Continued from: Biografia de Alexandre o Grande - Plutarco - Vidas Paralelas

(7) Ele dava a si mesmo o nome de Fénix, a Alexandre o de Aquiles, etc.
(8) Sete mil e oitocentos escudos, — Amyot.
60.684 libras francesas

X. Considerando que sua natureza era difícil de manejar,
porque se obstinava em não querer ser forçado a nada, mas como por advertência
fosse facilmente conduzido à razão, ele próprio tratou sempre de assim persuadi-lo
do que desejava que ele fizesse, em lugar de dar-lhe ordens. E, não se fiando
demais na educação do filho pelos mestres de música e de literatura, que pusera
junto dele para ensinar-lhe, irias estimando que era encargo de maior alcance
que o deles, e que ele tinha necessidade, como diz Sófocles.

De vários freios e
timões diversos, mandou buscar Aristóteles, o mais famoso e mais sábio filósofo
da época, pagando-lhe condigno salário pela educação do filho. Após devastar e
destruir a cidade de Estagira (9), da qual era natural, reconstruiu-a depois em
favor dele e para ali enviou de novo os habitantes que haviam fugido ou que
haviam sido reduzidos à servidão, ordenando-lhe para moradia e sede dos estudos
a casa de recreio

(9) Na costa do mar Egeu, entre Anfípolis e Acanto, na parte da
Macedónia chamada Calcídica situada ao pé da cidade de Mieza (10), onde ainda
existem assentos de pedra que Aristóteles mandou construir em aldeias cobertas
de árvores para passearem à sombra.

XI. Assim me parece que Alexandre não aprendeu com ele
somente as ciências morais e políticas, mas também ouviu as outras mais
secretas, mais difíceis e mais graves doutrinas, que os discípulos de
Aristóteles chamavam propriamente de acroamáticas ou epópticas, como quem diz
especulativas, que é preciso ter ouvido o mestre para entendê-las, ou reclusas
atrás do conhecimento vulgar. Tais ciências eles não publicavam nem comunicavam
a todos, de maneira que Alexandre, já tendo seguido para a Ásia, ao ouvir que
Aristóteles produzira e publicara alguns livros, escreveu-lhe a esse respeito
uma carta em honra da filosofia, do teor seguinte: — "Alexandre a
Aristóteles, saúde. — "Não fizeste bem em publicar teus livros de ciências
especulativas, porque não teremos nada acima dos outros se o que nos ensinaste
em segredo é publicado e comunicado a todos. Desejo que saibas que eu
preferiria superar os outros no conhecimento das coisas elevadas e sublimes, e
não em poder. Adeus". Ao que Aristóteles, para atenuar esse ambicioso
descontentamento, respondeu-lhe que os tais livros não tinham sido publicados (11)
nem o seriam; pois, na verdade, em todo o tratado que ele chama de metafísica,
como se dissesse ciência segundo a natureza, não há nenhuma evidente instrução
e expressão que possa ser útil, nem para ser aprendida por si, nem para ser
ensinada a outrem, de maneira que foi escrito para aqueles que já são sábios e
foram instruídos desde o começo. E me parece também que foi Aristóteles, mais
que qualquer outro, quem o fez tomar gosto e afeição pela arte da medicina,
pois desta ele não apreciava somente a inteligência e a teoria, mas exerceu-lhe
também a prática socorrendo os amigos quando ficavam doentes, e compôs algumas
receitas de medicamentos e alguns regulamentos de vida, como se pode verificar
por suas cartas missivas. Por natureza, era ele homem estudioso e gostava de
ler.

(10) Não se conhece sua posição; Berkeley, em suas sábias notas sobre
Estêvão, acha que ela deve situar-se perto de Estagira.

