D. João VI no Brasil – Oliveira Lima
CAPITULO XX
A REVOLUÇÃO PERNAMBUCANA DE 1817
As primeiras notícias da revolução pernambucana de 1817, em Pernambuco, alcançaram Londres por via das Antilhas, a uma das quais chegara um navio inglês, Rowena, que pode conseguir autorização para escapar ao rigoroso embargo posto pelos rebeldes sobre todos os navios ancorados no porto, e que mais tarde levantaram para as embarcações estrangeiras. Diziam aquelas notícias ter o movimento tido por motivos determinantes o descontentamento das tropas por não receberem desde muito seus soldos, nem disporem de outros meios de subsistência, e o descontentamento do povo "pelas pesadas contribuições e excessivas conscrições" que provocava a conquista da Banda Oriental, "na que o povo do Brasil não só não tem parte, mas julga contrária aos seus interesses".648
Hipólito escrevia isto, mas Palmela não era funcionário diplomático que julgasse abaixo da sua missão restabelecer a verdade dos fatos, e tanto menos deixaria passar sem a devida contestação semelhantes asserções, quanto lhe assistia razão bastante em qualquer desmentido. Os abusos administrativos, sobretudo as prepotências, tinham diminuído em todo o novo Reino por um efeito reflexo do progresso dos tempos, e em Pernambuco a situação se apresentava até privilegiada, confiado como andava o governo havia anos a um homem pacato e bondoso.
Com sua costumada assinatura — Um brasileiro — defendeu Palme-la em comunicados ao Times o governo do Rio das pechas de suspicaz e tirãnico, com que o queriam gratificar os que defendiam por interesses ou por princípio a revolução pernambucana. "Esse governo posto que absoluto — escrevia o futuro embaixador — não é para melhor dizer outra cousa mais que uma autoridade doce e paternal. Terão crimes ficado freqüentes vezes impunes no Brasil, mas nunca, e desafio qualquer os de citar um exemplo em contrário, a inocência pode com razão queixar-se da injustiça do soberano da terra. Em toda a extensão desta é antes facultada uma liberdade de palavra que mais degenera em licença."
Tratando particularmente da referida falta de pagamento às tropas, concordava Palmela em que era possível darem-se fatos de tal natureza, visto a administração não estar ainda sujeita a regras uniformes, e cada província prover separadamente as despesas da sua guarnição. "Posso todavia assegurar que as tropas recebem regularmente seus soldos na mor parte dos estados do Brasil e que semelhante falta se jamais ocorreu, não podia passar de temporária e em escala muito inferior à que mostram supor algumas pessoas." Em Pernambuco, poderia ter Palmela acrescentado se possuísse um conhecimento íntimo de todas as capitanias, não faltavam recursos ao Erário graças à conhecida economia de Caetano Pinto, mas esta própria economia, exacerbada como na verdade o era até a avareza, podia justamente ter determinado atrasos no pagamento das tropas.
