ACROSS THE UNIVERSE: CHEGUE JUNTO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema, Música        

Nei Duclós

Nada mais é inesquecível, tudo está na mão. A memória era um lugar, hoje é lugar nenhum. Faz parte do consumo. A cena esquecida do filme perdido está no You tube. E o resgate do passado, feito agora, acaba sendo tratado como pão adormecido. É o caso do impressionante Across the Universe, o musical que nasce clássico, lançado em 2007. É tratado como um amontoado de clipes, como diluição das músicas dos Beatles, como “mais do mesmo” dos anos 60, quando não é nada disso. É uma bela obra. Mas ficar impactado com o filme não pega bem. A moda é negligenciar a obra alheia.

É, como dizia o cronista Olavo Bilac dos inimigos de Eça de Queiroz, se transformar num desses “esmerilhadores de defeitos, caçadores de senões, que passam a vida a catarem imperfeições nas obras-primas como quem anda a catar caramujos nos rosais”. Volto ao cronista Bilac nos próximos dias, pois esse tema vale mais de um post (mas não resisto em comentar também seu terrível perfil de Carlos Gomes, o maestro ingênuo que sofreu na mãos dos medíocres e bandidos até morrer miseravelmente; ou do projeto de José do Patrocínio, que se meteu a fazer um gigantesco balão de alumínio e com isso torrou todo o seu patrimônio).

De que trata Across the Universe? Da genialidade dos Beatles, que romperam todos os rótulos e se transformaram nos criadores absolutos da nossa época. Dizer que Beatles é rock é o mesmo que enquadrar Mozart ou Schubert. O fogo perene do talento maior em canções, poemas e melodias de absoluto esplendor, costuram uma história de amor ambientada em dois continentes nos anos 60. O que está em pauta não é a reiteração dos velhos clichês da contracultura, ou do romantismo velho de guerra, mas a projeção, para o tempo infinito, de uma obra musical que é a síntese dramatúrgica do humano transformado culturalmente pela tecnologia.

Beatles não é utopia, é reportagem de um tempo mau, para usar a expressão favorita de Plínio Marcos. Não é poesia água-com-açúcar, é invenção de vanguarda de alta voltagem. Basta ver e ouvir Joe Cocker (you tube) interpretando Come Together, que no filme celebra a aparição do personagem Jo-Jo, homenagem a Jimi Hendrix, amante de Sadie, uma representação de Janis Joplin. Cocker canta maravilhosamente e em poucos segundos assume vários personagens, de vagabundo do metrô a motorista da máfia. Come Together (o link é a análise de Daniel Duclós sobre a letra dessa canção) é toda a poesia de transgressão, de William Blake a Ezra Pound, zipada em algumas estrofes e ambientada nos cruzamentos da criação que nos conquistaram nos anos 60 e 70, da guitarra ao teatro.

O que encanta e seduz é a fidelidade à criatividade original (pela primeira vez o universo musical e visual dos Beatles deixa de ganhar uma reprodução cinematográfica fake). É, ao mesmo tempo, uma releitura e uma recriação fiel ao original, sem ser redundante, sem pagar o mico de virar pastiche do que estamos acostumados a ver e ouvir. As canções têm alta voltagem narrativa e servem para gerar conflitos, emoções e celebrações entre os protagonistas.

A história nasce nos bailinhos bem comportados, rompe junto com a guerra e chega até os protestos e ao salto psicodélico. Uma viagem cultural no tempo, atualizado numa obra inesquecível.

A direção é de Julie Taymor (Frida), recebeu uma indicação ao Oscar Figurino, de Albert Wolsky ; o roteiro é de Dick Clement e Ian La Fresnais, baseado em estória de Julie Taymor, Dick Clement e Ian La Fresnais . Com Evan Rachel Wood (Lucy), Jim Sturgees (Jude), Joe Anderson (Max Carrigan), Dana Fuchs (Sadie), Martin Luther (JoJo), T.V. Carpio (Prudence), Bono (Dr. Robert), Eddie Izzard (Sr. Kite). Vejam e ouçam. É de arrepiar.

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