Continued from: Finalidade do Mundo - Farias Brito - vol. 3 (antologia)

Capítulo II (¹)

ATITUDE DO POSITIVISMO EM FACE DA ATUAL ANARQUIA DOS ESPÍRITOS

Como se vê pelo
estudo das teorias modernas como doutrinas de dissolução, puramente negativo é
o resultado das investigações do espírito nesta última fase da civilização,
quanto so esforço pela compreensão da verdadeira significação racional da
natureza. Há, sobre este ponto, do século XVI a esta parte, um trabalho imenso de crítica e de análise; por tal modo
que o historiador que de tudo quisesse dar uma idéia mesmo sucinta havia de se
sentir esmagado ante a prodigiosa variedade de produções e documentes. Mas,
deixando de parte os detalhes, para considerar a obra em seu conjunto,
atendendo somente a suas linhas capitais, vê-se que tudo não passa de uma
estupenda demolição. À mais rigorosa análise foram submetidas as tradições do
passado, podendo se dizer que a demolição foi de tal natureza que não deixou
pedra sobre pedra. E não se limitou essa análise a destruir a fé no passado;
entrou a interrogar também a consciência, e ao mais rigoroso exame sujeitou o
mecanismo mesmo da razão. E aí, cumpre notar, não foi menos implacável a
austeridade do julgamento. Nada conseguiu escapar à curiosidade do pensador e
do crítico. A alma humana foi, por assim dizer, reduzida a pedaços; e a razão
estudada em seus mais ocultos elementos, ficou, em última análise, reduzida a
uma espécie de tabula rasa, não já simplesmente como ponto inicial, mas,
em rigor, como último termo da evolução universal do pensamento .

(1) pp. 25-35

 

É certo que ao lado deste
movimento geral de decomposição, fundadas sobre a observação parcial dos
fenómenos, e sofrendo também, por sua vez, a influência do espírito crítico, as
ciências particulares se foram sucessivamente constituindo.

E pondo de parte inúmeras
outras aplicações das ciências particulares, especialmente da mecânica, basta,
para ver a extraordinária influência da ciência, considerar o seguinte: — que o
vapor aplicado à arte da navegação, produziu uma verdadeira revolução, trazendo
como consequência estas maravilhas da arquitetura naval que percorrem os
oceanos e são o testemunho decisivo do domínio do homem sobre os mares; que o
mesmo vapor aplicado à indústria dos transportes produziu a estrada de ferro
que é o domínio do homem sobre os continentes. E agora mesmo ,a. direção do
balão, descoberta, nos promete tornar uma realidade o domínio do homem sobre o
espaço. Isto sem falar nas inúmeras aplicações da eletricidade que já se cogita
de empregar em substituição ao vapor; isto sem falar nas inúmeras outras
aplicações das múltiplas modalidades da força. . . O que falta ao homem, o que
lhe resta descobrir para acentuar os limites de seu poder?. . . Não será talvez
exageração afirmar que só lhe resta procurar sujeitar a seu domínio as forças
que imperam no centro da terra, ou, alargando um pouco mais o horizonte de suas
aspirações, cogitar, — que direi? — … cogitar talvez da comunicação
interplanetária.

Ora, em face destas
maravilhas das ciências, é natural imaginar que já não se pode ir além. Pois
temos o direito de ambicionar mais alguma coisa? Precisamos, por exemplo, de
cogitar da origem da existência? Poderá ter para nós alguma significação a
indagação do destino das coisas? São os dois problemas capitais da metafísica.
Mas, em primeiro lugar, será dado ao homem chegar sobre estas questões a uma
solução positiva? Depois terá a cogitação destes problemas alguma utilidade
para a vida? É o que é preciso, antes de qualquer outra coisa, considerar. Ora,
a história do pensamento demonstra que, neste sentido, foram até agora
absolutamente infrutíferos todos os esforços do espírito humano. A isto,
entretanto, se têm dedicado os maiores espíritos em todas as épocas; mas o
resultado é totalmente nulo.

