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XXV. Em tal afeição e tal deliberação, passou pois o estreito
de Helesponto e, chegando até à cidade de ílio, ali sacrificou a Diana (28) e
expandiu efusões funerais aos semideuses, isto é, aos príncipes que morreram na
guerra de Tróia, cujos corpos estavam ali sepultados, mas principalmente a
Aquiles, cuja sepultura ungiu com óleo, perçorrendo-a nu em toda a volta com os
seus favoritos, segundo o costume antigo dos funerais; depois cobriu-a toda com
capacetes e festões de flores, dizendo que ele fora bastante feliz em ter tido
em vida um amigo íeal e após a morte um excelente arauto para dignamente
cantar-lhes os louvores. E, quando percorria a
cidade, visitando as coisas notáveis lá existentes, alguém lhe perguntou se
desejava ver a lira de Paris. Ao que ele respondeu: "Não tenho muita
vontade de vê-la, mas veria de bom grado a de Aquiles, que ele tocava para
cantar os altos feitos e proezas dos homens virtuosos do passado".

(28) Grego: a Minerva e aos heróis, 42

XXVI. Enquanto isso, os capitães e lugares-tenentes do rei da
Pérsia, Dário, tendo reunido uma grande força, esperavam-no na passagem do rio
do Granico (29) . Era pois necessário combater aí, como na fronteira da Ásia,
para conseguir a entrada; mas a maior parte dos comandantes do seu conselho
temia a profundidade daquele rio e a altura da outra margem, que era áspera e
direita, de maneira que não se podia alcançá-la e galgá-la sem combater; e
houve os que disseram ser preciso obedecer à antiga prescrição dos meses,
porque os reis da Macedônia jamais costumavam pôr o exército em campo (30) no
mês de junho (31). Respondeu-lhes Alexandre que a isso daria remédio
conveniente, mandando dar o nome de maio ao segundo (32) . Ademais, Parmênion
era de parecer que no primeiro dia nada se devia arriscar, porque era já tarde; ao que respondeu que o
Helesponto eníube-ceria de vergonha se ele temesse atravessar um rio, visto
como acabava de passar um braço de mar. E, dizendo isso, entrou no no com treze
companhias de homens a cavalo e marchou de cabeça baixa contra uma infinidade
de dardos que os inimigos lhe atiravam. Subiu assim na direção da montanha a
outra margem, escarpada, íngreme e, o que é pior, toda coberta de armas,
cavalos e inimigos que o esperavam para renhida batalha. Impeliu seus homens
através do curso da água, que era profundo e corria tão asperamente que os
levava quase na correnteza, de tal maneira que se julgava haver em sua conduta
mais furor do que bom-senso e conselho. Não obstante, obstinou-se em querer
passar a toda a força e tanto fez que por fim alcançou a outra margem com
grande sacrifício e grande dificuldade, mesmo porque a terra estava
escorregadia com a lama ali existente. Depois de passar, foi preciso logo
combater desordenadamente corpo-a-corpo, porque os inimigos carregaram
incontinenti sobre os primeiros que passaram, antes que tivessem tempo de
colocar-se em linha de batalha, e avançaram com grandes gritos, mantendo os
cavalos bem juntos e encostados uns aos outros, e combateram primeiro a golpes
de chuços e depois a golpes de espadas, quando os chuços se quebravam.

(29) Que
corre através da Frigia e da Mísia menores e se lança na Propôntida.
(30) Vide as Observações
sobre o cap. V.
(31) No mês Désio. C.
(32) Artemísio. C.

XXVII. Assim se precipitaram vários juntos repentinamente sobre ele, porque
era fácil notá-lo e conhecê-lo entre
todos os outros pelo escudo e pela cauda pendente do capacete, à volta do qual havia de ambos os lados um grande penacho maravilhosamente branco. Foi assim
atingido por um golpe de chuço na falta da couraça, mas o golpe não o feriu; e,
como Roesaces e Espitridates, dois dos principais comandantes persas, se
dirigissem juntos para ele, desviou-se de um e, picando diretamente a Roesaces,
que estava bem armado com uma boa couraça, deu-lhe tão forte golpe de chuço que
este se quebrou, de modo que levou logo a mão à espada; mas, como eles
estivessem emparelhados, Espitridates aproximou-se dele pelo flanco,
levantou-se no cavalo e com toda a força lhe desferiu tão forte golpe de
machadinha barbaresca que lhe cortou a crista do capacete e um dos lados do
penacho, abrindo-lhe tamanha brecha que o gume da machadinha penetrou-lhe até
aos cabelos; e, como quisesse dar-lhe ainda outro golpe, o grande (33) Clito
impediu-o, atravessando-lhe o corpo de lado a lado com uma flecha, ao mesmo
tempo que Roesaces também caía ao chão, morto por um golpe de espada desferido
por Alexandre.

