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Todavia, com uma exceção — e retomemos agora de novo o fio de nossa história especial da província, que interrompemos — uma vez pelo menos chegou um quilombo a tão grandiosas dimensões, que talvez merecesse o nome de Estado Negro; e nessa perigosa grandeza sustentou-se mais de meio século. Isto foi no interior da capitania de Pernambuco, na sua região do sul, dos "pântanos e lagoas", a atual província de Alagoas.

Sobre os inícios de formação desse Estado, as informações são muito superficiais. Foi nos primeiros anos da invasão holandesa em Pernambuco, 1630 e seguintes, quando então se evadiu um grande número de negros africanos da escravidão dos portugueses, não sabemos precisamente quando, nem como; todavia, a circunstância de se haverem logo ajuntado e sujeitado a uma organização coletiva faz-nos supor que eram companheiros de tribo da costa de Angola ou pelo menos "malungos", isto é, companheiros de navio, que sempre conservavam uma grande solidariedade; talvez eles fizessem parte do carregamento de um navio negreiro português que houvesse caído em poder de um corsário holandês, e o comandante holandês, para utilizar-se ulteriormente do barco apreendido, tivesse desembarcado a carga de negros em terra, deixando-os entregues a si mesmos, como costumava muitas vezes acontecer. Fosse como fosse, o fato é que os fugitivos se lançaram nas matas da costa, e nas vertentes orientais da serra das Barrigas, um espigão da serra Ibiapaba, a oeste das aldeias portuguesas de Porto Calvo e Anadia, fundaram um quilombo, que, por causa da grande quantidade^e palmeiras dos arredores, recebeu o nome de Palmares.

Não lhes faltou afluencia; naqueles tempos tormentosos, em que tantas fazendas foram destruídas ou abandonadas por seus donos, eram fáceis as oportunidades de fuga para os escravos, e inúmeros se aproveitavam delas; muitos assentaram praça de soldado, sob as bandeiras holandesas ou portuguesas; a maioria, contudo, agregava-se aos seus irmãos em Palmares; e, ao passo que esta aldeia se estendia consideravelmente, nasceu ao mesmo tempo em volta uma coroa de quilombos filiais, que todos reconheciam a autoridade da aldeia-mãe. Em breve tornou-se o jovem Estado Negro temido por todos os seus vizinhos; os seus chefes percorriam toda Alagoas até à costa e o rio São Francisco, e ao norte até Pernambuco a dentro; toda fazenda situada um pouco retirada era atacada a ferro e fogo, todos os bens, escravos e rebanhos eram carregados, os homens brancos trucidados; porém as mulheres brancas e as moças seguiam amarradas, no regresso do triunfador preto, e eram dadas para mulheres ou escravas dos vencedores.

Tais depredações sucediam-se sempre mais freqüentemente e em escala crescente, sem que se tomasse uma medida séria para impedi-las; as duas potências coloniais em luta — holandeses e portugueses — tinham de sobra que fazer uma contra a outra. Somente após a conclusão da trégua, pôde o conde Moritz de Nassau empreender uma grande expedição contra Palmares (1642-43). Todavia, o resultado não foi completo nem duradouro, e as tempestades, que sobrevieram com a guerra da libertação pernambucana (1645-54), deram aos negros nova oportunidade e vagar para se refazerem da derrota, e conquistar novos despojos e novos aliados.

Em meados do século XVII, havia o Estado Negro assim alcançado não pequeno grau de poder e florescimento; estava agora em condições de oferecer resistência às forças militares da capitania de Pernambuco; e de uma aliança de todos os Estados brasileiros vizinhos contra o comum inimigo, a princípio ninguém se lembrou.

Assim, não restava aos fazendeiros dos ameaçados distritos vizinhos outra alternativa senão transigir com os temidos quilombolas; primeiramente, entabularam negociações por meio de seus escravos, para libertar as suas mulheres e filhas, por pesadas quantias de resgate; compravam com presentes e contribuições forçadas a segurança de suas fazendas; e daí se foram então, pouco a pouco, apesar das mais severas proibições, desenvolvendo regulares relações de comércio, permutando Palmares os seus produtos da lavoura e frutos dos saques pelo necessário em mercadorias européias, especialmente armas e munições de guerra; e com isto cresceu o seu poder bélico.

