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Chegamos agora àqueles anos em que a revolução pernambucana de 1817 inaugurou a era moderna da revolução brasileira; torna-se aqui necessário caracterizar, em resumo, qual era a situação política de então da Bahia.

Em geral, existiam aqui os mesmos elementos de antagonismo, a mesma agitação dos espíritos, que havia então em Pernambuco, e também aqui haviam cristalizado em sociedades secretas, em parte de caráter maçónico; todavia, ao que parece, a população baiana nunca chegou a tão arrogante orgulho provincial como a da vizinha província ao norte. Ademais, a administração da província estava justamente então, 1810-1817, nas mãos de um homem forte, Marcos de Noronha e Brito, conde dos Arcos, que, se por um lado mantinha um regime bastante severo, por outro lado procurava de todos os modos promover o desenvolvimento material e espiritual da Bahia, e especialmente numa ocasião do maior perigo alcançou grande merecimento e gratidão geral.

Nos primeiros anos de seu governo, cerca de 1813, rebentara uma revolta de escravos, cuja origem, como acontecia sempre em tais casos, permaneceu obscura; todavia, as causas podem ter sido, de um lado, algumas severas medidas de polícia, de outro lado, talvez o se haverem implantado também entre a gente de cor o espírito de oposição e as idéias de liberdade, que a esse tempo eram objeto das discussões entre a população branca. Enfim, formou-se uma conjuração, e, pelo fato de serem os negros baianos quase sem exceção recrutados na Costa do Ouro africana, por isso muito unidos pelo laço estreito de nacionalidade, não se encontrou entre eles um só traidor, embora o plano contasse alguns milhares de participantes. Sempre se notaram alguns sintomas; observou-se como os negros, nas costumadas reuniões que aos domingos faziam, sob a presidência do seu chefe escolhido, numa praça pública de São Salvador, matavam brancos em efígie; contudo, as autoridades não deram importância a estas supostas comédias, e assim as encontrou desprevenidas o motim que estalou.

Num momento dado, durante a noite, sublevaram-se, ao mesmo tempo, os negros em diversas fazendas da vizinhança e trucidaram quase todos os brancos que lhes caíram às mãos; depois avançaram em bandos selvagens, bradando ameaças terríveis, contra a cidade, exigindo a liberdade para todos os escravos e proclamando o capitão-general, conde dos Arcos, rei dos negros livres.

Naturalmente não quis este último saber da honra que lhe era destinada; ele ajuntou rápido o que existia à mão, em soldados e homens que pudessem usar armas, e, depois de um curto combale encarniçado, foram os revoltosos vencidos e obrigados a entregar-se; um grande número deles pagou com a vida, muitos outros sofreram severos castigos corporais; o tradicional direito de reunião dos pretos foi abolido e todos os seus movimentos passaram a ser vigiados daí em diante com o máximo cuidado.

Depreende-se daí, que em tais circunstâncias, a revolução pernambucana de 1817 não encontraria aqui repercussão alguma; a população, em geral, receosa de novos levantes de escravos, conservou-se fiel às autoridades reais, e o capitão-gene-ral, conde dos Arcos, obrou com a sua costumada energia; ele mandou prender, logo ao desembarque, um padre que como emissário pernambucano, chegou à Bahia, e, sem mais, fez condená-lo ao fuzilamento 95, por um conselho de guerra, ao passo que ao mesmo tempo mandava fazer aprestos militares em mar e em terra, auxiliado por donativos espontâneos; e este contingente baiano agiu então de modo considerável, em ^mjunto com o Rio de Janeiro, para a pacificação de Pernambuco, para a conquista de Recife.

Ainda no mesmo ano, o conde dos Arcos foi exonerado da Bahia; substituiu-o Francisco de Assis Mascarenhas, depois conde e marquês da Palma (26 de janeiro de 1818), que durante três anos governou a contento geral. Todavia, ele não logrou impedir o progresso das idéias revolucionárias; quando chegou a notícia da revolução portuguesa de agosto-setembro de 1820, declarou-se também a Bahia, tal qual acontecera nas províncias do Norte, por uma carta constitucional monarquista (10 de fevereiro de 1821); uma junta provisória colocou-se à testa do governo provincial, a cujas mãos Mascarenhas, o último dos capitães-generais, entregou o seu poder; em seguida, embarcou ele para o Rio de Janeiro, depois de ainda haver recusado a oferecida presidência da junta.

