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5 INTERPRETAÇÕES ACERCA DO SUPER-HOMEM: QUEM É ELE?

 

 

O Super-Homem: eis o tipo que se almeja
com essa Educação pelo e para o ócio. Mas quem é ele? Quais são suas
características, suas virtudes? E, principalmente, para debater com as outras
duas: qual é o valor e o sentido que encontramos para o Super-Homem nas
interpretações dos estudiosos de Nietzsche?

Ora, já temos aqui um novo ingrediente no
método: basta notar, que agora, a Genealogia – neste caso do conceito
Super-Homem – será feita com base nas interpretações de outrem. Não se trata de
fazer Genealogia individual – como poderíamos denominar essa tal Genealogia que
invoca as perspectivas de outrem, ao invés das próprias -, mas não o é por mera
conjuração de nome. A Genealogia é sempre individual, pois é forma de olhar
sobre a realidade através dos valores subjetivos – ou seja, individuais – e,
ainda, considerando certo ordenamento desses valores – em escala de força: qual
é o valor mais forte? Pode-se, desta forma, considerar que o valor mais forte para
determinado indivíduo será sempre a medida de todas as avaliações, mas isso
somente enquanto tal valor for o mais forte na concepção de mundo do indivíduo em questão. Desta forma, podemos afirmar que a “medida” é elemento variável do método
genealógico.

Em Nietzsche, a medida utilizada como
critério de todas as avaliações, em sua Genealogia da Moral, é a Vida[1].
Para Platão, essa medida era a Verdade. Na Genealogia do Ócio – proposta como
matéria do primeiro capítulo deste trabalho -, foi utilizada a mesma medida do
filósofo alemão, adotando-se o valor Vida como medida. Neste capítulo, o
objetivo é considerar como medida o conceito de Super-Homem que será proposto
logo de início, conforme minhas leituras da obra de Nietzsche[2].
Nesse cenário, então, é que serão invocadas diferentes interpretações acerca do
Super-Homem – na forma de estudiosos de Nietzsche. Mas eis que fica ainda uma
dúvida: o que são essas interpretações afinal?

“Quanto maior seja o número de olhares,
de olhares distintos que saibamos empregar para ver uma mesma coisa, tanto mais
completo será o nosso ‘conceito’ sobre ela, tanto mais completa será nossa
‘objetividade’” (NIETZSCHE, GM, tratado III, #12). Eis, pois, o perspectivismo.
Mas porque é falado disso agora? Ora, se entendermos que a interpretação de
determinada coisa é um olhar sobre esta coisa, e que este mesmo olhar é
considerado como perspectiva de alguém que olha, a interpretação é a própria
perspectiva. De modo a tentar esclarecer esse conceito, invocam-se algumas
figuras da Psicologia da Gestalt.

Figura 1 – É um pato ou um coelho?
Figura 2 – Uma taça ou dois perfis?

Figura
1
– É um pato ou um coelho? Figura 2
Uma taça ou dois perfis?

Figura 3 – Um tridente com apenas duas hastes?

Figura 3 – Um tridente com apenas duas hastes?

Figura 4 – Para que lado abre a porta? Figura 5 – Em qual plano está a imagem?

Figura 4 – Para que lado abre a
porta? Figura 5 – Em qual plano está a imagem?

 

Essas figuras são marcadas pela
característica de permitirem mais de uma perspectiva/interpretação acerca delas
próprias. No caso da figura 1, pode-se ver um pato ou um coelho. Na figura 2,
pode-se ver uma taça ao centro ou dois perfis humanos, numa técnica simples de
contraste. Na figura 3, vemos um tridente – ora, é a isso que chamamos um
objeto que possui três pontas -, porém, ao continuarmos nosso olhar – da
esquerda para a direita -, constatamos somente duas hastes, sendo que uma
terceira parece ficar no vazio entre essas duas. Na figura 4, a porta parece
estar aberta “para fora” do recinto se olhada somente sua parte de baixo; no
entanto, se olharmos para sua parte de cima, o que se vê é que a porta – estranhamente
– parece estar aberta “para dentro” do recinto. Na figura 5, fica difícil de
determinar em que plano está a imagem – novamente, basta concentrar o olhar ou
na parte de baixo ou na parte de cima da mesma: ela parece se movimentar.

De qualquer modo – independentemente da
interpretação que podemos ter dessas figuras – se o sentido for o de buscar o
melhor conceito, a melhor objetividade acerca delas, deve-se levar em
consideração múltiplas interpretações. E é aí que se dá o processo de
perspectivismo exposto anteriormente. No trecho citado, Nietzsche refere-se às
perspectivas que uma mesma pessoa pode ter de determinada coisa, bastando
apenas alterar seu prisma, sua lente, seu ângulo de visão. E é justamente isso
que constatamos apreciando as imagens da Psicologia da Gestalt: basta alterar
nosso ângulo de visão e… Eis uma nova interpretação, uma nova perspectiva da
coisa!

Porém aqui nesse capítulo, existe a
tentativa de um ângulo de visão externo – tentativa; pois há ainda aqueles que
irão alegar que mesmo invocando interpretações múltiplas acerca do Super-Homem,
essas interpretações, por serem obtidas através da leitura da obra dos
estudiosos de Nietzsche, já serão de certa forma visões da mesma pessoa que
conjurou o Super-Homem inicial que será a medida de todo o resto: o próprio
autor.

O importante nesse assunto das
interpretações é entender o estabelecimento de um diálogo com os estudiosos de
Nietzsche – não no sentido de delimitar o Super-Homem, mas sim de obter um
conceito mais completo acerca desse tipo em questão. Mas chega de explicações metodológicas; partamos agora para a conjuração do
Super-Homem que será a medida para todos os outros.

