A ESSÊNCIA DO JORNALISMO

dez 23rd, 2010 | Por | Categoria: Redação sem Máscara        

Nei Duclós

Não, não é a informação. Se fosse, seria espionagem ou diplomacia. A essência do jornalismo é a divulgação, a transparência da informação. Divulgar não está na agenda da espionagem, que trabalha com o segredo, ou da diplomacia, que trabalha com segredo de estado. O jornalismo é o anti-segredo. É isso que pega. Seu único segredo é a própria fonte. Pode ser divulgada ou não.

O jornalismo cria uma relação entre a abundância da fonte e a escassez da síntese, da seleção. Dá trabalho. Mata cedo. É profissão de risco, como cortador de luz na favela ou alimentador de ursos fora da temporada de salmão. Mesmo no wikileaks, que joga toneladas de informação no ar, há edição. Quando o jornalista consegue, causa um terremoto. Por isso o jornalismo virou uma vernissage. Divulgar informação editada é muito perigoso.

Não fosse o Washington Post, Watergate seria apenas um edifício, e não fosse Caco Barcelos a Rota, prima-irmã do Bope, seria apenas uma milícia heróica e não uma matadora serial de inocentes, como foi provado no livro “Rota 66”. Quem está na cola do Bope? Jornalista sacudidor de cabeça afirmativamente enquanto a fonte discorre a resposta é que não. O jornalismo não é para sabichões, isso é outra atividade, a consultoria da auto-ajuda.

A abordagem das fontes implica dois enfoques. Um é a fidelidade das falas, quando declarações ou soluções de narrativa de quem emite a informação são utilizadas no texto do jornalista. Outra é a traição das falas originais, um recurso eficiente para evitar que a prolixidade da fonte, suas descosturas ou falta de objetividade, atrapalhem a reportagem. É preciso então mudar, tecnicamente, o que foi dito, para que o resultado não traia a pauta.

Fica difícil de entender para quem não é do ramo. Muitas vezes, você precisa modificar a maneira como foi dito para que haja fidelidade ao que foi realmente dito. Nem sempre o que é falado ou escrito representa ou reproduz fielmente a intenção da fonte. É preciso modificar para respeitar a fonte. A não ser quando ela não mereça respeito. Tivemos exemplos recentes com Dilma e Lula. Dilma acusou o meio ambiente de prejudicar o desenvolvimento sustentável e Lula, ao defender (na fachada) o Wikileaks, exigiu que as pessoas se manifestassem contra a liberdade de expressão. Deitei e rolei sobre isso porque não vou dar vez para esses mal intencionados que tomaram conta do poder. Mas o fato é que eles quiseram dizer o contrário. Os jornais, subservientes, fizeram a correção sem se referir ao erro, eu não. Encarei como ato falho: disseram o que realmente pensavam.

Quando uma fonte comete algum desastre na sua narrativa e isso é reproduzido “fielmente” pode causar estrago. Quando necessário, deve-se “trair” a fonte para não contrariar suas intenções. Essas coisas passam por desvio de conduta, mas fazem parte da essência do jornalismo. Quando as redações tinham gente qualificada, isso era tirado de letra. Hoje, época de legenda para cego, de reproduções de BOs no lugar de reportagens e de transcrições de falas oficiais, coisas que inundam os veículos de comunicação, fica difícil saber onde a coruja pia.

O importante é saber que o jornalista não pode ser o tosco reprodutor de falas selecionadas nas fontes pelas assessorias de imprensa, nem o pauteiro de frescuras e amenidades, nem o assassino do verbo, nem o trucidador de soluções clássicas da língua, nem o perseguidor de madonas ou o farejador de perfumes das celebridades. É preciso resgatar a essência do jornalismo, quando tínhamos apenas uma caneta e um bloco de papel dobrado no bolso da calça.

Nem precisa ipad, ipod, ipud ou iped. Basta saber fazer, já que os caminhos, digitais ou não, sobram por toda parte. O que vale é conseguir a informação, acessá-la, editá-la e divulgá-la, com qualquer recurso. E todo mundo quer uma boa reportagem, como a premiada “Artur tem um problema”, de João Moreira Salles, sobre o matemático brasileiro Artur Avila e que foi publicado na revista Piauí. É assim que se faz.

One comment
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  1. Parabéns, Nei. Que delícia de texto com grandes verdades. Uma reflexão muito necessária.

    Saudações,

    Patrick Roberto – editor Jornal Correio de Carajás / Marabá-Pará
    @patrickrobertojor

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