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A atual província da Bahia abrange, como já mencionamos, a totalidade restante do antigo governo-geral do mesmo nome, as três velhas capitanias da Bahia, Ilhéus e Porto Seguro, e, além disso, desde 3 de junho de 1820, ainda uma considerável porção do antigo território pernambucano à margem esquerda do rio São Francisco; ao todo, uma área de cerca de 14.000 léguas quadradas, com a população de 1.000.000 de almas, aproximadamente, das quais, entretanto, a maior parte está estabelecida na pequena porção norte da faixa de costa, em torno da baía de Todos os Santos.

E esta pequena parte ao norte, a velha capitania da Bahia propriamente dita, foi sobretudo o teatro da história da província; foi ela a mais meridional das regiões brasileiras que sofreram da parte dos holandeses, por diversas vezes, sério assalto, em 1624, 1638, 1647, e foi durante todo o tempo da invasão holandesa o ponto central, o quartel-general da resistência portuguesa.

Tais circunstâncias naturalmente impuseram à capitania, principalmente à capital, grandes esforços e encargos; em compensação, foram os prejuízos diretos de guerra tanto menores; a produção de açúcar continuou quase sem estorvo, e, finalmente, a fundação da Companhia de Comércio Luso-Brasileira, 1649-1721, trouxe grande vantagem para a cidade de São Salvador, pelo fato de ser elevada a principal empório para todo o comércio com a mãe-pátria. Assim, na terminação da guerra holandesa, São Salvador, como as suas próximas vizinhanças, os arredores da Bahia, nada haviam perdido da antiga prosperidade, e podia, então, certamente ser considerada como a que dispunha de maior bem-estar e a mais povoada entre as províncias brasileiras, 1660.

Não eram tão boas as condições da região mais para o sul, o extremo sul da capitania da Bahia, e as anexadas capitanias de Ilhéus e Porto Seguro. Aqui se havia sempre tido que sustentar penosas guerras contra os selvagens indígenas, os Aimorés (Botocudos), e a colonização portuguesa, por mais que procurasse estender-se, era sempre repelida e restringida a poucos pontos da costa. Agora, estando o governador-geral ocupado com a guerra em Pernambuco, tendo que deixar fora de suas vistas, muito tempo, esta região, o estado de coisas ainda piorou; os índios selvagens, reforçados pela reunião com tribos aparentadas, renovaram as suas depredações, e, embora os colonos brancos se defendessem muitas vezes com bravura e felicidade, a sua posição tornava-se de ano para ano mais insustentável. A sua ruína parecia inevitável, quando o governo, ainda a tempo, acudiu com o socorro.

Era justamente o tempo em que habitantes da província de São Paulo, em grandes bandos armados, percorriam todo o sertão brasileiro e davam caça às tribos índias não subjugadas (como já encontramos expedição deste gênero em 1672 no Pará, em 1674 no Piauí). Com uma dessas bandeiras de paulistas, sob a chefia de João Amaro, entrou em negociações o governador-geral da Bahia, e, como lhe garantissem uma recompensa de 8.000 cruzados, consentiu de boa vontade em levar socorro aos colonos em apuros.

No ano de 1673 apareceu ele com a sua gente; as milícias do país se lhe associaram; e então ele percorreu durante muitos anos o interior baiano em todas as direções, até ao rio São Francisco, derrotando as tribos selvagens, destruindo os seus aldeamentos; milhares de índios foram trucidados, milhares vendidos como escravos no mercado de São Salvador; aqueles que escaparam da espada e da prisão mais se embrenharam nas selvas.

A expedição de João Amaro assegurou por muito tempo sossego quase total para estas regiões; todavia, a colonização não deu sensível passo para diante, pois faltavam os braços de lavoura, e da escassa imigração portuguesa quase não chegou nada a este território.

Para maior desgraça, recomeçou durante o século XVIII o antigo mal, a guerra contra os índios; as tribos selvagens que João Amaro havia subjugado, no decurso de algumas gerações, recuperaram as forças e de novo irromperam devastadoras dos seus covis, cerca do ano de 1730; por toda parte, ficaram os colonos em desvantagem; as colônias mais avançadas para o interior tiveram que ser completamente abandonadas, e mesmo na vizinhança das grandes fundações da costa o lavrador, enquanto cultivava o seu campo, não podia deixar de ter as armas à mão. Este estado de coisas continuou até voltarem as duas capitanias feudais, Porto Seguro e Ilhéus, 1759 e 1761, de todo para o direto domínio da coroa e serem incorporadas na capitania geral (província) da Bahia; daí em diante muito se fez para a sua segurança, ora combatendo contra os índios pelas armas, ora procurando amansá-los por meio de missões e bons tratos. Contudo, conservaram-se diversas tribos, sobretudo os Aimorés, e mais para o sul, os Puris, até hoje, na sua independência selvagem, em toda a faixa de costa da metade sul da província da Bahia, ainda muito escassamente cultivada e povoada, quase selva virgem.