É sem dúvida que a coisa excede às
nossas forças; e neste csso o melhor é deixar tudo isto de lado e limitar nosso
trabalho mental a um terreno mais simples, porém com certeza mais seguro, — o
terreno já explorado pelas ciências particulares. Contentemo–nos, pois, com as
ciências e deixemos de parte como coisa vã a filosofia; e se uma filosofia é,
em todo o caso, necessária como totalização da experiência, no dizer de
Kant, ou como síntese do pensamento, no dizer de outros, tal filosofia
só pode ser admitida, limitando-se às verdades gerais já proclamadas pelas
ciências. Não tem, pois, a filosofia um objeto próprio; é apenas o conjunto das
ciências ou em termos mais expressivos, é a sistematização geral das ciências
particulares. Tal é precisamente o ponto de vista do positivismo, hoje
transformado em filosofia científica, sintoma preponderante entre es pensadores
mais eminentes. É também a negação do ideal.

A coisa, entretanto, parece,
à primeira vista, razoável; mas somente para quem desconhece a função própria
da filosofia e a sua verdadeira significação. Eu, porém, me proponho a mostrar
teoricamente a improcedência radical desta solução que, além disto,
praticamente, dá em resultado as mais desastradas consequências na ordem social
e moral.

A questão se presta a
uma longa explanação, nem eu, como é fácií imaginar, poderia aqui esgotá-la sem
me tornar fastidioso. Todavia, limitando-me aos pontos essenciais, darei à
minha exposição a forma sintética, e sobretudo me esforçarei por escrever com
clareza. Uma coisa asseguro: é que a matéria é de interesse para todos.

Nem se pense realmente que
me esteja ocupando de questões que sejam sem interesse para o público. Com
efeito, todos sentem que o mundo passa por uma transformação radical; e ao
passo que, por um lado, as ciências se organizam, dando lugar, como vimos, a um
espantoso desenvolvimento, no que tem relação com as formas da atividade que se
referem às manifestações do trabalho e da indústria, vê-se por outro lado, que
limites inacessíveis sãc impostos à atividade do espírito, no que diz respeito
às manifestações superiores do conhecimento, sendo ao mesmo tempo negada a
autoridade dos princípios que até agora serviram de base ao organismo da
sociedade. Disto resulta um grave estado de perturbação, fazendo sentir os seus
efeitos perniciosos, a anarquia mental que, todos reconhecem, hoje perturba o
mundo. Esta influi sobre a política, influi sobre o governo, influi sobre todas
as manifestações da ordem social, desorganizando a própria família, centro e
base da vida moral, e ponto de partida para a organização do Estado, sendo que
sem moral na família não há, nem pode haver segurança e estabilidade na vida
pública. Tudo isto é muito grave. Mas o que é pior é a extraordinária sede de
inovação que se apodera dos espíritos, constituindo-se o mais poderoso elemento
de desorganização. Fala-se por toda a parte em um direito novo, em uma moral
nova, em uma religião nova; mas quase todas as soluções propostas pelos noves
profetas são puramente negativas. Como exemplo decisivo podemos indicar o
sistema de Augusto Comte que, se propondo a fundar uma nova religião, apresenta
como objeío de nossa adoração a humanidade, isto é, uma mera abstração. E é
curioso, para fazer um juízo da pobreza das idéias, ver certas fórmulas com que
o positivismo procura reproduzir as fórmulas sacramentais da literatura cristã.
É assim que, tendo dito Malebranche em sua linguagem vibrante: "Deus é o
lugar das inteligências"; Lévi-Bruhl, sintetizando o pensamento de Comte e
parafraseando a fórmula de Malebranche, disse, por sua vez: "A humanidade
é o lugar das boas vontades". Dir-se-ia o arremedo de um macaco diante da
fórmula de um gigante.

