Continued from: Capítulo IV - O PRIMEIRO MINISTÉRIO E AS PRIMEIRAS PROVIDÊNCIAS - D. João VI no Brasil, - Oliveira Lima

À sua fogosa imaginação sorria a perspectiva de
uma franca repulsa, seguida de uma franca luta, que ele compreendia todavia impossível. No
foro da consciência do ríspido estadista nunca poderiam encontrar misericórdia
os culpados dessa humilhação, e culpados eram aqueles a quem cabia a obrigação de
cuidar das cousas da guerra e se tinham engolfado nos prazeres da paz. Por isso
abominava Lafões, o polido fidalgo octogenário que o príncipe regente teimara em conservar
à frente do exército para o deixar bater vergonhosamente pelos espanhóis. D. Rodrigo nunca o poupou em sua usual
sarcástica franqueza, que ministros de monarquias constitucionais nem todos
imitariam depois, e se houvesse sido atendido, não se teria oferecido ao inimigo
o grotesco espetáculo das pernas gotosas do generalíssimo, malgrado as dores
cruciantes, apertando no galope as ilhargas do ginete, o qual apresentava aos
soldados do príncipe da Paz não a
fina cabeça, mas a luzida garupa.

Verberando por esse tempo com um atentado contra
a real autoridade a sem-cerimônia com que Lafões expedia avisos de pagamentos às
tesourarias gerais da tropa, comentava acremente D. Rodrigo: "Se V. A. R. permite ao duque
que abra os seus tesouros, em breve nada ficará no Erário, pois que aqueles que o
rodeiam não s’esquecem que tem 83 anos, e querem aproveitar todos os
instantes da sua vida. Digne-se V. A. R. lembrar-se que aquele mesmo ministro que tanto tem
representado contra a democracia, e os demagogos, é o mesmo que lembra a V. A. R., com o devido acatamento, que
não se pondo freio às ideias, e vistas aristocráticas do duque, há de V. A. R. ver que ele perde
a monarquia, assim como desorganizou o Exército."101 E a verdade
é que da obra severamente disciplinadora do conde de Lippe, pouco ficara sob o
relaxamento do garrido militar acadêmico que movia guerras nos salões e
executava piruetas nos campos de
batalha.

O ruinoso tratado que foi consequência da infeliz
campanha, a chamada paz de
Badajoz, levou ao paroxismo o desespero patriótico de D. Rodrigo. "Antes quisemos sacrificar tudo do que tentar uma
defensa gloriosa, ainda quando fosse infeliz… esquecendo-nos da nulidade confessada da Espanha, que declarava ter já reduzido
o Exército de vinte mil homens e
estar sem recursos alguns."102 Pediu formalmente sua demissão e por ela insistiu, recusando-se até a subir à
real presença antes de lha ser concedida.
"Procuro a V. A. R., sem que o seu benigno coração haja de sofrer violência, um meio de mostrar à Espanha
e França que despede um ministro de sentimentos tão contrários às vistas de ambos os governos, no momento em que
vai unir-se de interesse com eles, não dando esta resolução sombra à Grã-Bretanha,
pois que não pode ignorar o motivo por
que V. A. R. se digna aceitar-me a minha demissão."

Nesta mesma carta increpava ele o príncipe regente por não se ter defendido até a última
extremidade,
até ao ponto de "transportar a capital do Império (se necessário
assim fosse) para o Brasil antes do que aceitar condições duras, e
ignominiosas". Não era a primeira vez que D. Rodrigo pensava na colônia americana,
pois que cuidara anteriormente em zelar-lhe a existência, integridade e
prosperidade. Logo no início da sua carreira de estadista, preocupara-se
extraordinariamente com o estado precário ia defesa do Brasil, escrevendo
que este negócio lhe não deixava um momento de tranquilidade, por temer um golpe de mão
dos franceses. "Se V. A. R. fosse servido ordenar ao seu ministro em Londres
que solicitasse doze ou dezoito naus de linha, que viessem para o porto de Lisboa incorporar-se com seis naus de
linha de V.
A. R., então
poderiam expedir-se para o Rio de Janeiro cinco ou seis naus de linha com algumas fragatas,
que dali
cobririam o Brasil, visto que do Rio de Janeiro se vai à Bahia em oito ou quinze
dias, e ao Rio Grande no mesmo tempo, com pouca diferença."103