XXVIII. Ora, enquanto a cavalaria combatia com tal esforço, o
batalhão dos infantes macedô-mos atravessou o no e começaram então os dois exércitos a marchar um contra o
outro; mas o dos persas não se manteve corajosa e longamente, pois se pôs
incontinenti em fuga, excetuados os gregos que estavam a soldo do rei da
Pérsia, os quais se retiraram juntos para cima de um outeiro e pediram que os
tomassem à mercê; mas Alexandre, tendo sido o primeiro a entrar, mais por
cólera do que por são julgamento, ali perdeu o cavalo, que foi morto debaixo
dele com um golpe de espada através os flancos. Não era Bucéfalo, mas outro; e
foi nesse lugar que morreram ou receberam ferimentos todos os que participaram
da jornada, porque ele se obstinou em combater contra homens aguerridos e desesperados.
Dizem que nessa primeira batalha morreram do lado dos bárbaros vinte mil homens
a pé e dois mil e quinhentos a cavalo; do lado de Alexandre, escreveu
Aristóbulo que houve trinta e quatro mortos ao todo, dos quais doze eram homens
a pé, e a todos quis Alexandre que, para honrar-lhes a memória, fossem erguidas
estátuas de bronze feitas pela mão de Lisi-po; e, desejando comunicar essa
vitória aos gregos, mandou particularmente aos atenienses trezentos
broquéis dos que conquistara em batalha, e de modo geral sobre todos os outros
despojos mandou colocar esta honrosa inscrição: "Alexandre, filho de
Felipe, e os gregos, excetuados os lacedemônios, conquistaram estes despojos
aos bárbaros habitantes da Ásia". Quanto à baixela de ouro ou de prata,
tecidos de púrpura e outros deliciosos bens
móveis da Pérsia, enviou-os quase todos a sua mãe, ou pelo menos muito poucos
faltaram.

(33) Grego: Clito, cognominado o Negro, como se lê em Arrieno em
Diodoro; pois houve outro cognominado o Branco.

XXIX. Esse primeiro encontro acarretou subitamente tão grandes
mudanças dos negócios em favor de Alexandre que a própria cidade de Sardes, sede
capital do império dos bárbaros, ao menos em todas as baixas províncias
vizinhas do mar, rendeu-se incontinenti a ele, e também as outras, excetuadas a
de Halicarnasso e a de Mileto, que lhe opuseram resistência, mas ele tomou-as
pela força. E, tendo semelhantemente conquistado tudo o que estava ao redor,
ficou depois em dúvida quanto ao que lhe restava fazer; pois muitas vezes tinha
vontade de ir fogosamente ao encontro de Dário, onde quer que se encontrasse,
para tudo arriscar numa batalha, e às vezes também lhe parecia mais conveniente
exercitasse primeiro na conquista de seus países baixos e fortificar-se e
abastecer-se com dinheiro e riquezas que ali encontrasse, para depois marchar
melhor aparelhado contra ele.

XXX. Mas há no país da Lídia, perto da cidade dos Xântios, uma fonte que então transbordou
espontaneamente e, transvazando por cima das margens, lançou do fundo para fora
uma pequena lâmina de cobre sobre a qual havia caracteres gravados com letras
antigas dizendo que o império dos persas devia ser arruinado pelos gregos. Isso
lhe aumentou ainda mais a coragem, de modo que se apressou em limpar toda a costa
do mar até à Cilicia e à Fenícia. Mas a facilidade coma qual avançou ao longo
da costa de Panfíha, deu ocasião e matéria a vários historiadores para
amplificarem as coisas às maravilhas, ao ponto de dizerem que foi um verdadeiro
milagre do favor divino que essa orla do mar se submetesse tão graciosamente a ele,
visto como tem ele ao contrário o hábito de atormentar e devastar muito
asperamente a referida costa, de tal maneira que muito poucas vezes (34) oculta
e cobre as pontas de rocha que se enfileiram todas muito volumosas ao longo da
praia, embaixo dos altos rochedos íngremes e abruptos da montanha. E parece que
o próprio Menandro, numa de suas comédias, dá testemunho dessa miraculosa
felicidade, quando jocosamente diz:

Isso
demonstra de Alexandre a sorte

Se alguém procuro com empenho forte,
incontinenti
a mim vem ter sozinho.

