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Miguel (admin)Mestre
Olá pessoal: Entendo a posição dos responsáveis pelo consciência, de exigerem registro. Aparentemente,com essa exigência, mínima, o Melvin desistiu de participar(parece). Se isso ocorrer eu lamento. Mesmo discordando da sua visão liberal e das suas propostas, ingênuas e/ou grosseiras. Melvin disponibilizava bastante informação e sempre que podia lembrava algumas leituras clássicas. Enfim…Quem sabe , alguém retome o tópico central. Abraços
Miguel (admin)MestreVocê pode contatar-me em [email protected] . Vou checar as opções para ver se há como habilitar mensagens privadas para os moderadores.
Miguel (admin)MestreHabilitei a opção, conforme já havia avisado aqui. Agora os tópicos Questões sobre filosofia em Geral e Questões do mundo atual requerem registro. A tendência é, no futuro, isso acontece também com o Fórum Sobre Filósofos. De início todos podiam postar, mas com o crescimento do fórum tal medida facilita a moderação do fórum, pois já ocorreu uso abusivo do nosso sistema. Obrigado pela compreensão.
Miguel (admin)MestreCaros Amigos,
Será mesmo que a verdade é o fim de nossa peregrinação?Será mesmo que hastearíamos sua bandeira se todos dela já tivessem tomado parte?
Gostaria de ter uma verdade para revelar, mas só sei esperar, tolerar,esperar,tentar
Me lembro de ter entrado na biblioteca, todas aquelas verdades….não há meios de conter a vertigem, não obstante eu tenho de saber tudo isso, em cada pagina pode haver uma verdade, uma pílula vermelha.Não somente nas paginas, em cada rua, em cada humano, em Deus…tudo pretende verdade.
E eu, por que tenho que saber?Sinceramente, nunca irei saber…Sou um incidente, um acidente, poderia ser todos, todas as verdades me cabem pois nenhuma me cabe…
Quantas detalhes, quanta banalidade forma um individuo??Como não tolerar?Como não querer ser tudo e não ser nada?Como não sorrir da triste beleza deste jardim-dos-loucos?
Quem se habilita a matar este incomodo???
“Esta cara com esta linguagem pseudo-poetica,escreve feito uma criança,deve estar encantado com sua vã filosofia,deve estar sendo irônico, olhe seus erros de gramática…talvez injusto, talvez arrogante,talvez cego,talvez ingênuo,talvez louco…talvez ele precise amadurecer muito…e compreender a minha verdade!”
No fundo não posso deixar de concordar, acho que desprendi a desacordar…
Mas quem sabe verdadeiramente o que significa tolerar?
Ouço Blake rir ao fundo: “try,try and never ask why”, “try,try and never ask why”
E a coruja diz:
“Meu amigo, neste constante concerto chamado “vida”, o “allegro con fuoco” só pode vir depois do “andante”!
Dum Spiro Spero, enquanto respiro, espero…..
“The Troubles of our proud and angry dust,
Are from eternity, and shall not fail.
Bear them we can, and if we can, we must.
Shoulder the sky, my lad, and drink your ale.”Miguel (admin)MestreDesculpem o teste anterior: Sou o Fernando o velho comuna:
Solução Melvin em 29/06/04, para o problema da periferia Rio/ Sampa,e Brasil
3. Os projetos teriam concorrência internacional, recorreriam
aos capitais internacionais, adotariam padrões internacionais.
>> Sonha Ingenuidade: Por isso digo, o veneno destilado por Melvin volta para ele. Não há leituras paradigmáticas do país. Que capitais internacionais ” bonzinhos” são estes, que viriam a fundo perdido, para se urbanizar, sanear, enfim humanizar a periferia. Claro há alguns recursos do BID e BIRD, que vêm ,sempre pingados e jamais com esta magnitude sonhada. Só para resumir. Não há soluções, no âmbito dos capitais internacionais, ao menos a vista. Sonhador e irresponsável na minha opinião é quem coloca essas coisas. A irresponsabilidade chega ao limite, em qualquer espectro ideológico. A solução se tiver, será drástica e estaria com visão de esquerda, que infelizmente, ainda não está consolidada. Qual a essência desta visão, que ainda não foi implementada( é muito fácil só gitar palavras de ordem)? 1)Radical distribuição de renda, via taxação, expropriação, o que seja a partir da alta classe média.2) Questionamento da dívida. Claro que isso não se faz sem tempestades ou riscos. De outra forma, só é possível atuar-se de maneira, mais ou menos honesta, ou responsável, pensando-se de forma pos-moderna, atuando-se nas pequenas frentes: raça, gênero, exclusão social, etc. Mas acredito que os resultados seriam pífios.Miguel (admin)MestreVocês já recorreram à dissertação de mestrado A morte de Deus e a Morte do Homem em Nietzsche em Michel Foucault ??
Miguel (admin)MestreOlá
Você levanta várias questões. Estou sem minha biblioteca aqui, então não tenho a quem recorrer.
Me parece que a felicidade em Nietzsche está ligada a Vontade de Poder, principalmente como uma coisa fisiológica, a saúde, a força de vida. Nesse ponto que entra aquela frase que diz que “a felicidade é o estado resultante de uma boa sugestão”. A felicidade é o contrário do ressentimento, da lamúria, da crença em outros mundos que não a terra. O homem superior afasta com apenas uma inflexão todas as suas desgraças. A dança, (só acreditaria num deus que soubesse dançar), o valor da comida em Nietzsche entram aí. “Deveríamos obrigar o asceta a comer uma caixa de maizena”.
