STAR TREK: A SOMA DE TODOS OS GÊNEROS

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Clonar assumidamente Star Wars fez a nova versão cinematográfica de Star Trek (2209), dirigida por J.J.Abrams, romper com a tradicional imobilidade da saga. As versões anteriores faziam dessa aventura espacial, criada nos anos 60 por Gene Roddenberry, um negócio quase de foro íntimo, onde os personagens não saíam do lugar e não moviam uma linha do rosto.



ERVILHAS DEVOTAS

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

É uma utopia sonharmos com a possibilidade de nossa caixa postal ficar limpa de tantos apelos. Qualquer reivindicação para que parem de difundir besteiras é tratada como crime hediondo. Só nos resta esperar o carteiro tradicional, com sua cesta de surpresas. Nenhuma tentando nos dizer o que ser ou fazer. Apenas coisas banais, como um bilhete registrando saudades ou a notícia de uma visita ansiosamente esperada.



A INVENÇÃO DO CAOS

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Política

Ver São Paulo submersa, com pessoas ilhadas, carros parados, gente morrendo, é enxergar um dos monumentos mais bem acabados da ditadura brasileira: o caos urbano, implantado de propósito, objetivamente. As ruínas em que se transformaram as cidades não é resultado da falta de políticas públicas, mas obra de políticas públicas voltadas para a desestabilização do espaço físico de convivência. Foi um trabalho e tanto. Vejam como isso aconteceu (é bom lembrar a origem dos problemas e não achar que eles fazem parte da natureza, assim como se o horror fosse um cogumelo que brota desavisado no campo molhado pela chuva).



PROVAS PARA COPIAR

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Política

Como as instituições não investem mais em pessoas qualificadas e contratam qualquer bunda suja para cobrar os tubos providenciando provas copiadas para testes em geral, reslvi ajudar os estudantes e professores com minha contribuição de veterano de vestibulares. Anuncio que passei em vários. O da Engenharia da UFRGS em 1967, o de Jornalismo na Ufrgs (com primeiro lugar!) em 1968, na Eca da Usp em 1980, na História da Usp em 1984 e de novo na História da Usp em 1996. Portanto, tenho cacife para elaborar provas. Como ninguém me convoca nem me paga por isso, vou colocar aqui alguns vestígios da minha capacidade.



O QUE É CORRUPÇÃO?

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Política

Corrupção é o conjunto de atividades das pessoas comprovadamente honestas. O sujeito que foi defenestrado da Presidência da República depois de inúmeras denúncias, por exemplo, e que ficou famoso por sequestrar a conta corrente e a poupança da população, é uma pessoa comprovadamente honesta, nada consta contra ele na Justiça, tanto é que virou senador. Outro exemplo notório é o presidente do Congresso que foi acusado de grossas irregularidades no Senado. Ele recentemente publicou um artigo na Folha falando de sua honestidade e como combateu a corrupção. O estadista de estádio e seu infiel escudeiro, que negam a existência do mensalão, também. Além do doutor Honoris Causa em entrega do país que se reelegeu graças a uma artimanha financeira gigantesca que tungou o país em 50 bilhões de dólares, conforme denúncia do repórter britânico Greg Palast. São todos pessoas comprovadamente honestas. O conjunto de suas atividades é a corrupção.



O QUE É PAZ?

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Política

Paz é a situação de conforto e alívio proporcionada pela ação vitoriosa de chutar o traseiro alheio. Se você dá coice no semelhante que está lhe incomodando, derrotando-o nas suas pretensões de encher o saco, então você terá paz. Os americanos são mestres nisso. Jogaram duas bombas atômicas em populações civis do Japão quando a Segunda Guerra já estava ganha. Mas era preciso dar o pontapé definitivo nos japs que ousaram destruir aquela frota no Havaí. Agora Obama (sim, ele pode) manda 30 mil soldados para o Oriente Médio enquanto recebe o Nobel da Paz.



LITERATURA É O NOME DA LIBERDADE

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

A literatura é a oportunidade que a linguagem tem de se reinventar. Diferente do jornalismo ou das ciências humanas, que obedecem a paradigmas e precisam do consenso do entendimento, de um acordo prévio para ser debatido e desenvolvido, a literatura caracteriza-se pela liberdade de suas falas, do desenraizamento total e da radicalidade de suas experiências.



ANDAR É SER OBSERVADO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas

Atrair a atenção alheia é fazer a criatura andar. O passo do terror é conhecido: pé ante pé, pesado, fazendo o tronco acompanhar o esforço de maneira tacanha. O passo do medo costuma ser obviamente trêmulo, ou trôpego. A comédia usa o andar para compor o riso na cabeça da platéia. Buster Keaton é duro, com pernas e quadris em movimento burocrático. Chaplin usa o excesso dos sapatos para inventar o andar do palhaço distorcido pelas luzes do circo.Nei Duclós

Todo mundo sabe como John Wayne anda. É o caminhar mais imitado do cinema. As pernas possuem vida própria e há um ritmo diferente no gesto que ele imprime ao tronco. Parece que anda meio de lado, como a espreitar inimigos. Ao mesmo tempo, é um andar franco, desassombrado, grandalhão. Robert Mitchum tem outro tipo de passo. As pernas vão a reboque da sua vontade de andar, fazendo com que seu corpo (encimado por formidável cara de sonso) flutue enquanto os pés palmilham territórios há vários segundos deixados para trás. Aprender a andar, para quem sai do berço, já é assumir uma identidade. Pelo ritmo, pela postura assumida no caminhar de qualquer um, é possível dizer quem ele é. Por isso atores como John Travolta costumam modificar o passo para criar personagens. Mas quem encontra o passo certo (contundente, personalíssimo) diante da observação alheia, não abre mão dele, seja o papel que for desempenhado.

