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Capítulo VII (1)

O PRINCÍPIO DA RELATIVIDADE DO
CONHECIMENTO

Uma doutrina, ou mais
precisamente, uma idéia só pode merecer o nome de grande princípio filosófico
quando não só adquire uma vasta extensão, influindo sobre as diversas
manifestações de nossa atividade intelectual, como ao mesmo tempo se impõe a um
grande número de sectários formando por assim dizer a fonte de inspiração e o
princípio do método para uma geração de pensadores. Está neste caso o princípio
da idealidade do espaço e do tempo, que foi o fundamento da estética
transcendental e o ponto de partida para a crítica do conhecimento de Kant.
Está neste caso o ponto de vista positivista que serviu de base ao sistema
filosófico de Augusto Comte. Está neste caso e talvez em proporções ainda mais
consideráveis o princípio da seleção natural adotado por Darwin, aliás em
esfera mais restrita, no domínio particular das ciências naturais, mas a que
outros deram uma extensão extraordinária, transformando-o de princípio
naturalístico em princípio filosófico e universal, em verdadeira lei cósmica,
sendo que até os astrónomos chegaram, na esfera particular de suas
investigações, a fazer aplicação da concepção dawínica, admitindo uma espécie
de luta pela existência entre os astros. Está também neste caso o princípio da
relatividade do conhecimento que chegou a dominar um século inteiro, e não só
se impôs aos maiores representantes de livre pen- samento, como mesmo
foi proclamado e aceito por alguns dos mais autorizados defensores da fé
revelada.

 

(1) pp. 185/188-192/193-200

 

Escusado é assim
dizer que vamos tratar de uma questão cia mais alta importância; e nesta devo
confessar que vou tomar uma atitude que a muitos há de parecer talvez estranha.
Mas nisto, é preciso também que se note, não obedeço a nenhum interesse, nem me
domina qualquer preocupação de sistema. Inspira-me a convicção, e nesta sou
determinado unicamente pela observação imparcial e desinteressada dos fatos.

Isto posto, entremos em assunto.

O problema se divide,
podendo ser considerado sob diferentes aspectos. A primeira questão que se
impõe é esta: como deve ser e como tem sido entendido o princípio da
relatividade do conhecimento? Para resolver essa questão importa determinar com
precisão o conceito da relatividade. A segunda questão é: a relatividade tem mais
de uma forma e serve de base a mais de um sistema filosófico? Na hipótese
afirmativa: quais as modalidades mais importantes desse princípio? O exame
dessa questão se resolve na apreciação e crítica dos sistemas filosóficos
fundados sobre o princípio da relatividade. Por último, a terceira questão é: o
princípio da relatividade fornece um critério seguro para a solução do problema
do mundo? Em outros termos: esse princípio é uma solução
positiva ou antes uma solução negativa para esse problema: é a afirmação, ou
antes, a negação do conhecimento? Isto equivale a fazer a crítica definitiva da
doutrina, definindo-a em face das outras doutrinas e tratando de determinar a
sua verdadeira significação e valor na ordem sistemática do desenvolvimento
histórico do pensamento.

I

O princípio da relatividade
pode ser formulado nestes termos: todo o nosso conhecimento é relativo. É a
expressão subjetiva do princípio; e é assim que geralmente o formulam. Outros
adotam uma fórmula objetiva, afirmando de modo absoluto: tudo é
relativo. Augusto Comte dizia: só uma coisa é absoluta — é que tudo é relativo.
Uma fórmula, porém, não se distingue da outra; e consideradas em essência,
ambas exprimem a mesma coisa.

Além disto o conceito da
relatividade, em si mesmo, não é bem preciso: e cada um o entende a seu modo.
Outros o empregam sem dele ter nenhuma noção, arrastados pela onda, como tantas
vezes sucede, sempre que se trata de uma doutrina nova. Daí resulta uma grave
confusão, sendo antes de tudo necessário precisar a verdadeira significação da
palavra relatividade, distinguindo as modalidades mais importantes deste
conceito, quando empregado em relação com a teoria do conhecimento.