Vida historicamente mais rica teve a pequena metade norte da província, a vizinhança da baía de Todos os Santos; todavia, está a sua história muito longe da pernambucana em interesse e variedade, e somente poucos acontecimentos são de natureza a merecer menção minuciosa. £m primeiro lugar, os distúrbios na capital, São Salvador, por 1682-1684. O então governador-geral, Antônio de Sousa de Meneses, era um velho oficial de merecimento e pessoalmente bem intencionado; porém, por desgraça, deixou-se levar completamente pelo comandante da cidade, o alcaide-mor Francisco Teles de Meneses, e este último usou a sua influente posição para abusos, extorsões e violências de toda espécie, de maneira que atraiu sobre si o rancor de toda a população. A vingança não tardou; Francisco Teles foi apunhalado na rua por um distinto baiano, que tinha para vingar uma antiga inimizade de família e várias ofensas; o assassino gabava-se do seu feito e, protegido pelo povo, pôs-se a salvo no inviolável asilo do convento dos jesuítas. Com razão indignou-se ao mais alto ponto o governador-geral pelo assassínio de tão alto magistrado, seu favorito; porém deixou-se levar por sua cólera a praticar violências, contrárias a toda a justiça.

Primeiramente, tiveram os jesuítas que expiar por haverem ousado dar asilo a um assassino; o governador-geral desfechou contra alguns dos mais eminentes membros da ordem as mais irreverentes ofensas e mesmo acusou junto da corte toda a Companhia de Jesus como instigadora do plano do assassínio; além disso, mandou prender grande número de homens, em grande parte das principais famílias, e investidos em cargos públicos, e demitiu-os de suas dignidades, a pretexto de cumplicidade; sem cessar, faziam-se devassas e encarceramentos; tudo arbitrariamente, sem pretexto algum legal.

Então, os perseguidos e o Conselho Municipal, em segredo, escolheram representantes para kv-ra Lisboa as queixas sobre a intolerável opressão; o governador-geral teve disso notícia; mandou vigiar o porto, para impedir a partida dos enviados, o que, todavia, não conseguiu; e assim a frota, desta vez, levou para além-mar, segundo o trocadilho português, "mais queixas que caixas".

Por felicidade, o ministério português deu ouvidos, embora só depois de demoradas deliberações, a essas reclamações, e mandou para substituir Antônio de Sousa novo governador-geral, o marquês das Minas, que, a 4 de junho de 1684, entrou em função de seu cargo na Bahia; ele chegou ainda a tempo de prevenir uma explosão do geral descontentamento, que de outro modo se teria dado infalivelmente.

O governo do marquês das Minas, embora em geral benfazejo, 1684-1687, alcançou uma triste celebridade, porque justamente então, originária de Pernambuco, grassou uma peste que desceu por toda a costa brasileira e que sobretudo assolou terrivelmente a Bahia, até que, pela intercessão de São Francisco Xavier, se foi extinguindo pouco a pouco. O santo foi nomeado, em recompensa por seu poderoso auxílio, padroeiro da cidade de São Salvador, em 3 de março de 1687; não teve tão grande recompensa o governador-geral, embora ele, em todo caso, tivesse direitos à benemerência, por verdadeiros serviços prestados; pois, mesmo no auge da epidemia, correndo risco do contágio, aliviava os padecimentos dos doentes, com exortações amistosas e esmolas, prestava as últimas honras aos defuntos; e, ao passo que, com esse exemplo de coragem, ele levantava o moral da população apavorada, preservou a cidade contra o terrível espetáculo de cenas de desenfreado desespero, que em semelhantes circunstâncias quase sempre acontecem.

Seu sucessor, Matias da Cunha, faleceu ao cabo de um ano de governo, antes de expirar o prazo de sua administração (24 de outubro de 1688), e os seus últimos momentos foram ainda amargurados por uma insurreição de soldados. A guarnição, já desde muito descontente, porque havia nove meses não recebia o soldo, aproveitou-se da acefalia em que tudo ficou pela súbita doença mortal do governador-geral, para com violência nova apresentar as suas reclamações; reuniram-se e ameaçaram saquear a cidade, se até à noite não fossem satisfeitos. Na verdade, o Conselho Municipal conseguiu o dinheiro no prazo indicado; porém com isto ainda não ficaram satisfeitos os soldados; exigiram, por escrito, uma anistia por sua sedição, e o governador-geral, no seu leito de morte, ainda teve que satisfazer a essa pretensão e assinar o perdão; imediatamente depois ele expirou.