O Super-Homem é um conceito central na
obra do filósofo alemão. Ele é anunciado no prólogo da obra Assim falou
Zaratustra
e pela boca do próprio. Após dez anos vivendo numa montanha,
gozando “de seu próprio espírito e da solidão” (NIETZSCHE, 2003, p. 33),
Zaratustra aborrece-se de sua própria sabedoria tal “como uma abelha do mel que
ajuntou em excesso” (Ibidem), e decide-se “voltar a ser homem” (NIETZSCHE,
2003, p. 34). Tal decisão é motivada pelo desejo de dar e distribuir sua
sabedoria com os outros homens: precisamente transformar essa sabedoria em
loucura – conforme ele fala “que os sábios dentre os homens voltassem a
alegrar-se de sua loucura” (NIETZSCHE, 2003, p. 33). Agora, Zaratustra é “taça
que quer transbordar, afim de que sua água escorra dourada, levando por toda a
parte o reflexo da tua bem-aventurança!” (Ibidem).

Na descida da montanha, Zaratustra chega
a uma floresta. Ali ele encontra um velho e, após um breve diálogo, anuncia que
traz “aos homens um presente” (NIETZSCHE, 2003, p. 35). Esse presente é
justamente a constatação de que “Deus está morto [grifo do autor]”
(Ibidem). Porém, esse presente, essa constatação, traz um desdobramento: o
anúncio do Super-Homem para os próprios homens.

Ao chegar à cidade mais próxima,
encontrou Zaratustra grande quantidade de povo reunido na praça do mercado;
pois lhes fora prometido que iriam ver um funâmbulo. E Zaratustra assim falou
ao povo: ‘Eu vos ensino o super-homem [grifo do autor]. O homem é algo
que deve ser superado.’ (NIETZSCHE, 2003, p. 36).

 

E depois prossegue Zaratustra em seu
discurso sobre o Super-Homem.

Sua única virtude é a coragem[3].
Dotado de extrema valentia e capacidade de luta, o Super-Homem também consegue,
motivado pela auto-superação, ser o criador[4]. Mas
cria para quê? Para transvalorar os valores: a substituição das tábuas de
valores tradicionais por tábuas de valores novas – e, além de novas: moldáveis,
inconstantes, flexíveis, que se movimentam[5]. Ele
existe para multiplicar e afirmar a vida: um eterno e inocente sim – inocente
tal qual uma criança, que antes foi leão e, antes ainda, camelo[6].

Eis que aqui se invoca uma primeira
interpretação: a de Pierre Héber-Suffrin, através de sua obra intitulada “O
‘Zaratustra’ de Nietzsche”. Essa obra tem por objetivo primeiro e fundamental
“comentar, de maneira pedagógica, isto é, articulada, meticulosa, atenta às
perguntas e reações do leitor, as primeiras páginas da obra: o Prólogo”
(HÉBER-SUFFRIN, 1991, p. 8). Para o autor, o Prólogo se “constitui uma
introdução sistemática, muito estruturada, ao conjunto do Zaratustra [grifo
do autor], um recenseamento dos problemas e um levantamento de todos os conceitos.”
(Ibidem). O procedimento que ele propõe para estudo do Prólogo consiste no
seguinte: “ler previamente, inicialmente sem interrupção, o Prólogo de
Zaratustra
[grifo do autor]; […] depois em reler o mesmo prólogo, dessa
vez parte por parte, seguindo-se, só então, a cada uma delas, a leitura de seu
comentário” (HÉBER-SUFFRIN, 1991, p. 9).

Feito tal procedimento, chegamos à parte
que nos interessa: a parte na qual o conceito de Super-Homem é comentada. Para
este autor, “o super-homem é a idéia essencial do Prólogo […], o tema central
do primeiro discurso de Zaratustra” (HÉBER-SUFFRIN, 1991, p. 53). Dessa forma,
é interessante notar o capítulo que o autor escreveu com o objetivo e título de
“apresentação sistemática dos principais conceitos do Prólogo”.

Neste capítulo, ele trabalha com dois
quadros. O primeiro (quadro 1) trata dos “dois pares de noções fundamentais”
(HÉBER-SUFFRIN, 1991, p. 115), identificadas por ele no prólogo. O primeiro par
– forças ativas e forças reativas – é necessário para compreender o
fenômeno, de modo a “discernir quais são as forças ativas e quais as forças
reativas; em seguida, e principalmente, distinguir que forças, ativas ou
reativas, predominam sobre as outras” (Ibidem). O segundo par é na verdade dois
formatos possíveis da vontade de potência: a “vontade de negação, de
destruição, de depreciação” e a “vontade de afirmação, de construção, de
apreciação” (Ibidem). Esse segundo par de noções fundamentais é necessário para
julgar o valor do fenômeno, sendo:

Necessário compreender como se
explica a hierarquia que nele se encontra, isto é, compreender por que razões
nele dominam, de acordo com o caso, as forças ativas ou forças reativas. Para
fazer isso, será necessário compreender a sua genealogia, isto é, distinguir o tipo
de vontade de potência, afirmativa ou negativa, pelo qual esse fenômeno foi
gerado, motivado (HÉBER-SUFFRIN, 1991, p. 115-116).

 

As formas de compreensão do fenômeno
juntamente com as formas de julgamento desse mesmo fenômeno, nos revelam quatro
combinações possíveis:

 

 

Tipo de Vontade
Inspiradora

Vontade negativa

Vontade
afirmativa

Hierarquia
Vigente

Reação > Ação

1

3

Ação > Reação

2

4

Quadro 1 – As quatro
combinações possíveis (HÉBER-SUFFRIN, 1991, p. 116).

Dentre essas quatro combinações apontadas,
o autor revela que no Prólogo do Zaratustra, “Nietzsche apresenta duas
variantes da combinação 1, variantes que designaremos respectivamente 1A e 1B
[e] não apresenta a combinação 3[7]”.
Dentre essas quatro combinações possíveis – 1A, 1B, 2 e 4 -, “encontraremos a
cada vez um tipo diferente de atores, uma metafísica diferente, uma moral
diferente e os conceitos-chaves como ‘Morte de Deus’ ou ‘Niilismo’ mudarão de
sentido” (HÉBER-SUFFRIN, 1991, p. 116-117). Tais noções podem ser melhor
comparadas observando-se o quadro 2:

 

Conceitos nietzscheanos

Genealogias Possíveis

Vontade Niilista

Vontade Afirmativa

Reação > Ação

Ação > Reação

Ação > Reação

1B

2

4

Quem?