Agora não sei como fica a valorização do efêmero. E o eterno retorno? E o gênio que diz, na calada da noite, que o mesmo momento irá acontecer inúmeras vezes? Isso dá um peso à existência, além da parte cosmológica do eterno retorno, temos essa parte prática, quase um carpe die. Sem o peso, o fardo metafísico, mas cada momento é também eterno, penso.
Vamos ver…
Miguel (admin)MestreRIO e SAO … tudo a ver!
I) FSP, 29/06/04, Editorial: “É um escândalo que o poder
público continue assistindo inerte ao preocupante avanço da
ocupação ilegal de áreas da região metropolitana de São
Paulo … expansão selvagem e predatória ocorre em diversos
pontos, notadamente nas periferias … bairro pobre irregular
que há dez anos começou a se formar na região da serra da
Cantareira. Em 1994, eram cerca de 200 famílias. Hoje, a
associação de moradores estima que sejam 3.000. Por que
nada se fez nesse período? A mata é destruída, os cursos
d'água transformam-se em esgotos ao ar livre -e a presença
do poder público é nula …”
1. A capital paulista está sitiada por coletividades-rocinha.
Lidar com tal questão deverá promover abordagem qSAO, tal
e qual a qRIO. Daí que na real deverá haver a qBR, a lidar
com as coletividades desservidas nas metrópoles brasileiras.
2. Considera-se que a coisa certa a fazer estaria em que os
poderes públicos propositassem uma instituição formal com
autonomia completa, ou seja completamente de fora dos
negócios do Estado, e com definições para tudo:
– fontes de recursos
– estrutura administrativa
– capacitação&cargos&salários&funções: quadro de pessoal
– leis, regras, padrões, processos, procedimentos
– programas, projetos, planos
– controles diversos para zelar pela disciplina, rigor, apuro.
3. Os projetos teriam concorrência internacional, recorreriam
aos capitais internacionais, adotariam padrões internacionais.II) A idéia central que está-se a considerar, é de que seriam
construídas várias cidades, com instalações atendidas em
todos os requisitos essenciais para coletividade organizada.
(29/06/04)Miguel (admin)Mestrebacana essa discussão toda…
mas como um dia enxergar Jesus? E hoje, como ter uma visão útil, e não apenas veneradora ou contestadora? Como manter ou enxergar hoje o que já podemos sobre essa figura grandiosa? como notar nos homens, em nós, um dia, aquilo que estava nele também? Como perceber na filosofia uma oportunidade de abrir os olhos pro chamado? Como desligar a visão crística do ranço religioso e limpar a vista? E não se fala visão só de Jesus, mas daqueles que não tem a pretensão de serem grandes ou revolucionários, mas de serem apenas eles mesmos.
quem sabe um dia chegaremos a vê-los porque seremos então capazes e merecedores.“Não devemos fugir com os pés, porque nossos passos nos levam sempre de uma parte da terra a outra; não se tem de preparar tampouco nenhuma barraca e nenhum navio, e sim deixar de olhar, e, fechando os olhos, mudar esta maneira de ver por outra, e despertar essa faculdade que todo mundo possui, mas da qual poucos fazem uso.
9. E qual é esse olho interior? Em seu despertar ele não pode ver os objetos brilhantes. É necessário acostumar a própria alma a ver primeiro as ocupações belas; depois as obras belas, não as que executam as artes, e sim as dos homens de bem.
Logo, é necessário ver a alma daqueles que realizam as obras belas. Como se pode ver esta beleza da alma boa? Volta-te a ti mesmo e olha se tu não vês a beleza em ti; faze como o escultor de uma estátua, que deve ser bela; toma uma parte, esculpe-a, pule-a e vai ensaiando até que tire linhas belas do mármore. Como aquele, tira o supérfluo, endireita o que é oblíquo, limpa o que está obscuro para torna-lo brilhante, e não cesses de esculpir tua própria estátua, até que o resplendor divino da virtude se manifeste, até que vejas a temperança sentada sobre um trono sagrado. Tu já és isto? È isto que tu vês aí? É isso o que tu viste, um comércio puro, um trato puro, sem nenhum obstáculo à tua unificação, sem que nada estranho esteja mesclado interiormente a ti mesmo? És tu todo inteiro uma luz verdadeira, não uma luz de dimensão ou de formas mensuráveis que pode diminuir ou aumentar indefinidamente em magnitude, senão uma luz que carece em absoluto de medida, porque ela é superior a toda medida e quantidade? Tu te vês nesse estado?
Então te tornaste uma visão; tem confiança em ti; embora permanecendo aqui, hás subido ao alto, e não tens necessidade de guia. Fixa teu olhar e contempla. Porque este olho só é o que pode ver a grande beleza. Porém, se vai contemplar as manchas do vício, sem estar limpo, ou se é débil, tem pouca força para ver os objetos muito brilhantes, e não vê nada, ainda que se o ponha na presença de um objeto que pode ser visto.
