Destaque
Costuma-se chamar Yasujiro Ozu (1903-1963), o clássico cineasta japonês, de pintor, pelo apuro da composição visual, que faria de cada filme uma exposição de arte. Ozu deve ser enquadrado pelo que é e não pelo que a inteligência da crítica sugere ser. É cineasta, e como tal vive do movimento. Seus filmes mantêm a postura
Categoria: Cinema
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Comentários Recentes
- mikaela: como ahan um dragão de verdade
- Nei Duclós: É uma conceituação pelo avesso, Eli, para desmascarar as armadilhas das palavras. Abs.
- Eli Laus: Muito interessante tua filosofia! Parabens
- Mirelle Ferreira: Fico feliz ao perceber que essa nova leitura da Era Vargas e da figura de Villa-Lobos esteja sendo...
- Nelson da Cunha: “A praça é do povo como o céu é do condor”. É dessa forma que o texto revolucionário...
Apresentação
Este espaço foi criado para resgatar e projetar um trabalho autoral de três décadas, desenvolvido em seis cidades (Uruguaiana, Porto Alegre, Blumenau, Florianópolis, Vitória e São Paulo) e que está ligado intimamente à produção poética, literária e jornalística do nosso tempo.
A idéia é concentrar os poemas, as resenhas, os artigos, as memórias, as reportagens, as crônicas e os textos literários e acadêmicos que estavam dispersos, parcialmente publicados e que até agora ocupavam o inacessível território das pastas, das gavetas e das estantes.
Esta página serve como exercício de difusão e de memória, de reencontro e retomada, num abraço único que envolve toda uma vida dedicada às palavras. Acompanha-me, nesta trajetória, a torcida e a colaboração de parentes e amigos, aos quais devo demais, sabendo que nunca poderei retribuir à altura. Esta é a maneira que encontro de homenagear o País e de compartilhar a minha versão de uma realidade que procuramos, sempre, transformar.
Nei Carvalho Duclós
Crônicas
Cinema
Clonar assumidamente Star Wars fez a nova versão cinematográfica de Star Trek (2209), dirigida por J.J.Abrams, romper com a tradicional imobilidade da saga. As versões anteriores faziam dessa aventura espacial, criada nos anos 60 por Gene Roddenberry, um negócio quase de foro íntimo, onde os personagens não saíam do lugar e não moviam uma linha do rosto.
O maior ator do mundo, entre os vivos, encarna sempre algum poder oculto. O relações públicas que inventa eventos e carreiras, o produtor do programa de TV 60 Minutos que peita a poderosa indústria do tabaco, o mafioso que quer lavar sua fortuna, o migrante que pela violência tenta impor-se dentro do império, o advogado de porta de cadeia que enfrenta a corrupção dos juízes etc. Há uma coerência nessa carreira mais do que brilhante, nessa iluminação que nos seduz pelo carisma, o talento, a técnica, a performance ou simplesmente pela presença na tela.
Livros
Nei Duclós
Os 45 poemas de A Escola das Facas, de João Cabral de Melo Neto (lançado cinco anos depois de “Museu de Tudo”) mergulham no que existe de mais caro ao poeta pernambucano: as lições de sua terra natal. Nos diversos confrontos da natureza nordestina, entre o sertão e o litoral, entre a cana e [...]
Política
Ver São Paulo submersa, com pessoas ilhadas, carros parados, gente morrendo, é enxergar um dos monumentos mais bem acabados da ditadura brasileira: o caos urbano, implantado de propósito, objetivamente. As ruínas em que se transformaram as cidades não é resultado da falta de políticas públicas, mas obra de políticas públicas voltadas para a desestabilização do espaço físico de convivência. Foi um trabalho e tanto. Vejam como isso aconteceu (é bom lembrar a origem dos problemas e não achar que eles fazem parte da natureza, assim como se o horror fosse um cogumelo que brota desavisado no campo molhado pela chuva).