O homem, “humano demasiado humano”

O último homem

O homem superior

O super-homem

Morte de Deus

Morte de Jesus Cristo na cruz

Supressão de um senhor demasiado
exigente e de uma testemunha incômoda

Sobrevivência da sombra de Deus

Destruição das antigas tábuas,
primeira etapa da transmutação

Niilismo

Este mundo não tem valor com
relação ao outro

Este mundo não tem valor, e não há
outro mundo

Este mundo não tem valor, e o
outro mundo também não

Destruição do outro mundo: só há
este mundo e ele tem valor

Metafísica

Dualismo de tipo platônico

Materialismo reducionista

Gaya Scienza do eterno retorno

Moral

Moral tradicional do bem e do mal.
As virtudes rotineiras

Hedonismo frágil. Não há mais
dever

A ação como fim em si. Conversam-se, sem seu fundamento, os deveres tradicionais

Criação de novas tábuas: moral do
sim e do não. A vontade de potência como única virtude

Quadro 2 – As características
das quatro combinações possíveis (HÉBER-SUFFRIN, 1991, p. 118).

Resta-nos, agora, expor em que pontos a
interpretação desse estudioso de Nietzsche acrescenta ou entra em contradição
com nossa medida inicial, sempre com o sentido de obter um conceito mais
completo do Super-Homem.

Primeiramente, salta aos olhos na tabela
de Héber-Suffrin, uma contradição: para ele a única virtude do Super-Homem é a
vontade de potência, enquanto que, em nosso tipo inicial, esta seria a coragem.
O argumento do autor francês fundamenta-se na noção de que a própria vontade de
potência constitui-se numa virtude, ao passo que, na noção inicial proposta do
Super-Homem, a vontade de potência é intrínseca a ele – é seu estado psicológico
natural -, tanto que nem é citada. É intrínseca porque é encarada como forma
operacional da virtude coragem e do instinto de auto-superação dele, processo
que o coloca em situação de ser o criador, ser o homem da transmutação. Dessa
forma, tal contradição é apenas na categorização da vontade de potência: para
ele virtude, para nós forma operacional instintiva/natural do Super-Homem.

Com relação ao sentido – o para quê
existe? – que o Super-Homem tem na interpretação de Héber-Suffrin, temos que
esse sentido é “o homem da transmutação” (1991, p. 71). Sua vontade de potência
é positiva e é assim porque se manifesta como força criadora.

O que vemos, pois, é como essa
vontade afirmativa faz calarem-se as forças reativas e devolve seu justo lugar
às forças ativas; assiste-se, enfim, à dominação da reação, da passividade, da
escravidão, pela ação, pela atividade, pelo domínio (HÉBER-SUFFRIN, 1991, p.
72).

 

Isso vem a somar com a noção inicial de
Super-Homem. Quando se questiona para quê ele cria e propõe-se a resposta que
cria para transvalorar os valores[8], é
justamente dessa “vontade de potência positiva” de Héber-Suffrin que estamos
falando. Ora, então temos o mesmo sentido, afirmando ainda mais nossa noção
inicial.

Mas a grande contribuição na evocação das
interpretações de Héber-Suffrin se dá nas características que acrescenta ao
Super-Homem. Primeiramente, ao colocar a “Morte de Deus” – retratada no
aforismo II do Prólogo do Zaratustra – como primeira etapa da transvaloração.
Reconhecer isto é, para o Super-Homem, sua primeira condição de existir. A
seguir, ao reconhecer um niilismo que afirma este mundo e destrói o outro
mundo, o Super-Homem transforma-se na personagem principal do devir: é ele quem
lhe movimenta – através da já citada vontade de potência positiva e criadora.
Alçado à metafísica do eterno retorno, o Super-Homem agora entende que “afirmar
o eterno retorno é, ao mesmo tempo, fazer do físico objeto do metafísico”
(HÉBER-SUFFRIN, 1991, p. 111). Ora, mas a isso se pode chamar de destruição da
metafísica. Sendo assim, o Super-Homem não reconhece metafísica alguma, somente
o físico.

Em uma outra interpretação do
Super-Homem, o filósofo brasileiro Mauro Cardoso Simões[9]
insere a questão da valoração do corpo e da terra.

Cabe lembrar que se até então [até a
conversão do homem em Super-Homem] foi o homem quem valorou, e essa valoração
depreciava a terra e o corpo, cumpre agora engendrar uma nova concepção da
humanidade, condição para a criação de novos valores, em que o corpo seja
prezado, e com ele a terra e a vida (SIMÕES, 2003, p. 73).

Isso porque, conforme fala Zaratustra:
“Não sigo o vosso caminho, ó desprezadores da vida! Não sois, para mim, ponte
que leve ao Super-Homem!” (NIETZSCHE, 2003, p. 60).

Pois bem, que a desvalorização do corpo
não leva ao Super-Homem já está visto. Porém, resta saber o porquê e como esse
corpo é valorizado. Para tanto, mais uma vez recorre-se ao discurso de
Zaratustra. Ele separa o espírito e o corpo em “pequena razão” e em “grande
razão”, respectivamente. O primeiro ele chama de eu. O segundo ele chama
de ser próprio – “um soberano poderoso, um sábio desconhecido […].
Mora no teu corpo, é o teu corpo” (Ibidem). Nessa configuração, a pequena razão
é instrumento da grande razão, o eu é instrumento do ser próprio.

O ser próprio diz ao eu: ‘Agora
sente dor!’ E, então, o eu sofre e reflete em como poderá não sofrer mais – e
para isto, justamente, deve [grifo do autor] pensar. O ser próprio diz
ao eu: ‘Agora sente prazer!’ E, então, o eu se regozija e reflete em como
poderá ainda regozijar-se muitas vezes – e para isto, justamente deve [grifo
do autor] pensar. […] O corpo criador criou o espírito como mão de sua
vontade (NIETZSCHE, 2003, p. 60-61).