XII. Quis também ter a Ilíada de Homero na correcão de
Aristóteles, que se chama a corre-ta (12) , como tendo passado sob a verga, e a punha sempre com seu punhal debaixo da cabeceira da
cama, estimando-a e chamando-lhe nutrição ou entretenimento da virtude militar,
como escreveu Onesícrates (13). Quando esteve nas altas províncias da Ásia, não podendo
obter prontamente outros livros, escreveu a Harpalo, para que lhos enviasse. Ele
enviou-lhe as histórias de Filisto, com várias tragédias de Eurípides, Sófocles
e Esquilo, e alguns hinos de Telesto e Filóxeno (14) . Assim honrou e amou
desde o começo a Aristóteles, não menos que ao próprio pai, como dizia, porque
de um recebera o viver e do outro o bem-viver; mas depois o teve um pouco
suspeito, não a ponto de causar-lhe desgosto, mas somente deixando de lhe fazer
tão amigáveis e afetuosas carícias, como antes aprendera, o que se presumiu ser
sinal de alguma alienação da vontade. Todavia, nem por isso lhe saíram da alma
o desejo e o amor da filosofia, que desde a infância lhe impregnara o coração e
que com a idade lhe cresceram, como testemunharam mais tarde a homenagem que
prestou ao filósofo Anaxarco e os cinquenta talentos (15) que mandou a
Xenócrates, do mesmo modo que a Dandamis e Calano (16), os quais teve em grande
conta.

(11) Quer dizer: Estão publicados, e assim não o são. —
Amyot. Tanto poderia estar essa tradução no texto como em nota, pois é o
sentido exato do grego.
(12) Ek toy nárthekos. Querem alguns que essa passagem se
refira ao rico cofre encontrado entre as jóias de Dário, dentro do qual
Alexandre quis que se guardassem os livros de Homero. — Amyot. Vide as
Observações.
(13) Seu verdadeiro nome é Onesícrito. Acompanhou Alexandre
na expedição à Pérsia e escreveu-lhe a história. Era piloto de seu navio.
Alexandre enviou-o junto aos chamados filósofos brâmanes, da índia. Sua
história foi acusada, pelos antigos, de muitas infidelidades; Plutarco alude a
isso na continuação da Vida de Alexandre.
(14) Ambos floresciam na 95ª
olimpíada.
(15) Trinta mil escudos. —
Amyot. 233.437 libras francesas.
(16) Eram ambos filósofos hindus, aos quais Onesícrito fora
enviado. Vieram, em seguida, encontrar Alexandre na Pérsia, onde Calano,
pondo termo à vida, queimou-se voluntariamente à vista dos persas e dos
macedônios. Vide Estrabão, 2. XV, pág. 1.042 e seguintes. Aquele a quem Plutarco chama
aqui Dandamis é chamado Mandanis por Estrabão, Ibid., e pelo próprio Plutarco
nesta Vida de Alexandre, final.

XIII. Tendo Felipe partido para a
guerra contra os da cidade de Bizâncio, e ele na idade de dezesseís anos ficado
na Macedónia como lugar-tenente e guarda do seu segredo, ali dominou e subjugou
os medários (17), que se haviam rebelado; e, tendo-lhes tomado de assalto a
cidade, dali expulsou os bárbaros habitantes, alojando em seu lugar outros de várias
nações e dando à cidade o nome de Alexandrópolis, isto é, a cidade de
Alexandre. Também esteve, com o pai, na batalha de Queronéia, contra os gregos,
onde se diz ter sido o primeiro que combateu dentro da chamada praça sagrada
dos tebanos; e até ao meu tempo ainda se via ali um velho carvalho que os do
país chamavam comumente de carvalho de Alexandre, porque o seu pavilhão estava
estendido debaixo dele; e não longe dali está o carneiro no qual foram
enterrados os corpos dos macedônios mortos na batalha.

(17)
Havia na Trácia, perto da Macedónia, ao pé do monte Pangeia, uma
província chamada Média por todos os antigos. Os habitantes denominavam-se
medos, do nome de um príncipe ilírico chamado Medo, segundo ápio. Esse povo
costumava invadir a Macedónia, sobretudo quando alguma expedição dali fazia
sair os reis. Se nunca ninguém os chamara de medários, é o que aparentemente
sabia Plutarco, ou seus copistas. Mas esse conhecimento não chegou até nós.