Se pelo mar, que pode ser daninho,
Não me convém
nenhures navegar,
Posso como por terra ali passar.

Todavia, o próprio Alexandre, em suas epístolas, sem fazer do caso tão
grande milagre, escreve simplesmente que atravessara por mar o passo que vulgarmente era chamado de
Escada (35) e que, para atravessá-lo, embarcara na cidade de Fasélis, ali
pousando vários dias, durante os quais, tendo visto na praça uma estátua de Teodectes
(36) (pois ele era Faselita), promoveu após o jantar uma dança no local e
lançou em cima numerosos ramalhetes e capacetes com flores, para honrar de bom
grado, à guisa de pilhéria, a memória do defunto, pela conversação que com ele
mantivera em vida por causa de Aristóteles e do estudo da filosofia.

(34) É preciso ler, segundo alguns manuscritos: deixou descobertas
as pontas da rocha, etc. C.
(35) Vide as Observações.
(36) Acrescentar, conforme ao
grego:  que já era morto.   C.

XXXI. Isso feito, subjugou também os
pisidienses (37), que pretenderam resistir, e conquistou ainda toda a Frigia,
onde na cidade de Górdio, que se diz ter sido outrora a residência ordinária do
rei Mídas, viu a carruagem da qual tanto se fala, ligada por um laço de casca
de sorveira; e a esse respeito contaram-lhe uma história segundo a qual os
habitantes do país consideravam verdadeira profecia que aquele que pudesse
desatar esse laço era predestinado a ser um dia rei de toda a terra. Assim diz
o vulgo que Alexandre, não podendo desfazer esse laço, porque dele não se viam
as extremidades em virtude de estarem estas envolvidas por várias voltas e
entremeios que se interpenetravam, desembainhou a espada e cortou o nó pela
metade, de sorte que se viram então as várias extremidades do laço. Mas Aristóbulo escreve que ele
o desfez com grande facilidade, tendo primeiro tirado a cavilha que prende o
jugo ao timão, para depois retirar o jugo.

(37) Perto da Panfília.

XXXII. Ao partir dali, foi subjugar os paflagônios e os
capadócios, e soube do falecimento de Mêmnon, que, dentre todos os comandantes
de marinha que Dário teve a seu serviço, era aquele que se esperava devesse dar
mais trabalho e causar mais obstáculos a Alexandre; de modo que, uma vez certo
de sua morte, tanto mais se firmou na resolução de levar o exército às altas
províncias da Ásia. Também pela frente lhe vinha o rei Dário, que fizera
concentração de forças em Susa, confiante no grande número de seus combatentes,
seiscentos mil dos quais dispusera em um acampamento, e também num sonho que os
adivinhos lhe haviam contado mais para lhe serem agradáveis do que a bem da
verdade. Uma noite, enquanto dormia, foi-lhe anunciado que ele via todo o
exército dos macedônios em fogo e que Alexandre o servia vestido com a mesma
túnica usada na ocasião em que ele era asgande (38) do falecido rei; e, tendo
entrado no templo de Belo, desapareceu de repente e se dissipou. Por tal sonho,
parece evidente que os deuses lhe davam a entender que os feitos dos macedônios
se tornariam muito famosos e gloriosos, e que Alexandre conquistara toda a
Ásia, nem mais, nem menos do que fizera Dário, que de asgande se tornara
rei, mas que logo acabaria também sua vida em grande glória.

(38) Vide as Observações.