Ainda mais: o
positivismo é, como se sabe, a forma mais precisa da teoria da relatividade, é
precisamente o relativismo objetivo. Entretanto, eis aqui como se exprime ainda
Lévy-Bruhl, interpretando o pensamento fundamental de Augusto Comte: "Não
há nada de absoluto: tudo é relativo. Entretanto, existe uma realidade suprema
a que todas as outras estão subordinadas, e cuja idéia é o princípio de uma
concepção racional do mundo. Esta idéia é a humanidade". E depois vem
mais: "A idéia de humanidade corresponde à antiga idéia de absoluto. É, se
assim é permitido diz-er, um absoluto relativo". Vê-se que as
contradições se chocam nestas fórmulas ocas; e assim não há exageração, nem
injustiça em afirmar que isto dispensa qualquer análise.

O exemplo, porém,
mais decisivo, ou pelo menos mais ruidoso é o socialismo, que definitivamente
já foi organizado em corpo de doutrina, com todo o aparato e reclamo da ciência
moderna, tendo como representante um pensador que alguns colocam acima de
Darwin e Spencer e que acredita, ele próprio, haver atingido os “altos
luminosos da ciência”. Refiro-me a Marx. Mas o socialismo, mesmo em sua forma
mais alta, apoiado na concepção materialista do mundo, é também uma solução
negativa do problema social, limitando-se por enquanto a pregar a revolução
como meio para destruição da ordem estabelecida. E em suas manifestações
extremas adota como ideal a anarquia mesma, aconselhando como única
medida eficaz a propaganda pelo fato, com todo o seu cortejo de horrores. . .

Estas e outras idéias
análogas, se bem que delas não tenha o público inteira consciência, todavia
fervilham na atmosfera. Daí a inquietação dos espíritos; daí a falta de
estabilidade no que diz respeito em todos os povos ao estabelecimento da
autoridade e à manutenção da ordem pública; daí a agitação revolucionária que é
a feição característica das sociedades modernas. Ora, cogitando-se de uma
solução para esse gravíssimo estado de coisas, é bem de ver que não se trata de
questões que sejam sem interesse para o público.

Isto posto, voltamos ao
ponto essencial do debate. Nossa questão é esta: o positivismo tem proporções
para resolver a crise moderna? Em outros termos: a filosofia científica, isto
é, a filosofia como simples generalização das ciências particulares, tem
competência e autoridade para fazer a dedução das leis da moral?

É desnecessário dizer que
franca e decididamente me resolvo pela solução negativa. Não: é a resposta que
se impõe à razão esclarecida e imparcial. E a demonstração será rápida, nem
precisa de grande esforço.

Com efeito, as ciências
estudam somente aspectos particulares dos fenómenos, modalidades exteriores da
força. Por isto, jamais se poderão elevar a uma concepção do todo.

Ora,
para deduzir as leis da moral, é preciso:

1.°) Que o homem conheça a natureza. 2.°) Que se
conheça a si mesmo.

E isto é evidente, porquanto
ninguém se poderá elevar à compreensão da verdadeira noção do dever, sem
compreender claramente: Io) qual a significação racional da natureza; 2.°) qual o papel que
representa no mundo. Em uma palavra: a moral só pede ser deduzida por uma
concepção do todo universal, isto é, por uma filosofia. Se eu não sei para que
vim ao mundo, se eu não sei qual o destino das coisas, também não sei como deva
proceder. Isto é decisivo. Quando muito poderei imaginar que tudo isto que me
cerca, foi feito para o meu gozo: é a moral utilitária, é a moral do apetite e
do instinto; numa palavra, é a vida conforme a natureza, ao passo que a moral
propriamente dita deve ser a vida conforme a razão.

É o
conhecimento próprio que sobretudo importa para a dedução das leis da conduta,
verificando-se assim mais uma vez a importância e alta significação do conselho
de Sócrates: conhece-te a ti mesmo. Também, por isto forçoso é reconhecer uma
certa verdade no princípio de Protágoras: o homem é a medida de todas as
coisas. É que nada se pode fazer sem a co-participação da consciência. É a
consciência que verdadeiramente constitui a fonte única do conhecimento. O
homem deve primeiro interrogar-se a si próprio: é a condição para interpretação
da natureza. Mas isto é apenas o ponto de partida: começa com esta interrogação
uma elaboração permanente, e para essa elaboração não há limites nem no espaço,
nem no tempo. Em verdade, o homem é apenas um ponto isolado no cosmos. Assim
somos todos. Mas partindo de nós e em torno de nós, para todos os lados se
estende o infinito; e esse infinito que se manifesta fora de nós, nas múltiplas
modalidades da força através do espaço e do tempo, ao mesmo tempo se manifesta
dentro de nós, sob outra forma, nas múltiplas variações da atividade e do
saber. É preciso de tudo isto adquirir uma concepção racional e precisa, para
poder chegar à verdadeira compreensão do dever. Ora, a tanto não podem
pretender as ciências particulares. Logo, são as ciências particulares
impotentes para fazer a dedução das leis da moral.