E tão reais estes atrasos, que o motivo é apontado no primeiro dos ofícios de Maler sobre ‘ ‘o haver a hidra revolucionária conseguido erguer uma hedionda cabeça no Brasil".649 Escreveu-o ele logo depois de ter entrado inopinadamente no porto do Rio a 25 de março, o brigue com bandeira branca que conduzia, bastante constrangido, sua excelência o governador general. "Há mais de um ano — reza o citado ofício — que a guarnição de Pernambuco era mal paga e mal alimentada pelo governo; o território desta cidade e dos distritos vizinhos extremamente produtivo en algodão, é estéril em comestíveis e gêneros de primeira necessidade, de sorte que o pão para os ricos e a mandioca para a classe indigente vinha de fora e era comprada por preços muito elevados. Ávidos especuladores monopolizavam os carregamentos que chegavam e os revendiam a retalho a: público da maneira a mais arbitrária. Os clamores e as queixas gerais despertaram enfim o indolente Montenegro, que encarregou o brigadeiro do exército Salazar de tomar algumas medidas para conter o monopólio e reprimir a desordem. Mas, este oficial general não tendo podido satisfazer a esperança e os votos do público, cometeu-se ainda o injusto dislate de propor às tropas dar-lhes as rações de pão em espécie e de lhes abonar 16 soldos por cada saco de mandioca, cujo preço no mercado era de 50 soldos."650
A razão da escassez de comestíveis de primeira necessidade é que Maler falsamente atribuía à improdutividade do terreno da costa e matas para essa cultura. Luccock acertadamente a fornece ao falar também na carestia dos mantimentos, da farinha nomeadamente, porque pagando o algodão melhor, na província se não cultivavam bastante gêneros alimentícios como mandioca e feijão. Por outro lado a capital consumia abundantes provisões de boca, provocando sua importação, e a guerra do sul com seus repetidos fornecimentos estava fazendo encarecer todos os gêneros. Para cúmulo a estação de 1816 fora muito seca no norte, portanto escassas as safras.
Destas circunstâncias combinadas derivou-se neste ponto o sofrimento do povo pernambucano, quando os plantadores e comissários andavam em maré de fortuna com o aumento, que chegou a 500 por cento, do preço do algodão por motivo da guerra recente, de 1812 a 1813, dos Estados Unidos contra a Inglaterra, da extinção em 1815 do bloqueio continental e da perspectiva de mais largas exportações de tecidos da Inglaterra para os velhos mercados europeus e os novos mercados latinos do Novo Mundo, tornando-se indispensável a matéria-prima, para cujo suprimento não chegava a produção norte-americana.
Mas fácil tarefa cabia a Palmela ao afirmar nos seus comunicados ser a exorbitância das taxas uma completa falsidade, relativamente, já se vê, e em absoluto o recrutamento rigoroso exercido para a expedição do rio da Prata. Nas províncias setentrionais do Brasil, focos da insurreição que estalara, é até notório, lembrava o representante de Dom João VI, que se não recrutou um homem nem se impôs um soldo de contribuição para aquela empresa militar. As tropas empregadas no sul tinham vindo de Portugal e eram pagas pelo Erário Público de Lisboa, exceção feita das tropas regionais paulistas e riograndenses. Podia o Tesouro do Rio de Janeiro ter realizado alguns adiantamentos, mas a ocupação de Montevidéu, importando a cobrança das receitas aduaneiras desse considerável porto, bastaria dentro em breve para custear as despesas da expedição.
As únicas queixas que no atilado dizer dos comunicados, destinados, não nos esqueçamos, a um periódico londrino e a um público britânico, podiam os brasileiros nutrir, seriam os favores extraordinários outorgados no terreno comercial pelo tratado de 1810 e as concessões a que no assunto do tráfico fora levado o governo do Rio. Estas eram expressões de ressentimento bem mais fundadas do que meras questões de subvenção por este ou por aquele reino, enquanto se não abria a risonha perspectiva financeira do objeto da empresa satisfazer os gastos da sua operação. Muito mais impopular devia com certeza ser em Portugal a ambiciosa guerra do sul, porque lhe acarretava despesas sem proveito privativo, nem prestígio direto. Verdade é que no Brasil faltava igualmente, afora interesse que justificasse a conquista, a não ser o político, a vaidade nacional que só pode gerar um acordo de sentimentos. E o Brasil ainda era, moral como organicamente, fragmentário.
A revolução de 1817 tem que ser examinada sobretudo pelo seu lado teórico, no seu aspecto correlativo, em sua feição proselítica. Foi um sinal mais dos tempos, a manifestação de uma combinação de impulsos em que entravam o amor exagerado, literário se quiserem, filosófico mesmo, mas em todo caso ativo, da liberdade, e uma noção jactanciosa da valia americana que o abade de Pradt aponta com felicidade quando escreve num dos seus muitos livros de vulgarização da emancipação do Novo Mundo, que "pela primeira vez, tratando-se do Brasil com relação a Portugal, uma parte da América aprendera a levantar a cabeça mais alto que a Europa e dar leis àqueles de quem tinha por hábito recebê-las".