XXXIII. Ainda se tornou mais confiante quando viu que Alexandre
se demorou algum tempo na Cilicia, cuidando fosse por medo dele; mas foi por
doença, a qual dizem alguns lhe ter vindo dò trabalho, outros por se ter
banhado no rio de Cidno, que era frio como gelo; mas, do que quer que fosse,
não houve nenhum médico que ousasse socorrê-lo, pois julgavam o mal incurável e
mais poderoso do que todos os remédios que pudessem ministrar-lhe, e temiam que
os macedônios os culpassem e caluniassem, se não conseguissem curá-lo. Mas
Felipe de Acarnânia, considerando que ele estava muito mal e confiando na
amizade que lhe demonstrava, pensou que seria agir vilmente para cem ele,
vendo-o em perigo de vida, não arriscar até haver experimentado todos os
últimos e mais extremos remédios de sua arte, mesmo que isso pudesse constituir
perigo para a sua própria pessoa; de modo que empreendeu dar-lhe medicina e
persuadiu-o de tomá-la e bebê-la ousadamente, se desejava ficar logo curado e
disposto para fazer a guerra. Nesse ínterim, Parmênion escreveu-lhe do
acampamento uma carta pela qual o advertia de que precisava tomar cuidado com o
tal Felipe, porque ele fera conquistado e industriado por Dário sob a promessa de grandes bens
que lhe daria com a filha em casamento, como paga pela morte do senhor.

XXXIV. Alexandre leu a missiva e colocou-a sob a
cabeceira, sem mostrá-la a nenhum dos seus familiares; e, quando chegou a hora
de tomar o remédio, Felipe entrou no quarto com outros favoritos do rei,
levando na mão o copo com o medicamento. Deu-lhe então Alexandre a carta e tomou
no mesmo instante o copo de remédio sem mostrar nenhuma hesitação ou suspeita.
Foi admirável então ver como um lia a carta e o outro tomava a beberagem ao
mesmo tempo, e considerar como se entreolhavam, embora não com a mesma cara,
pois Alexandre tinha a fisionomia franca e risonha, testemunhando a confiança e
a amizade que lhe merecia o médico Felipe, ao passo que o outro tinha uma
atitude de homem magoado e atormentado pela calúnia de que fora alvo,
estendendo as mãos para o céu, chamando e invocando os deuses como testemunhas
de sua inocência, para em seguida aproximar-se do leito e pedir a Alexandre que
tivesse coragem e fizesse exatamente o que lhe dissesse. O medicamento,
começando a agir, expulsou e derreteu por assim dizer até ao fundo do corpo o
vigor e a força natural, de maneira que ele perdeu a fala e lhe veio uma grande
fraqueza e tal torpor que não tinha quase pulso nem aparência de sentido:
todavia, passada essa fase, foi em poucos dias restabelecido por Felipe. E,
depois de se fortifica um pouco, apareceu aos
macedônios, que andavam impacientes e não acreditaram no que Jhes diziam ou
prometiam sobre a sua convalescença enquanto não o viram.

XXXV. Ora, havia no acampamento de Dário um banido da
Macedónia chamado Amintas, que conhecia bem a natureza de Alexandre e, vendo Dário
com vontade de ir enfrentá-lo nas gargantas e vales das montanhas, pediu-lhe
que o esperasse de preferência em lugar plano e aberto, visto como lutaria com
grande número de combatentes contra muito poucos inimigos e era vantajoso
enfrentá-lo em campo largo. Dário respondeu-lhe que receava apenas que ele
fugisse antes de poder atingi-lo ou defrontar-se com ele, que assim lhe
escaparia das mãos. Replicou-lhe Amintas: "Quanto a isso, Sire, peço-te
não tenhas receio, pois te asseguro, por minha vida, que ele te virá buscar e
neste momento já estará marchando".