Tal é a razão por
que o positivismo, ccmo essa chamada filosofia científica, hoje tão
apregoada, isto é, a filosofia como simples generalização das ciências
particulares, foi de um desastre medonho no que tem relação com a dedução das
leis da conduta. E de fato a moral é exatamente a parte fraca, posso mesmo
dizer, a parte nula do positivismo. A ciência social foi, entretanto, a
principal preocupação de Augusto Comte; tanto assim que a ela dedicou mais de
metade de sua obra mais importante — a filosofia positiva; e sobre o
mesmo assunto ainda escreveu um trabalho especial de enormes proporções: a política
positiva.
Entretanto, a sua sociologia poderá valer como uma nova tentativa
de filosofia da história, mas nada representa como sistema de moral. Não nos
apresenta uma concepção nova da moral, nem tampouco uma concepção nova do
direito. Na prática, tratando de deduzir as leis da conduta, ultrapassa o
critério positivista, — e isto era inevitável, — e degenera em metafísica. Mas neste ponto, como é fácil compreender e não podia suceder por outra forma, se
confunde com o materialismo e deduz exatamente a moral utilitária, isto é, a
moral do apetite e do instinto, ou mais precisamente, a moral da força que veio
a encontrar a sua forma mais completa e sincera, como já vimos, em Nietzsche.

 

No que
diz respeito ao estabelecimento da moral, todo esse extraordinário
desenvolvimento das ciências que a tantos causa orgulho, não passa de uma
colossal ilusão. Basta considerar o seguinte: Em que melhorou a nossa sorte?
Poderemos dizer que cessou a miséria? Poderemos dizer que d’agora por diante será
uma verdade a justiça? Neste sentido vem a propósito formular o problema
proposto por Õlzelt Newin em sua Cosmodicéia, publicada em 1898: "No fim de um século que tem deslumbrado o mundo per seu progresso, uma
pergunta se impõe: tornou-se o homem mais feliz?" Cada um responda como
puder.

• E quanto ao
sofrimento, quem poderá evitá-lo? A civilização em vez de o diminuir, até
parece que pelo contrário o aumenta, acreditando muitos que o homem tanto mais
sofre quanto mais se desenvolve, naturalmente por se tornar mais delicada a sua
sensibilidade.

Disto nos oferece uma prova
o próprio Augusto Comte. Não se ignora, de fato, que o fundador do positivismo
teve uma sorte bem triste. Sua vida privada foi uma série de decepções e sofrimentos.
Ele próprio confessa que a tal ponto sofreu, que por três vezes chegou a pensar
no suicídio, preferindo assim o nada à existência, uma vez que, segundo o
espírito de sua própria doutrina, a morte era para ele o nada, sendo que mais
do que nada certamente não vale esta chamada imortalidade subjetiva, única
em que acreditam os positivistas, na memória da posteridade. Do que serviu,
pois, a Augusto Comte todo o seu saber positivo e todo o seu espantoso orgulho
de reformador?

É que para resolver o problema
da vida não basta a ciência, reguladora da indústria e criadora da riqueza, são
indispensáveis também a poesia, criadora do ideal, e a filosofia,
criadora da lei. Para deduzir a moral, o homem precisa de se elevar a uma
concepção coerente e precisa da verdadeira significância racional da natureza,
esforçando-se, por este meio, de dar a justificação metafísica mesmo do
sofrimento e da morte.

 

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