Um governo provisório tomou as rédeas do poder e no fim de dois anos as entregou ao novo governador nomeado, Antônio Luís Gonçalves da Câmara Coutinho, 1690-1694. Este teve de seu lado, embora não na sua imediata jurisdição, de combater numa das capitanias anexas, contra novas perturbações do sossego público.

Em Porto Seguro justamente então cinco homens de famílias distintas haviam-se reunido e ajuntado em torno de si um forte bando de gente vil, com cujo auxílio eles, sem receio algum, tiranizavam toda a região; nem as vidas nem as propriedades estavam seguras, a salvo de suas violências. Para pôr termo a essa anarquia, despachou o governador-geral um funcionário da justiça, com séquito militar, que conseguiu efetivamente de noite apanhar de surpresa os principais culpados; foram presos e levados à Bahia e ali decapitados por sentença judicial; os seus sequazes fugiram para as matas, e a ordem do Estado ficou restabelecida.

Distúrbios inteiramente idênticos, que pouco tempo depois se deram, e foram reprimidos, em Sergipe, e do mesmo modo foram abafados pelas autoridades de Salvador, cerca do ano de 1696, já foram citados.

Mais sério foi o motim do ano de 1711-1712, na capital, São Salvador, o qual aconteceu exatamente numa ocasião em que também estavam em apuros as duas outras grandes cidades do Brasil, parte por motivo de guerra civil, parte por ataque do estrangeiro. Recife estava então em luta com a sua vizinha, Olinda, e os fazendeiros pernambucanos; Rio de Janeiro acabava de ser ocupada por um flibusteiro francês, o almirante Du Gay Trouin, que a conservou até lhe ser paga uma alta quantia de resgate, setembro-novembro de 1711. Ambos os acontecimentos deram mediata causa aos distúrbios da Bahia; o governo-geral sentiu a necessidade de assegurar melhor a costa; resolveu, para esse fim, reforçar as fortalezas dos portos, estacionar uma esquadra de cruzadores ao longo da costa; e, para arranjar o dinheiro necessário a esses preparativos, o governo ordenou a cobrança de um imposto de 10% sobre o valor de todos os artigos de importação.

Este decreto produziu muito azedume em São Salvador, onde estava concentrada a maior parte do comércio brasileiro; receava-se que o imposto extraordinário, uma vez cobrado, ficasse permanente; e, quando o governador-geral, Pedro de Vasconcelos e Sousa, imediatamente após a tomada de posse de seu cargo, 14 de outubro de 1711, quis pôr em execução o novo imposto, e ainda mais o preço do sal (o sal era no Brasil monopólio do governo) subiu mais de metade, declarou-se então a revolta.

Realizou-se uma reunião popular tumultuosa e nela foi eleito um juiz do povo; os sinos tocaram a rebate, e dentro de pouco tempo foi o edifício do governo cercado de todos os lados pela populaça enfurecida, ao passo que uma deputação, com o juiz do povo à frente, penetrou no palácio e apresentou ao governador-geral as reclamações do povo: revogação do novo imposto de üaportação e restabelecimento do antigo preço do sal; enquanto ambos não fossem concedidos, não se dispersaria a multidão. Pedro de Vasconcelos replicou que ele não tinha poder para satisfazer a esses desejos, pois em ambos os casos cumpria as ordens do rei; resposta que só serviu para excitar ainda mais a exasperação dos revolucionários; então eles próprios obteriam o seu intento pela força, gritaram eles.

E correram tumultuariamente, à morada de Manuel Dias Filgueira, arrendatário do monopólio do sal; a sua casa foi tomada de assalto, os seus haveres saqueados ou de propósito destruídos; o mesmo aconteceu a segundo negociante português; todavia, ambos escaparam incólumes com as suas famílias.