Porque é necessário que o olho se faça semelhante e parecido com o objeto visto, para poder contempla-lo. Jamais veria um olho o Sol, sem haver-se tornado semelhante ao Sol; nenhum alma veria o belo sem ser bela. Que tudo se faça, pois, primeiro divino e belo, se se quer contemplar a Deus e ao belo. Que se vá primeiro remontando-se até a inteligência, e se saberá que nela todas as idéias são belas, e se confessará que ali está a beleza (a saber as idéias: por elas, que são os produtos e a essência da inteligência, existem todas as belezas).
O que está além da beleza chamamos a natureza do Belo; o belo está colocado frente a ela. Assim, numa expressão de conjunto, diremos que o primeiro é o belo, porém se se querem dividir os inteligíveis, ter-se-á de distinguir o belo, que é lugar das idéias, do Bem, que está além do belo e que é sua fonte e seu princípio. Ou colocar-se-ia o Bem e o belo num mesmo princípio. Em todo o caso, o belo está no inteligível.”
Plotino, SOBRE O BELO, Enéada I, 6.
Miguel (admin)MestreTarde … tardio … tardiamente …
I) Através da Proclamação da República/1889, o Brasil
apanhou o que havia de ultrapassado na Europa – positivismo
-, e interrompeu um modelo próprio, que vinha sendo
elaborado ao longo da segunda metade do século.
Eis alguns eventos em torno do ano de 1889, na política:
– Congresso Socialista de Paris
– fixado o Dia Universal do Trabalho, na data 01/Maio
– primeira conferência panamericana em Washington
– criação da União Panamericana
– Encíclica Rerum Novarum de Leão XIII
– União Interparlamentar para Arbitrar a Paz
– Oficina Internacional da Paz (Berna)
Em ciências:
– Arrhenius, dissociação eletrolítica
– Hertz, experiência com ondas eletromagnéticas
– Instituto Pasteur em Paris
– Kossel, núcleos celulares
– Harden, fermentação do açúcar
– Sabatier, experiências sobre catálise
– Michelson&Morley, movimento da Terra.
– invenção do linotipo
– Sequard, glândulas de secreção interna.
– Behring, soro antidiftérico.
Na literatura:
– “O Sistema nervoso central”
– “Teoria dos conjuntos”
– “As fases da Terra”
– “História da antiguidade”
– “Comunidade e Sociedade”
– “Lógica”
– “Moral social”
– “Elementos de Sociologia”
– “Princípios de psicologia”
1. O quanto disso daí, e infinitude de outras mais, o Brasil
ignoraria? Só Deus sabe! Entre Europa e EUA já se estabelecera
clima de competição sem limites, de vencer ou vencer.
Enquanto isso o Brasil ficava na sua! E qual era a sua?
2. Quando D. João VI chegou ao Brasil/1808, produzia-se
açúcar, algodão, café, arroz, fumo, cacau, anil, madeira de
construção, bens de pequeno valor, pau-brasil, frutos da
mineração, carnaúba, carne-seca, sal, farinhas.II) Em 1888 Brasil abolia a escravidão, que nos EUA
ocorrera vinte anos antes e que promovera acelerada
industrialização.
1. Em 1822 o Brasil se “ajeita” via solução modo europeu,
em 1889 novamente o Brasil se “acomoda” por idéias européias.
Eis que nas duas épocas chaves o Brasil perde o bonde da
História. Em ambas o Brasil chega tarde, no segundo tempo,
movimento retrógrado, quando a coisa toda já está noutra
etapa pró adiantamentos. O Brasil se fixa a lidar com raspa-
do-tacho, carne-de-pescoço, tarde em demsaia.
2. Após 1783, quando Inglaterra reconhece a independência
dos Estados Unidos, acelerA o clima de competição perante
a Europa, em todas as áreas: indústria, comércio, ciências,
tecnologias, transportes, sociais.
O Brasil de 1808 e 1822 estava numa situação de tardios de-
doer! E em 1889, havia um clima de tardio ao cubo!III) Na atualidade Brasil/2004 sinaliza que o tal de “tardio” vai à potência “n” …
tardiamente ao infinito!
(MCH, 29/06/04)Miguel (admin)MestreMudanças profundas … folgadas!
I) A seguir uns extraídos do livro de Gilberto Freyre “Ordem
e Progresso”:
– “ … o instintivo Floriano Peixoto parece ter recebido da
doutrina Positivista a sugestão de sentir-se justificado dos
excessos de sua ação ditatorial, às vezes rude … o sistema
messiânico de Comte foi reconhecido por numerosos
brasileiros de ‘elité’, como de ética superior … Peixotoé um
homem másculo, asperamente viril, conforme a figura de
líder que a Igreja Positivista Brasileira considerava ideal para
a República brasileira …
… os discípulos brasileiros de Comte desejariam ver o regime
monárquico substituído por um ditatorial, nunca pelo
republicano parlamentar ou pelo democrático …
… D. Pedro era liberal para repercutir na Europa e EUA, mas
internamente asssumia paternalismo … levava vida dupla,
piedoso na missa no Brasil e voltariano na Europa …
… em crises tal como a dos Bispos e a dos Militares, o
imperador comportou-se como um liberal, sem
compromissos com Igreja ou Exército, comportamento de
autoridade politicamente suicida …
… o 15 de Novembro foi um autêntico suicídio político … D.