O movimento revolucionário prosseguiu então irresistível, até finalmente chegar à declaração de independência, à constituição do império do Brasil, e em tudo isto, como se sabe, a capital do império e a província do Rio de Janeiro deram o exemplo; a Bahia estava apenas em segundo plano; em compensação, foi esta província o único teatro onde a bandeira da independência do Brasil teve que sustentar sérios combates.

Na cidade de São Salvador existia, além de muitos regimentos brasileiros, também uma forte guarnição portuguesa que, a princípio, enquanto se tratava apenas de uma transformação constitucional dos reinos unidos de Portugal e Brasil, estava de mãos dadas com a gente do país, e obedecia de bom grado ajunta provisória; porém, com o tempo, à medida que o movimento foi tomando feição mais nacional, a colônia cada vez mais dissentia da mãe-pátria, então também aqui se pronunciou um forte dissídio nacional; houve vários atritos e finalmente formal combate de rua entre soldados brasileiros e portugueses (novembro de 1821).

Sem dúvida, soube o então comandante em chefe, Manuel Pedro de Freitas Guimarães, restabelecer, por sua moderação, provisoriamente a paz e a tranqüilidade exteriores; porém, poucos meses depois, foi esse oficial exonerado. É que o gabinete de Lisboa resolveu, visto se tornar o movimento revolucionário no Brasil sempre mais ameaçador, visto o Rio de Janeiro e a maioria das províncias já haverem despedido as guarnições portuguesas e com isso haverem de fato entrado na posse da sua independência, ao menos na Bahia conservar-se firmemente; para ali mandou todas as tropas disponíveis e o comando militar superior foi confiado ao coronel Inácio Luís Madeira e Melo, homem conhecido por sua implacável energia, e não menos por sua decisiva oposição ao desejo separatista brasileiro.

A 14 de fevereiro de 1822, chegou o decreto em questão a São Salvador, e a 16 os regimentos portugueses prestavam homenagem ao novo comandante-chefe; ao contrário, os brasileiros recusaram reconhecê-lo, e, apoiados por uma fortaleza, ousaram oferecer resistência à sua autoridade. Daí resultou combate sangrento; durante três dias, 18, 19, 20 de fevereiro, pelejou-se com grande encarniçamento de ambos os lados; as obras avançadas, o forte, foram expugnados, igualmente um convento de freiras da vizinhança, no qual os brasileiros faziam a última resistência, e onde então os portugueses, na embriaguez da^sólera, tudo devastaram de modo terrível96; também nas ruas ainda se combateu algum tempo; triunfaram por fim as tropas européias por toda parte, e o general Madeira achou-se na posse incontestável da cidade de São Salvador.

A vitória custara caro e absolutamente não fora completa; durante os combates uma grande parte dos cidadãos abandonaram a cidade, com os seus haveres; as povoações dos arredores declararam-se todas pela independência brasileira e suspenderam todas as comunicações com São Salvador; em breve ajuntaram-se a elas os restantes da guarnição brasileira dispersada e, reforçados por numerosos voluntários, estabeleceram um bloqueio irregular, de sorte que os portugueses, se não lhes chegasse o abastecimento de víveres pelo mar, só de armas na mão, obtinham provisões de boca.

A sua posição era, destarte, pouco vantajosa, e, além disso, a 15 de junho, chegou a ordem do príncipe-regente d. Pedro, que lhes mandava regressassem imediatamente para Portugal; todavia, o general Madeira recusou-se a obedecer; ele estava firmemente resolvido a defender, até à última extremidade, o posto que lhe fora confiado, e nesse propósito ele ainda mais se firmou com as novas ordens e novos reforços vindos de Lisboa.

Por outro lado, estabeleceu-se melhor ordem nos esforços dos patriotas baianos, desde que o general Labatut97, mandado do Rio de Janeiro, ali havia assumido o supremo comando; o bloqueio tornou-se assédio regular; sempre mais se apertava o círculo em torno da cidade; e, quando os portugueses, a 7 de novembro de 1822, fizeram mais uma tentativa de romper e atravessar as linhas inimigas, foram eles repelidos, apesar de três vezes se arremessarem em ataque impetuoso, e tiveram, depois de sofrer grandes perdas, que se recolher atrás dos muros da praça98.