A organização interna dos quilombos, tanto quanto podemos concluir pelas escassas notícias dos portugueses, faz inteiramente lembrar um Estado africano. A testa estava um chefe eleito vitaliciamente, que, segundo parece, era revestido dos atributos da divindade (o seu nome zombi ou zumbe parece ao menos idêntico ao vocábulo angolense nzambi, divindade)83, e ao qual todo o povo obedecia cegamente; nunca a ambição de um revoltado ou de um conspirador perturbou a paz interior. Eram-lhe subordinados os chefes das diversas aldeias, que eram ao mesmo tempo chefes do exército e juízes; eles faziam a justiça segundo a tradição oral, pela qual a pena era de morte para os criminosos de adultério, roubo e assassínio.

A religião consistia numa singular mistura de elementos cristãos e pagãos; a cruz e algumas fórmulas de oração da igreja católica figuravam ao lado das cerimônias selvagens do fetichismo africano, que tinham um papel considerável, e eram tidas em grande honra.

No ponto de vista religioso, achamos assim semelhanças com as circunstâncias atuais do Estado negro de Haiti; porém, nos traços gerais, essas duas formas de Estado são inteiramente diferentes. Em Haiti lavrava uma guerra de raça, de vida e de morte, pela liberdade e soberania, e, se queremos resumir numa expressão a idéia primordial da mesma, encontramo-la no seu desejo de que a cor negra da pele, até aqui sinal de servidão, deveria ser de hoje em diante o sinal da liberdade, a pele branca o sinal da subordinação.

Outro era o caso de Palmares: era uma colônia africana, que por casualidade surgira junto da colônia européia; achava-se envolvida contra esta numa guerra legítima, porém absolutamente não havia a idéia da libertação de uma raça e sujeição da outra.

Ao contrário: os habitantes de Palmares conservavam também irmãos de raça na escravidão; negros e mulatos, quando numa surtida dos quilombolas lhes caíam às mãos, eram repartidos entre os vencedores e permaneciam como seus escravos e da sua descendência; somente aquele que, por sua livre vontade, se apresentava no quilombo, era aceito como cidadão. Por conseguinte, um livre, que voltasse para o seio dos portugueses, arriscava sua vida como um tránsfuga na guerra; ao contrário, o escravo, que fugisse e fosse de novo apanhado, escapava, como entre os brancos, com uma surra de açoite.

A sua população, segundo os dados portugueses, devia constar de umas 20.000 almas, das quais mais da metade de homens capazes de trazer armas, e achava-se, portanto, muito densamente estabelecida no relativamente pequeno domínio; exploravam a lavoura; todavia, fiavam-se igualmente nas frutas da mata virgem, na caça e na pesca, e a principal indústria sempre foi o roubo e a guerra; as pequenas aldeias nunca se elevaram acima do nível de simples quilombos; somente Palmares, o lugar principal, tinha pretensões a importância e era, tanto quanto permitiam os meios e o entendimento dos habitantes, embelezado e bem fortificado.

Apoiada numa rocha alta, isolada, que servia de atalaia, era esta povoação, numa légua em redor, circundada por uma forte paliçada de dupla fila cerrada, feita de gigantescos troncos de árvores; somente três portas davam acesso para o interior, onde em caso de necessidade toda a população do Estado podia caber, e cada uma destas portas era protegida por um bastião, sobre o qual 200 combatentes podiam achar lugar. Ali dentro serpeava, vindo das próximas montanhas, uma quantidade de pequenos riachos, que formavam no meio um grande viveiro rico de peixes; também muitos pequenos grupos de palmeiras haviam ficado de pé, e sob os mesmos haviam os habitantes construído as suas leves habitações, na maioria pequenas e singelas, como as cabanas de bambu dos seus irmãos de raça na costa da África. Somente o palácio do zumbi era de grandes dimensões e servia certamente ao mesmo tempo de casa da câmara e templo; só ali é que se ostentava uma espécie de magnificência bárbara.

Nesse pé se manteve o Estado negro de Palmares até pelos fins do século XVII, sempre ganhando força e extensão, sempre crescendo o terror que o seu nome inspirava; e de ano para ano recuavam atemorizados o povo e o governo de Pernambuco diante dos tremendos esforços que exigiria uma guerra contra o vizinho perigoso.

Finalmente, resolveu o capitão-mor Caetano de Melo de Castro (13 de junho de 1696 a 5 de março de 1699) empreender a difícil tarefa. Para esse fim ele convocou todas as forças de seu governo e pediu a colaboração do vizinho governador-geral da Bahia, que lhe mandou em auxílio uma tropa de paulistas, que então vagava nos sertões daquela província.