Aliás estes sentimentos abstratos e gerais assumiam traços concretos e particulares na província revoltada. A ordem do dia de 4 de março de 1817, do capitão-general Caetano Pinto de Miranda Montenegro, ajustava às razões do Correio uma terceira, a mencionada e que estava na raiz do descontentamento popular: a cizânia levantada "entre os nascidos no Brasil e os nascidos em Portugal", acusados de monopolizar os melhores empregos civis e militares, os maiores proventos e tudo mais de bom na terra. Por outras palavras, eram a questão nativista e a afirmação independente que sob as vestes democráticas, tão em moda na época, surgiam incomparavelmente mais veementes do que em Minas no final do século XVIII.
"Há presentemente — proclamava o doutor governador — alguns partidos, fomentados talvez por homens malvados, com a louca esperança de tirarem alguma vantagem das desgraças alheias, sem se lembrarem de que todos somos portugueses, todos vassalos do mesmo soberano, todos concidadãos do mesmo Reino Unido, e que nesta feliz união, igualando e ligando com os mesmos laços sociais os de um e outro continente, só deve dividir e separar aos que fomentam tão perniciosas rivalidades."
Deste motivo básico aparecem os outros como florescência e, cortados do pé, não significam bastante para explicarem a sublevação, convin-do notar que nos ciúmes nativistas, nem todos de preponderância política, que a tradição consagrava, entravam em não pequena escala zelos alimentados pelos nacionais dos bens alcançados pela atividade comercial dos portugueses.
Caetano Pinto, que era homem inteligente e se gabava de ser homem de lei, compreendia perfeitamente quanto eram inevitáveis todos esses ciúmes patrióticos e econômicos que em torno dele se agitavam, e filosofava sobre o caso, desculpando-os, em vez de procurar abafá-los pela violência, o que sabia dever ser contraproducente. A filosofia condizia admiravelmente com o temperamento pacífico e a calma judicativa do futuro marquês da Praia Grande: com a própria segurança do Recife pouco se incomodava a sua suprema autoridade, sem tentar mantê-la com uma melhor polícia que coibisse os freqüentes roubos, assaltos e assassinatos, sendo que de ataques de ladrões o governador em pessoa havia sido vítima resignada.
Não admira que, no tocante à conspiração que toda a gente sabia estar-se forjando nas lojas maçônicas e nos conciliábulos patrióticos, em segredo e às escancaras, Caetano Pinto só tarde se resolvesse a agir, tão tarde que o movimento já não teve suma dificuldade em triunfar. A economia excessiva e a negligência, em matéria de administração, do governador de Pernambuco podem portanto ser apontadas, sem receio de errar, como fazendo parte das razões próximas da sedição, se bem que resgatassem aqueles defeitos brandura e tolerância que não eram comuns aos capitães-generais.
De como andava indisciplinada a soldadesca e não menos a oficialidade, o que mais que tudo traduzia o mal-estar, físico e espiritual, característico do momento, deu evidente prova o crime que deu o sinal da rebelião. As prisões dos suspeitos, ordenadas à última hora pelo governador, deram com efeito origem ao conhecido episódio de quartel em que o capitão José de Barros Lima (Leão Coroado) assassinou o seu superior, provocando com tal ato geral insubordinação nas fileiras do regimento de artilharia, depois agitação na cidade, toques de rebate, exaltação dos ânimos, libertação dos detidos políticos e à mistura de criminosos vulgares, e por fim a mais completa perturbação da ordem.
