered":"AS VERDADES DEFINITIVAS"},"content":{"rendered":"<p>Nei Ducl\u00f3s<\/p>\n<p>Guardamos como tralha no quarto de despejo nossas verdades definitivas. Exauridas de tantas certezas, elas guardam um remorso, uma indigna\u00e7\u00e3o, uma incompreens\u00e3o que s\u00f3 a n\u00f3s pertence. De vez em quando as retiramos do ba\u00fa para expor nossa escassez te\u00f3rica, brandida como algo irrevers\u00edvel. Ningu\u00e9m d\u00e1 bola para o que acreditamos. O que dizemos por um tempo nos parece original e profundo, mas depois vemos nossa obra disseminada e distorcida em in\u00fameras manifesta\u00e7\u00f5es. Ficamos ent\u00e3o nos perguntando: o que viemos fazer nesta passagem pela terra? Qual nossa contribui\u00e7\u00e3o? Nem dever\u00edamos ter vindo, tanta \u00e9 a indiferen\u00e7a e tantas s\u00e3o as provas desta precariedade.<\/p>\n<p>Na literatura a d\u00favida nos ronda como um c\u00e3o. Ele vem rosnar a nossos p\u00e9s enquanto procuramos o caminho n\u00e3o trilhado. Passamos ao largo, como brigue mal visto em qualquer porto. Por isso, com as velas rebentadas de vento, nos deixamos levar pelas correntezas at\u00e9 o fim do mundo. N\u00e3o h\u00e1 ilha que nos receba, n\u00e3o h\u00e1 navio que nos recolha, n\u00e3o h\u00e1 Netuno que suba na onda mais alta para nos vislumbrar.<\/p>\n<p>Nos agarramos a um tonel de verdades acumuladas e com ele boiamos at\u00e9 a exaust\u00e3o final. As sereias cantam para ningu\u00e9m. Ulisses est\u00e1 olhando o horizonte e some entre os sarga\u00e7os. Do tonel fazemos um tambor e nossa voz rouca imita o som dos berrantes. Um le\u00e3o marinho egresso das geleiras est\u00e1 navegando um iceberg e parece que seu desespero \u00e9 o eco de nossa voz. Desesperados, pedimos socorro. Ent\u00e3o novamente as tribos do Mal cercam nosso corpo ferido e tiram mais um peda\u00e7o. Levam para seus rituais e incorporam o que era somente nosso \u00e0 poeira estelar que forma o mundo pelo avesso. \u00c9 uma longa viagem, meu irm\u00e3o.<\/p>\n<p>Quem disse que poder\u00edamos imitar os deuses e fazer parte da Cria\u00e7\u00e3o? Reproduzimos as gera\u00e7\u00f5es que povoaram a terra e nenhum rebento iluminado ir\u00e1 resgatar o que tentamos fazer neste of\u00edcio sem dono, espalhado como roupas de um varal que se partiu, no campo minado da brutalidade do Tempo. A met\u00e1fora \u00e9 nosso ref\u00fagio, mas ela tem um rasgo no teto bem acima da nossa cabe\u00e7a, e por ele se infiltra a tempestade intermin\u00e1vel. Sonhamos em fazer parte do corisco que ilumina a noite e tentamos provar que somos tamb\u00e9m o trov\u00e3o que atordoa o espa\u00e7o. Mas em v\u00e3o, somos o Sil\u00eancio, aquela palavra muda que nos acompanha desde a inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Para qu\u00ea, meu Deus? Curvado pelo peso da idade, arrastamos os p\u00e9s em corredores infinitos. Levamos embaixo do bra\u00e7o um poema perdido, um conto esdr\u00faxulo, uma cr\u00f4nica datada. Batemos numa das portas envernizadas e ela se abre de maneira sinistra. N\u00e3o h\u00e1 m\u00f3veis dentro daquela sala e algu\u00e9m lidera a tarefa dos carregadores. Eles est\u00e3o dobrados sob o peso de coisas inexistentes. Est\u00e3o, no fundo, arrumando nosso quarto de badulaques. L\u00e1 depositam algumas frases, alguns versos, trechos mal costurados de romances inacabados.<\/p>\n<p>Fico ent\u00e3o s\u00f3 cercado pelo que me restou. S\u00e3o as verdades definitivas que deveriam nortear minha vida. N\u00e3o consigo abrir a tampa da caixa, arrancar a porta do arm\u00e1rio, despencar o que se gruda no teto. Est\u00e1 tudo no seu devido lugar e me deixo ficar no piso de parqu\u00ea vencido. Os tacos est\u00e3o carcomidos e se tento caminhar sobre eles acabo arrancando pe\u00e7as do lugar, derrubando cestas cheias de miudezas. As s\u00edlabas se entret\u00e9m se desmanchando sob uma goteira. Eu estava guardando esta pe\u00e7a para minha perman\u00eancia, mas ela n\u00e3o dura at\u00e9 a pr\u00f3xima guerra.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 tudo destru\u00eddo por um m\u00edssil perdido. Irei junto, galopando o cometa da minha perdi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o deixo cartas, deixo esse esfor\u00e7o de ser uma presen\u00e7a no planeta j\u00e1 resolvido antes e depois de mim. Nem mesmo quando visitarem as ru\u00ednas dos templos abandonados ver\u00e3o que me escondo sob uma enorme pedra. L\u00e1 ficarei, como um fio de cabelo amassado, um f\u00f3ssil indecifrado, uma c\u00e9lula est\u00e9ril.<\/p>\n<p>Tanta aventura e nenhuma sinfonia que vibre no ch\u00e3o mortal da eternidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guardamos como tralha no quarto de despejo nossas verdades definitivas. Exauridas de tantas certezas, elas guardam um remorso, uma indigna\u00e7\u00e3o, uma incompreens\u00e3o que s\u00f3 a n\u00f3s pertence. De vez em quando as retiramos do ba\u00fa para expor nossa escassez te\u00f3rica, brandida como algo irrevers\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/986"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=986"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/986\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1697,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/986\/revisions\/1697"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=986"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=986"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.consciencia.org\/neiduclos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=986"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}