Os passarinhos – contos de animais

Os passarinhos

Havia dois homens que moravam vizinhos um do outro; e cada um dêles tinha sua mulher e muitos filhinhos pequenos, a quem sustentavam só com o trabalho de suas mãos. Um dêstes homens levava vida amargurada de cuidadcs, dizendo sempre consigo :    “Se eu morrer ou cair numa cama doente, que será 3) de

minha mulher e de meus filhos?”

Nunca êste pensamento o deixava; antes de dia e de noite lhe roia o coração, bem como um bicho rói o fruto onde vive escondido, Ora, conquanto o outro pai não deixasse de ter tido também

o mesmo pensamento, não se havia nele demorado^ porque dizia êle: “Deus, que bem conhece tôdas as suas criaturas e nelas vigia, também há-de vigiar em minha mulher e meus filhos.”

E êste vivia descansado, ao’ mesmo tempo que o primeiro nem um instante desfrutava de alegria nem de sossego cm seu interior.

Um dia, como -) trabalhava nos campos, triste e abatido pelos seus receios, viu alguns pássaros que entravam para uns silvados, depois saíam e logo em seguida voltavam outra vez a entrar. Chegando-se para mais perto, percebeu dois ninhos fabricados par a. par 3) um com *o outro, e em cada um muitas aves pequeninas, recém-saídas da casca, e ainda tôdas nuazinhas de penas.

Voltando daí para o seu trabalho, levantava de vez em quando os olhos e punha-se a considerar aquêles bons pássaros que iam e vinham trazer o sustento de seus filhinhos.

Ora, ao tempo que 1) uma das mães tornava com o biscato -} ei-la que é tomada de um abutre, que consigo a leva pelos ares. A pobrezinha esvoaçava-se tôda entre aquelas garras cruéis, lançando muitos gritos agudos, sem que nada lhe pudesse aproveitar.

O homem que trabalhava, ficou-se daquele espetáculo ainda mais perturbado do que dantes era; porque, imaginava êle. a morte daquela desamparada mãe é a morte de seus filhos, tão desamparados como ela. Também os meus não têm senão a mim, e, se lhes eu faltar, que será dêles?

Todo aquêle dia ja»-:u em muito grande tristeza, e não cerrou os olhos em tôda a noite. Tornando no outro dia aos campos, disse consigo: “Ora quero-rne ir ver os filhos daquela coitada; a estas horas já hei-de achar alguns mortos.” E endereçou-se ao silvado, e, espreitando para dentro dos ninhos, viu todos os pequenos de saúde; nem um único dava ares 1) de haver passado mal. Maravilhado do que via, agachou-se para observar.

Após um breve intervalo, sentiu nos ares um leve chilro, e viu a segunda mãe tôda afadigada com o mantimento que andargy procurando; entrou e repartiu-o sem diferença alguma pelas crianças; para tôdas chegou, e não ficaram os órfãosinhos desampará-dos na sua miséria.

E o pai que se tinha mal confiado na Providência, contou à noite ao outro pai quanto2) vira. E aquêle lhe disse:

“Para que é dar largas 3) a cuidados? Deus nunca abre de suas mãos G) os seus. Tem o amor divino segredos que mal cuidamos nós. Acreditemos, esperemos, amemos e vamos seguindo pacíficos 4) por nosso caminho. Se eu morrer antes de ti,, ficarás tu sendo pai de meus filhos; se tu morreres primeiro que eu, serei eu pai dos teus. E, se ambos morrermos antes de estarem em idade que se possam por si manter, terão por pai aquêle que mora nos céus”

A. F. de Castilho.

1

   Dar ares — parecer, mostrar.

2

   Quanto é pronome relativo referindo-se a tudo, que está subentendido    na oração do verbo contou.

3

   Dar largas a — entregar-se    a.

4

   Vamos seguindo pacíficos. Temos aqui o emprêgo do adjetivo pacíficos em lugar do advérbio pacificamente. Assim dizemos: Os cães ladravam furiosos (furiosamente). .As auras do mar bafejavavi tépidas (Cam. C. Branco, ôlho de Vidro, pág. 59). As ondas vinham espraiar-se preguiçosas no areal da baía (Alex. Herc. Eurioo 39). A aurora rompeu meiga e serena (Id. 108).

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portuguesespor Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

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