"Enfim, a 6 deste mês, contava Maler para Paris, um regimento de artilharia excedendo-se em vociferações e espírito de amotinação, o governador, avisado do tumulto, enviou ao quartel o brigadeiro Salazar para tratar de acalmar a desordem. Quando começava a exortar o regimento, um capitão, talvez receoso do efeito das suas palavras, apressou-se em atravessá-lo com a espada e Salazar caiu imediatamente morto.651 Ao saber do assassinato o governador mandou um dos seus ajudantes de campo, que foi igualmente vítima.
Enquanto que isto se passava nos quartéis, três brasileiros percorriam a cidade, reuniam a multidão e pregavam a revolta, vociferando contra o governo e contra os europeus. Estes três chefes eram: 1? um negociante, Domingos José Martins, recentemente chegado de Londres, onde quebrara fraudulentamente; 2º Antônio Carlos de Abreu,652 que durante vários anos fora magistrado em Santos, atualmente ouvidor, acusado de assassinato e vivendo na mais pacífica, e aqui mais vulgar, impunidade; 3º o vigário de uma paróquia;653 este celerado para melhor se impor à multidão teve a infâmia de se revestir do sobrepeliz e da estola. São visivelmente os três chefes da insurreição, e Domingos José Martins é o mais influente de todos.654 Ouviam-se com freqüência gritos de: Viva a independência! Viva a liberdade dos filhos da pátria! Morram os europeus!"655
Os sucessos da revolução de 1817 são de sobejo conhecidos. Os fatos que lhe assinalaram a curta duração, encontram-se miudamente historiados em Muniz Tavares656 e sinteticamente, quando não gongoricamente romantizados em discursos e panegíricas sem conta. A recentíssima publicação das Notas dominicais657 veio ajuntar outra relação fidedigna de mais uma testemunha presencial. A narração do sacerdote liberal e os por-menores de Tollenare acham-se plenamente confirmados nas informações, neste caso distantes mas sempre bebidas na boa fonte, de Maler, e, o que aqui mais avulta e importa, nas declarações prestadas em França pelos capitães de embarcações dessa nacionalidade então surtas no porto do Recife.658
Eram em número de quatro tais embarcações. Segundo Luís Vicente Bourges (Borges?), lisboeta domiciliado em Nantes, imediato e sobrecarga do navio do mesmo porto La Felicite, houve vinte pessoas mortas no motim de 6 de março, contando-se no número três marinheiros franceses que não responderam ao quem vivei dos patriotas. Avaliava ele a força regular dos insurgentes (entrando decerto as milícias, porque o efetivo dos dois regimentos de linha estava, ao tempo do movimento, bastante reduzido) em 2.500 a 3.000 homens. Quando La Felicite se pôs ao mar a 12 de março, pois que a circunstância da revolta lhe permitiu reunir uma grande carga, sobretudo de algodão, a preços vis por continuar o embargo sobre os navios nacionais, ocupavam-se os rebeldes de manhã à noite em exercitar-se, melhorar a defesa das fortalezas e outros pontos principais de resistência, e organizar a cavalaria.
Outra testemunha do mesmo gênero, o capitão do navio La Perle, eleva o número dos mortos a 50 ou 60, visto que, como sempre acontece em semelhantes ocasiões, aproveitaram-se os que de repente se viram com as armas na mão para satisfazer antigas vinganças ou dar simplesmente curso aos seus instintos bestiais. É mister não esquecer que daquelas mortes no bairro de Santo Antônio, quase todas, foram culpados os facínoras libertados da cadeia e não os soldados e milicianos, tanto que a ulterior ocupação, pelos regulares desta revolução em suma ordeira, do bairro do Recife, não foi manchada por igual morticínio.
