Com a nova organização, um dos membros do partido republicano, Manuel de Carvalho Pais de Andrade (que já nos acontecimentos de 1817 se havia implicado, porém no momento da catástrofe se achava em comissão para compra de material de guerra na América do Norte, de onde só depois da declaração da independência brasileira voltou à pátria), fora eleito provisoriamente para presidente do governo provincial. O gabinete do Rio de Janeiro, informado das suas idéias, recusou-lhe a confirmação e mandou outro funcionário seguro para substituí-lo; três vezes exigiu este último que o reconhecessem como presidente do governo e lhe permitissem o exercício de suas funções; três vezes recebeu ele resposta negativa; finalmente, teve que retroceder, sem haver feito nada.
Em seguida, começou uma pequena esquadra imperial a bloquear a desobediente Recife (janeiro de 1824); todavia, isto fez pouca impressão; o eleito do poVo continuou no seu cargo. Na verdade, um batalhão da guarnição, amotinado por dois oficiais ambiciosos, tentou derrubá-lo; a 20 de março de 1824, foi Manuel de Carvalho assaltado de improviso, preso e levado à fortaleza do porto, porém as tropas ali aquarteladas tomaram o seu partido, igualmente a maioria dos restantes soldados, toda a população da cidade, e dentro de poucas horas estava ele de novo em liberdade e reempossado na presidência. O batalhão rebelde foi desterrado da província, para Barra Grande (província de Alagoas); também os navios do bloqueio se retiraram agora. Teve então Carvalho liberdade plena de ação; todavia, governou ainda, provisoriamente em nome do imperador, como funcionário brasileiro; e, se em segredo ele fazia preparativos em terra e no mar, pareceriam plenamente justificados, pois a esse tempo Portugal ameaçava invadir o Brasil.
Justamente nesse tempo foi publicada uma proclamação do imperador d. Pedro I, na qual ele declarava abertamente que lhe seria impossível, no caso de ataque dos portugueses, defender toda a costa, e confiava primeiramente aos pernambucanos que cuidassem da sua própria defesa (11 de junho).
Tal ordem excitou naturalmente ainda mais a agitação existente; surgiu a desconfiança se seria realmente bem intencionado d. Pedro I acerca da independência nacional; e a província, embora não sentisse receio, recebeu, entretanto, com indignação a notícia de que seria assim deixada em desamparo; se o império do Brasil não podia dispensar proteção alguma aos pernambucanos, para que depender mais tempo do Rio de Janeiro?
Resolveram os republicanos utilizar esse estado de espírito para os seus fins, e Manuel de Carvalho cedeu a seus desejos; a 2 de julho de 1824, publicou ele uma proclamação, na qual o imperador d. Pedro I era declarado traidor, pois que era seu intento entregar o Brasil às mãos dos portugueses; ao mesmo tempo, nela eram convidadas todas as províncias do Norte a recusar a autoridade imperial, o império do Brasil, e a se reunirem num Estado federativo republicano independente, sob a presidência de Pernambuco; foi proclamada a "Confederação do Equador".
De fato, durante as seguintes semanas chegaram adesões da Paraíba, do Rio Grande do Norte e até do Ceará, porém a cooperação se limitou a simples palavras e pequenas arruaças; também Alagoas e alguns distritos rurais de Pernambuco pouco interesse demonstraram, e em breve o partido dos monarquistas tentou mesmo aberta contra-revolução.
Um membro da aristocracia rural pernambucana, que possuía extensas propriedades nas vizinhanças do Cabo de Santo Agostinho, Barreto, elevado depois a marquês do Recife, arvorou a bandeira imperial, e em torno dela se formaram os seus campônios, os soldados que haviam guardado fidelidade, e muitos voluntários; e, se não podia fazer frente em campo aberto aos republicanos, superiores em forças, soube, todavia, defender-se com felicidade do bloqueio começado contra o seu campo, simultaneamente dos lados de terra e do mar.