A solicitude administrativa de D. Rodrigo
timbrava em atingir todos os assuntos a que se aplicava a sua inteligência de uma
extrema versatilidade. No Brasil, onde era vasto e quase virgem o campo das reformas, que havia de dedicar-se a
mil assuntos de uma vez, tratando até de desenvolver a criação de ovelhas para
benefício da indústria de lanifícios, me-lhorar a raça cavalar com a
importação de animais andinos, e aclimar vicunhas e alpacas das regiões
montanhosas do Pacífico.104 E sempre fora este o seu modo de proceder na vida
pública, misturando novidades problemáticas com resoluções atiladas. Assim um aviso de 22 de
novembro de
1796, expedido ao governador do Pará D. Francisco de Souza Coutinho, seu irmão,
dispõe — e o ministro apenas havia tomado conta da pastai — o que hoje ainda não
possui metodicamente o Brasil: o estabelecimento de um sistema fixo para os
cortes regulares de madeiras das matas e de um plano para assegurar a sua reprodução, bem
como promover a sua exportação
para os outros países da Europa.105

O pior é que dos excelentes planos de D. Rodrigo nem a
décima parte se executava, não tanto porque faltassem ao autor vigor e constância para
os levar até
ao fim, como porque lhes era o meio hostil, por excesso de apatia, natural e voluntária.
Em redor do príncipe, na nova como na antiga corte, escasseavam os homens
de entendimento e honestidade. No Rio de Janeiro pululava um mundo de ineptos e
parasitas. "Aqui, Deus louvado, — exclamava Marrocos, — é uma ignorância
sôfrega, ou uma sofreguidão material."106 Era gente essa, que
em grande parte tinha emigrado de Lisboa pretextando lealdade e devoção à pessoa do
regente e reclamava agora fartos meios de subsistência, em troca dos que
lembrava haver abandonado no reino à cobiça francesa. As cartas de Marrocos quase só se referem a empregos
concedidos, pretendidos, criados, sugeridos, disputados. Até o ano de 1819 a folha
das pensões anuais pagas do bolsinho do soberano, que tanto valia então dizer o Erário,
subia a mais de 164 contos, devendo nós para estimação duplicar o valor da moeda. Ao discriminar a população do Rio,
Luccock conta um milhar de empregados públicos e outro milhar de dependentes da corte.107

Nunca talvez como nesses dias se desvendou tanto
em Portugal o íntimo acordo, feito todo de interesse e de dependência, que então ligava
a realeza
absoluta e as classes privilegiadas. O príncipe regente não desmentiu as tradições da
coroa, antes se portou por ocasião da retirada para o Brasil, para com aqueles que
quiseram partilhar da sua sorte, da maneira mais generosa. Assegurou pensões aos titulares
e mais fidalgos da régia comitiva; concedeu um posto de acesso aos oficiais da
armada que tinham servido a trasladação; colocou em novos lugares na colónia os oficiais
do exército
que para ela se mudaram; distribuiu benefícios e empregos, vagos ou criados adrede, pelos
eclesiásticos e civis da turbamulta migrante. "Assim, não houve uma só pessoa
de tantas,
que se expatriaram voluntariamente pelo amor de seu soberano,
que não recebesse das suas liberais mãos a recompensa de tão grande sacrifício, segundo a
condição, préstimo e capacidade
das mesmas."108

Os habitantes do Rio de Janeiro, bem como os da Bahia,
tiveram o seu
quinhão mais modesto na ampla sementeira de dignidades, honras, mercês e ofícios a que
procedeu o príncipe regente. Dificilmente porém compensariam em muitos casos
essa pródiga exibição de amor e solicitude paterna, conforme a qualifica
o padre Luiz Gonçalves, os sérios vexames que a grande número de habitantes da capital
acarretara a trasladação da corte. Tornaram-se proverbiais os incômodos sofridos pelos mais abastados, ou melhor
pelos alojados mais a cômodo, tendo que ceder suas residências, por imposição prévia
do vice-rei conde dos Arcos, aos nobres, clérigos, militares e burocratas do
acompanhamento real, e se refugiar nos subúrbios ou em casas acanhadíssimas.

Verdade é
que a bonomia nacional se não alterou com semelhante aplicação do regime das
aposentadorias, parecendo ser de todo ponto exato o que contam os cronistas do
tempo, a saber, que a cessão das casas foi feita no geral da melhor vontade,
com uma encantadora franqueza, porventura por alguns com mira interesseira, mas por muitos
com o prazer íntimo
de serem úteis, cada um na sua esfera, à família real exilada e ao seu séquito.
Chegou a liberalidade ao ponto de proprietários comprarem trastes e objetos de
valor para melhor adorno das habitações que deixavam com suas carruagens, bestas e
escravos, para uso e maior luzimento dos emigrados a cuja disposição ficavam.