O modo mais simples e mais
natural de compreender o princípio da relatividade consiste nisto: que não se
pode conhecer uma coisa, senão dístinguindo-a das coisas diferentes, ou
identificando-a às coisas semelhantes. Quer dizer: todo o conhecimento se funda
em relações de diferença ou semelhança. Por conseguinte, todo o conhecimento é
relativo. Isto se prova naturalmente, e sem esforço, porquanto todo o
conhecimento se compõe de juízos. Ora, o juízo supõe, pelo menos, duas idéias,
e não é mais do que a expressão da relação entre estas duas idéias, relação
que, com se sabe, só pode ser diferença ou semelhança. Daí resultam como
absolutamente incontestável as duas proposições que se seguem: l.a)
todo o conhecimento se compõe de juízos; 2.a) todo o juízo é a
expressão da relação entre duas ou mais idéias. Verifica-se assim que o
conhecimento se refere não às coisas, mas às relações entre as coisas; e se o
conhecimento só se refere a relações, daí logo se segue: todo o conhecimento é
relativo.

II

O princípio da relatividade
pode ser formulado nestes termos: todo o conhecimento depende da organização do
espírito. É talvez esta a sua forma mais completa e precisa. Ora, a organização
do espírito é a sensibilidade. Dizer, pois, que todo o conhecimento depende da
organização do espírito, é dizer que todo o conhecimento depende da
sensibilidade Isto tem um sentido: quer dizer que não conhecemos das coisas
senão o que nos é transmitido pelos sentidos. É o velho princípio aristotélico:
nihil est in intellectu quod prius non fuerit in sensu. Mas na filosofia
moderna a doutrina tomou proporções extraordinárias. Além disto há distinções
importantes a fazer. Consideremos a questão de modo a tornar bem patentes os
seus principais aspectos.

Na formação do conhecimento temos, de
um lado, a consciência; e temos, de outro lado, as coisas, isto é, as múltiplas
formas da existência. São o sujeito e o objeto do conhecimento. É pela
combinação destes dois elementos que o conhecimento se forma; e o processo para
esta combinação, é, como se sabe, o sentimento, ou mais precisamente, a
sensação. Mas neste ponto vem a propósito perguntar: qual a contribuição com
que entram as coisas, e qual a contribuição com que entra a consciência? Em
outros termos: que é preciso atribuir ao objeto na formação do conhecimento?

Há duas soluções
extremas, radicalmente opostas: o realismo absoluto que atribui tudo ao objeto,
e o idealismo absoluto que atribui tudo ao sujeito. O primeiro nega o espírito;
o segundo nega a matéria. O primeiro diz: tudo é força; e o que se chama
espírito não é senão uma função particular da força. O segundo diz: tudo é espírito;
e o que se chama força, o que se chama matéria, não é senão uma função
particular do espírito. Entre estes dois campos opostos fica o vácuo, quer
dizer: fica o infinito. Mas também inúmeras são as variações intermediárias
quanto à interpretação da existência, conforme se admite maior ou menor
predomínio, ora do elemento objetivo, ora do elemento subjetivo, mas sem
exclusão absoluta, nem de um, nem de outro.

Kant diz: nosso
conhecimento só atinge os fenómenos. Quer de uma, quer de outra proposição com
o máximo rigor se deve deduzir que nosso conhecimento é limitado, relativo,
porquanto quer em um, quer em outro caso, só se refere a uma parte da
existência. Pode-se dizer: o cognoscível, segundo Spencer, os fenômenos segundo
Kant, são o único objeto do conhecimento. Por conseguinte todo o conhecimento é
limitado, relativo, uma vez que o cognoscível, segundo Spencer, ou os
fenómenos, segundo Kant, são apenas uma parte da existência.

A doutrina é, pois, a mesma.
Como se explica, entretanto, que a relatividade é subjetiva em Kant, ao passo
que é objetiva em Spencer? Não parece isto uma coisa difícil de justificar? Não
parece que somos vítimas de uma ilusão, ou que somos arrastados a uma
inevitável contradição, a menos que se estabeleça uma distinção arbitrária entre
o objetivo e o subjetivo?