Pensava aliás este segundo declarante que, não se oferecendo resistência em parte alguma, se não teria dado matança se não fosse o boato de um apelo feito pelo intendente da marinha (Cândido José de Siqueira) aos tripulantes das embarcações portuguesas fundeadas dentro dos arrecifes, que estimulou a violência dos rebeldes e chamou a suspeição e a ojeriza contra tudo que tivesse aparência de marítimo. Dos quatro homens de borda da Perle que, com receio da pilhagem, para lá carregavam do armazém estabelecido pelo seu capitão para a venda a retalho, 17 a 18.000 francos em ouro, três foram sumariamente espingardeados e ao quarto apunhalaram nas costas e partiram um braço, não o acabando os assassinos de matar e até o levando para um hospital quando verificaram ser um francês. O capitão assim se exprimiu textualmente: "Os negros livres e escravos, bem como os mulatos armaram-se de picas, machados etc, e massacraram todos os que no primeiro momento tentavam fugir, particularmente marinheiros; os insurgentes tendo sabido que o filho do intendente fora a bordo das embarcações portuguesas surtas no porto, a fim de pedir aos tripulantes que acudissem em socorro dos realistas."
As peripécias essenciais são uniformemente relatadas, delas não existindo, a bem dizer, duas versões. O governador continuou até a última a ser homem de paz, saindo do palácio à primeira descarga para encerrar-se na fortaleza do Brum e aí se render, desdenhando os elementos de resistência — bem superiores aliás aos dos insurgentes que no bairro de Santo Antônio ainda operavam com fragmentos de regimentos, sem organização e com pouco armamento — que no Recife mesmo se agrupavam e viram-se dispersos pela ousadia de um dos oficiais rebeldes. Este homem decidido659 foi quem se apoderou da ponte do Recife quando os portugueses se dispunham a cortá-la para melhor defenderem sua causa, isolando-se, de fato abdicando com aquele gesto a intenção de recuperarem a posição perdida, da qual os rebeldes logo se assenhorearam por completo, arvorando sua bandeira improvisada e proclamando sua criação menos improvisada.
Seguiu-se entre a gente boa da cidade, do comércio especialmente, que era todo português, a infalível debandada, movida pelo terror. Estes primeiros emigrados, chegando à Bahia numa embarcação que logo se fez de vela e informando o conde dos Arcos do ocorrido, permitiram-lhe tomar suas precauções: chamar a si a tropa, redobrar de vigilância, prevenir cada um dos suspeitos da sorte que o esperava se se atrevesse a pronunciar-se, e distribuir proclamações realistas que nos parecem hoje ridículas na sua retórica empolada e afetada veemência, mas que foram eficientes, sufocando toda veleidade revolucionária e produzindo o resultado visado, que era o sossego fiel da província. Arcos procedeu em suma como general que era: se fosse homem de toga, teria talvez procedido como Caetano Pinto, que mesmo as denúncias mais fundadas desprezou, até ser tardio o tratamento do mal ainda que violento.
Pode ter-se como certo que a sedição pernambucana tinha a sua ramificação baiana, e é possível que a rápida ação do conde dos Arcos, que tão grande desânimo local gerou, não fosse estranha a preocupação de dissimular, ou antes fazer desaparecer, caindo no vago e por fim no esquecimento, uns confusos projetos de conspiração aristocrática, tendente — si vera est fama — a substituir um trono por vários tronos, e desconhecida a não ser pela referência indistinta de uma proclamação do governo provisório do Recife aos baianos.660
Outro tanto, sem quiçá os precedentes, aconteceria no Ceará, onde a missão do subdiacono Alencar veio a gorar como a do padre Roma à Bahia, graças à teimosia do capitão-mor do Crato, um velho malfeitor que para o crime se valia da sua autoridade, e à energia do governador. Malgrado quaisquer simpatias que intimamente despertasse nessas duas capitanias, não conseguiu a revolução atrair à sua órbita subversiva mais do que a Paraíba e o Rio Grande do Norte.