Pedro II foi quem empurrou o Exército imperial para o lado
republicano – desde a mocidade que não dava chance de
haver entre a Coroa e o Exército a necessária reciprocidade,
ou seja uma espécie de espírito de amor, entre as duas
instituições …
… o sistema parlamentarista estava dando certo, estava
superando com relativa maestria as dificuldades internas à
federação … houve um desapontamento de parte do brasileiro
médio, mais ou menos esclarecido, e houve uma decepção
profunda do elemento popular …
… a imprensa toda da época, mesmo a republicana,
interpretou como lamentável a antecipação com precipitação,
na mudança de regime … houve uma inércia e apatia na
sociedade brasileira, que até então sempre se mostrara ágil
em assimilar inovações …
… Ruy Barbosa se tornou republicano a contragosto … não
havia necessidade com o futuro desaparecimento de D. Pedro
II adotar regime republicano …
… tanto Ruy como Nabuco entendiam que o arcaísmo
monárquico iria modernizar-se, descentralizar-se-ia para
federalismo estilo americano, conservaria a Monarquia
separada da Igreja e da grande Propriedade, se identificaria
mais com as Forças Armadas, com a gente média, com o
capitalismo …
… Ruy defendia que num país como o Brasil, eram as forças
militares de mar e terra a própria base da estabilidade dos
governos contra a desordem, a exageração e as utopias … as
forças militares eram o grande paládio da paz, da
constituição, da liberdade … as classes armadas faziam as
vezes de classe média paisana …
… a gente do povo, nela compreendida a multidão de libertos,
não se sentiu de modo algum inclinada a acompanhar, após a
Abolição, os republicanos, vistos que eram de inimigos do
trono e da Igreja … eis onde houve a quase absoluta
indiferença de parte da maioria dos brasileiros, em face do
golpe militar com que se substituiu a Monarquia pela
República – predominou uma antipatia do povo ao novo
regime … o povo passou a ver nalguns líderes que
admiravam, como homens interessados muito mais na sua
própria segurança econômica …
… ficou patente para os republicanos que estava sensato e
prudente continuar o país a ser no essencial de organização
social monárquica, incluidos os símbolos … as barbas e
bigodes dos homens senhoris (vigor masculino), os penteados
elaborados nas senhoras, a cabeleira abundante das iaiás
(fecundidade feminina) …
… a maldita tesoura não fizera suas audácias nos líderes, a
mística do Império se comunicou à República …”
[Ordem e Progresso, Ed. Record/1990, pgs. 18-19, 60-64]II) Reparar algumas:
– D. Pedro II não estava mais afim de nada
– as forças armadas estavam deixadas soltas
– os comtistas estavam com a solução-na-mão
– foi tudo feito-nas-coxas
– o povo ficou à margem da história tal como em 1822
– permaneceu tudo como dantes no quartel de AbrantesIII) Só mais uns trechinhos:
– “ … um estudo de 1896 – publicado em inglês, em Buenos
Aires -, destacou que a ‘degringolada’ nas finanças
brasileiras, após a proclamação da República, foi resultado da
desconfiança européia ao novo regime e, em grande parte,
como consequência da incapacidade dos novos dirigentes –
principalmente no Conselheiro Ruy Barbosa -, para darem
objetividade à política messiânica de ‘largos horizontes’ …
… ocorre que a República começou penetrada pela
Monarquia, a abolição do trabalho escravo promoveu uma
variada confusão a área de produção, gerou um certo
desnorteio coletivo tanto nas autoridades, como na classe
patronal, como no meio dos trabalhadores …” [p.389]IV) Reparar que faltaria ao Brasil situações paradigmáticas,
pois os eventos mais significativos – os trocadores de pele -,
não favoreceram mudanças de espírito-da-coisa. Foi tudo
feito em banho-maria, com lenga-lenga e nhém-nhém-nhens.
Considera-se que está na hora dos brasileiros darem
atenção ao modo de atuar paradigmático – estudar como o
Ocidente faz para se desvencilhar dos “pepinos&abacaxis”.
(MCH, 28/06/04)Miguel (admin)MestreMiguel, obrigado pela transcrição do verbete “vontade de poder”, ela é bem esclarecedora, se coloca exatamente no ponto que procurava.
Quanto às vontades de Schopenhauer e de Nietzsche fica posto da seguinte maneira (ao menos pelo que pude entender):
Para Schopenhauer a vontade assume um caráter ativo perante o homem, a vontade se impõe.Saciar a vontade significa acabar com uma dor, porém a vontade não tem fim (em ambos os sentidos).Outro ponto importante é que à vontade de Schopenhauer abrange toda a matéria, “tudo quer’.
Para Nietzsche (segundo Ferrater) a vontade de poder é a forma primitiva do afeto.A noção de afeto em Nietzsche necessita de um cuidado maior, mas assim como Schopenhauer, Nietzsche coloca a vontade como principio, como fundamente em que se edifica o mundo.Nietzsche critica a vontade de Schopenhauer, pois este a coloca como “coisa-em-si” como essência do mundo.Para Nietzsche tanto o “Eu penso” quanto o “Eu quero” não podem ser coisas-em-si, pois as coisas por natureza não podem ser “em-si”, apenas são “em-nós”.
Para Nietzsche a vontade deve ser domada e assumir um papel passivo perante o homem, vontade de poder deve expandir infinitamente (como diz Ferrater isso contrasta com o Eterno-Retorno).Certo, organizada a “maçaroca” que tinha feito com as vontades, como fica a questão da felicidade em Nietzsche? Nietzsche é “de bem com a vida”?A vida trágica e o amor fati são apenas contrapontos a um hedonismo que culminaria possivelmente em um sofrimento ainda maior? (a maioria das interpretações de Nietzsche feita por não “profissionais” (“eu” incluso) parece entender desta forma).