Esta contradição não
existe de fato, nem é arbitrária a distinção entre o objetivo e o subjetivo. É
que Kant limita o nosso conhecimento aos fenómenos; mas coloca os fenómenos no
espírito; logo a relatividade, com ele a entende, é subjetiva. Spencer limita
nosso conhecimento ao cognoscível, isto é, ao que ele chama também os
fenómenos; mas coloca os fenómenos fora do espírito, na natureza; lego a
relatividade é, segundo ele, objetiva.

Capítulo VIII (¹)

FORMA OBJETIVA DA TEORIA DA
RELATIVIDADE: FILOSOFIA POSITIVA DE AUGUSTO COMTE

I(¹)

Não me deterei muito
tempo na apreciação do positivismo. Desta filosofia já me ocupei com algum
desenvolvimento na primeira parte desta obra, considerando-a cemo sistema
filosófico propriamente dito (caps. IV e V).

Devo observar que o
fundador do positivismo não se ocupou particularmente com a teoria dr.
relatividade. É dele que, como se sabe, nos vem a conhecida fórmula: só uma
coisa é absoluta — é que tudo é relativo. Mas sobre a verdadeira significação
desta fórmula, sobre a verdade que ela encerra, ou que se supõe que encerra,
não se encontram em suas obras senão indicações vagas. Comte de fato não
submeteu a exame o princípio da relativídade:
não apresentou a respeito nenhuma teoria; não definiu, nem estudou este
princípio; mas foi quem mais rigorosamente o praticou; por tal modo que, em seu
sistema, a relatividade do conhecimento já não é somente um princípio, mas um
método. É o que facilmente se compreende, considerando que por isto precisamente
se caracteriza a filosofia positiva: que é uma filosofia que nega o
conhecimento absoluto; que só admite o conhecimento relativo; que adota, pois,
como ponto de partida o princípio da relatividade.

(1) pp. 209/310-213/114, 218/219, 226, 234.

Imaginam talvez alguns que o
positivismo é exatamente a doutrina que está em oposição mais radical com o
cepticismo, e por isto é possível que chegue mesmo a tomar as proporções de um
paradoxo vir alguém a afirmar que se trata, entretanto, aí, de lima dás formas modernas
do cepticismo. Eu me colocarei assim numa posição injustificável e estranha. É
uma solução contrária ao modo comum de pensar, uma interpretação que contradiz
ao bom–senso. Mas atenda-se bem; eu não faço senão colocar as coisas em seus
devidos lugares e dar aos termos a sua natural e legítima significação. Augusto
Comte nega o conhecimento das causas primárias, nega o conhecimento das causas
finais, nega o conhecimento dos seres e das coisas. Como desconhecer, pois, que
a sua teoria seja uma teoria negativa? Com recusar a sua classificação entre os
cépticos? Em rigor poder-se-ia dizer que o fundador do positivismo é até mais
do que céptico. O céptico não nega, duvida. Nisto precisamente consiste a
distinção entre o cepticismo e a sofística. Aqui não se trata simplesmente de
dúvida, mas de negação. Todavia seria injustiça qualificar Augusto Comte como
sofista. Falta-lhe para isto um predicado essencial: a má fé.

Trata-se, pois,
evidentemente de uma filosofia negativa; e tal filosofia não podia deixar de
abortar, uma vez passando da teoria para a prática, isto é, tendendo a
organizar a sociedade, porquanto a organização social só se pode fundar sobre
afirmações, não sobre negações. Todavia uma coisa não se pode negar ao fundador
do positivismo: é a sinceridade. É o que se prova pelo tom de convicção que lhe
é característico, pela extensão de seu esforço, sendo realmente colossal a obra
que empreendeu; pela convicção enfim de que se mostra possuído da missão a que
se julgava destinado.

 

É a razão por
que digo que o positivismo não pode ser equiparado à sofística, obra sem fé e
sem ideal, negando-se para tirar partido, negando-se por sistema. Em Augusto Comte a negação não é sistemática, mas orgânica. Trata-se do desenvolvimento natural
de um processo lógico. É um espírito sequioso de verdade que se alarma com os
desastres da inteligência; e buscando em vão um ponto do apoio que resista no
mar tempestuoso e incerto das opiniões antagónicas, e vendo em torno de si
somente decepções e ruínas, grita para o futuro: — Paremos! Vejamos se não será
possível conseguir o repouso, desistindo do resto e limitando-nos a consolidar
os resultados do trabalho até aqui realizado.