XXXVI. Todavia, as advertências de Amintas não puderam
dissuadir Dário de mandar forças para a Cilicia. E, ao mesmo tempo, Alexandre
tomou o caminho da Síria para encontrá-lo; mas durante uma noite se desviaram
um do outro e no dia seguinte retrocederam ambos, de modo que Alexandre,
satisfeito com a aventura, apressou-se em enfrentar o inimigo dentro dos
desfiladeiros, e Dário tratou de voltar ao acampamento de onde partira e de
tirar seu exército dos desfiladeiros, começando então a perceber o erro que
cometera ao lançar-se em lugares fechados de um lado pela montanha e do outro
pelo mar e pelo rio de Píndaro (39) que corre pelo meio, forçando seu exército
a dividir-se em vários grupos num terreno desigual e desfavorável para a
cavalaria, do qual ao contrário a planície era a mais própria do mundo para os
inimigos, que eram infantes e em pequeno número. Mas, se a fortuna deu a
Alexandre o campo conveniente para combater com vantagem, melhor ainda ele
soube organizar a batalha para obter a vitória, pois que, embora fosse em
número de combatentes muito mais fraco e menor do que o inimigo, tratou de
providenciar para não ser cercado, porque fez avançar a ponta direita do exército
muito mais do que a esquerda e, combatendo nas primeiras fileiras daquela,
desbaratou os bárbaros que se achavam à frente diante dele; mas foi ferido por
um golpe de espada na coxa. Cares (40) escreve ter sido o próprio Dano quem lhe
deu esse golpe e que ambos se defrontaram ao ponto de lutarem às cabeçadas e
aos socos. Todavia, o próprio Alexandre, escrevendo sobre essa batalha a Antípater,
disse bem que ele foi ali ferido na coxa por um golpe de espada,
sem ter sofrido nenhum outro inconveniente. Mas não acrescentou quem o feriu.

(39) Seu verdadeiro nome é Píndaro.
(40) De Mitilente, historiador que Plutarco cita
várias vezes na Vida de Alexandre e que parece ter sido contemporâneo desse
príncipe.

XXXVII. Tendo pois alcançado uma gloriosíssima"
vitória, em consequência da qual morreram mais de cento e dez mil inimigos, não
pôde contudo aprisionar Dano, porque este se adiantou para fugir até cerca de
um quarto de légua somente; mas tomou o carro de batalha, sobre o qual
combatia, e seu arco também, depois voltou da perseguição e encontrou os
macedônios pilhando e saqueando todo o resto do acampamento dos bárbaros, onde
havia uma riqueza infinita (conquanto tivessem deixado a maior parte de seus
equipamentos na cidade de Damas (41), para entrarem mais livremente em
combate), mas para a sua pessoa tinham reservado o alojamento do rei Dano, que
estava cheio de grande número de oficiais, de ricos móveis e de grande
quantidade de ouro e prata. Eis porque, logo que chegou, após ter deposto as
armas, entrou no banho, dizendo: "Vamos lavar-nos disso e limpar o suor da
batalha dentro do banho do próprio Dano". E aí um dos seus favoritos lhe
replicou: "Melhor ainda, Alexandre, pois os bens dos vencidos pertencem de
direito aos vencedores e devem ser escolhidos por eles". E quando ele viu,
ao entrar na estufa, as bacias, os banheiros, as lixívias, os frascos e caixinhas de
perfumes, todas de ouro fino, esquisitamente lavrado e trabalhado, toda a
câmara perfumada de um odor tão suave que parecia um paraíso, e depois, ao sair do banho em que
entrara no interior de sua tenda, vendo-a tão alta, tão espaçosa, o leito, a
mesa e o preparo do jantar, tudo tão bem e tão magnificamente em ordem que era
uma coisa digna de admiração, voltou-se para os favoritos e disse-lhes:
"Ser rei, em vossa opinião, era isto, não é verdade?"

(41)
Uma das cidades mais célebres da Ásia, na parte da Síria chamada Celessíria,
perto" do monte Líbano.

XXXVIII. Mas, assim que se pôs a mesa para jantar, vieram
dizer-lhe que lhe estavam sendo conduzidas prisioneiras a mãe e a mulher de
Dário entre outras damas e duas de suas filhas solteiras, as quais, tendo visto
seu carro e seu arco, puseram -se a gritar e a esgadanhar-se desesperadamente,
pensando que ele estivesse morto. Alexandre ficou bastante tempo sem nada
responder, sentindo mais piedade pela má fortuna delas do que alegria pela sua
própria; depois, mandou que Leonato fosse ter imediatamente com elas, para
informar-lhes que Dário não estava morto e que não deviam ter medo de Alexandre,
porque ele não fazia a guerra senão para reinar e, quanto a elas, teriam dele
tudo o que tinham de Dário, enquanto ele reinasse e tivesse todo o seu império.
Se parece que essas palavras tranquilizaram as damas prisioneiras, os efeitos
vieram em seguida, que elas acharam de não menor humanidade ; porque primeiro ele
permitiu-lhes que inumassem todos aqueles que desejassem dos senhores persas mortos em
combate e tirassem dos despojos todas as fazendas, jóias e ornamentos que
precisassem para honrar-lhes os funerais; e assim não lhes negou nenhuma
honra, nem quanto ao número de oficiais e servidores, nem quanto ao conforto
que tinham antes, mas ordenou que lhes pagassem pensões ainda maiores do que
costumavam ter; todavia, o favor mais honroso, mais belo e mais real por ele
prestado a essas princesas prisioneiras, que tinham vivido com grande
honestidade e pudicícia, foi. que jamais ouviram nada que lhes pudesse causar
temor ou mesmo a suspeita de que algo viesse a prejudicar-lhes a honra, pois
tinham vida à parte, sem que ninguém as frequentasse ou as visse, não como num
acampamento inimigo, mas como se estivessem em algum santo mosteiro de
religiosas estritamente reformadas e guardadas. É que a mulher de Dano, segundo
se escreve, foi uma belíssima princesa, como também Dano era um belíssimo e
grande príncipe, sendo que as filhas se pareciam com o pai e a mãe.

