O SOPRO IMORTAL

mai 31st, 2005 | Por | Categoria: Redação sem Máscara

O texto é uma criatura que precisa ter fôlego para sobreviver ao criador. O barro das palavras não é suficiente. É preciso soprar nele uma alma imortal. Feito o verbo do Criador, que a partir do mundo concreto, as consoantes, animou pelas vogais o próprio desdobramento, à sua imagem e semelhança. A divindade entrou no perigoso jogo da invenção porque gostou do que tinha feito.



A IMPOSIÇÃO ARTIFICIAL DOS VERBOS

mai 31st, 2005 | Por | Categoria: Redação sem Máscara

Costumo enfrentar oposição quando elimino o vício, muito comum hoje nas redações, de se usar quinhentas variações para substituir o verbo dizer. Soube por importante jornalista amigo meu que ele tem aturado renitente defesa por parte dos adeptos dessa bobagem, que afasta leitores e torna intragável qualquer texto.



A PALAVRA BATE UM BOLÃO

mai 31st, 2005 | Por | Categoria: Redação sem Máscara

O futebol tem tudo para dar errado. Colocam 22 marmanjos num espaço limitado para trabalhar uma esfera que escapa dos pés. O objetivo é acertar o núcleo do reduto adversário, mais limitado ainda. Só se deve usar as mãos em casos excepcionais. É lógico que esse jogo tende a ser irregular pela própria concepção e natureza. Só existe algum equilíbrio se houver sintonia total entre os jogadores de cada time, alguns craques que sabem o que fazem em campo, o espírito de luta que não deve diminuir em nenhum segundo, a competência dos técnicos. Ainda deve-se levar em consideração o que rola fora desse esquema, como o gramado, o estádio, as torcidas, os dirigentes, os árbitros. O que resta para o jornalismo, diante desse monstro rebelde? Apenas a palavra usada com maestria e precisão. A paixão, no caso, deve ser pela linguagem, e não pelas camisetas.



MONSTROS E CAVALEIROS

mai 31st, 2005 | Por | Categoria: Cinema

Há dois tipos de atores. Os monstros, como Othon Bastos, Marlon Brando e Miguel Ramos, que se transformam em criaturas assustadoras, como, respectivamente, Corisco, o Coronel Kurz ou o vilão correntino do novo filme de Beto Souza, Cerro do Jarau (interpretação premiada recentemente em Recife) . E os cavaleiros, os que jamais deixam de ser o que são, mas nos convencem ao montar em personagens inesquecíveis.



AQUELE CINEMA OCULTO

mai 30th, 2005 | Por | Categoria: Cinema, Contos

A arte da luz entra no buraco negro do tempo. Aos cinco anos, me levam para um lugar escuro, onde apareciam rostos gigantescos, que tomavam conta de uma parede. Fui informado antes: “vais te assustar!” Cumpri a advertência e tiveram que me tirar no meio da sessão.



O SERÃO DE BRÁS CUBAS

mai 30th, 2005 | Por | Categoria: Cinema

O filme de André Klotzel baseado em Machado de Assis transforma as memórias póstumas do anti-herói numa sessão de slides, num álbum de fotografias, narrado por um anfitrião brechtiano, que desdramatiza a própria vida pela técnica do distanciamento, usada de maneira igualmente magistral em outro clássico do cinema brasileiro, Os Inconfidentes, de Joaquim Pedro de Andrade.



TOM HANKS E O MITO FUNDADOR

mai 30th, 2005 | Por | Categoria: Cinema

Náufrago, filme de Robert Zemeckis, com Tom Hanks no papel principal, revisita um texto fundador da literatura de língua inglesa, “A vida e as estranhas e supreendentes aventuras de Robison Crusoe”. Publicado por Daniel Dafoe em 1719, o livro teve ainda duas continuações e é baseado nas experiências de Alexander Selkirk, que em 1704 fugiu e foi parar numa ilha deserta, de onde foi resgatado cinco anos depois.



DUAS VIAGENS E UMA CARTA

mai 29th, 2005 | Por | Categoria: Contos

Lembrei de ti, mãe, quando vi Diários de Motocicleta, de Walter Salles. Tu que me protegeste quando cruzei o inverno da minha vida na fronteira com a Argentina, sofrendo ataques cíclicos de asma. Na mesma época em que eu delirava sem poder respirar alguém tinha cruzado o Amazonas a nado para impor-se aos limites da doença e tornar-se o Che.



O MONSTRO SEM REDAÇÃO

mai 29th, 2005 | Por | Categoria: Redação sem Máscara

O dito jornalista bem informado é o monstro sem redação. Ele é bem informado porque compartilha da mesa do poder, ou seja, divulga um dia antes o que todos deverão divulgar no dia seguinte. E não fica na redação porque redação, por dedução, é para jornalistas mal informados. É monstro porque não tem as costas curvadas de tanto batucar nas pretinhas. Apresenta-se sempre elegante, ereto, com o rosto de retrato em ante-sala de entidade empresarial. Possui um sorriso inteligente e um sobrolho (confirmado por rugas significativas na testa) de extrema perspicácia. Confunde lugar comum com estilo, por isso acha que sabe o que interessa e pensa ser uma das pessoas que contam.



O PERIGOSO MAR DE CAYMMI

mai 29th, 2005 | Por | Categoria: Música

Dorival Caymmi não canta a praia ou o mar, canta a pesca, atividade do trabalhador que arrisca a vida todos os dias no desempenho do ofício. Sua obra é um épico sobre a morte dos que lutam para sobreviver num ambiente hostil, o oceano, que atrai pela necessidade e seduz para uma armadilha mortal quando acena para o lazer em pleno expediente