XIV. Por
aquelas coisas, o pai, como se pode imaginar, amava-o unicamente, e era fácil
ouvir os macedônios chamarem rei a Alexandre e capitão a Felipe. Mas as
perturbações que desde então lhe ocorreram em casa por causa de suas novas
núpcias e novos amores, deram motivo a grandes divergências e pesadas disputas
entre eles, porque o mal da dissensão e ciúme das mulheres chegou ao ponto de
partir os corações dos próprios reis, tendo sido disso causa principal a rude
natureza de Olímpia. Mulher ciumenta, colérica e vingativa por natureza, irritava
Alexandre e aumentava as queixas que ele tinha do pai. Todavia, a mais aparente
ocasião foi a que lhe deu Átalo, nas núpcias de Cleópatra, que Felipe desposou
solteira, tendo se tornado, fora de idade e de estação, amoroso dela. Átalo que
era tio da recém-casada, embriagou-se no festim das núpcias e assim embriagado,
admoestou os outros senhores macedônicos, que estavam também no festim, a
pedirem aos deuses que de Felipe e de Cleópatra pudesse nascer um herdeiro
legítimo para suceder ao reino da Macedónia. Sentindo-se magoado, Alexandre
deu-lhe um golpe na cabeça, dizendo-lhe: "E eu, traidor, que és, parece-te
então que eu seja bastardo?" Vendo isso, Felipe levantou-se subitamente da
mesa, empunhando a espada, mas, por sorte de ambos, como estivesse perturbado
pela cólera e pelo vinho, caiu por terra. E então Alexandre, zombando dele,
disse: "Aí está aquele que
se preparava para passar da Europa à Ásia, desejando somente passar de um leito
a outro, e agora se deixa cair de comprido . Após esse grande escândalo, tomou
sua mãe Olímpia e levou-a de volta para o Épiro, passando pela Esclavônia (18)
.

(18)   Ilíria.

XV.     
Mas,
nesse ínterim, Demarato de Corinto, sendo hóspede de Felipe e privando muito francamente
com ele, foi vê-lo e, após as primeiras carícias da saudação, como Felipe lhe
perguntasse como iam os gregos entre si, respondeu-lhe: "Na verdade, Sire,
assenta-te bem preocupar-te e indagar da" concórdia dos gregos, visto como
encheste tua própria casa com tão grandes disputas e tantas dissensões" .
Essas palavras pungiram tão vivamente a Felipe, e ele o fez reconhecer suas
faltas, de maneira que mandou chamar Alexandre por intermédio desse Demarato,
que ele enviou para persuadi-lo de que deveria regressar.

XVI. E como Pexodoro, príncipe da Caria,desejando por meio da
aliança de casamento entrar em liga ofensiva e defensiva com Felipe,
apresentasse sua filha mais velha em casamento a Arideu, filho de Felipe, e
tivesse enviado à Macedónia seu embaixador Aristócrito, para tratar e manejar
esse negócio, os familiares de Alexandre e sua mãe começaram outra vez a
fazer-lhe novos relatórios e a meter-lhe na cabeça novas suspeitas de que Felipe queria
em seu prejuízo, com esse grande casamento, dar acesso a Arideu e fazê-lo seu
sucessor no reino. Desgostoso com isso, Alexandre mandou que Tessalo, ator de
tragédias, procurasse Pexodoro na Caria e lhe dissesse que ele devia ali deixar
Arideu, que era bastardo e não tinha juízo completo nem seguro, para procurar
antes a aliança de Alexandre. Pexodoro ficou muito mais satisfeito em ter Alexandre por genro e não Arideu; mas Felipe, uma vez avisado, foi em pessoa ao quarto de
Alexandre, levando consigo um de seus familiares, Filotas, filho de Parmêmon, e
repreendeu-o muito asperamente, mostrando-lhe que ele sentiria o coração covarde
e indigno do estado que lhe deixaria após sua morte, se ele se casasse com a
filha de um Cano, que era servo e vassalo de um rei bárbaro. E, enquanto isso,
escreveu aos coríntios, para que lhe enviassem Tessalo de pés e punhos atados,
e baniu da Macedónia a Harpalo, Nearco, Frígio e Ptolomeu, favoritos de seu
filho, os quais Alexandre chamou mais tarde, para cobri-los de favores junto a
si.

XVII. Algum tempo depois, Pausânias, tendo sido vilmente
ultrajado em seu corpo, com ciência e por ordem de Átalo e de Cleópatra, e não
tendo podido obter reparação nem justiça de Felipe, voltou sua ira contra ele e
matou-o ele próprio por despeito. Desse homicídio a culpa foi em grande parte
atribuída a Olímpia, a qual, segundo dizem, incitou e impeliu esse jovem
fervente de raiva a assim proceder. Mas também houve alguma suspeita em relação
a Alexandre, pois dizem que, como Pausânias lhe falasse de seu caso após a
injúria recebida e a ele se queixasse, recitou os versos que se encontram na
tragédia da Medeia, do poeta Eu-rípides, quando ela diz, furiosa, que se
vingará (19)

Do homem
casado e da mulher casada

Ou da que for com ele amancebada.