Contos
O COTOVELO DE VIDROA casa era pequena, mas bem planejada por um oficial da Marinha. Os ventos podiam fazer escândalo na vizinhança, mas nossas portas não batiam. Copa e cozinha eram a mesma peça, e a sala um cotovelo todo ajanelado que dava para a praia de São José, cidade grudada a Florianópolis. Lá mergulhei mais uma vez na literatura.A revelação maior foi deixar que cada personagem mostrasse a integridade específica de vidas diferentes da minha.
Redação sem Máscara
O JORNALISMO COMO ESCOLASe você assumir todas as tarefas do jornalismo, da pauta ao fechamento, da reportagem à edição, da coluna à primeira página, do caderno cultural ao noticiário político, da nota ao caderno especial, você está apto a colocar todo esse conhecimento não apenas nos redutos da notícia, mas em todo o espectro da comunicação. Não há melhor aprendizado, por ser completo, árduo e complicado.
Esportes
FOUCAULT NOS PÉS DE ROBINHOA intenção é o segredo de Robinho. Ele pedala em cima da bola para ocultar seus verdadeiros propósitos, mascarar a vontade que direciona a jogada, impedir que o adversário decifre o que vai fazer. Isso evita que o outro leia e entenda a sua linguagem (se encararmos o futebol como um acordo de signos articulados). Em As palavras e as coisas , o texto de Michel Foucault apresenta a palavra proposição (e não intenção) como o motor da criação da linguagem, que faz dela uma representação (ordenada pela gramática) da representação (os sinais que surgem pela ação da natureza e do corpo humano).
Memórias
O DIA DE PRATA NO MEIO DO MATOSaímos do acampamento já tarde, depois das dez da noite. Soube do horário pelas ondas direcionais do grande rádio de pilha do funileiro Sadi, companheiro eterno das pescarias da beira do arroio Rodrigues. Fomos em fila indiana, pisando graveto e barro, sendo açoitados pela copa dos arbustos espinhentos. Nosso destino era a corredeira, que a madrugada encerrava para lá do desconhecido, onde só os mateiros experientes chegam. (Texto publicado na antologia A Terra dos Longos Olhares, da editora Holoedro, 2005, org. de Lucia Silva e Silva)
Música
JOÃO GILBERTO, O ESPLENDOR DA FALAJoão Gilberto se presta ao exagero: a única coisa que lhe faz sombra é o silêncio, chão que palmilha devagar, com o passo que inventou nesta terra sem sentido e neste país assassinado. E se temos hoje uma língua, é porque João Gilberto resgatou-a, reinventando cada sílaba, pronunciando cada palavra, como um instaurador de milagres, e um fundador que não se contenta em apenas descobrir, mas cavar e levantar a estrutura completa de uma nação que hoje mora dentro de nós.
Poesia
AINDA O HAITINei Duclós
Haiti ainda respira
Na vala comum do estouro de pedra
No grito terminal de braços e pernas
Na ligação surda do túmulo/caverna
Na fila faminta de uma nova guerra
Haiti ainda espera
Nas ruas plantadas de daninha erva
Na briga entre bandeiras sem trégua
Na milionária indústria da miséria
Na mão mentirosa do mundo estéril
Haiti ainda coopera
Sumindo anônimo pela bruta reza
Desperdício de óvulo [...]
TV
A HIERARQUIA DOS GESTOSO gesto favorito dos nossos estadistas de estádio (como diria Ulysses Guimarães) é virar a cabeça junto com o tronco. Sinal que sugere integridade física, ou seja, não se torce o pescoço para olhar ninguém, vira-se inteiramente como a proclamar autoridade e expressar com esse gesto que se está ali para mandar e ensinar, e jamais para escutar. Nisso FHC e Lula também se parecem. A rigidez de ombros que ostentam significa que são rochedos. Em volta deles, pululam como ondas os ombros frenéticos da mídia, a lamber-lhes as ostras.