Debalde se procurou acalmar o povo enfurecido, com o prestígio da crença religiosa; o arcebispo, à frente de seu clero e das irmandades, levou o Santíssimo

Sacramento em procissão pelas ruas da cidade, e, quando ele apareceu no teatro daquela pilhagem, o tumulto cessou; o povo prestou à hóstia consagrada o costumado reverente respeito e acompanhou-a devotamente de volta à igreja, de onde havia saído; porém, apenas estava de novo a hóstia no seu lugar habitual, no altar, foram logo em seguida de novo desembainhadas as espadas, o palácio do governo de novo cercado. Então não achou o governador-geral mais outra solução; todas as autoridades, inclusive o seu antecessor no cargo, que ainda demorava em São Salvador, aconselharam-no a ceder, e assim se conformou ele; ambas as reclamações do povo foram atendidas, também uma anistia para tudo que havia acontecido no correr do dia foi expedida com todas as regras, por escrito. Somente aí — çram seis horas da tarde — emudeceu o rebate dos sinos, que até então ininterruptamente havia ressoado, e o povo se dispersou.

Porém, com isso não se sossegou: aos demagogos havia agradado sobremodo a soberania licemi > que eles haviam exercido durante o curto espaço de um dia, e assim, passadas apenas algumas semanas, convocaram de novo o povo com rebates de sinos; de novo, viu-se o governador-geral cercado; e eles exigiam desta vez que, sem demora, despachasse uma esquadra para levantar o cerco do Rio de Janeiro. Debalde fez ele ver que para isso faltava dinheiro, material de guerra, em suma, tudo; os amotinadores não queriam saber de nada, e, finalmente, autorizaram-no, por decreto do povo, a aplicar os dinheiros depositados nos conventos para fins religiosos; a quantia que ele necessitasse seria reposta por meio de uma contribuição extraordinária, imposta de preferência aos negociantes portugueses. Vasconcelos viu-se obrigado a anuir; no dia imediato teve também o Conselho Municipal, apesar de todas as objeções, que se conformar com as ordens expressas do juiz do povo e sancionar o decreto do povo. Todavia, não chegou a ser executado, porque, apenas se cuidava dos primeiros aprestos, chegou a notícia de que os franceses haviam desocupado o Rio de Janeiro (novembro de 1711), e então não se tratou mais da questão.

Porém as conseqüências de ambas estas arruaças repercutiram durante muito tempo; o juiz do povo conservou o seu poder usurpado, e logo, assim que as autoridades não se sujeitassem à sua vontade, aos "interesses do povo", ameaçava ele com o rebate dos sinos e com um levante, de sorte que as autoridades regulares se viam a todo momento estorvadas nas suas funções. Por este motivo, mandaram, às caladas, queixas a Lisboa; e daí veio uma ordem do rei, que abolia desde logo e para sempre o juizado do povo, esse tribunal revolucionário; e também foi ordenada uma investigação acerca das últimas perturbações da ordem, ao que os cabeças dos motins recorreram à fuga; os restantes foram perdoados e a tranqüilidade se restabeleceu (1712).

Durante o século XVIII, a história provincial da Bahia é muito pobre; uma sedição de soldados, a 10 de maio de 1729; a transferência do vice-reinado para o Rio de Janeiro, em 1763, pela qual a cidade de São Salvador, embora diminuída de categoria, quase não sofreu prejuízo material; uma conjuração de escravos, que foi a tempo descoberta e dominada, em 1798; — foram mais ou menos os únicos sucessos que temos para assinalar. Fora isto, a colonização no sertão baiano fez sempre novos progressos, sem que, contudo, estas colônias jamais alcançassem grande importância.

Só o princípio do século XIX trouxe diversas ocorrências importantes. Primeiro que tudo, a família real de Bragança, quando emigrou das suas possessões européias para as sul-americanas, desembarcou na baía de Todos os Santos, a 22 de janeiro de 1808, e por um momento teve São Salvador a esperança de recuperar a sua antiga categoria de capital: a população ofereceu construir à sua custa para os augustos hóspedes um condigno palácio, se eles ali quisessem ficar; todavia, foi a oferta declinada, e prosseguiu a viagem para o Rio de Janeiro, em fevereiro.

Entretanto, antes, assinou aqui em Salvador, o então príncipe-regente, depois rei dom João VI, o memorável decreto pelo qual anulava o vigente monopólio da mãe-pátria e abria os portos do Brasil a todas as nações amigas (28 de janeiro de 1808).

Também foi em breve removida uma outra relíquia do antigo sistema colonial de coação: um documento do punho real, de 5 de fevereiro de 1811, concedia licença para o estabelecimento de uma tipografia em São Salvador, concessão que Portugal durante três séculos havia recusado ao seu Estado-filho. Assim, entrou, finalmente, a Bahia em relações regulares, tanto com a vida comercial, como com a intelectual, dos tempos modernos.

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