Esportes

FOUCAULT NOS PÉS DE ROBINHO

dez 18th, 2009 | Por nei | Categoria: Esportes

A intenção é o segredo de Robinho. Ele pedala em cima da bola para ocultar seus verdadeiros propósitos, mascarar a vontade que direciona a jogada, impedir que o adversário decifre o que vai fazer. Isso evita que o outro leia e entenda a sua linguagem (se encararmos o futebol como um acordo de signos articulados). Em As palavras e as coisas , o texto de Michel Foucault apresenta a palavra proposição (e não intenção) como o motor da criação da linguagem, que faz dela uma representação (ordenada pela gramática) da representação (os sinais que surgem pela ação da natureza e do corpo humano).



GOLS DO MÁGICO MANDRAKE

dez 18th, 2009 | Por nei | Categoria: Esportes

É incrível esse milissegundo em que o goleiro, paralisado, ordena seu corpo em direção à bola, que já saía do chão para alçar vôo novamente rumo à trave de cima. O comando que movimentou o arqueiro chegou um século atrasado. Era o que o corpo queria fazer antes do desenlace, mas emperrou na certeza obscura de que a bola iria se perder para sempre. É de arrepiar ver o goleiro totalmente imóvel olhando para cima (só o olho acompanha a velocidade do chute) e a bola batendo, despencando para o solo, voltando para cima, para quicar e entrar, enquanto o goleiro tenta investir contra o irreparável.



O POVO EM SUA MAJESTADE

dez 18th, 2009 | Por nei | Categoria: Esportes

Pelé é o povo que chegou à majestade. É uma criatura dialética, vinda de longe, parte de uma geração que invadiu a cidadela adversária pela primeira vez. O reino já estava posto quando vieram os outros a seguir. Mas ficou a originalidade do gesto que inventou o sonho. Não há, portanto, armadilha quando se fala de Pelé. Ele é o povo que provou ter a capacidade de gerar o mito. Por isso, por onde passa, as pessoas procuram tocá-lo. O Rei é a carne que se fez Verbo, numa inversão do ato divino da criação. Ele não é um deus, é a pessoa que, para sempre, estará de pé, suado, olhando para onde ninguém vê.



O MESTRE PARTE PARA ETERNIDADE

dez 17th, 2009 | Por nei | Categoria: Esportes

O Morumbi lotado levantava os braços e entoava o cântico dos cânticos: “Olê olê olê olê Telê Telê”. Era a milionésima vez que o Mestre decidia um título. Ele então se levanta, de maneira não muito confortável pois não está acostumado a esse tipo de demonstração, anda um pouco para dentro do gramado e faz sua saudação, com uma só mão para cima acompanhando o ritmo da cantoria. Era a homenagem em vida ao homem que deu tantas alegrias aos seus torcedores e que destacou-se como um brasileiro maior, nesta galeria cada vez mais escassa, no país que perdeu sua soberania.



DE REPENTE, O GÊNIO

dez 13th, 2009 | Por nei | Categoria: Esportes

Um pé passa para o outro, fazendo com que o equatoriano enfrente dois Robinhos de uma só cabeça. Ele já está batido e o gênio, em curva e diagonal, se livra da sua marcação para chutar lá onde a coruja pia. Caprichosa, orgulhosa do momento, a bola fez justiça e sobrou nos pés de Elano, que saiu de braços abertos para ninguém. Todos caíram em cima de Robinho, que tinha chegado ao detalhe supremo da sua obra, arduamente construída em anos e anos de exercício.



FALTA COM BARREIRA, A CIÊNCIA INEXATA

dez 13th, 2009 | Por nei | Categoria: Esportes

É complicado. A barreira serve para tirar a visão da bola, para quem defende, e do gol, para quem bate. Como não é possível enxergar o objetivo, tudo depende de cálculo, talento e imaginação. Rogério, do São Paulo, por estar escolado nos dois lados da barreira, sabe o que um goleiro pensa quando ouve o baque surdo da chuteira.



ESSE ESTRANHO AMOR

dez 12th, 2009 | Por nei | Categoria: Crônicas, Esportes

O amor à Pátria é o primeiro a ser negado quando nosso representante, no lugar de evitar o gol do adversário, contribui com ele por omissão ou soberba. Quando a reiteração dos crimes compõe a identidade do país que deveríamos amar. Basta o galo cantar uma só vez para trairmos a devoção cívica que deveria nos nortear. No varejo, nos dias que se sucedem sem nenhuma graça, vemos o amor à Pátria escoando pelo ralo. É o Brasil, dizemos, e damos o assunto por encerrado.



O DRAMA DE MARCOS

dez 12th, 2009 | Por nei | Categoria: Esportes

Por ter sido um jogo intenso, em que a relação dramática entre expectativa e bola chegou ao seu ponto máximo de tensão, é que aconteceu a tragédia. Pois quando a percepção coletiva foca demais num ponto, quando a cabeças, machucadas ou não, se voltam para aquela comunhão entre golpe de vista e chute no ângulo, fica de fora o improvável. É desprezada a surpresa que pode acontecer quando o lance escolhe o hiato entre a certeza de cada um e os caprichos geométricos do futebol.



ESSA BRAVURA COLORADA

dez 12th, 2009 | Por nei | Categoria: Esportes

Os argentinos são especialistas em dar cama-de-gato no gigante. Contam com sua ferrenha unidade nacional, sua determinação, sua certeza de que são os melhores do mundo em tudo. Nada pode contra essa avassaladora cultura argentina, que está sempre certa, sempre dentro da lógica, sempre acima, sempre melhor, maior e não sei mais o quê. Quando perdem, sempre há uma explicação, pois jamais abandonarão sua natureza hegemônica. Esse é o lance decisivo do futebol argentino jogado fora de campo, onde se decide o futebol (tanto é que têm mais títulos disputados no continente). Eles se armaram para estragar a festa (pode-se argumentar: mas isso todo mundo faz; só que os argentinos são mestres desse ofício). Eles criaram uma rede de intrigas dos corpos que iriam entrar em movimento. Contavam também com a sorte, que costuma se entregar às almas determinadas. A sorte tem medo de quem a desafia.



VIRA EM CINCO

dez 12th, 2009 | Por nei | Categoria: Esportes, Memórias

Como o tempo era infinito, a partida limitava-se pelo número de gols e não pelas horas que passávamos ao ar livre, nos atormentando com caneladas e gritos. Cada jogo ia até dez e virava em cinco. Disputava-se no par ou ímpar quem iria primeiro para a parte mais alta do terreno, pois, a cavaleiro, podia-se avançar sem muito esforço. Rapidamente, o time do andar superior alcançava o fácil placar de cinco contra qualquer coisa, pois, dali, tiro de meta era quase um pênalti. Todo lance era facilitado pela lei da gravidade. Bastava ao adversário do escrete de cima se jogar para frente que já era meio gol.



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