Todavia,
mais tarde, mandou com diligência procurar e punir severamente todos os
cúmplices da conjuração, e não gostou que (20) sua mãe Olímpia tivesse tratado
Cleópatra com crueldade.

(19) Vide as Observações.  
C.
(20) Acrescentar, de acordo
com o grego: durante sua ausência. C.

XVIII. Assim veio a suceder à coroa da Macedónia na idade de
vinte anos (21) e achou o reino exposto a grandes invejas, espiado por
perigosos inimigos e cercado de todos os lados por graves perigos, por isso que
as nações bárbaras, vizinhas da Macedónia, não podiam suportar o jugo da
servidão estrangeira, reclamando seus reis naturais. E Felipe, tendo
conquistado a Grécia pela força das armas, não tivera tempo bastante para bem dominá-la
e acostumá-la inteiramente ao jugo, mas, tendo apenas removido
um pouco os governos, deixara as coisas em grande perturbação e em grande
abalo, pois de longa data perdera o hábito de servir: porque os do conselho da
Macedónia, temendo a perversidade do tempo, eram de opinião que Alexandre
abandonasse totalmente os negócios da Grécia e não se obstinasse em querer
obtê-las pela força; e, quanto ao mais, tratasse de reconquistar docemente os
bárbaros que se haviam rebelado e de remediar prudentemente pela doçura a
ocorrência dessas novidades. Mas ele, ao contrário, deliberou manter e
assegurar seus negócios com ousadia e magnanimidade, tendo a opinião de que, se
o sentissem fraquejar no começo, por pouco que fosse, toda a gente lhe cairia
em cima e se sublevaria contra ele.


(21) 336 A.   C.

XIX. Assim, sufocou incontinenti os movimentos dos bárbaros,
acorrendo logo com seu exército até ao no Danúbio, onde derrotou numa grande
batalha a Sirmo, rei dos tribalos. Por outro lado, tendo notícias de que os
tebanos se haviam rebelado e de que os atenienses se entendiam com eles, para
mostrar-lhes e fazer-lhes sentir que era homem, fez marchar incontinenti seu
exército para o estreito das Termópilas, dizendo que desejava fazer ver ao
orador Demóstenes, que em suas arengas o chamava de menino, quando ele estava na
(22) Esclavônia e no país dos tribalos, que se tornara adolescente ao passar pela Tessália e que o
encontraria homem féito diante das muralhas de Atenas. Chegado que foi diante
de Tebas, quis dar meios aos da cidade para se arrependerem e pediu-lhes
somente Fénix e Protites, autores da rebelião. Por fim, fez pro-clamar com sua
trompa que dava perdão e segurança a todos os que se voltassem para ele; mas os
tebanos, ao contrário, lhe pediram Filotas e Anti-pater, dois de seus
principais servidores, e mandaram anunciar publicamente que os que desejassem
defender a liberdade da Grécia se juntassem a eles. Fqi nessa ocasião que
soltou a rédea aos macedô-nios, para fazer-lhes a guerra sem trégua. Assim,
combateram os tebanos com coragem e afeição maior do que estava em seu poder,
visto como os inimigos eram na proporção de vários contra um; mas, quando a
guarnição dos macedônios, que estavam dentro do castelo da Cadméia, saindo
contra eles, foi ainda atacá-los pela retaguarda, então envolvidos por todos os
lados foram quase todos mortos sem demora, a cidade tomada, destruída e
arrasada (23) . Isso fez com a intenção de aterrorizar principalmente os entres
povos gregos pelo exemplo dessa grande desolação dos tebanos, a fim de que não
houvesse nenhum que ousasse levantar a cabeça contra ele. Todavia, quis dar
ainda cor honesta a essa execução de vingança, dizendo que desejava satisfazer
as queixas e sofrimentos de seus aliados e confederados, porque na verdade os
fócios e os plateenses carregavam e acusavam diante dele os tebanos de grandes
ultrajes. Por isso, excetuando os presbíteros e religiosos, e todos aqueles que
eram amigos particulares ou hóspedes de senhores macedônios, todos os
descendentes e parentes do poeta Píndaro, e todos aqueles que se opuseram aos
que pregavam a rebelião, mandou vender como escravos os demais habitantes de
Tebas,, que chegaram até ao número de trinta mil, sem contar os que tinham sido
mortos em combate e passavam de seis mil.