XXXIX. Mas, como Alexandre, em minha opinião, estimava ser
coisa mais real vencer-se a si mesmo do que derrotar os inimigos, não tocou em
nenhuma, nem em outras moças ou mulheres, antes de desposá-las, com exceção de
Barsena (42), que, tendo ficado viúva pela morte de
Mêmnon, foi tomada junto de Damas. Ela era sábia em literatura grega, doce e
graciosa, filha de Artabazo, que nascera de uma filha de rei. Alexandre
conheceu-a por sugestão de Parmêmon, conforme escreve Aristóbulo, que lhe
solicitou travasse relações com tão bela e nobre dama. Mas, quanto às outras
damas persas que estavam prisioneiras, maravilhosamente belas e robustas, ele
dizia brincando que as mulheres da Pérsia faziam mal aos olhos de quem as
contemplava; mas, como ao contrário as belas faces mostrassem a beleza de sua
conduta e castidade, ele passava diante delas sem afeiçoar-se, como se elas
fossem estátuas de pedra e sem alma. A esse propósito, Filóxeno, que ele
deixara como seu lugar-tenente nas províncias baixas e marítimas, escreveu-lhe
uma vez que certo Teodoro, comerciante de Tarento, tinha para vender dois
meninos de singular beleza e que ele mandasse dizer-lhe se gostaria de comprar
os dois. Ele ficou tão desgostoso com isso que se pôs a gritar em altas vozes
e por várias vezes: "Meus amigos, que vilania jamais percebeu Filóxeno em
mim, para esforçar-se, enquanto não faz nada lá, em me prodigalizar tais
insultos?" E mandou que lhe respondessem imediatamente, com uma porção de
injúrias, que expulsasse o negociante Teodoro com a sua mercadoria. Também
repreendeu acremente um jovem chamado Ágnon, que lhe escrevera perguntando se
queria comprar um menino chamado Crobilo, que
fizera barulho na cidade de Corinto por causa de sua beleza, com a intenção de
enviá-lo para ele. E outra vez, avisado de que Dâmon e Timóteo da Macedónia,
que estavam sob as ordens de Parmênion, tinham (43) violado as mulheres de
alguns soldados estrangeiros que se achavam a seu soldo, escreveu a Parmênion
ordenando-lhe que abrisse inquérito e, se de fato achasse que eles as tinham
violado, mandasse matar a ambos como bestas selvagens nascidas para ruína dos
homens. E escreveu do próprio punho estas palavras na referida carta:
"Quanto a mim, tanto é falso que eu tenha visto ou pensado em ver a mulher
de Dário como não quero sequer admitir que se converse sobre a beleza dela
diante de mim". Ele costumava dizer que se reconhecia mortal principalmente
em duas coisas: em dormir e em gerar. Parecia querer dizer com isso que o trabalho e o prazer da volúpia com as mulheres procedem da mesma imbecilidade e
fraqueza de natureza.