Imaginemos o
explorador de uma montanha que, tendo, depois de inaudito esforço, galgado
certa eminência, se sentisse de todo extenuado e sem forças, e não podendo mais
subir, vedasse a todos de olhar para o alto. Tal é a situação do filósofo
positivista. Todas as tentativas ultimamente feitas com os novos processos de
investigação para descobrir a verdade, foram infrutíferas. Isto demonstra que
não podemos ir além. O que sabemos é, entretanto, muito pouco: nada sabemos dos
seres e das coisas: temos noções e estas mesmas imperfeitas, apenas sobre a
ordem dos fenómenos: conhecemos unicamente certas e determinadas relações entre
as formas existenciais que passam e em sua essência nos escapam: é o que
constitui o objeto das ciências particulares. Quer dizer: nosso conhecimento é
parcial, limitado, relativo. Mas isto é só o que é acessível às nossas forças
cognitivas. Tratemos, pois, de consolidar o que já se pode considerar como
positivamente adquirido e é sob esta base que deve ser estabelecida a
organização das sociedades. Mas quem não vê, quem não sente, interrogando ao
que há de mais profundo em nossa organização espiritual, que esse conhecimento
parcial, limitado, relativo, não nos basta, uma vez que tudo o que existe
interessa ao nosso conhecimento, sendo que a toda a descoberta que se faz na
investigação do desconhecido, sucede uma nova interrogação? Quem não vê, quem
não sente que todo o conhecimento adquirido é sempre uma preparação para
aquisição de novos conhecimentos, de onde resulta que, conquanto seja uma
verdade que todo conhecimento adquirido é relativo, contudo o conhecimento
absoluto é sempre a aspiração suprema de nossa alma? Isto não prova que a vida
do espírito é mesmo uma interrogação permanente, e portanto que o nosso destino
é interrogar, interrogar sempre, não se podendo assim lançar um limite absoluto
à nossa atividade cognitiva?

Em
uma palavra:

 

Há um conhecimento
relativo que existe de fato: é a ciência.

E há um conhecimento
absoluto que existe, senão de fato, ao menos como ideal: é a filosofia.

Este último é uma quimera:
por conseguinte deve ser posto de lado; e assim nos devemos limitar
exclusivamente ao conhecimento relativo, por ser o único acessível ao espírito
humano.

Eu digo: sondar esse
mistério, alargar a esfera dos nossos conhecimentos, e trabalhar, trabalhar
sempre por entrar pelo desconhecido a dentro — eis o fim próprio, a missão
especial da filosofia, que é uma atividade permanente do espírito, nem se
esgota porque algumas ciências já foram constituídas, uma vez que o
desconhecido, como confessa Bourdeau, como reconhece o próprio Augusto Comte,
como reconhecem todos, ainda nos cerca por todos os lados e está dentro de nós
mesmos. E desde que tudo o que existe interessa ao nosso conhecimento, e nada
há que não estimule a nossa curiosidade; desde que o que sabemos, por maior que
seja o desenvolvimento da ciência, por maior que seja o entusiasmo que
desperta, a verdade é que considerada em relação com a infinidade do todo, nada
é; desde que, "todo o nosso conhecimento", na frase mesma de
Bourdeau, "é como um ponto luminoso no meio de uma imensidade negra que
nos envolve", não há razão para que devamos parar. Pelo contrário devemos
trabalhar sempre por aumentar a esfera de nosso conhecimento, por aumentar a
intensidade desse ponto luminoso que brilha no meio da noite infinita que nos
cerca por todos os lados. É a razão por que já uma vez disse e agora repito: A
filosofia não é uma obra feita, mas uma obra a se fazer sempre. Ela tem por
objeto precisamente a investigação do desconhecido; é o espírito mesmo em sua
atividade permanente; perennis philosophia, dizia Leibniz; é a elaboração
mesma do conhecimento; é a árvore de que resulta como um fruto a ciência; e
como tal, nas mesmas condições que a natureza mesma, seu objeto, não tem
limites, nem no espaço, nem no tempo.

(1) pp. 233/235, 239/240,
248/250. 134

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