Este era o maior susto da corte, que o movimento se propagasse, efeito que Maler julgava inevitável; e a facilidade com que nas duas províncias satélites foram levadas de vencida as poucas, débeis resistências levantadas, faz supor uma corrente oculta de solidariedade cujo circuito já estivesse estabelecido, a menos que não implique uma matéria extremamente amorfa de experiência democrática. Não podia, porém, ser este último tanto o caso, porque no meio da geral apatia ignorante existia um núcleo ilustrado, elemento diretivo que então exercia mais decidida influência do que hoje, arrastando as vontades irresolutas e determinando as adesões inconscientes.
Semelhante elemento estivera sujeito a uma verdadeira iniciação, a um trabalho de iluminação política de que tinham sido condutores os sacerdotes lidos em filosofia revolucionária que foram os principais agentes, propagadores e mártires dessa revolução de padres, o que pelo menos no Brasil daquela época significava uma revolta da inteligência.
Tanto foi a insurreição de 1817 um movimento muito mais de princípios que de interesses que Tollenare, espectador e cronista insuspeito dele. não aponta sequer entre as suas causas razão alguma econômica. Apenas lhe descobriu razões morais: a ambição positiva de uns e a imaginosa quimera de outros, as duas bolindo com os sentimentos nativistas, agravando os despeitos e humanamente acirrando a cupideza. Teve portanto a resolução pernambucana, e bem saliente, a sua formosa feição, pois que cativa e fascina quanto representa nobre aspiração de liberdade, a qual sabemos não vicejara no Brasil, nem mesmo depois que a transplantação da corte determinara uma mudança climatérica. O governo das províncias continuou a ser o das capitanias: o governo do bom ou do mau tirano. Feliz a terra quando, como a Bahia, se lhe deparava um governador como Arcos que nos seus sete anos de governo (1810-1817), se não deu ensanchas ao espírito político, confundindo o civismo com a lealdade dinástica e equi-parando o patriotismo à dedicação monárquica — termos que se não excluem, mas que podem viver separados — prática e eficazmente protegeu a instrução pública, o desenvolvimento intelectual, as comunicações fluviais, o comércio e a defesa militar.
A revolução apresentou-se contudo com suas vestimentas usuais de indisciplina, desordem e violência. Sua estréia foi o homicídio de militares de graduação por oficiais subalternos e, para sustentar-se, se bem que a perfilhassem e favoneassem o clero nutrido de idéias francesas e a aristocracia territorial túrgida de orgulho de nascimento e de sentimento bairrista, tinha ela de tornar-se demagógica e, na falta de outro povo, apelar para a plebe de cor. A carta de um português a seu compadre, descrevendo a cidade depois do levante diz que se não viam mais do que casas fechadas, não aparecendo nas ruas a gente branca, e que os patriotas negros e mestiços que pejavam as calçadas, em vez de andarem como dantes pelo meio da estrada, tinham modos insolentes de abordar os europeus e pedir-lhes fumo.
O comércio, pelo duplo motivo do sentimento nacional e da desconfiança, só podia ser adverso ao movimento emancipador e republicano, o qual não dispondo senão limitadamente de forças regulares — as que se rebelaram fizeram-no por espírito de imitação muito mais do que por consciência patriótica e não ofereciam plena confiança em caso de incertezas — e tendo que lutar contra um sentimento monárquico que provou ser ainda fervoroso em muitos, ou pelo menos com o temor do desconhecido entre a população de certa condição,661 carecia de apoiar-se nas camadas baixas. A ralé é que afinal podia dotar a revolução do largo fundamento de que esta precisava para exibir vigor material de que não dispunha, e manifestar entusiasmo mais geral, ainda que não mais ruidoso e consistente, do que o fornecido pelos vigários democratas que foram a cabeça e o coração do movimento, os senhores de engenho de sangue azul, rivais natos dos mascates como o da carta ao compadre66- e os patriotas, em diminuto número, de biblio-sugestão, frutos das academias do Cabo e do Paraíso.