Só no artigo fidalgos, não eram poucos os que de
Lisboa tinham saído para irem formar no Rio de Janeiro a corte do príncipe foragido. Um duque, o de Cadaval,
falecido na Bahia, onde adoeceu na passagem da esquadra; sete marqueses, os de
Alegrete, Angeja, Belas, Lavradio, Pombal, Torres Novas e Vagos; as marquesas
de São Miguel e Lumiares; os condes de Belmonte, Caparica, Cavaleiros, Pombeiro e
Redondo. Afora os planetas, um milhar de satélites, monsenhores, desembargadores,
médicos, açafatas, reposteiros, outros empregados da real casa, sem falar na tribo dos Lobatos, do
serviço particular e da maior privança de Dom João, de quem constituíam a camarilha,
juntamente com o padre João, seu afilhado, e seu secretário, o esperto
brasileiro José Egydio.109

Ao que parece, aquela gente abusou da bizarra
hospitalidade com que a receberam os habitantes mais endinheirados do Rio de
Janeiro e da qual foi também alvo o príncipe, a quem o negociante Elias Antônio Lopes
doou a
quinta da Boa Vista, em São Cristovão. O mimo não podia ser senão acolhido com agrado
porquanto deixava muito a desejar o alojamento no Paço da cidade não só sob o
ponto de vista do conforto, mas mesmo do espaço suficiente para a numerosa família real e
seus cortesãos e fâmulos, apesar do ex-palácio dos governadores e vice-reis haver
anexado com passadiços o convento do Carmo, a antiga casa da Câmara e cadeia. A generosidade de Elias Lopes
foi um tanto comercial, pois que o doador mais tarde apresentou a conta ao
presenteado; os religiosos de São Bento gastaram porém sem segunda intenção
para mais de cem mil cruzados no palacete de recreio que, com destino a Dom João,
prepararam na ilha do Governador.

Estas instalações eram indícios de que a corte se
demorava no Brasil. Entretanto, pretextando com razão não acharem casas para
alugar, iam os fidalgos ficando naquelas em que de princípio se tinham
aboletado, oferecendo pagar boas rendas, que algumas vezes ficavam em promessa e outras eram benevolamente recusadas pelos senhorios.
Mello Moraes cita os casos do conde de Belmonte, que assim morou dez anos na residência do patrão-mor, e da duquesa
de Cadaval, que residiu igual tempo ou quase na chácara do coronel Alves da
Costa, ao fim da rua da Lapa. Deram-se mesmo abusos piores. Casos houve em que
uma habilidade, tomada a título de aposentadoria, era sublocada por maior
preço, embolsando o suposto hóspede a diferença, e até se tornando ocasionalmente o próprio senhorio o inquilino do seu inquilino!110

Tais fatos, que se deram mas não foram por certo tão comuns
quanto o
querem deixar perceber alguns historiadores sem crítica, deviam considerar-se as naturais
consequências de um regime social em que a aristocracia e o clero, mais vivendo
da monarquia do que para a monarquia, já não constituíam as classes protetoras
do povo, mas sim as classes parasitas da nação. Assim ocorria havia muito, e nada aí há
que estranhar. Da nobreza do reino escrevia em 1805 a duquesa de Abrantes, molhando em desprezo a pena maliciosa,
que não continha elemento algum de que se pudesse tirar partido em tempos
calamitosos, quando viesse a pátria a perigar. Chegava a embaixatriz de
França a duvidar de que a expressão pátria encerrasse valor para semelhante gente.

Os acontecimentos a não desmentiram. Compunha-se com
efeito de nobres
, com alguns prelados, a embaixada que foi a Baiona prosternar-se diante de Napoleão,
enquanto o povo se armava de cacetes e chuços para a resistência do exército
invasor. Fidalgos de alta linhagem, como D. Lourenço de Lima, embaixador em
Paris, e o conde da Ega, embaixador em Madri, sabemos como se viram acusados, sem
lograrem defender-se satisfatoriamente, de terem conspirado em favor das
maquinações francesas contra o seu legítimo soberano. Por isso andaram longos anos refugiados nas cortes do Norte, D. Lourenço até ameaçado
em Londres de ir para a cadeia por dívidas, do que o livrou a amizade de
Funchal e depois a de Palmela, de cujos
auxílios por fim vivia.111 Tão convencido ficara o príncipe regente da aleivosia daqueles fidalgos
que sempre chamava o conde; da Ega desgraçado,112
e sobre D. Lourenço proferiu as
seguintes palavras a propósito do
perdão do marquês de Loulé, por quem se interessara viva mente o coronel Maler: "Esse traidor veio a
todo o galope a Lisboa para me
enganar e sacudir como Fernando na armadilha de Bonaparte."113