(22) Ilíria.
(23) No segundo ano da
centésima-undécima olimpíada. 335 A. C.

XX. Mas, entre as misérias e calamidades dessa pobre cidade
de Tebas, houve alguns soldados trácios que, tendo arrasado a casa de
Timocléia, dama de bem e de honra, oriunda de nobre raça, repartiram-lhe os
bens entre si; e seu comandante, após tê-la forçado e violado, perguntou-lhe se
ela ocultara ouro ou prata em alguma parte. A dama respondeu-lhe que sim e,
levando-o só a um jardim, mostrou-lhe um poço dentro do qual, disse, vendo a
cidade tomada, lançara todas as jóias e tudo o que possuía de mais belo e mais
rico. O bárbaro trácio abaixou-se para olhar dentro do poço, e ela, que estava
por trás, empurrou-o para dentro, e depois jogou por cima uma porção de pedras,
tantas quantas conseguiu reunir. Os soldados, quando souberam disso,
prenderam-na incontmenti e a levaram amarrada e garroteada à presença do rei
Alexandre.

Este vendo-lhe o rosto, o porte
e o andar, a princípio julgou que era uma dama de honra e de grande posição,
enquanto ela caminhava com segurança e firmeza atrás dos que a conduziam, sem
mostrar-se amedrontada com coisa nenhuma. Depois, quando Alexandre
perguntou-lhe quem era, respondeu-lhe que era irmã de Teágenes, aquele que dera
combate ao rei Felipe diante da cidade de Queronéia, onde morrera em defesa da
liberdade dos gregos, no posto de capitão-general. Alexandre, maravilhado com a
generosa resposta e também com a atitude dela, mandou que a deixassem ir em
liberdade com os filhos para onde quisesse, e fez acordo com os atenienses,
embora mostrassem evidentes sinais de desgosto pela sorte dos tebanos.

XXI. Tendo então ocorrido a festa dos mistérios, deixaram-na
pelo sofrimento que lhe causavam, e aos que se refugiaram em sua cidade, deram,
tanto quanto lhes foi possível, provas de humanidade. Mas, ou porque sua fúria
tivesse acalmado, seguindo nisso a natureza dos leões, ou porque desejasse,
após um exemplo de crudelíssima vingança, oferecer outro de singular clemência,
não só absolveu os atenienses de todo crime, como ainda os aconselhou e
admoestou a zelarem pelos negócios e a se entenderem, porque sua cidade devia
dar um dia a lei a toda a Grécia, se porventura ele viesse a morrer. Dizem bem
que por certo ele se arrependeu vaias vezes, mais tarde, de haver tão
miseravelmente exterminado os tebanos, tendo sido esse arrependimento a causa
de que depois se mostrasse mais humano para com os outros. Sem dúvida achou que
o assassínio de Oito, que ele matou à mesa, e a recusa dos macedônios em
passarem à conquista do resto das índias, que foi como uma imperfeição de sua
empresa e diminuição de sua glória, lhe vieram da, fúria e fancor de Baco, para
vingar-se dele. E nunca mais houve tebano, dentre os que puderam escapar ao
furor de sua vitória, e tivesse relações com ele ou lhe pedisse alguma coisa,
que não obtivesse o que pedia. Eis como a cidade de Tebas foi tratada.