Nesse ínterim, chegara a notícia desses acontecimentos ao Rio de Janeiro; o imperador declarou em estado de sítio a província separatista e mandou um destacamento de tropas regulares, sob o comando do general Francisco de Lima, para reduzi-la à obediência, ao passo que ao mesmo tempo se fazia de vela para ali a esquadra brasileira.
O almirante da mesma, Thomas, lorde Cochrane, marquês do Maranhão, enquanto estabelecia o bloqueio em Recife, procurou além disso entabular negociações: em repetidas proclamações, convidava os pernambucanos à submissão e oferecia-se então, como intermediário, para apresentar ao imperador as suas reclamações; porém essas ofertas foram tão infrutíferas como as ameaças que as acompanhavam. Também a proposta de uma entrevista pessoal a bordo de navio de guerra francês, neutro, Manuel de Carvalho a rejeitou; em vez disso, procurou ele por meio de aliciamento atrair o almirante para o seu lado; ofereceu-lhe 400 contos, se ele arriasse a bandeira imperial e içasse a da república.
Naturalmente, romperam-se então todas as negociações; a frota preparou-se para o bombardeio; porém os navios maiores, por causa de seu calado, não podiam aproximar-se à distância de tiro; e as poucas bombas que uma pequena embarcação lançou sobre a cidade (28 de agosto) fizeram tão poucos estragos, que se abandonou a tentativa. A decisão fez-se em terra: o general Francisco de Lima, depois de haver tomado pé em Alagoas, reuniu-se aos legalistas pernambucanos, sob as ordens de Barreto, e marchou então ao encontro dos republicanos, que, se eram superiores em número, todavia em armamento e disciplina estavam em inferioridade relativamente às suas tropas; e, o que era pior, o modo de guarnecer, que seria mais adequado e que antigamente fora empregado com tanto sucesso contra os holandeses, as guerrilhas em cada palmo de terreno, devido à indecisa atitude do povo, não podiam ser convenientemente aplicadas.
Na verdade, fizeram-se muitas escaramuças em campo aberto, porém todas com pouca vantagem, e sempre acabavam com a derrota dos revolucionários, de sorte que estes em breve debandaram quase todos; já a 11 de setembro de 1824, os bairros exteriores de Recife, Santo Antônio e Boa Vista, também a 17 de setembro a cidade velha, se renderam às tropas imperiais; a Confederação do Equador fora sufocada ao nascer.
Desta vez, o governo brasileiro vitorioso procedeu com moderação; somente três condenações à morte se executaram, todas as três em personagens de pouca importância87; além disso, algumas centenas de prisioneiros de guerra foram deportados para as províncias do Sul.
O principal culpado, Manuel de Carvalho Pais de Andrade, escapou com felicidade; já no combate de 11 de setembro, extraviado com um pequeno destacamento e cortada a sua retirada, vira-se ele obrigado a tomar uma jangada, que o devia levar pela baía intermediária à cidade velha; porém, ao incessante fogo de ambos os lados, que se cruzava naquele ponto, os remadores, aterrados, no meio do caminho recusaram-se a levá-lo adiante, e ele se viu então forçado a refugiar-se a bordo de um navio de guerra inglês, o qual lhe concedeu prontamente asilo; assim, aos últimos combates, de 17 de setembro, ele não estava mais presente.
Sem dúvida do lado brasileiro ele ainda foi perseguido; um destacamento dé tropas dirigiu-se às suas propriedades, situadas não distante da cidade, onde se julgava estivesse ele escondido; todavia, lá se encontrou somente a sua mãe, que na capela toda iluminada de sua casa rogava insistentemente a intercessão do céu, da Virgem Santíssima, em favor dos planos de seu filho, agora frustrados.
No navio inglês alcançou Manuel de Carvalho a Europa; e, quando, mais tarde, no tempo da regência, ele regressou ao Brasil, ninguém se lembrou do seu passado; ele entrou, mesmo, como representante da província da Paraíba, no Senado do Império (11 de janeiro de 1834), dignidade de que ele, tanto quanto sabemos, ainda está revestido.
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