O chefe desse bando, Domingos Jorge, quando recebeu a ordem de se reunir em Porto Calvo com as tropas pernambucanas, em vez do caminho costumado ao longo da costa, tomou pelo sertão de Alagoas, parte porque ele desejava de caminho conhecer por si mesmo o futuro teatro da guerra e mormente observar a capital inimiga, parte porque à frente de uns mil homens, paulistas e aliados índios, se julgava bastante forte para derrocar sozinho o Estado negro, e almejava não compartilhar com ninguém os louros da vitória.

Sem encontrar em parte alguma séria resistência, alcançou ele o distrito de Palmares e estabeleceu o seu acampamento diante das portas da cidade, onde então se convenceu, de visu, da impossibilidade de um golpe de mão; os negros, por seu lado, contentaram-se em observar o inimigo que se aproximava, e deixaram-no dois dias em paz na sua posição fortificada. Porém no terceiro dia, quando os paulistas se haviam dispersado pára saquear um bananal, aproveitaram-se os quilom-bolas do momento favorável para uma surtida; e a tropa brasileira estaria perdida, se Domingos Jorge não houvesse aprendido, já desde muito, nas guerras de fronteira com os índios, a reunir rapidamente a sua gente dispersada; todavia a vitória tocou aos quilombolas. Depois de um combate sangrento, no qual entre ambos os partidos 800 homens foram mortos ou feridos, tiveram os paulistas que empreender a retirada cm boa ordem. Em Porto Calvo eles se encontraram com as forças pernambucanas, e o exército reunido, de uns 6.000 homens, pôs-se então imediatamente em marcha contra Palmares.

Ali estavam preparados para a guerra; os chefes, avisados pelo ataque prematuro, haviam feito destruir todos os quilombos filiais, todas as plantações, todos os pomares, numa vasta redondeza, e reuniram todas as forças no quilombo capital; todavia, parece que eles não tentaram estorvar a marcha do inimigo; os três capitães do exército brasileiro, Domingos Jorge, de São Paulo, Bernardo Vieira de Melo, de Pernambuco, e Sebastião Dias, de Alagoas, puderam, cada qual com a sua tropa, estabelecer-se e fortificar-se diante de uma das três portas.

E deu-se começo ao assalto simultaneamente por todos os três lados; os brasileiros procuraram romper a muralha da paliçada ou escalá-la com as suas escadas, ao passo que lá de cima eram inundados de uma chuva de projéteis, água fervente e brandões acesos; dia após dia renovaram as tentativas, porém sempre rechaçados com perdas; afinal mandaram os chefes uma mensagem a Olinda, para o capitão-general, em que diziam que, sem novos reforços e sobretudo sem artilharia de cerco, não se podia conquistar Palmares.

Entretanto, tornou-se a situação de ambos os partidos cada vez mais penosa; as munições de guerra e de boca dos quilombolas estavam quase que esgotadas; os sitiantes, de seu lado, sofriam as mais terríveis privações na região devastada, e já os negros começavam a ter esperança de que o inimigo, acossado pela fome, se decidiria pela retirada.

Avistou-se, porém, um dia, da atalaia da cidade, uma comprida coluna de gado e de carros abundantemente carregados, que foi acolhida no acampamento português com maior júbilo; e então os sitiados perderam toda a esperança; quando os brasileiros, com renovada coragem, recomeçaram o assalto, encontraram apenas fraca resistência; dentro em breve foram deitadas abaixo as portas; e por todos os lados penetraram em multidão os vencedores, trucidando e incendiando, na desgraçada Palmares.

Agora estava tudo perdido; o zumbi, os seus capitães e mais bravos guerreiros retiraram-se para o seu penedo e morreram como homens livres, precipitando-se do cume no abismo84; o resto da população implorou perdão e ofereceu as mãos às algemas; todos, sem distinção de idade e sexo, foram condenados à escravidão; um quinto tocou à coroa, os restantes foram repartidos entre os vencedores; todavia, só se conservaram em Pernambuco mulheres e crianças; os homens válidos foram, por precaução, vendidos para províncias distantes; a própria Palmares foi arrasada completamente.

Quando essa notícia chegou a Olinda, estava o capitão-general, Caetano de Mello de Castro, no ponto de se pôr em caminho do teatro da guerra, ele próprio, com uma tropa fresca de 2.000 homens e seis pesadas peças de artilharia; agora já não era mais necessário; todos se entregaram aos regozijos da vitória, que teve a sua expressão religiosa numa procissão de ação de graças e numa festiva missa cantada na catedral. Assim se extinguiu o Estado negro, o grande quilombo dos Palmares!