 

É assim – mão de sua vontade – já que:

Em primeiro lugar, para que surja o
querer é necessário que exista uma representação de prazer e desprazer; em
segundo, que uma violenta excitação produza uma sensação de prazer ou de
desprazer é assunto do intelecto interpretador, que aliás, na maior parte das
vezes, opera sem que o saibamos, de uma forma inconsciente; terceiro lugar, só
existe prazer, desprazer e vontade em seres inteligentes; a imensa maioria dos
organismos simplesmente os ignora (NIETZSCHE, 2006, p. 118).

Ora, o corpo é então condição para que
exista a vontade. Ele faz sua participação no processo do querer justamente
porque é através dele que existe uma representação de prazer e desprazer. É por
isso que “o homem já desperto, o sabedor [ou o Super-Homem], diz: ‘Eu sou todo
corpo e nada além disso; e alma é somente uma palavra para alguma coisa no
corpo’” (NIETZSCHE, 2003, p. 60).

É importante não esquecer que esse
Super-Homem, que vai, aos poucos, sendo delineado por múltiplas interpretações,
está conectado ao ócio. Isto se dá, precisamente, porque o ócio é tido como uma
atividade libertadora da escravidão da humanidade: a necessidade de ocupar-se
em atividades que não são e não levam à essência da vida, ou seja, que não
contribuem para tornar-se quem é[10].

Eis que uma outra interpretação se faz
necessária nesse momento, de modo a acrescentar novo sentido, agora na direção
que leva ao Super-Homem: a de Alberto Onate[11]. Sua
contribuição está, justamente, em reconhecer o sentido para o Super-Homem – o
caminho que faz sua existência -, constituindo-se na sua tarefa e no próprio
ócio: “para cumprir essa tarefa – ajudar cada um dos indivíduos a tornar-se
quem é – o humano deve converter-se em Super-Homem” (2004, p. 14, adaptado). Com a possibilidade do ócio o próprio homem, o
“humano, demasiado humano” de Héber-Suffrin, parece encontrar em sua loucura
toda a diferença, toda a singularidade que compõe seu ser. Isto faz ele ser
quem ele é – convertendo-se nesse processo em Super-Homem. O sentido de outrora, que era o Super-Homem enquanto “homem da transmutação”, só
pode existir enquanto o Super-Homem já existir, por ser o para quê ele existe.
Porém, ele não existirá sem o ócio que alimenta a contemplação da realidade –
enquanto vontade de potência; que se traduz em agir criativo na medida em que a
criação é auto-superação; que aponta na loucura dos sentimentos a máxima
subjetividade do indivíduo. Não existirá porque somente quando ele começar a
viver dessa maneira – com o deleite do ócio – a conversão do homem em
Super-Homem será possível.

Em já uma quarta interpretação, surgem as
alegorias do artista e da criança: refiro-me à Paul Valadier[12].

O Super-Homem nietzscheano não é o
atleta da perfeita soberania sobre si, mas aquele que chega a um domínio
suficiente para ser criador; assim é o artista na posse de seus meios, ou a
criança, referência essencial em “Assim Falava Zaratustra” (VALADIER, 2004, p.
6).

 

A noção inicial de que ele existe para
multiplicar e afirmar a vida: um eterno e inocente sim – inocente tal qual uma
criança, que antes foi leão e, antes ainda, camelo, parece confirmar-se na
interpretação de Valadier.

Mas como se dá esse processo de
transformação do camelo em leão e do leão em criança? Trata-se do primeiro
discurso de Zaratustra após o anúncio do Super-Homem – que ocorrera no Prólogo:
Das três metamorfoses (NIETZSCHE, 2003, p. 51).

O espírito que se torna camelo é aquele
que pergunta “’O que há de pesado? ’, […] e ajoelha como um camelo e quer
ficar bem carregado” (Ibidem). Para ele, a alegria está em carregar o peso dos
heróis: seus fardos. Mas que tipo de fardos? Ora, os fardos que tornam o
espírito um “espírito de suportação; e tal como o camelo, que marcha carregado
para o deserto, marcha ele para o próprio deserto” (NIETZSCHE, 2003, p. 51-52).
Esse deserto é o isolamento social, tal como vive o velho santo que Zaratustra
encontra na floresta logo após a descida da montanha[13].

Mas eis que no deserto “dá se a segunda
metamorfose: ali o espírito torna-se leão, quer conquistar, como presa, a sua
liberdade e ser senhor em seu próprio deserto” (NIETZSCHE, 2003, p. 52). Tal
conquista traduz-se em derrotar seu próprio senhor: o “tu deves” – representado
pelo dragão no discurso de Zaratustra. Essa moral do dever – que indica tudo o
que deve ser feito ou não, seguida pelo camelo “como o que há de mais sagrado”
(Ibidem) – é substituída pelo “eu quero”. Senhor de sua vontade, o leão
consegue, assim, “criar para si a liberdade de novas criações, [apesar de ainda
não poder] criar novos valores”. (Ibidem).

“Mas dizei, meus irmãos, que poderá ainda
fazer uma criança, que nem sequer pôde o leão?” (NIETZSCHE, 2003, p. 53). É aí
que surge a característica da inocência. Mas não apenas ela: surge também a
característica do esquecimento. Essas duas características da criança levam a
“um jogo, uma roda que gira por si mesma, um movimento inicial, um sagrado
dizer ‘sim’” (Ibidem). Mas um dizer “sim” para quê? “Para o jogo da criação
[…]: o espírito, agora, quer a sua [grifo do autor] vontade, aquele
que está perdido para o mundo conquista o seu mundo” (Ibidem).

Como última interpretação invocada acerca
do Super-Homem nesse capítulo, trago a obra de José Amorim de Oliveira Júnior[14].
Sua proposta é elucidar o sentido bem específico do Super-Homem, através da
reflexão sobre seis questões:

a) Quem é o super-homem, isto é,
quais são seus principais atributos? b) Como pensá-lo a partir da superação? c)
Ele ocupa um lugar de destaque na tipologia nietzscheana? d) É possível sua
realização, historicamente, ou seja, ele é um télos [grifo do autor] a
ser alcançado ou é antes um ideal inatingível? e) O super-homem deve ser uma
meta para todos? f) Ele é fruto do acaso ou da vontade humana? (OLIVEIRA JR.,
2004, p. 162).

