Música

JOÃO GILBERTO, O ESPLENDOR DA FALA

dez 18th, 2009 | Por nei | Categoria: Música

João Gilberto se presta ao exagero: a única coisa que lhe faz sombra é o silêncio, chão que palmilha devagar, com o passo que inventou nesta terra sem sentido e neste país assassinado. E se temos hoje uma língua, é porque João Gilberto resgatou-a, reinventando cada sílaba, pronunciando cada palavra, como um instaurador de milagres, e um fundador que não se contenta em apenas descobrir, mas cavar e levantar a estrutura completa de uma nação que hoje mora dentro de nós.



O ESPLENDOR DE CADA GERAÇÃO

dez 13th, 2009 | Por nei | Categoria: Música

O disco maior da música brasileira é Axé, de Antonio Candeia. Ali estão reunidas as linhagens mais poderosas do que o povo brasileiro já produziu. Com uma diferença fundamental: tudo, desde as músicas baseadas em bordões de rua, como Peixeiro Granfino (Bretas-Candeia) , passando pelos temas clássicos como a traição conjugal, até a sofisticada obra-prima Ao povo em forma de arte (Wilson Moreira e Nei Lopes), manifesta-se a denúncia, a conscientização, a indignação embalada no talento de mestre. Candeia usa a expressão do povo sofrido para apontar-lhe um rumo.



O QUE É MÚSICA?

dez 12th, 2009 | Por nei | Categoria: Crônicas, Música

Música é a capacidade de ouvir. Você pode ser Mozart, mas se não houver quem escute sua obra, ela não existirá. Ninguém compõe para as altas esferas, mas para que o som se propague até um receptor. A música foi assassinada quando descobriram a mina de ouro que é a banalização da batida do tambor. A sofisticação foi reduzida ao pó das baterias, e o tunc tunc se consolidou na indústria imediatista. Mais tarde, “evoluiu” para o baticum eletrônico, que é a entronização surtada da redundância.



ACROSS THE UNIVERSE: CHEGUE JUNTO

dez 12th, 2009 | Por nei | Categoria: Cinema, Música

Nada mais é inesquecível, tudo está na mão. A memória era um lugar, hoje é lugar nenhum. Faz parte do consumo. A cena esquecida do filme perdido está no You tube. E o resgate do passado, feito agora, acaba sendo tratado como pão adormecido. É o caso do impressionante Across the Universe, o musical que nasce clássico, lançado em 2007. É tratado como um amontoado de clipes, como diluição das músicas dos Beatles, como “mais do mesmo” dos anos 60, quando não é nada disso. É uma bela obra. Mas ficar impactado com o filme não pega bem. A moda é negligenciar a obra alheia.



FONTES DA BOSSA

dez 12th, 2009 | Por nei | Categoria: Música

Não é que Caetano queira imitar João, Caetano é João, sem deixar de ser Caetano. É emocionante compartilhar a grandeza desse artista que nos brinda com a madura longevidade do seu talento inimitável. A seriedade, a competência e a inteligência como canta é uma questão cultural. Caetano é a ruptura que resgatou muita coisa da tradição, sem abrir mão da ruptura. É vanguarda o tempo todo, até mesmo quando escande as sílabas para homenagear a banda, os músicos, tornando sua voz um instrumento significativo, mas coadjuvante. Em Caetano, é o arranjo, a harmonia, a melodia que contam.



MITCH MITCHELL: O SOM DO SONHADOR

dez 12th, 2009 | Por nei | Categoria: Música

O sonho não brotou, como querem os textos da memória fake da mídia, repetidos até a extrema exaustão, para manter no ar a intenção de assassiná-lo. O sonho foi sonhado (com perdão da necessária tautologia) por grandes artistas como Mitch Mitchell, baterista da Jimi Hendrix Experience (banda conhecida por todas as pessoas que permaneceram alertas numa época de sombras). Ele foi encontrado morto no dia 13 de novembro de 2008, aos 62 anos, vítima de causas naturais, ou seja, desconhecidas. Tinha acabado de fazer uma turnê por 18 cidades americanas.



FOSTE A SONORIDADE QUE ACABOU

dez 12th, 2009 | Por nei | Categoria: Música

Vivemos na época das egüinhas pocotós, do rebolar incessante de quadris frenéticos, da falta completa de talento, dos suspiros de auditórios carentes de tudo. Perplexos, perguntamos o que aconteceu. O que houve foi que perdemos o rumo e precisamos nos opor frontalmente ao Mal, disfarçado de Falso Bem. Não pode haver trégua na luta contra essa canalha. Baden Powell neles. Tom, Vinicius, João Gilberto e tudo o que existe de bom no Brasil e está oculto, por culpa de uma campanha sinistra contra o país que já foi maior e hoje tem sua sonoridade em ruínas.



A FALA OCULTA: CANÇÃO, MEMÓRIA E RESISTÊNCIA

dez 11th, 2009 | Por nei | Categoria: Música

Música e letra da canção Conversando no bar (Saudades dos aviões da Panair), de Milton Nascimento e Fernando Brandt, tem me perseguido nos últimos dias. Carreguei a magistral interpretação de Elis Regina em 1974 no you tube. De que trata a letra? Da ditadura. Foi feita dez anos depois do golpe de 64, naquele ponto de inflexão do tempo em que a tragédia ainda estava próxima mas já decolava para seu segundo decanato, ou seja, o que viera antes dela tonava-se, irremediavelmente, memória.



MICHAEL JACKSON E A INFÂNCIA REINVENTADA

dez 10th, 2009 | Por nei | Categoria: Música

Com sua arte refinada, MJ é a representação de uma sociedade que se desvencilhou de suas raízes. Idolatrado por libertar as massas para uma série de gestos inéditos, apropriados para o uso em ambientes virtuais, MJ inventou a chance de refazer a própria vida, recomeçando da infância, que, com o apoio de seu faturamento extraordinário, deveria ser oposta à que ele sofreu. No fundo, não teve infância, ou ela estava ligada à dor e às algemas seculares do povo a qual pertencia. Livrar-se da canga por meio da plástica, de uma nova pele e de uma voz que se transformou apenas num falsete, cabia perfeitamente no mesmo diapasão da obra que impressionou o mundo.



WOODSTOCK: A UTOPIA REVISITADA

dez 10th, 2009 | Por nei | Categoria: Música

Utopia significa não-lugar, portanto não adianta cercar Woodstock ou a fazenda onde foi realizado o megaevento de 1969 e que hoje é comemorado como um quarentão famoso. Já foi provado que repeti-lo também não significa nada. Você pode ir até o local, colher um punhado de terra para guardá-lo num gaveta, pagar um guia para dizer onde foi que os caras rolaram na lama, chamar um monte de estrelas da música, tudo será inútil. Woodstock existe em outro plano, tão real quanto um por-de-sol: ele dura alguns segundos, mas você o guarda para sempre no coração, na memória, na imaginação e no sonho. Veja e escute Joe Cocker cantando os Beatles, Jimi Hendrix arrasando o hino americano ou Santana despertando o cosmo escuro: lá brilha solitária a estrela da revolução assassinada.



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