Memórias

O DIA DE PRATA NO MEIO DO MATO

dez 18th, 2009 | Por nei | Categoria: Crônicas, Memórias

Saímos do acampamento já tarde, depois das dez da noite. Soube do horário pelas ondas direcionais do grande rádio de pilha do funileiro Sadi, companheiro eterno das pescarias da beira do arroio Rodrigues. Fomos em fila indiana, pisando graveto e barro, sendo açoitados pela copa dos arbustos espinhentos. Nosso destino era a corredeira, que a madrugada encerrava para lá do desconhecido, onde só os mateiros experientes chegam. (Texto publicado na antologia A Terra dos Longos Olhares, da editora Holoedro, 2005, org. de Lucia Silva e Silva)



O PUXÃO DA PRIMAVERA

dez 18th, 2009 | Por nei | Categoria: Crônicas, Memórias

Fico em frente ao passo do pássaro praiano. Ele tem aquele movimento que parece ser monitorado por flashes, com as pernas andando para todos os lados enquanto o bico enxerga o que jamais veremos. A cabeça gira e seus olhos não se importam comigo. O que chama a atenção da criatura é uma sombra, vizinha ao sol que tenta grudar na praia, mas é empurrado pelo vento. O brilho intenso na areia é a manifestação de um deus desconhecido.



LINHO BRANCO NA CIDADE ANTIGA

dez 18th, 2009 | Por nei | Categoria: Memórias

Todo dia era dia de solidão. Colocar a roupa branca de linho, passar uma escova no sapato, pentear o cabelo, sair olhando para os lados. Quatro quarteirões me separavam do cinema e da praça. Ainda era cedo para o footing. Podia pegar um filme. Quando não estava lotado, entrava já com a sessão adiantada. Sentava só, numa poltrona no fundo, ou “lá em cima”, longe da tela e perto do projetor.(Crônica publicada na edição número 2 da Revista Fronteira Livre, de Uruguaiana)



A GEOGRAFIA DA MEMÓRIA

dez 18th, 2009 | Por nei | Categoria: Memórias

Nem sempre temos sorte. Voltamos de mãos abanando, com a cesta vazia, os anzóis limpos, nenhum cheiro de peixe. Rodeados pelo que há de pior na humanidade, somos pescadores focados na nossa infinita solidão. Por isso gostamos de ficar na beira do rio, sem que ninguém nos atrapalhe.



VÉSPERA DE LINGUAGEM

dez 17th, 2009 | Por nei | Categoria: Memórias

Assim como toda família espera a primeira palavra com o coração na mão de tanta ansiedade, no jornalismo fomos empurrados para a criação de um estilo, ou seja, a linguagem conquistada com esforço, diante de uma platéia de leitores radicais, os colegas da redação. Foi nessa luta com a primeira palavra que inaugura um texto para se destacar do rebanho, e que define uma identidade sem esperança de que ela terá permanência, que trafeguei entre jornalismo e literatura, como vasos comunicantes que jamais se negam. Era a maneira de encarar os dois ofícios como um só, limpando de cada trabalho toda a veleidade que transforma sonho em papel datado. (Texto originalmente publicado no espaço Literário, do site Comunique-se, em 30/03/06).



LAUDAS DA VIDA INTEIRA

dez 17th, 2009 | Por nei | Categoria: Memórias

As teclas pediam determinação funda. Dependiam da força dos dedos, desobedientes às lições de datilografia. O hábito transformava cada aperto num atalho para o objetivo maior: o fim do compromisso e o início da liberdade. Catar milho era a radicalidade dessa distorção. A maioria ficava na linha intermediária, compondo tabelinha entre três dedos, como se escrevêssemos de trivela, com efeito, para que o texto atingisse a maioridade da folha seca e quando chegasse ao ápice caísse miseravelmente no canto indefensável.(Texto publicado no espaço Literário do Comunique-se em 6/abril/2006).



REDAÇÕES QUE CRUZAM O TEMPO

dez 17th, 2009 | Por nei | Categoria: Memórias

Hoje vejo consultores definindo a pauta de veículos em coma, dizendo que não se pode voltar atrás, quando “loucos apaixonados” (esse é o batismo do talento hoje) se reuniam em espaços normalmente apertados e com pouco oxigênio, para fazer o que os leitores adoravam. É preciso limpar essa mancha do jornalismo, dizem os RTs (Ruins de Texto), que no fim assumiram o poder. Um auto-ajuda desses jamais passaria pelo crivo de um chefe de reportagem, um secretário, um diretor, um editor. (Texto publicado no espaço Literário do Comunique-se, em 13/04/2006)



A ARTE POR UM FIO

dez 17th, 2009 | Por nei | Categoria: Memórias

Pelo silêncio, todo editor de arte é um pensador. Mas alguns são fundadores de uma escola filosófica, como foi o caso de Reginaldo Fortuna, com quem fiz uma news-letter por dois anos. Fortuna era conferencista, pois já estava na idade memorialística quando me aproximei dele. Mas escutava como ninguém. Quando falei o que esperava do pequeno jornal ele me cravava aqueles olhos pequenos de quem enxerga o milímetro torto de um fio e dava uma piscada. Era o sinal de que tinha captado e que faria o certo, ou seja, como bem entendesse, e isso iria me agradar, como realmente não só agradou, como deslumbrou.(Texto publicado no espaço Literário do Comunique-se em 27/04/2006).



PLANTÃO DE AEROPORTO

dez 17th, 2009 | Por nei | Categoria: Memórias

O jornalismo feito a martelo exigia esforço de estiva. A informação era rara e não estava sobrando como hoje, em que podemos acompanhar a intimidade dos astros como se estivéssemos aboletados na sala de visitas, ou descobrir o que fazem pessoas importantes quando acham que ninguém está olhando. Havia uma pele pública sobre a escassez humana. A viagem de avião tinha certa solenidade, especialmente para o repórter iniciante, que jamais saíra de seu torrão. (Texto publicado dia 4/05/06 no espaço Literário do Comunique-se).



RITO DE PASSAGEM

dez 17th, 2009 | Por nei | Categoria: Memórias

Talvez não tenha sido o AI-5, decretado no ano anterior, mas o horror às aulas de taquigrafia o motivo principal para eu abandonar as aulas do Curso de Jornalismo da Ufrgs. O tranco da nossa professora alemã assombrava aquela matéria que substituía os garranchos por hieróglifos, o que nos transformava em escravos egípcios ou no máximo em secretárias da ONU. Já era o segundo ano que eu enfrentava o rigor de uma prática cara à segunda Guerra Mundial. (Texto publicado dia 11/maio/2006 no espaço Literário do Comunique-se).



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