BICHO – Quando aprendemos a andar, descobrimos que essa ação está sendo acompanhada com atenção redobrada. O mundo adulto volta os olhos para você, na expectativa e ao mesmo tempo pressionando-o para que você se saia bem da empreitada. É importante que uma criança ande, o que irá amenizar o trabalho dado aos adultos. É também sinal de saúde física, de coordenação motora e, infelizmente, de precocidade (a pressa em fazer o nenê andar é que inventa as pernas tortas de tanta gente).

Andar, portanto, é ser observado, o que torna essa atividade tão fundamental no teatro e no cinema. É preciso chamar a atenção para o personagem a ser criado. Atrair a atenção alheia é fazer a criatura andar. O passo do terror é conhecido: pé ante pé, pesado, fazendo o tronco acompanhar o esforço de maneira tacanha. O passo do medo costuma ser obviamente trêmulo, ou trôpego. A comédia usa o andar para compor o riso na cabeça da platéia. Buster Keaton é duro, com pernas e quadris em movimento burocrático. Chaplin usa o excesso dos sapatos para inventar o andar do palhaço distorcido pelas luzes do circo. Há o andar imperceptível dos ladrões. Não se iluda: se você for roubado, não escutará nada. Se escutar, você tem uma chance, o ladrão é ruim de bola.

O andar furioso é curto, apressado. O andar sensual é a base bamba de um templo majestosamente curvo. O passo de ganso é o nazismo impondo seu tacão no mundo. O do marreco são as pernas tortas que pretendem ter um andar militar, mas não conseguem. O andar na ponta dos pés te surpreende. O andar duro do salto alto nesta primavera fria é um pedido de passagem na calçada estreita. O andar cria espaços imaginários diante da câmara. É uma ferramenta que não pode cair em si, como os ombros. Quando José Wilker gira, ele está decidindo que não quer mais estar ali, que vai inventar outro cenário para o seu Giovani se movimentar. Bruna Lombardi como Diadorim andava como se estivesse caindo, o mesmo tipo de passo de Romário quando se retira do campo. Andar é o bicho mais humano que podemos criar.

CHARME – O andar dos anos cinqüenta, aprendido nas matinês, era bem específico em Uruguaiana. Na calçada larga, sabíamos que mil olhos voltavam-se para nós. Tínhamos platéia, era preciso caprichar. Havia uma dança comandada pelos ombros e pelo tronco, que se revezavam no impulso para frente. Nesse bambolê estranho havia o charme de passar a mão no topete ou jogar a cabeça para trás para acertar o cabelo caído. Uma leve raspadinha com a sola do sapato no chão era admissível, desde que não se exagerasse na dose. Isso dava a impressão que atrairíamos garotas tontas com nossa performance. Mas no fim nos reuníamos em grupos nos postes, carros estacionados (já que não tínhamos carros) para ver olhar o que realmente interessava: o andar das gurias, que costumavam levantar a sola dos pés para ganharem altura enquanto iam para frente, ao mesmo tempo em que viravam o rosto para nós, felizardos daquela época sem igual. Andar, naquele caso, era observar. Mas quem andava na nossa frente voltava os olhos para nos ver parados. Nunca foi tão bom ser platéia.



AL PACINO, A ENCARNAÇÃO DO PODER SEM ROSTO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

O maior ator do mundo, entre os vivos, encarna sempre algum poder oculto. O relações públicas que inventa eventos e carreiras, o produtor do programa de TV 60 Minutos que peita a poderosa indústria do tabaco, o mafioso que quer lavar sua fortuna, o migrante que pela violência tenta impor-se dentro do império, o advogado de porta de cadeia que enfrenta a corrupção dos juízes etc. Há uma coerência nessa carreira mais do que brilhante, nessa iluminação que nos seduz pelo carisma, o talento, a técnica, a performance ou simplesmente pela presença na tela.



O ROMANCE OCULTO BATE NA CELA

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Livros

O romance “Os corações futuristas”, de Urariano Mota, com uma trama que começa nos anos da ditadura Médici e se estende até o final do século passado, é um dos livros que nos lembram o quanto ainda vivemos sob o tacão do autoritarismo, disfarçado agora numa representação, a democracia, que foi exigida nas ruas, mas serviu apenas de pretexto para o continuísmo. Diante de tão completa derrota, a literatura volta-se para a porta da caverna o­nde reside. (Publicado no jornal de literatura Rascunho, de maio de 2005).