 

Após análise a partir do uso do conceito
Super-Homem em outras obras de Nietzsche – que não no Zaratustra, quando o
termo[15] é
finalmente criado -, Oliveira Jr. inicia suas respostas às questões colocadas.
Os atributos do super-homem, segundo ele, são a “autonomia e criação de seus
próprios valores” (2004, p. 170). Ele cita trecho d’O Antricristo, no
qual Nietzsche diz que o “que ordenam as mais profundas leis da conservação e
do crescimento [é] que cada um crie a sua própria virtude, o seu imperativo
categórico[16]
(2007, p. 45). Tal forma de agir – criando seus próprios valores e virtudes -,
continua Oliveira Jr., propicia ao homem liberdade:

Pois o homem livre possui sua
própria medida de valor, não devendo se conformar às máximas universais de
conduta impostas pela moral, pela religião, pelo Estado: “uma parte essencial
da reflexão de Nietzsche além do bem e do mal é que uma virtude precisa ser a
invenção pessoal de cada indivíduo” (Ibidem)[17].2004, p. de cada indiva ser a ivenç pela moral, pela
religiomam forças com osespecializadas emmelhor.

 

Aqui, contrasta uma diferença com o
super-homem proposto no início desse capítulo: lá é afirmado que sua única
virtude é a coragem; enquanto que aqui é afirmado que uma virtude precisa ser a
invenção pessoal de cada indivíduo. Mas lá, a coragem é a força propulsora, o
espírito de luta e valentia de toda a criação de valores e de virtudes – e por
isso, sua virtude primeira ou natural. A partir de então é que o Super-Homem
poderá cultivar outras virtudes, tornando-se quem ele é através do ócio. Uma
vez mais o ócio se encontra atrelado à valorização das virtudes.

A seguir vem a questão da superação. Para
Oliveira Jr., “a superação poderia ser […] apenas uma faceta da criação”
(Ibidem). Isso porque os conceitos são imbricados, “são intercambiáveis: se a
essência da criação é a superação incessante, o super-homem, sendo o indivíduo
que se auto-supera continuamente, constitui-se, também, como o tipo criador,
posto não haver superação sem criação” (2004, p. 174). Mas é exatamente o que
já foi dito em nosso tipo inicial: o super-homem consegue, motivado pela
auto-superação, ser o criador.

Então, vem a questão de se o super-homem
ocupa um lugar de destaque na tipologia nietzscheana. A resposta a essa
pergunta pode ser encontrada, em verdade, em outro trecho da obra de Oliveira
Jr., quando ele fala justamente desse assunto. Primeiramente, ele considera “a
presença de dois elementos básicos na tipologia nietzscheana: o fraco e forte”
(2004, p. 111). Dentre os primeiros – os fracos -, ele inclui o último homem, o
homem superior, o décadent e o escravo. Dentre os segundos – os fortes
-, estão o senhor, o aristocrata, o espírito livre e o super-homem. Sendo o
super-homem um dos tipos considerados fortes, ele ocupa sim um lugar de
destaque na tipologia nietzscheana. Porém, Oliveira Jr. vai além: ele indaga
“como se caracteriza um tipo?” (2004, p. 112). A resposta é que os tipos
referem-se, “em suma, à vontade triunfante e determinante num indivíduo ou
grupo” (Ibidem), caracterizando-se pelos seguintes elementos:

a) Por meio do agon, considerando
seu entendimento enquanto “enfrentamento e luta com condições desfavoráveis”
(Ibidem), o que leva um tipo a tornar-se forte[18].

b) Pelas relações de forças e a qualidade
de vontade de poder. Esse critério de análise dos tipos “leva em consideração a
interpretação deleuziana das forças, cuja base é a distinção de suas qualidades
ativas e reativas, bem como as qualidades da vontade de poder, como afirmativa
ou negativa” (OLIVEIRA JR., 2004, p. 113). É o método utilizado por
Héber-Suffrin, no quadro em que ele analisa os tipos que aparecem no Zaratustra
(conforme Quadro 1, já exposto nesse capítulo).

c) Por meio da constituição fisiológica,
biológica e psicológica[19].

Dessa forma, os fortes – como o
super-homem -, são aqueles que vivem por meio do agon, que possuem uma
qualidade ativa maior que a qualidade reativa, que manifestam sua vontade de
poder de maneira afirmativa e que possuem preponderância intelectual. Vale
notar, ainda, que Oliveira Jr., além de mostrar os dois elementos básicos da
tipologia nietzscheana – os fracos e os fortes -, coloca que:

Forte e fraco são […] duas facetas
do indivíduo, haja vista que em uma mesma pessoa coexistem tais princípios e
forças. Ou seja, mesmo o forte, hiperbóreo, dotado de ritmo ascendente, sofre
quedas instantâneas, fugidias de potência. Porém, ao contrário do fraco, que as
combate e sucumbe sob seu peso, o forte, em vez disso, consegue agregá-las
enquanto plataforma para saltos ainda mais arriscados (2004, p. 119).

 

A próxima questão proposta é: o
Super-homem é um télos a ser alcançado ou um ideal inatingível? Tal
questão encontra força tanto numa resposta como na outra – constituindo-se numa
polêmica. Enquanto télos, ou seja, enquanto fim a ser perseguido,
corrobora a afirmação encontrada no Zaratustra: “o que há de grande, no homem,
é ser ponte, e não meta” (NIETZSCHE, 2003, p. 38). Dessa forma, enquanto meta
do homem, o super-homem é sim um télos. Porém, vale ainda notar que esse
télos só existe porque Deus está morto – conforme encontramos,
novamente, no Zaratustra:

Dizia-se “Deus”, outrora, quando se
olhava para mares distantes: mas agora, eu vos ensino a dizer: “Super-Homem”.
Deus é uma suposição; mas quero que vosso supor não vá além da vossa vontade
criadora. Podeis criar [grifo do autor] um Deus? Então, calai-vos de uma
vez a respeito de todos os deuses! Mas bem podeis criar o super-homem […] e
que esta seja a vossa melhor criação (Assim falou Zaratustra, II, “Nas ilhas
bem aventuradas”).