Apelo para ajuda de profissionais (“esta certo disso”?):
O sistema schopenhauriano considera a Vontade a essência única do mundo e do homem.Ele a concebe como uma força obscura e inconsciente que limita e comanda tudo que existe.
Nessa visão pessimista, a única consolação é a liberação temporária pela contemplação estetica e, sobretudo a libertação definitiva pela renuncia ao jugo da vontade cega.O pessimismo de Schopenhauer, descrevendo um mundo absurdo e repetitivo, busca como remédio para ele uma existência sem dor, sem tempo, sem movimento: a negação da vontade.Nietzsche, por sua vez, também considera a infelicidade humana, o fundo dionisíaco da existência, mas oferece ao homem uma sabedoria diferente: a possibilidade da vida no tempo, no efêmero.Ele exalta a alegria de viver no tempo – experimentada pelo individuo exposto a dor- como sendo força e sabedoria de um saber trágico da existência.
(…) o homem pode responder a questão fundamental do valor da existência: negativamente segundo Schopenhauer, buscando uma saída ascética para o problema da dor ou contemplando por instantes o mundo como idéia Eterna; positivamente Nietzsche julgando que o imperfeito e o efêmero devem ser amados e queridos com uma alegria serena”
Jose Thomaz Brum “O pessimismo e suas vontades” (Brum também traduziu alguns livros (uns 5 acho) de Emil Mihal (não gosto de traduções de nome, sinceramente) Cioran para o português)
Pois então, respondendo a questão: é difícil dizer que Nietzsche seja realmente “de bem com a vida” a resposta que ele oferece a vida, seu canto que diz “Sim”, para maioria de nós iria parecer o canto do cisne.O amor fati de Nietzsche é digno de um arrebatamento poético (a la Rimbaud)em reação a ausencia de valor. O mais hábil “filosofo de gabinete” (uso a expressão de Bacon) não conseguiria reduzir isso a um simples conceito.Este afirmação incondicional da vida é antes de linguagem, sangue.Isto diz respeito a todos nós, todos temos de responder, uns são aptos e responder de forma poética outros gostam de calcular, mas todos temos de responder…isto é não apenas “pêlo em ovo” ( a expressão favorita para desdenhar dos filósofos!)
Mas será que eu gostaria de ,como Nietzsche, de ser serenamente arrebatado pela beleza de nosso efêmero fogo de artifício ou gostaria de ter uma vida confortável com os prazeres, devidamente controlados pela temperança?Será que uma vez exposto ao desencantamento do mundo (que passou diante dos olhos de Nietzsche, Schopenhauer e Weber etc) existe como retornar?Nietzsche não oferece o único “retorno” possível (ou o melhor deles) aos desencantados?A educação deveria encantar ou desencantar?
Gostaria de escrever um pouco minhas aproximações sobre as “respostas” de Emil Cioran e William Blake, porem tenho de escrever um trabalho (de Antiga I), então fica pra mais tarde (sei que possivelmete ninguém possa estar interessado nisso, mas ao menos eu aprendo a pensar/escrever livremente, com um pouco de responsabilidade).
Enquanto isso leiam Fernando Pessoa (e comparem com Nietzsche e com vcs mesmos)
“Faze de tua alma uma metafísica, uma ética e uma estética. Substitui-te a Deus indecorosamente.É a única atitude realmente religiosa.(Deus esta em toda parte exceto em si próprio).
“Faze te teu ser uma religião ateísta; de tuas sensações um rito e um culto”
Miguel (admin)MestreFinalizando, o filme Matrix é Matrix, porém a filosofia revela o que é Matrix. Aí que está a grande tacada do filme, porque se você vê o filme e enxerga somente efeitos especiais, capas pretas, e óculos escuros, a filosofia está dizendo a você:
Acorde Neo…
Matrix pegou você…
Quando indagados a respeito do significado da filosofia, os irmãos Wachowski respondem “O filme fala por si mesmo.”.
O que isso significa então?
Morpheus:
…
Do you know what I'm talking about?Neo:
The Matrix?Morpheus:
Do you want to know what it is?Morpheus:
The Matrix is everywhere, it's all around us, here even in this room. You can see it out your window or on your television. You feel it when you go to work, or go to church or pay your taxes. It is the world that has been pulled over your eyes to blind you from the truth.Neo:
What truth?Morpheus:
That you are a slave, Neo. Like everyone else, you were born into bondage, kept inside a prison that you cannot smell, taste, or touch. A prison for your mind.Unfortunately, no one can be toldwhat the Matrix is. You have to see it for yourself.
Significa que ninguém pode entender o que é Matrix. Você tem que ver por si mesmo.
Eu estou te oferecendo a pílula vermelha, somente ela pode te mostrar o que é Matrix. Tome-a e eu te mostro até onde vai a toca do coelho.
(Mensagem editada por mystic em Junho 27, 2004)
Miguel (admin)MestreOlá
traduzi e transcrevi acima o artigo “sofista” do dicionário de filosofia do Ferrater Mora, como forma de nos introduzir ao tema de forma mais precisa. Se quisermos seguir o debate e a pesquisa, seria interessante seguir a bibliografia indicada, primeiramente os trechos dos clássicos que ele apontou. Alguns dos comentadores que ele fala são muito difíceis de achar aqui no Brasil.
