Continued from: A capitania geral de Pernambuco - Brasil Colônia
Paraíba, assim chamada do rio de igual nome, "rio mau", com 3.600 léguas quadradas de superfície, cerca de 209.30Q habitantes, era desde o princípio contada entre os territórios brasileiros mais importantes; mais ou menos em 1630, depois de quarenta anos de existência da colônia, estavam ali em produção 20 engenhos de cana-de-açúcar; porém as tempestades da invasão holandesa e ainda mais as devastações durante o tenipo da guerra da libertação tornaram a florescente região um deserto, de sorte que a colonização teve daí em diante quase que ser recomeçada. Ela havia preferido especialmente um trecho da costa de largura variável e as terras do sul, onde o solo é bom e regularmente regado, recompensando fartamente os esforços do lavrador.
Porém, mais para o interior, estendem-se do Rio Grande do Norte para baixo, na direção de Pernambuco e Alagoas, os contrafortes orientais da serra Ibiapaba, formando planalto, e o terreno apresenta os mesmos característicos do Rio Grande: muitas vezes o tempo das chuvas não traz uma gota de água; nos tempos recentes isso ainda é mais freqüente do que antigamente, pelo fato de se haver pouco a pouco, ao progredir a lavoura, destruído uma grande parte do florestamento primitivo do planalto; especialmente ainda está fresca na lembrança a seca de dois anos, de 1846, nessas regiões.
Aqui no interior só dá rendimento a criação de gado, e de certo modo a cultura do algodoeiro, ao passo que nas férteis costas produz em quantidade a cana-de-açúcar; o açúcar da Paraíba era antigamente afamado, pela sua excelência, tanto que o conde Moritz de Nassau colocou seis pães de açúcar no escudo de armas da capitania, e ainda atualmente se mantém como um dos artigos principais de exportação, mas o algodão o vai deixando, sempre mais para trás; na exportação de 1854-1855, o algodão figura já com 1.019 contos, o açúcar só com 458, no total de 1.610 contos de réis.
Paraíba já no correr do século XVIII era, de novo, entre as províncias brasileiras, uma das mais abastadas e mais bem povoadas. Somente a capital, de igual nome, ficava atrás do progresso geral; é verdade que por sua posição, não menos que por decreto real, era o porto principal e praça do comércio da província; porém faltavam aos cidadãos o espírito empreendedor e os capitais, para sustentar devidamente essa sua posição; assim os fazendeiros, apesar das repetidas proibições, preferiam levar as suas mercadorias diretamente aos grandes negociantes de Recife, onde eles contavam pela certa com a aceitação e pagamento.
Isto mudou somente nos tempos modernos. No ano de 1814 estabeleceu-se na Paraíba uma firma de negociantes ingleses, Maclakan Sc Cia., a princípio vivamente hostilizada pela população; os merceeiros locais, os agentes e devedores dos negociantes de Recife, exigiam a expulsão da firma estrangeira, que ousava fazer-lhes concorrência, e, quando o governo provincial lhes indeferiu a pretensão, eles recorreram com as suas queixas diretamente à corte. Naturalmente debalde;
Maclakan ficou imperturbado; também outros negociantes ingleses se estabeleceram, sem estorvo; os seus esforços conseguiram então acabar com a antiga soberania comercial do Recife, e a Paraíba transformou-se daí em diante de uma pobre cidadezinha num importante porto de mar, de cerca de 15.000 habitantes.
Já antes desta emancipação comercial se havia realizado a emancipação política da província. Paraíba, a princípio, sujeita inteiramente às autoridades de Pernambuco, obteve já no ano 1685 igualdade de direitos, um governador independente do capitão-general e, pelo decreto de 12 de dezembro de 1687, foi ali mesmo também estabelecido um auditor-geral, para cuidar dos negócios da justiça.
Mais tarde, incorporou-a de novo o rei d. José Manuel, como distrito, à capitania geral (29 de dezembro de 1755); porém a justiça ficou autônoma, e também a independência política foi restabelecida quarenta anos depois.
O príncipe regente d. João VI ordenou, por decreto do gabinete, de 17 de janeiro de 1799, a sua definitiva separação de Pernambuco, e criou, ao mesmo tempo, uma especial administração aduaneira e de finanças para a Paraíba, que todavia, depois de demoradas hesitações, somente em seguida à nova ordem régia, de 6 de fevereiro de 1809, de fato se estabeleceu; e com isto entrou a Paraíba para a classe das províncias plenamente autônomas. Contudo, até à atualidade, ela ainda não se pôde inteiramente subtrair à preponderante influência da poderosa província vizinha, e todas as revoluções, que se declaravam em Pernambuco, logo atraíam a Paraíba à sua esfera, ou pelo menos achavam ali algum eco.
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