 

Enquanto ideal inatingível, Oliveira Jr.
cita dois autores que vão corroborar com essa opinião: Türcke e Ansell-Pearson.
Para o primeiro:

O homem sem fraqueza, isto é, sem
ideal, no entanto, é um ideal por excelência, que visa a um ser perfeitamente
soberano, autocontente, autárquico, em plena concordância com a vida, gozando-a
sem filtro ou reservas. Tal ser não existe, senão como desejo e pensamento
instanciais em cabeças humanas. Sendo assim, o anti-utopista Nietzsche torna-se
utopista, a não dizer, messianista (1994, sem p.).

 

Para o segundo, ”o autor de Assim
falou Zaratustra
fica preso na lógica do ideal, apesar de seu violento
ataque a todos os ídolos (sua palavra [a de Nietzsche] para ‘ideais’)”
(OLIVEIRA JR., 2004, p. 184).

Prosseguindo na polêmica, o próprio
Nietzsche é invocado no texto de Oliveira Jr., para que ele mesmo advogue em
favor próprio. No Ecce Homo – sua autobiografia – o filósofo alemão
afirma não ter criado nenhum novo ídolo:

A última coisa que eu [grifo
do autor] haveria de prometer seria “melhorar” a humanidade. Eu não haverei de
erigir nenhuns novos ídolos […]. Derrubar ídolos [grifo do autor]
(minha palavra para “ideais”) – isso sim é que faz parte de meu ofício. A
realidade foi despojada de seu valor, de seu sentido, de sua veracidade
justamente no mesmo grau em que foi falsificado [grifo do autor] um
mundo ideal (2003, p. 16).

 

Mas, considerado que a presente obra visa
apontar para um modo de se formar o Super-Homem, fica implícita nossa posição
nessa polêmica – quer seja: o Super-Homem é um télos a ser alcançado,
ele é um conceito ideal e não uma idéia conceitual. Caso não se acreditasse
nessa possibilidade, a luta pelo fortalecimento de uma Educação pelo e para o
ócio que aponta para a formação do Super-Homem nietzscheano seria uma luta
vazia – visto que como um ideal inatingível ele jamais chegaria a ser/existir.

A penúltima questão proposta por Oliveira
Jr. é se o super-homem deve ser uma meta para todos. Ele diz que a
interpretação geralmente defensável em Nietzsche é que o super-homem é um tipo
a ser alcançado por poucos indivíduos, e não pela humanidade em geral. Então, o super-homem não é e nem deve ser meta para todos. O que fortalece essa
interpretação são dois fatores: (a) o da coexistência do super-homem numa
multiplicidade de tipos e (b) ele ser fruto da vontade humana – é preciso
querer tornar-se Super-homem para assim vir-a-ser. O segundo fator (b), é
resposta à última pergunta feita por Oliveira Jr. – lembrando a questão: “ele é
fruto do acaso ou da vontade humana?”[20]

Resta, dessa forma, uma visão mais
detalhada acerca dos dois fatores expostos. O primeiro fator (a) aponta para “o
super-homem como o tipo desejado e privilegiado, [mas] não o propõe como tipo
único” (OLIVEIRA JR., 2004, p. 180). Na filosofia nietzscheana, em vários
trechos encontra-se a necessidade da multiplicidade dos tipos. Como em Humano,
Demasiado humano[21]
:

O gênio da cultura procede como
Cellini, quando ele fundia sua estátua de Perseu: a massa liquefeita ameaçava
não bastar, mas tinha [grifo do autor] que; então ele jogou pratos e
travessas ali dentro, e mais tudo o que lhe caiu em mãos. De igual modo aquele gênio lança dentro erros, vícios, esperanças, ilusões e outras
coisas, tanto de metal nobre como de metal vil, porque a estátua da humanidade
tem que ser produzida e completada; que importa se aqui e ali foi empregado
material inferior? (NIETZSCHE, 2005, p. 161)

 

Considerando esse aforismo, o Super-Homem
seria o metal nobre e os outros tipos seriam o metal vil que completaria a
estátua da humanidade.

Já o segundo fator (b), mostra que o
Super-Homem não é e não deve ser meta para todos por ele ser fruto da vontade
humana – e não do acaso. O filósofo alemão até “vai na direção de que o acaso,
aqui e ali, alcançou as condições para a produção de uma espécie mais forte”
(OLIVEIRA JR., 2004, p. 178), porém, isso deve ser assumido pelo homem como sua
missão:

Podemos agora compreender isso, e,
sabendo-o, querer [grifo do autor]. Podemos criar as condições sob as
quais uma tal elevação é possível. […] O crescente apequenamento do homem é
justamente a força propulsora para se pensar na criação […] de uma raça
mais forte
[grifo do autor], que teria seu excesso justamente ali, onde a
espécie diminuída tivesse se tornado fraca e mais fraca (vontade,
responsabilidade, certeza de si mesmo, poder instruir metas). (NIETZSCHE, 2002,
p. 17).

 

Não obstante a discussão empreendida por
Oliveira Jr. – exposta através dessas seis questões que trouxeram enorme
contribuição à questão de quem é o Super-Homem -, ele ainda, ao final de sua
obra, faz a mais provocativa das questões, colocando em dúvida a relação entre
dois conceitos-chave da filosofia nietzscheana: “a paradoxal relação entre
eterno-retorno e super-homem: antinomia ou complementaridade?” (2004, p. 189).
O paradoxo estabelece-se “pois enquanto o primeiro exigiria uma contínua
evolução[22] para a
criação do novo, o segundo conteria o pensamento esmagador, segundo o qual
eternamente retorna o mesmo” (OLIVEIRA JR., 2004, p. 189-190).