Não transcrevi a extensa bibliografia do final do verbete, farei se for do interesse, e os caracteres gregos do programa do fórum estão com alguns problemas na acentuação.
Movi também a discussão para o fórum sobre filósofos de Questões sobre Filosofia em Geral e do Pedidos de Ajuda. Espero que quem já participou disso ache a página.
(Mensagem editada por miguel em Junho 27, 2004)
Miguel (admin)Mestre1. Conceito e problema – A sofística pode entender-se de dois modos: como um movimento intelectual particular que surge primeiramente na Grécia no século V a.C, e como uma constante possível na história e na vida humana. No primeiro caso, a sofística tem características bem precisas: os sofistas eram os sábios, os mestres do saber que, em virtude de uma crise no espírito grego – a primeira crise da filosofia – apareceram e proliferam-se na Grécia, convertendo, segundo o clássico esquema de Windelband, o período cosmológico em antropológico. Certo é que, segundo o próprio Windelband reconhece, a investigação da filosofia natural havia preparado tal virada, porque abandonou, depois de sua evolução inicial e criadora, os temas gerais da cosmologia para desembocar em uma série de problemas de caráter especial. Mas o surgimento dos sofistas tem outras causas além da evolução interna do pensamento helênico. Primeiro, causas históricas: se descobre um novo mundo no Oriente, se forma uma consciência nacional ou comum, as massas irrompem na vida pública. Esta irrupção condiciona o predomínio de certos saberes – estudo do homem, da sociedade da educação – que, de vagas intuições se transformam em ciência precisas. Daí a necessidade de convencer e, especialmente, de refutar, necessidade que acaba sobrepondo-se ao afã da verdade e ao desejo de forjar racionalmente um universo harmônico. Antes da sofística, a filosofia era especulação solitária e incluisve desdenhosa; o intelectual era o homem solitário, que monologava ou no máximo dialogava. Com a sofística aparece o filósofo como homem da sociedade que discute em vez de meditar ou dialogar. Tampouco isso quer dizer que se deve dar à sofística um caráter excluisvamente pejorativo; a sofística descobre realidade que, sem essa crise, permaneceriam ocultas. O homem não encontra diante de si a realidade humana nem o universo, mas uma realidade instável, e por isso problemática. Esta seriedade da sofística vale sobretudo para aqueles sofistas que foram autênticos “criadores” – Protágoras, Pródico Hippias, talvez Górgias. Senão houvesse profundidade em sua discussão não teria sido possível a contínua polêmica com que Sócrates e Platão mantiveram com eles. Ao menos, a sofística coincidiu assim com as outras características desta crise histórica e espiritual: o desvio do heróico e a tendência ao humano que a evolução da tragédia nos conserva; a aparição da comédia e do realismo anti-heróico; um conservadorismo oposto a toda novidade e um desmedido anseio pela utopias. A ciência e a filosofia se tornaram então o que nunca haviam sido antes: populares. Mas esta popularidade é muito diferente da que adquiriu a filosofia quando ocorreu outra crise histórica – a do final do mundo grego – e se fez, paulatinamente, sobretudo nos estóicos e neoplatônicos uma espécie de concepção global do mundo e mesmo uma religião. A popularidade da sofística era, mais do que a popularidade da ciência, a popularidade da poesia. O intelectual se converteu assim numa força social. Daí se deriva o uso e o abuso da retórica, da eloquência e do ensino destas artes por cima dos saberes propriamente ditos. A sofística fazia, além disso, algo escandoloso para sua época: ensinar por remuneração.
O fato de que a sofística seja a expressão de uma crise mais do que o resultado da evolução interna de um pensamento fica evidente quando se considera que, mais do que o problema do Ser e sua essência, se questionava o problema de um conhecimento válido da Natureza, de uma verdade em que possa confiar o homem. E este problema desde logo se transformou: a pergunta por um saber universalmente válido foi sobrepujada pela pergunta de uma lei universalmente válida. o homem desconfiava da eternidade da lei, advertia que a lei é uma coisa humana e portanto precária e transitória. A sofística nasceu, em suma, de uma desconfiança moral.
Se logo a sofística decaiu, se dela deriva inclusive a acepção de um sofisma como um pensamento incorreto, formulado com consciência de sua falsidade, é porque se esqueceu da crise da crise pela qual surgiu e o fato que foi das maneiras pela qual se procurou superá-la. Do ponto de vista da História da Filosofia, a sofística pertence à época mencionada. Retóricos como Díon de Prusa e Flavio Filostrato, do século II d.C, que se limitaram a defender uma posição retórica e a defender um aticismo diante de um orientalismo, não podem ser ditos parte do movimento sofistíco, a não ser com muitas reservas. Com isso destacamos que os termos 'sofista' e 'sofística' devem ser empregados primariamente em um sentido histórico, ou seja, deve-se limitar sua significação a momentos determinados da história intelectual do Ocidente, e, em particular, a um certo momento determinado da história da cultura grega.