Assim, repetia-se aqui na Bahia o mesmo espetáculo que se vira duzentos anos antes, no tempo da ocupação holandesa (1624-1625); todo o territorio interior estava nas mãos dos naturais do país; eles conservavam bloqueados os estrangeiros, dentro dos muros da capital conquistada; porém não conseguiam vencê-los, nem pela espada, nem pela fome, enquanto ficasse aberta a comunicação pelo mar. Também desta vez foi uma esquadra que teve de fazer pender a balança para um dos lados: Thomas, lorde Cochrane, que,- desde 27 de março de 1823, havia entrado para o serviço imperial brasileiro, como almirante, foi, por isso, sem demora, mandado à Bahia, onde entrou em fins de abril. Uma esquadra portuguesa, superior em forças, que estacionava na Bahia, e com a qual lorde Cochrane (seis grandes navios contra nove) se mediu em combate que ficou indeciso, 4 de maio, em xodo caso sempre protegeu a cidade e o porto contra ataque direto; porém ela não podia impedir que os rápidos veleiros brasileiros excercessem o mais rigoroso bloqueio.

Agora, cercados por todos os lados e privados de todo abastecimento de víveres, em breve ficaram os portugueses em São Salvador reduzidos às mais extremas privações; primeiramente se viram forçados a mandar sair da cidade todas as mulheres, crianças e doentes, umas dez mil pessoas (10 de maio); todavia, mesmo assim, pouco tempo duraram as provisões de boca, e a fome com todos os seus horrores declarou-se ali.

O general Madeira já não podia mais iludir-se que combatia por uma causa perdida; a 24 de junho ele convocou os seus oficiais para um conselho de guerra, e nele se tomou a deliberação de evacuar a cidade da Bahia, dentro de 14 dias. Imediatamente foram tomadas as necessárias medidas; o exército, as provisões de guerra, os bens do governo, tudo que era de valor e que podia ser transportado, foi embarcado, e a l9 de julho estava a esquadra portuguesa, embarcações de guerra e cargueiros, pronta a fazer-se de vela; na noite seguinte, ela levantou âncora e navegou para a pátria, para Portugal, perseguida pela pequena esquadra de lorde Cochrane, que em caminho conseguiu ainda capturar uma grande parte dos navios-transportes. Porém o exército de terra baiano, comandado pelo coronel José Joaquim de Lima e Silva, entrou triunfante na cidade libertada de São Salvador e desfraldou ali a nova bandeira nacional brasileira; estava concluída com felicidade a guerra da Independência (2 de julho de 1823).

Daí em diante, nos últimos trinta anos, nenhum acontecimento de vulto se pode destacar na história provincial da Bahia. Verdade é que todas as revoluções que abalaram todo o império também ali acharam repercussão mais ou menos forte; todavia a Bahia nunca representou papel saliente; e se ali, por motivo de orgulho provincial, houve oposição contra o poder central do Rio de Janeiro, logo se apaziguou completamente com o Ato Adicional Constitucional, de 12 de agosto de 1834, que concedia certa autonomia a todas as províncias.

A maioria das perturbações da ordem nos tempos modernos foram simplesmente de puro caráter provincial e sempre tiveram aqui (visto os demagogos se apoiarem de preferência na população negra, e esta última sempre se conservar estreitamente solidária) a feição de levante da plebe de cor, sem posses, contra os brancos.

A maior parte de tais revoltas. — abril de 1828, janeiro de 1835, etc, — foram abafadas logo em sua origem, ou no nascedouro; somente uma, que estalou a

7 de novembro de 1837, alcançou maior importância" e "~\ Nessa ocasião um bando de revolucionários atacou de improviso a capital, São Salvador, e obteve, depois de curto combate, o predomínio, ao que as autoridades, assim como a maioria dos cidadãos, procuraram a salvação na fuga.

O governo provincial tomou para sua sede provisória a ilha de Itaparica, onde reuniu em torno de si as milícias do país e mandou vir tropas do Rio de Janeiro e de Pernambuco; com estes auxílios atacou os insurgentes, que durante muitos meses opuseram resistência eficaz; porém, afinal, triunfou a causa da ordem, e a 16 de março de 1838 estava de novo São Salvador em poder das tropas e autoridades imperiais. Contudo, esta revolta foi um duro golpe para o bem-estar da cidade e de toda a província; suas trágicas conseqüências só em muitos anos se eliminaram.

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