Para responder tal questão, é necessário
entender que o eterno retorno é concebido pelo filósofo alemão enquanto
hipótese cosmológica e pensamento ético, conforme mostra Scarlett Marton:

Hipótese cosmológica, o eterno
retorno adianta que tudo já existiu e tudo voltará a existir: cada instante
retorna um número infinito de vezes, traz em si a marca da eternidade.
Pensamento ético, ele fornece um imperativo para a ação: o de só querer algo de
forma a também querer que retorne sem cessar e, com isso, remete à noção de amor
fati
[grifo da autora] (In: OLIVEIRA JR., 2004, p. 190).

 

Em seu aspecto cosmológico o eterno
retorno é um “conceito problemático, sendo alvo de questionamentos que mostram
as dificuldades existentes na sua formulação” (OLIVEIRA JR., 2004, p. 190).
Scarlett Marton – mais uma vez – faz a derradeira experimentação do eterno
retorno, num belo trecho, transcrito abaixo:

Ao que parece, não há vínculos estreitos
entre seus pontos fundamentais: a repetição dos acontecimentos e o movimento
circular em que a mesma série de eventos ocorre. Sublinhando-se o primeiro,
nada impediria que, por um processo fortuito, as forças constitutivas do mundo
viessem a combinar de tal forma que as configurações voltassem a ocorrer. […]
Realçando o último, seria preciso que as forças se combinassem numa seqüência
bem definida, para que todas as configurações se repetissem; estariam sujeitas
a uma ordem rigorosa. […] Da idéia de que “em um tempo infinito, cada
combinação possível estaria alguma vez alcançada […] infinitas vezes” não se
segue necessariamente que “entre cada combinação e seu próximo retorno todas as
combinações ainda possíveis teriam de estar transcorridas” e, tampouco, que
“cada uma das combinações condiciona a seqüência inteira das combinações da
mesma série”. Da repetição dos acontecimentos não se pode deduzir o movimento
circular em que a mesma série de eventos ocorre; não se deduz que uma
configuração só retorna depois de finda toda a série e, menos ainda, que cada
configuração determina a seguinte. Sem fornecer justificação alguma, Nietzsche
faz as duas afirmações. […] Hoje é unânime entre os comentadores de Nietzsche
a convicção de que o pensamento do eterno retorno, em sua dimensão cosmológica,
é pelo menos contestável (In: OLIVEIRA JR., 2004, p. 191-192).

 

Resta-nos então o eterno retorno enquanto
pensamento ético. Oliveira Jr. privilegia tal pensamento, fundamentando-se nos
textos publicados por Nietzsche nos quais a temática do eterno retorno aparece[23].
Segundo ele, nesses textos “o filósofo alemão […] enfoca o eterno retorno
[…] como conjectura ou como uma possibilidade, e não como uma demonstração
científica” (Ibidem). Dessa forma, o eterno retorno deve ser entendido enquanto
dinâmica dos valores morais, o que lhes dá movimento. Tal movimento é a
experimentação de diferentes conjurações de forças dos valores morais –
parafraseando Deleuze: submeter o considerado melhor valor à prova do
baixo, mas também submeter o considerado pior valor à prova do alto, é a
tarefa realmente crítica e o único meio de reconhecer-se o verdadeiro melhor
valor[24]

-, consistindo, assim, também no mecanismo de funcionamento do critério máximo
de todas as avaliações. Explica-se: antes de cada escolha existe uma avaliação
daquilo que pode ser escolhido – das opções. Caso tenha-se uma vez já
experimentado o resultado de alguma dessas opções e esse resultado tenha sido prazeroso,
é natural que a avaliação seja positiva e a nova escolha opte por essa mesma
opção. Porém, caso contrário, tal escolha não tenha tido um resultado
prazeroso, uma outra escolha se faz necessária e então a vida entra como medida
dessa escolha – não mais o prazer experimentado, mas sim aquela escolha
que afirma a própria vida do indivíduo que escolhe, para que, em sua afirmação,
a vida traga novamente a mesma escolha e o indivíduo possa experimentar outra
opção, e outra, e outra, até que se atinja sabedoria ética suficiente para
saber qual é a melhor escolha. Eis o produto do eterno retorno do mesmo
enquanto pensamento ético.

O que acaba de ser explicado pode ser
ilustrado através da figura abaixo.

Figura 6 – Eterno Retorno enquanto pensamento ético.

Figura 6 – Eterno Retorno
enquanto pensamento ético.

 

Supondo-se que cada uma das cores
expressas no matiz represente um valor possível dentre todos os valores morais
existentes e que a forma como estão dispostas representa determinada conjuração
de força desses valores morais; as cores que ocupam maior espaço são os valores
morais mais fortes e as que ocupam menor espaço são os valores morais mais
fracos. No entanto, tal conjuração não é absoluta: o eterno retorno é o que lhe
dá movimento – faz com que esses valores se misturem, penetrem uns nos outros
e, ainda, nesse embate de forças, faz com alguns deles sejam destruídos e novos
valores sejam criados. O movimento circular representa que todos os valores ora
poderão estar fortalecidos, ora enfraquecidos, sendo esse processo o
constituinte do critério máximo de todas as avaliações – a experimentação de
novas conjurações de forças dos valores morais.


[1] Conforme citado na página 16 do presente estudo (ver
citação de MACHADO, 2002, p. 55).

[2] Apesar de serem as minhas leituras, procurarei manter-me fiel ao
conceito proposto pelo próprio Nietzsche. Não que isso seja necessário, afinal
de contas, sempre quando se lê o filósofo alemão temos que ter em mente que
suas obras e, especificamente, Assim falou Zaratustra, são obras
subjetivas. Porém, neste estudo buscamos mesmo este Super-Homem: o de
Nietzsche. O que acrescento é uma tentativa de formá-lo através da educação
pelo e para o ócio.

[3] Conforme os aforismos Das alegrias e das paixões e Da guerra
e dos guerreiros
do Zaratustra (p. 61 e 73). Sempre entre parênteses as
páginas conforme edição consultada para esse estudo. Recomenda-se fazer a
leitura completa dos aforismos indicados, de modo que citar apenas um trecho e
relaciona-lo com o que se quer dizer seria fugir desse objetivo.