Em segundo lugar, os termos em questão podem ser empregados, sem dúvida, como a designição de uma constante no pensamento humano, desde que se advirta o leitor previamente. Este é o significado que Splenger deu à sofística ao propor uma comparação entre os sofistas gregos do século V. a.C e os enciclopedistas franceses do século XVIII. Para além disso, não se deve adotar a morfologia cultural específica que propõe Spengler com o fim de tratar a sofística como uma constante cultural. Neste sentido, a sofística designa a atitude daqueles que, antes de tudo, buscam o triunfo dialético sobre o interlocutor ou adversário, sem se importar se, ao alcançar tal triunfo, defenderam uma tese verdadeira ou plausível. Um exemplo se dá na filosofia chinesa, com a escola às vezes chamada “os dialéiticos” (Hui Shi e Kung-Sun Lung em particular), ou também a “escola dos nomes” (Ming Chia e a “escola das formas das Formas e dos Nomes” ( Hsing Mincg Chia). Desta escola sabemos principalmente pelo capítulo 33 de Chuang tse. Os membros apresentam teses tais como “há plumas num ovo”, “o olho não vê”, “a sombre de um pássaro que voa, não voa” etc. Interessante são teses como “um cachorro poderia se chamar um cordeiro” (temos aqui a manifestação de um nominalismo linguístico) e “Se se tira de um bastão cada dia metade dele, não desaparecerá em incontáveis anos” (que recorda os paradoxos de Zenão). Segundo conta Chuang tse, os dialéticos consideravam a maior vitória a derrota de seu interlocutor, ganhando a disputa por meio da argúcia. Naturalmente Chuang tse se opunha a este modo de pensar, dizendo que é comparável à atividade incessante de um mosquito, mas que não conduz a lugar nenhum. “É como silenciar o eco com um grito, ou correr contra a própria sombra”.
2.O nome 'sofista'. Ainda que na época considerada como clássica, o vocábulo 'sofista' sofistés não foi sempre usado com o significado que hoje lhe atribuímos. Isto se deduz dos textos que se referem aos Sofistas (cfr. Platão, Ap.19-29; Men, 76 e seguintes; Prot.317B – 328B; Gorgias, 482 e seguintes; Rep, I, 363B e seguintes; Teet, 151 S – 152 A – 166 D seguintes; Sof, 231D; Leis, 889 E; e Aristóteles, Met. T1007b 18; Ret. III 24, 1402 a 23; Sof. El., 183 b 36; Diógenes Laércio., IX, 50 seguintes; Aristídes, Orat., 46; Plutarco, Tem., 2; Xenofonte, Men., I, 1,11; Filostrato, Vita Soph., V, 19; Sexto Empírico, Pyrr. Hyp., I, 216 e seguintes e Adv. Math., VII, 65, 69, 389, entre outros). Em Aristides se diz explicitamente que Sólon, Pitágoras, Sócrates, os erísticos, os dialético e até o próprio Platão foram chamados de sofistas, sem que contar que Androcion, discípulo de Isócrates é autor de um escrito intitulado Sócrates, o sofista. Por isso Aristides defendeu o problema de como deviam ser chamados os sofistas se Sócrates era qualificado como sofista. Isto se deve- diz ele – ao fato de que sofista foi durante muito tempo um nome comum ou genérico. Somente em Platão parece ter sido dado, portanto, um sentido claramente pejorativo ao termo. Esse sentido foi reforçado por Aristóteles, quando escreveu que a sofística é uma sabedoria aparente, fainomenè sofia. Pois bem, essa significação é mais filosófica que geral. Do ponto de vista geral, parece razoável ater-se à significação que deu Plutarco a 'sofista' ao afirmar que foram chamados sofistas os que mesclaram a doutrina da atividade política com a arte da eloquência, e moveram sua profissão – ou praxis – do exercício ao discurso.
Pois bem, tanto o ponto de vista geral quanto o estritamente filosófico constituem dois extremos entre quais tem lugar uma efetiva evolução histórica dos significados de 'sofista' . Assim reconheceu Mario Untersteiner na “Nota sulla parola 'sofista'”, publicada como introdução a sua edição e tradução de textos sofistícos. Neste parágrafo seguiremos este autor, que tem proporcionado dados muito elucidativos. Segundo ele, os momentos, os momentos principiais da evolução da significação de sofistas dentro da história da cultura grega são os quatro seguintes: 1) Surge primeiramente o conceito de sábio ou 'sapiente' como uma afirmação da individualidade, especialmente ameaçada na época da colonização. 2) Logo há a mudança do conceito de sábio como homem de experiência e recursos para uma personalidade dotada de riqueza espiritual, e não somente de capacidades determinadas para resolver certas situações. Disto surge o caráter excepcional do saber propriamente dito a que se referiu W. Jaeger em Paidea (tomo I). 3) Dentro deste contexto se insere o termo sofikestaés, ou seja, que exerce a atividade de sofistés. A voz média (Usada de forma passiva por Hesíodo, 649, já que a forma ativa – diz Untesteiner – foi usada somente na época helenistíca) é comentada em Teognis, 19, significando tanto comunicação como posseção da sabedoria (segundo observou pertinamente Bertini em seu artigo “Della varia fortuna della parola 'sofista'”, em Atti della R. Accademia delle Scienze di Torino, IX [ 1873-1874] , págs. 850-866). Em todo caso, o termo adquira cada vez mais o sentido de “possuidor de um saber universal”, e se aplica adequadamente a Pitágoras e os pitagóricos em particular. 4) No Banquete, 208 C, de Platão sofistés designa literalmente o sábio, o conhecedor do universal (cfr., além dos textos antes mencionados, Rep., VI, para uma significação claramente pejorativa). Constitue um preblema por sua vez histórico, filosófico e semântico o determinar de que modo o significado laudatório de 'sofista' passou a ter um significado pejorativo, especialmente na obra de Platão. Untersteiner adverte que a evolução de 'sofista' até um signficado claramente pejorativo tem várias causas e não somente a que é alegada em comum por várias histórias da filosofia ( a reação socrático-platônica para o movimento sofistíco). Entre estas causas podem mencionar-se distinções que no começo tinham um aspecto meramente literário – como a distinção, proposta por Damasio (um comteporâneo de Górgias), entre o poeta o sofista, em sua obra Perì poietõn, equivalente a uma distinção entre o poeta e o prosista-. Na mesma época, Diógenes de Apolonia chamava sofistaí aos jônicos, diferentes de filosofoi. A isto se agregou a contraposição entre o saudável sentido comum e a artificiosidade, entre a busca séria da verdade e o jogo intelectual. Os primeiros traços foram considerados próprios dos sábios; os segundos, dos sofistas.
