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Aparecimento de Jesus Cristo – François-René de Chateaubriand


RELIGIÃO — MORAL

Aparecimento de Jesus Cristo

Ao tempo da aparição do Redentor sôbre a terra, as nações estavam na expectativa dalgum famoso personagem. Suetônio *) diz: “Derramara-se no Oriente a velha e permanente opinião de que um homem surgiria na Judéia e obteria o império universal.” Tá­cito[1]), quase com palavras idênticas, conta o mesmo fato. Con­forme êste historiador, “a maior parte dos judeus estavam persua­didos, seguindo um oráculo conservado nos antigos livros dos seus profetas, que nesse tempo (o de Vespasiano) 3) o Oriente preva­leceria, e alguém, oriundo da Judéia, reinaria sôbre o mundo.

Josefo [2]), falando da ruína de Jerusalém, narra que os judeus foram principalmente instigados à revolta contra os romanos por uma obscura profecia, que lhes anunciava que nesta época um homem surgiria entre eles, e subjugaria o Universo.

O Novo Testamento também oferece traços desta esperança derramada em Israel; a multidão que vai ao deserto, pergunta a S. João Batista se êle é o Grande Messias, o Cristo de Deus, desde muito esperado; os discípulos de Emaus ficam trânsidos de triste­za, quando reconhecem que João não é o homem que deve resgatar Israel.

As setenta semanas de Daniel [3]) ou os quatrocentos e noven­ta anos, desde a reconstrução do templo, estavam cumpridas. Orígenes[4]), finalmente, depois que relata estas tradições judaicas, ajunta: “Que um grande número dêles confessaram a Jesus Cris­

to como o libertador prometido pelos profetas.”

Entretanto o Céu prepara os caminhos do Filho do Homem.

A. S nações, longo tempo divergentes em costumes, govêrno e lin­guagem, entretinham inimizades hereditárias: de-repente cessa o ruído das armas, e os povos reconciliados ou vencidos, vêm con- fundir-se rio povo romano.

Por ura lado, religião e costumes chegaram ao grau de cor­rupção qu£ por fôrça produz mudança no trato humano; por ou­tro, os dogmas da unidade de Deus e da imortalidade da alma
começam a espalhar-se; destarte os caminhos se desempecem a doutrina na propaganda.

Êste império romano forma-se de nações selvagens e cultas, sendo as mais delas infinitamente desgraçadas: a simplicidade do Cristo para as primeiras, as virtudes morais para as segundas, para tôdas a sua misericórdia e caridade, tais são o.s expedientes de salvação que traça o Céu. E tão eficazes são êstes expedientes que dois séculos depois do Messias, Tertuliano [5]) dizia aos juizes de Roma: “Nós somos de ontem, e enchemos vossas cidades, ilhas, fortalezas, colônias, tribos, de- cúrias, conselhos, palácios, se­nado, forum: apenas vos dei­xamos os vossos templos (sola relinquimus templa).

à grandeza dos preparati­vos naturais casou-se o fulgor dos prodígios: os verdadeiros oráculos, desde longo tempo mudos em Jerusalém, recobram a voz, e as falsas sibilas [6]) emudecem. Nova estrêla se le­vanta no Oriente. Gabriel bai­xa a Maria, e um côro de es­píritos bem-aventurados canta nas alturas celestiais durante a noite: Glória a Deus e paz aos homens!

Súbito se espalha o boato de que o Salvador nasceu na Judéia. Não nasceu na púrpu­ra, mas, sim no albergue da pobreza; não foi anunciado aos grandes e aos soberbos, mas aos simples e pequenos os an­jos o revelaram; não agrupou

em redor do seu berço os felizes do mundo, mas sim os desgraça­dos; e por êsse primeiro ato da sua vida declarou-se de preferência Deus dos miseráveis.

Paremos aqui para uma reflexão. Nós vemos, desde o comêço dos séculos, os reis, os heróis, os homens preclaros tornarem-se deu­ses das nações. Eis, porém, que o filho dum carpinteiro, num re­canto d? Judéia, é um modêlo de dores e indigências, um suplício o infama publicamente; os seus discípulos saem da ínfima escala so-
ciai; pi.ega o sacriíício, a renúncia às pompas mundanas, ao prazer, ao poder; prefere o escravo ao senhor, o pobre ao rico, o leproso ao sadio: tudo que chora, tudo que sofre, tudo que o mundo desampa­ra, o delicia a Êle, que ameaça o poder, a riqueza e a felicidade. Aniquila a ciência comum da moral: estabelece harmonias novas entre os homens, novo direito das gentes, nova fé pública. Desfarte eleva a sua divindade, vence a religião dos Césares, assenta-se em seu trono, e chega a subjugar a terra. Não! quando a voz univer­sal bramasse contra Jesus Cristo, quando tôdas as luzes da filoso­fia se reunissem contra os seus dogmas, nunca nos convenceriam de que uma religião assente em base tal é religião humana. Aquêle que conseguiu fazer adorar uma cruz, Aquêle que ofereceu aos ho­mens como objeto de culto a humanidade sofredora, a virtude per­seguida, Êsse, aqui o juramos, não podia ser senão Deus.

Chateaubriand Traduzido

1) Suetônio — 2) Tácito — historiadores latinos.

[2] Josefo^ — histoíiador judeu.

[3] Daniel — profeta do Antigo Testamento.

[4] Orígenes — escritor” grego eclesiástico.

[5] Tertuliano — escritor eclesiástico, natural de Cartago, na África, (160-240 dep. de Cristo).

[6] Sibilas — profetisas, adivinhadoras.

Jesus Cristo

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

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