XXII. Tendo os gregos realizado uma assembleia geral dos estados
da Grécia dentro do estreito do Peloponeso, onde resolveram que fariam a guerra
aos persas com Alexandre, ali foi eleito ca-pitão-general da Grécia. E, como lá
fossem visitá-lo tantos filósofos como homens de negócios, para felicitá-lo por
sua eleição, achou que Diógenes de Sinopla (24), que residia ordinariamente em
Corinto, devia ir vê-lo também; mas, quando viu que ele não lhe dava
importância, permanecendo indiferente no subúrbio de Crânio, foi procurá-lo e
encontrou-o deitado de comprido ao sol. Todavia, quando ele viu tanta gente em
volta, levantou-se um pouquinho em seu lugar de repouso e olhou para o rosto de
Alexandre. Alexandre saudou-o e acariciou-o com palavras, e depois lhe
perguntou se ele precisava de alguma coisa. "Sim, respondeu Diógenes, é
que te retires um pouquinho da frente do meu sol". Alexandre gostou muito
dessa resposta e teve tal admiração pela altivez e grandeza de coragem desse
homem, ao ver o pouco caso que fazia dêíe, que ao partir de lá, como seus
familiares se rissem juntos e zombassem dele, disse-lhes: "Digam o que
quiserem, mas certamente, se eu não fôsse Alexandre, desejaria ser
Diógenes".

(24) É o Cínico.

XXIII.
E, querendo
consultar o oráculo de Apolo sobre sua viagem à Ásia, seguiu para a cidade de
Delfos. Aconteceu, porém, que ali chegou nos dias chamados de mau agouro, nos
quais não se tinha o costume de pedir nada a Apolo. Não obstante, mandou chamar
a profetisa que pronunciava : os oráculos, pedindo-lhe que viesse. Tendo-se
ela recusado, alegando o costume que lhe proibia sair, para lá se dirigiu em
pessoa e tirou-a à força do templo. Ela, então, vendo que não podia resistir-lhe
à afeição, disse-lhe: "És invencível, pelo que vejo, meu filho".
Tendo ouvido isso, disse Alexandre que não pedia outro oráculo e que
obtivera 1 aquele que desejava. Depois, quando estava para seguir viagem,
teve vários sinais e presságios divinamente enviados e, entre outros, uma
imagem do poeta Orfeu, feita de madeira de cipreste, na cidade de Lebetres (25) . Mais ou menos
nesses dias, transpirou grande quantidade de suor e, como esse prognóstico
fosse temido por muitos, o adivinho Aristandro mterpretou-o dizendo que era
preciso esperar, porque "é sinal de que Alexandre fará conquistas e
proezas de armas dignas de serem cantadas e celebradas por todo o mundo, as
quais muitas vezes farão vir o suor à fronte dos poetas e dos músicos, pelo
trabalho que terão em descrevê-las e cantá-las" .

(25) É aparentemente Libetra, na Tessália, psrto da qual
estava o túmulo de Orfeu. Havia também uma fonte da mesma denominação,
derivando daí o nome das musas Libétrides, se bem que Pausânias pareça fazer,
derivar esse epíteto da montanha e da fonte da Beócia, que trazia o mesmo nome.

XXIV. Quanto ao número dos combatentes que levou consigo, os
que dão menos calculam trmta mil homens a pé e cinco mil a cavalo, e os que dão
mais escrevem trinta e quatro mil a pé e quatro mil a cavalo. E, para assoldadá-los
e mantê-los, escreve Aristóbulo que ele não tinha mais de setenta talentos (26)
e Duris não dá senão trmta dias somente para a provisão de víveres, ao passo
que Onesícrito acrescenta que ele devia mais de duzentos talentos (27). Tod avia, ainda que ele entrasse nessa guerra com tão poucos meios para
sustentá-la, não quis embarcar antes de informar-se a respeito da situação de todos os arnigos, para saber
com que recursos contavam para segui-lo, e assim a uns distribuiu terras, a
outros uma aldeia e a outros a renda de algum burgo ou de algum porto, de modo
que nesses presentes empregou e consumiu quase todo o domínio dos reis da
Macedónia. Eis porque Pérdicas lhe perguntou: "E tu, Sire, com que
ficas?" E ele prontamente respondeu: "Com a esperança".
"Mas nisso, replicou Pérdicas, nós também queremos ter nossa parte, pois
vamos contigo". E desse modo recusou a renda que o rei lhe atribuíra como
pensão. AI guns outros também assim fizeram, mas aos que preferiram recebê-la
ou a pediram ele a concedeu com bastante liberalidade, gastando nisso a maior
parte do domínio ordinário do reino.

(26) Quarenta e dois mil escudos. — Amyot. 326.812 libras
francesas.
(27) Cento e vinte mil escudos. — Amyot, 933.750 libras
francesas.

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.