Não obstante o sentido pejorativo do nome 'sofista, derivado de Platão e Aristóteles, o sentido deste nome como mestre ou sábio persistiu até o final do mundo antigo, especialmente dentro das escolas filosóficas organizadas para o ensino. Segundo F. Henry (apud Ernst Robert Curtius, Europáische Literatur und Lateinisches Mitelalter, 1948, XI, 3), no século IV d.C se dava o título de sofistés ao chefe de uma escola, dando-se o nome de retor (orator) aos que se seguiam ao chefe.
3. Grupos de sofista e tipos de sofística. A maior parte das definições que demos se referem aos sofistas que hoje são considerados os mais importantes: Protágoras, Pródico, Hippias, Górgias, Trasímaco, Cálicles, Antífon, Polo, Crítias dos quais se destacam os quatro primeiros. Sem dúvida, os historiadores nem sempre colocaram os sofistas em grupo único. Scheileimacher (Geschichte der Philosophie, 1839, ed. Ritter, págs 71 e seguintes) falou de dois tipos de sofística: a heracletiana e a pitagórica. Ritter (Geschichte, Livro IV) incluiu entre os sofistas Leucipo e Demócrito; ambos – argumenta o historiador – se opuseram, como o resto dos sofistas, ao “verdadeiro espírito da filosofia”. Roller apud Zeller, I, 2a ed., 799) distribuiu a sofística em três grupos: a eleática, a heraclítea e a abderita. Os historiadores do princípio do século XIX tendem, no geral, a considerar a sofística num sentido muito amplo. Esta tendência foi refutada por Zeller (loc. cit., que considerou os sofistas como formando um grupo bem determinado e diferente dos pré-socráticos. A orientação de Zeller foi continuada pela maior dos historiadores. Mas dentro desta concepção mais restrita de sofística foram propostas várias agrupações. Assim, Ueberweg fala das diferenças entre “sofistas anteriores” (Protágoras, Górgias, Hippias, Pródico e os chamados “sofistas criadores”) e os “sofistas posteriores” (que compreender as figuras menores: Polo, Trasímaco, Cálicles, Antífon). Th. Gomperz (Geschichte, I, cap. IV) não estabelece propriamente uma classificação, mas trataa Protágoras e Górgias separadamente, como “figuras principais”, de modo que o resto pode ser considerado como “grupo secundário”.M. C. Nahm ( Selections from Early Greek Philosophy, 1950;3a ed., págs. 222 e seguintes) divide os sofistas em “sofistas da cultura” (Protágoras, Górgias) e “sofistas da erística” (Trasímaco, Cálicles, Crítias). Alguns autores distinguem entre “sofistas educadores” e “sofistas retóricos”. Eugene Dupréel negou que os quatro grandes sofistas (Protágoras, Górgias, Pródico, Hippias) podem ser tratados como um grupo único: no seu entender cada autor possuir uma doutrina original, irredutível a todas os outros sofistas.
4. Evolução e reevaliação dos sofistas e da sofística. Seguindo Platão, muitos filósofos e mesmo historiadores da filosofia julgaram os sofistas negativamente. A acepção usual de 'sofista' – o que produz argumentos aparentes (e geralmente intrincados) para defender uma proposição falsa, e também o que está disposto a defender qualquer proposição, seja verdadeira ou falsa – testemunha a vasta influência platônica. Juizos menos pejorativos dos sofistas e da sofistíca começaram a formular-se quando foram estudados historicamente e se advertiu sobre seu contexto histórico. Alguns historiadores da filosofia deixaram de lado o fato de que nem Sócrates e nem Platão seriam possíveis sem os sofistas, e isso não só por constituir um horizonte histórico dentro do qual se desenvolveu seu pensamento, mas também porque usaram abundantemente de recursos sofísticos.
Ortega y Gasset destacou em algumas ocasiões a “modernidade” dos sofistas. Em outro pontos de vista, vários autores consideraram os sofistas como “libertadores” (cfr. Fernando Savater, Apologia do Sofista, 1974. De certo modo, os sofistas fizeram para seu tempo o que Nietzsche fez – e segundo alguns, para sempre -: desmascarar as pretensões de se conseguir verdades absolutas e mostrar que toda suposta “verdade” é uma construção humana com o fim de obter interesses vitais.
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J. FERRATER MORA, Sofista, Diccionario de Filosofía, Q-Z, Ariel, Barcelona, 1994. -
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