Acresce que a corte portuguesa, sobre ser
composta de elementos no geral de questionável valia, tratava o Rio de Janeiro,
quanto lho consentiam, como terra conquistada, encarando-a sempre como um ponto de residência)
obrigada,
porém efêmera, e desagradável. Ralados de saudades de Lisboa, os nobres detestavam
comumente a capital brasileira. Afora o príncipe, poucos eram os que estimavam
o Brasil ou que lhe faziam sequer justiça. Tal amo, tal criado. Marrocos pode dizer-se que refletia
fielmente a opinião dos fidalgos que o protegiam, e suas cartas, espelho dos
ditos azedos que fermentavam nas conversas
portuguesas, trazem um testemunho irrefutável daquele estado de espírito,
que não é injusto apelidar de coletivo.

Achava Marrocos o ar do Rio infernal, cheio de moléstias
"pelos vapores
crassos e corruptos do terreno e humores pestíferos da negraria e
escravatura"; comparava a cidade de São Sebastião com o pior bairro de Lisboa, que era o de
Alfama, ou fazendo-lhe muito favor, com o Bairro Alto nos seus distritos mais
porcos e imundos;114
dizia ser "o clima mais pestífero do que o de
Cacheu, Caconda, Moçambique, e todos os mais da Costa de Leste, andando sempre
o S. Viático por casa dos enfermos, de dia e de noite as Igrejas continuamente
dando sinais de defuntos", e havendo ele pouco antes sabido que só na igreja da
Misericórdia tinham sido enterradas no ano de 1811 para cima de 300 pessoas naturais
de
Lisboa!115

Confessando que preferia vegetar mui pobre em Lisboa a
viver no Rio com grandes riquezas, e para mostrar que não era o único a assim
pensar, contava o rabugento arquivista uma engraçada anedota passada com D. Francisco d
Almeida. Perguntando o príncipe regente a esse fidalgo recém-chegado à corte que tal
achava o país, respondeu ele com o maior desembaraço: Senhor, eu sempre ouvi dizer aos
papagaios d’América — Papagaio real… para Portugal— "Palavras
estas, comenta Marrocos, que :têm feito descarregar uma grossa chuva das mais
horrorosas pragas dos "brasileiros e brasileiras sem esperança de
armistício."

A impaciência do regresso dava frenesis a esses emigrados
postiços, e
de azedume os roera desde que tinham posto pé em terra. Como a rainha doida, eles viviam mentalmente em Lisboa e em Queluz. Contudo, sendo
preciso dotar o acampamento com ares de corte, mesmo porque ninguém podia de seguro
prever o tempo que duraria a tirania do corso sobre a Europa, trataram os nobres de
mitigar as suas saudades refazendo em tudo e por tudo a capital desertada, transformando o Rio numa cópia, por mais imperfeita que sempre a achassem, da
querida Lisboa. A administração, por motivos menos pessoais e mais elevados,
lhes secundou o intento ao aplicar os
planos que trazia nas suas pastas. As mesmas repartições portuguesas superiores foram estabelecidas no
Brasil, com o mesmo espírito de
rotina burocrática e o mesmo pessoal indolente e cúpido, erguendo porém a colônia da sua postura de dependência e dando-lhe
foros de soberania. As mesmas instituições judiciárias, militares, escolares,
foram criadas, com as mesmas falhas e vícios, mas com efeitos salutares sobre a
economia moral de um país segregado até então de tudo quanto importava em autonomia
intelectual e personalidade jurídica internacional.

Outras vantagens mais, e excelentes,
lucrou imediatamente a colónia com a honra que, no entender da corte de Lisboa,
a sua temporária assistência dispensava à capital brasileira. Tornou-se livre a
indústria, como livre se tornou o comércio graças às circunstâncias do momento
de que se valeram os esforços de José da Silva Lisboa. Foi o futuro visconde de
Cairu quem de fato na passagem do príncipe regente pela Bahia — onde arribou a
22 de janeiro e donde singrou a 26 de fevereiro — obteve por intermédio de D.
Fernando José de Portugal a decretação de uma tão revolucionária medida.

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