Deveríamos lamentar-lhe a triste sorte, porém a sua destruição foi uma necessidade. Uma completa africanização de Alagoas, uma colônia africana de permeio aos Estados europeus escravocratas, era coisa que não podia de todo ser tolerada, sem fazer perigar seriamente a existência da colonização branca brasileira; o dever da própria conservação obrigava a exterminá-la; e deve-se atribuir, não às pessoas, porém somente às circunstâncias existentes então, ao condenável sistema do tráfico de escravos e escravização dos negros, a culpa de tão grande tragédia.

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O que temos que acrescentar, além disso, da história provincial de Pernambuco, tem a sua causa eficiente naquela arrogância para com a coroa e o povo da mãe-pátria, sentimento a que nos referimos anteriormente, como característico fundamental dessa província.

Era, por isso, muito delicada a posição do capitão-general; já o primeiro deles, o meritíssimo André Vidal de Negreiros (1657-1661), tivera que haver-se com uma viva oposição; acusaram-no de absoluta tirania e chegaram mesmo, por esse motivo, a mandar contra ele queixa formal ao governador-geral da Bahia, provavelmente só porque ele exercia a justiça com mão forte e sem consideração de pessoas. Ainda foi pior com o terceiro capitão-general, Jerônimo de Mendonça Furtado (25 de março de 1664 e seguintes); foi-lhe lançada a acusação de que somente tinha em mira o seu interesse próprio e que procurava por todos os meios enriquecer, o que justamente não parece nada improvável, pois que, segundo disse o muito afamado jesuíta Antônio Vieira, no seu sermão sobre o "Bom Ladrão", o verbo "rá-pio" era nas colônias portuguesas "conjugado em todos os modos, em todos os tempos e em todas as pessoas".

Fosse como fosse, em todo caso o modo como se desembaraçaram de Mendonça Furtado foi ao menos um tanto singular.

Era coisa conhecida, e é o costume de muitos países católicos, quando o sacramento da eucaristia é levado a um moribundo, toda pessoa que passa pelo padre que leva a custódia lhe faz acompanhamento; assim também acontece no Brasil; e esse costume religioso ia servir aos planos dos descontentes.

Um dia, associou-se uma multidão de conjurados importantes ao séquito do sacramento, e encaminhou a procissão ao palácio do governo; o capitão-general, lembrando-se do dever de consciência, saiu à rua e seguiu a hóstia sagrada até à igreja, de onde havia vindo, e onde foi então de novo depositada solenemente85. Porém, apenas ele saiu da igreja, viu-se cercado por todos os lados pelos conjurados, que, de espada em punho, venceram a sua escolta. "O povo — clamaram vozes — estava cansado de ser tiranizado por ele, ainda mais rigorosamente do que antes pelos holandeses; ele morreria, se tentasse resistir". Mendonça submeteu-se à força e entregou a sua espada ao juiz da cidade, André de Barros Rego, que, "em nome do rei, da nobreza e do povo de Pernambuco", o prendeu’ e o fez conduzir à prisão da cidade (9 de março de 1666).

Por um pouco estas cenas domésticas iam dando pretexto para complicações internacionais. No porto do Recife ancorava justamente então uma esquadra da Companhia Francesa das índias Orientais, que em caminho para Madagáscar ali

aportara a reabastecer-se, e havia sido acolhida por Furtado de Mendonça com muita hospitalidade; correu então logo o boato de que o capitão-general preso havia sido apanhado em flagrante de ligações traidoras, queria passar para as mãos dos franceses a cidade e província.

A plebe, que deu facilmente crédito a esses disparates, pegou em armas e caiu em cima dos franceses que haviam descido à terra, e o convento dos capuchinhos, onde estes se refugiaram, foi logo cercado pela multidão de povo enfurecido; todavia, o governo provisório interveio rápido e enérgico, levantou o cerco aos sitiados e desculpou-se diante do almirante francês. Porém, o capitão-general ficou preso e foi finalmente embarcado para Lisboa.

Por sua desgraça, justamente então o seu irmão mais velho, Francisco de Mendonça, se havia tornado efetivamente culpado de traição à pátria, pois passara para os espanhóis; assim, o governo português o considerou cúmplice dele e o condenou, sem ouvir a sua justificação, a cárcere perpétuo, numa fortaleza das índias Orientais; e a violenta sublevação dos pernambucanos, se não foi expressamente aprovada, foi, contudo, tacitamente admitida.

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