[4] Conforme o aforismo Do Superar a si mesmo (p. 143).

[5] Conforme o aforismo De velhas e novas tábuas (p. 234). Sobre
essa moral que possui movimento conferir especificamente a 8
ª tábua.

[6] Conforme o aforismo Das três metamorfoses (p. 51).

[7] Tratada, segundo ele, no aforismo Do espírito de gravidade (ZA,
p. 116).

[8] Conforme página 53 do presente estudo.

[9] É mestre em Filosofia – Ética pela PUC-Campinas, professor do curso de
Filosofia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), na Faculdade
Bagozzi e editor da Revista Filosofia.

[10] Conforme raciocínio exposto na página 9 do presente estudo, na
Introdução.

[11] Professor Alberto Marcos Onate, do Departamento de Filosofia da
Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). Graduado em Filosofia pela
Universidade Federal do Paraná, ele é mestre em Filosofia pela USP, tendo sua
dissertação de mestrado o título O crepúsculo do sujeito em Nietzsche ou
como abrir-se ao filosofar sem metafísica
. Ele é também doutor em Filosofia
pela USP, e sua tese leva o título Entre eu e si ou a questão do humano na
filosofia de Nietzsche
. Sua dissertação e sua tese foram publicadas na
forma de livros – a primeira em 2000 e a segunda em 2003.

[12] É doutor em Teologia e em Filosofia e antigo redator da revista Études.
É autor de uma vasta bibliografia. Sobre Nietzsche escreveu, entre outros
livros, Nietzsche et la critique du christianisme (1974); Essais sur
la modernité, Nietzsche et Marx
(1974), Nietsche, l’athée de rigueur
(1989) e Nietzsche l’intempestif (2000). Entre suas obras publicadas em
português, destacam-se: Elogio da consciência (2001); Um cristianismo
de futuro, para uma nova aliança entre razão e fé
(2001) e A moral em
desordem: um discurso em defesa do ser humano
(2003).

[13] A afinidade no modo de vida do velho santo com a alegoria do camelo é
ainda mais profunda. Tal encontro foi descrito na página 62 da presente obra,
porém, naquela oportunidade não interessava a resposta do velho santo ao
anúncio de Zaratustra que trazia “aos homens um presente”. Essa resposta é,
simplesmente, o que pensa o espírito de suportação – esse camelo – sobre a
humanidade: “Não lhes dês nada. […] Tira-lhes, de preferência, alguma coisa
de cima e ajuda-os a levá-la; será o que de melhor poderás fazer por eles, se
for bom para ti” (NIETZSCHE, 2003, p. 35).

[14] É graduado em Filosofia pela Universidade Católica de Goiás (UCG), com
mestrado em Filosofia Política pela Universidade Federal de Goiás (UFG).
Dedica-se à pesquisa nietzscheana desde à época de sua graduação e já
apresentou vários artigos e comunicações científicas em eventos filosóficos de
âmbito regional e nacional, como a ANPOF e os Colóquios Nietzsche (promovidos
pelo Grupo de Estudos Nietzscheanos da USP), e possui artigos publicados em
revistas especializadas em filosofia, como a Revista Fragmentos de Cultura (UCG)
e os Cadernos de Filosofia, da FFCH/UFG.

[15] O termo em questão é do alemão Übermensch.

[16] Conceito kantiano Considera-se imperativo uma proposição que
tenha a forma de comando, de imposição e, em particular, de um comando ou ordem
que o espírito dá a si próprio. Kant distinguia duas espécies de imperativos: o
hipotético (ou condicional), quando a ordem ou determinação está
subordinada como meio para atingir determinado fim (ex.: sê justo, se queres
ser respeitado
); e o categórico (ou não-condicional), se a ordem é
incondicional (ex.: sê justo). Para Kant só existia um imperativo
categórico fundamental (e é esse que Nietzsche se refere) cuja fórmula é:
“Procede sempre segundo uma máxima tal que possas desejar ao mesmo tempo que
ela se torne universal”. (Nota extraída do livro O Anticristo, 2007, p.
45).

[17] O trecho entre aspas da citação é, na verdade, a citação de outro
autor: Ansell-Pearson (1997, p. 149-150).

[18] Conforme aforismo # 262 de Para além do bem e do mal: “um tipo
fixa-se e torna-se forte sob a longa luta com condições desfavoráveis
[grifo do autor] essencialmente constantes” (NIETZSCHE, 2006, p. 190).

[19] Conforme aforismo # 17 d’O Anticristo: “por toda a parte
em que, por qualquer forma, a vontade de poder se encontre em declínio,
existirá igualmente uma regressão fisiológica, uma decadência” (NIETZSCHE,
2007, p. 50); e, ainda na mesma obra, aforismo # 57: “em toda a sociedade sã,
distinguem-se três tipos psicológicos, que gravitam diferentemente, mas que se
acham reciprocamente submetidos, tendo cada qual a sua própria higiene, o seu
próprio domínio de trabalho, o seu próprio sentimento de perfeição e de
capacidade. A natureza […] é que separa os homens de preponderância
intelectual, os de preponderância muscular e temperamentos fortes e os que não
se distinguem por preponderância alguma, os terceiros, os medianos; os últimos
constituem o maior numero, os primeiros são a elite” (p. 99).

[20] Para facilitar sua vida, caro leitor! Caso queira relembrar as outras
questões propostas pelo autor, volte 5 páginas.

[21] Trata-se do aforismo # 258, intitulado “A estátua da humanidade”.

[22] Aqui o termo “evolução” deve ser entendido sem o sentido de
“progresso”.

[23] Os textos em questão são: A gaia ciência (# 335, 341 e 342), Para
além do bem e do mal
(# 56) e Assim falou Zaratustra (principalmente
em Da redenção, Da visão e do enigma, O convalescente e O
canto ébrio
).

[24] Do original: “Submeter o verdadeiro à prova do baixo, mas também
submeter o falso à prova do alto é a tarefa realmente crítica e o único meio de
reconhecer-se na ‘verdade’” (DELEUZE, 1976, p. 87).

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