XL. Também era muito sóbrio no comer, tendo dado
disso várias provas, além do que disse à princesa Ada, que adotou (44) como mãe
e a fez rainha da Caria: como todos os dias, pensando ser-Ihe agradável, ela
lhe enviasse muitas carnes esquisitas, uma porção de bolos e de confeitos, e
além disso cozinheiros e pasteleiros
que considerava excelentes no ofício, ele mandou dizer-lhe "que não sabia
o que fazer com tudo aquilo, porque seu governador Leônidas lhe ensinara
melhor, isto é, para almoçar levantar-se de madrugada e marchar até à noite, e
para jantar comer pouco no almoço; e esse governador, dizia ele, ia
frequentemente abrir e revistar as malas onde guardavam o colchão de minha cama
e minhas roupas, para ver se minha mãe havia ali escondido doces e
superfluidades". E era menos predisposto ao vinho do que parecia pelo
fato de ficar à mesa durante longo tempo; mas o fazia mais para conversar do
que para beber, pois, cada vez que bebia, travava sempre antes uma comprida
conversa, e ainda assim quando tinha grande lazer. Em tempo de negócios, não
havia festim, nem banquete, nem jogo, nem núpcias, nem passatempos que o
prendessem, como fizeram vários outros capitães. O que se pode facilmente
conhecer pela brevidade de sua vida e pela grandeza e multidão dos altos feitos
que praticou durante o tão pouco tempo em que viveu.

(42) Barsina.
(43)Ler: corrompido. C.
(44)Ele assim, a adotou de
certo modo, dando-lhe esse nome em sinal de respeito.

XLI. Quando estava de folga, de manhã, depois de
se levantar, a primeira coisa que fazia era sacrificar aos deuses, e depois ia
incontinenti à mesa para almoçar; e passava todo o resto do dia ou caçando, ou
compondo alguma coisa, ou pacificando alguma desinteligência entre os soldados,
ou lendo. E, quando marchava pelos campos e não tinha muita pressa de voltar,
exercitava-se percorrendo o lugar e atirando com o arco, ou subindo e descendo
num carro, ou correndo. Muito frequentemente, para divertir-se, caçava raposas
ou pegava pássaros, como se pode ver pelas memórias deixadas em seus diários
(45) ; depois, quando chegava em casa, entrava no banho e fazia-se friccionar e
untar, isso feito, perguntava aos mordomos e cria-dos-graves se tudo estava
pronto na cozinha e começava a jantar muito tarde, de maneira que era sempre
noite quando se punha à mesa, onde tinha muito cuidado e tudo diligenciava para
que não fosse nada distribuído desigualmente, nem mais a um do que a outro dos
que comiam com êíe; e ficava à mesa durante muito tempo, porque gostava de
falar e conversar, como dissemos.

XLII. Em suma, sua companhia e sua palestra eram
assim as mais interessantes e mais agradáveis que jamais proporcionou algum rei
ou príncipe; pois não lhe faltava graça, exceto quando se tornava um pouco
importuno por suas gabolices, e tinha nisso muito do soldado gabolas que gosta
de contar valentias. Além de gostar ele próprio de se entregar
facilmente a essa vaidade de bravata, tinha ainda por assim dizer o fraco de
deixar que os aduladores o conduzissem pelo nariz. Isso dava muitas vezes causa
à ruína de homens de bem que o cercavam, os quais nem queriam louvá-lo em sua
presença por emulação com os aduladores, nem ousavam também dizer menos do que
eles quanto aos louvores que lhe dirigiam, porque para uns havia nisso vergonha
e para outros perigo.

(45) A história de sua vida, escrita em forma de
jornal por Èumenes de Cárdia e Diodoro de Eritreia. Surpreende-me que o sábio
Vóssío, em seus Historiadores Gregos, ponha em dúvida se esses dois personagens
florescem nessa época: pois Êumenes é o capitão de Alexandre, tornado tão
famoso depois dele e cuja vida foi escrita por Plutarco.

XLIII. Depois de jantar e lavar-se de novo,
dormia frequentemente até ao meio-dia e às vezes durante todo o dia seguinte.
Não apreciava de modo algum as viandas esquisitas, de sorte que, quando lhe
enviavam dos países vizinhos do mar algumas frutas singulares, ou os mais raros
peixes, mandava-os aqui e acolá aos amigos, muitas vezes sem deixar nada para
si. Todavia, sua mesa era sempre magnificamente servida, aumentando sempre a
despesa ordinária à medida que suas prosperidades e conquistas progrediam, até
elevar-se à soma de mil escudos por dia (46) . Também parou aí e foi prefixado
esse limite de despesa para os que desejassem homenageá-lo e não pudessem
gastar mais.

(46)Grego, dez mil dracmas.
7.682 libras francesas.

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