Re: Re: O Mito da Caverna

Início Fóruns Pedidos de ajuda O Mito da Caverna Re: Re: O Mito da Caverna

#74084

Em grego a palavra verdade é  aletheia, que  significa também desvelamento, revelação. É composta pela partícula de negação a+lethen. Lethen significa esquecimento. Então vemos que conhecer significa lembrar, não esquecer. Essa é uma noção bem platônica, em Platão a alethéia é reminiscência, o conhecimento é inato, pois a alma já contemplou a fonte do ser e do saber que são as Formas, antes de nascer. O tempo das Formas é cíclico, o aion do Timeu, e daí advém sua eternidade. Daí a famosa definição “o tempo é a imagem móvel da eternidade”.Sócrates tenta demonstrar que o conhecimento é inato ao fazer um rapaz escravo, sem estudo, demonstrar um teorema matemático, conforme vemos no Mênon. Essa epistemologia platônica será depois contestada pela noção empirista moderna de de Locke e sua tabula rase, onde tudo provém da experiência. O inatismo é uma das características do racionalismo clássico, aparecendo também em Descartes, que lembra que o homem só pode conceber a idéia de um ser infinito porque isso seria como a marca de do pincel de um artista em sua obra.Lethos é também o rio da memória, como nos conta o seguinte poema órfico“Encontrarás à esquerda da Mansão do Hades, uma fonte,E a seu lado, um branco cipreste.Não te aproximas deste manancial.Mas encontrarás um outro junto à Fonte da Memória,De onde fluem águas frescas e, diante das quais há guardiões.Diz-lhes: “Sou um filho da terra e do céu estrelado;Mas minha raça é do céu (somente). Vós próprio o sabeis.E - ai de mim! - estou ressequido de sede, e pereço. Dai-me rapidamenteA água fresca que flui da Fonte da Memória”.E eles mesmos te darão de beber do manancial sagrado,E desde então tu dominarás entre os outros heróis”.No Fédon de Platão existe a recorrência desse mito, uma vez que as almas tem de reencarnar tantas vezes quanto for necessário até que possam se purificar e então habitar junto aos deuses. Toda a vida virtuosa de Sócrates tem em vista este fim, o de conseguir passar pela secreta abertura, que aparece também no mito de Er da República, e então evitar o esquecimento e poder prosseguir.Platão absorveu a metempsicose, além do orfismo, da escola pitagória, que contava que as almas, depois da morte, iam para o Hades e lá tinham de prosseguir ou reencarnar. O Hades seria um lugar muito complexo e de caminhos tortuosos. A palavra grega para felicidade é eudaimonia . Ter um bom (eu em grego) daimon significava ter um bom guia para quando se chegar no Hades, já que a alma ficaria cega. Eudaimonia, palavra importante no vocabulário filosófico, é associada à felicidade, e etimologicamente quer dizer isso, esta fortuna de se ter um bom daimon. Por isso a importância do daimon do sábio Sócrates, que aparece na Apologia de Sócrates. O demônio nesse momento é uma concepção pagã, pré-cristã, não tendo a carga pejorativa posterior. O daimon é apenas um intermediário entre os deuses e os homens.http://blog.cybershark.net/miguel/index.php/2004/11/11/eu-no-esqueci/No mito da caverna os prisioneiros estão percebendo o mundo sensível, achando que ele é a única realidade, sem perceber que estão longe dela, sem perceber que estão sendo condicionados. Platão fala da "lama do mundo do sensível", onde não é possível se chegar ao conhecimento. "O mundo sensível está em perpétuo estado de fluxo, sendo impossível conhecê-lo", dizia Heráclito. Parmênides defendeu que o ser é Uno e imutável. Platão sintetiza os dois na teoria do Mundo das Idéias ou das Formas. É preciso aprender a enxergar a unidade na diversidade, e isso é feito pelo conceito e pela idéia. O que há de uno na diversidade sensível é algo que só a inteligência pode apreender, de forma abstrata. Porém, para Platão, a Idéia não é uma mera abstração sem substância, mas o próprio Ser. O inteligível é anterior na cadeia de conhecimento e também superior ao mundo sensível.O prisioneiro da caverna, então, sai da caverna, se livrando desses grilhões através da ascese dialética. A dialética em Platão tem um contexto expecífico. Denomina esse jogo de perguntas e respostas que tem em vista o fim de eliminar as hipóteses falsas. Os diálogos platônicos são em geral dialéticos. Sócrates conduz a investigação de forma a eliminar primeiramente a opinião do senso comum, e depois as hipóteses falsas que surgem diante dessa derrubada. Nos diálogos de maturidade ele formula uma solução para os problemas (como o que é virtude, o que é o bem, o que é o conhecimento etc) com a teoria do mundo das idéias. Mas como disse, a interpretação comum é de que as Idéias são Reais, e não dependem do sujeito, mas antes são eternas, imutáveis. O mundo sensível elemental seria uma mera derivação do que existe neste outro plano.Platão é otimista no sentido que acredita ser possível conhecer. Disso se ocupa a filosofia e o filósofo. O problema do mito da caverna é também político. O prisioneiro liberto vislumbra a irradiação solar do mundo das idéias, representando a ascese dialética por degraus até a contemplação do sol, a idéia do bem, que ordena todas as outras. Uma vez que faz isso, experimentando a alethéia, sente a necessidade prementente de voltar à caverna e alertar os companheiros de outrotra, os seus semelhantes, que continuam presos lá naquelas sombras. Daí a necessidade de política. A República de Platão é a cidade ideal imaginada de forma a ser justa, de ocorrer segundo a virtude. Para isso, Platão, que não era democrata, mas sim aristocrata, pensa ser necessário que ela seja planejada e governada pelos guardiões e reis filósofos.Abs