A revolução de Pernambuco seguiu a marcha de todos os pronunciamentos militares; começou por aumentar no triplo ou quádruplo o soldo das tropas, dos defensores, oficiais e soldados, da pátria e da liberdade, o que facilitou a circunstância de acharem-se no Erário cerca de 800.000 escudos, sendo 200.000 em bilhetes do Banco do Brasil.663 Depois, para angariar o favor popular, o governo provisório664 aboliu vários impostos, entre eles o de subsídio militar, de 160 réis por arroba, sobre a carne; para prover a sua segurança, determinou a compra de armas e munições, montou em guerra um brigue, duas canhoneiras e outra embarcação, fazendo apelo a marinheiros estrangeiros por desconfiar dos portugueses, e permitiu o levantarem particulares companhias de cavalaria; para dar arras do seu fervor democrático, ordenou o tratamento de vós entre os patriotas, para conciliar a classe agrícola, já que a mercantil lhe fugia, facilitou o pagamento das dívidas à extinta Companhia de Pernambuco, cuja liquidação ainda durava, e deferiu a emancipação dos escravos, proclamando "que a base de toda a sociedade regular, é a inviolabilidade de qualquer espécie de propriedade".
Pode dizer-se que os atos da jovem República foram todos impress: de moderação e até de espírito conservador, o que não é para admirar se a encabeçavam e dirigiam gente de bens e a gente de ilustração. Os atos propriamente políticos também foram repassados de moral jacobina — a revolução foi paradoxalmente honesta — e de afetada confiança. Afeta da e igualmente espontânea, pois que o celebrado, já lendário orgulho dos pernambucanos (os de boa família, senão de boas letras, pela maior parte plantadores) aumentara com a fortuna dos últimos tempos, os bons pre-ços do algodão e do açúcar, e refletia-se nos papéis emanados do governo provisório,665 agindo esta fartura de acordo com a miséria da plebe ao rebentar o motim.
Apesar da bazófia pressagiar intransigência, a tolerância republica na foi tanta que os empregados foram todos conservados nos seus ofícios, mediante uma adesão não em extremo difícil de obter. Apenas destoara desta norma legal, e não sem explicação ou justificação, a abertura das cadeias, logo corrigida, e anulação dos processos civis e criminais, e o seqüestro nas propriedades dos negociantes que por causa da revolução se ausentaram da terra. "A 8 de março, escrevia o insuspeito Maler, a ordem e a tranqüilidade estavam perfeitamente restabelecidas; li uma carta de um negociante inglês, escrita daquela cidade [Recife] a 9, que dizia não se perceber mais o menor vestígio da revolução, gozando-se da mais perfeita calma e segurança."
O capitão da Perle, que permaneceu em Pernambuco trinta e dois dias depois de arvoradas as cores da revolução, escrevia que nem a sua embarcação, nem as outras nove ou dez, estrangeiras, ancoradas diante do Recife, foram no mínimo molestadas: "Os direitos ficaram na mesma, o negócio livre e requisição alguma foi lançada, a não ser de munições de guerra que havia ordem de arrecadar contra pagamento, por decisão do governo provisório."666
Quando a Perle singrou, a 8 de abril, os escravos, armados no começo, tinham restituído as armas e retomado sua canga. "O novo governo até me concedeu três marinheiros portugueses em substituição dos meus três homens de tripulação mortos no tumulto do primeiro dia, testemunhando seu vivo pesar pela calamidade que me assaltara."
É mesmo possível que a situação houvesse melhorado, sob o ponto de vista da segurança e do direito, depois da insurreição, pois não pode restar dúvida de que a província se achava, antes, numa condição quase anárquica, existindo para a sublevação, ainda considerada objetivamente, causa mais do que suficiente. Quando encerrasse exageração o quadro publicado no Correio Braziliense661 por uma testemunha ocular, confirma-se nos seus dizeres a impressão de quão aleatória era a segurança individual; quão relaxado o governo; quão venal a justiça; quão desonesta a administração, tanto na Junta de Fazenda, por onde corriam documentos falsificados, como na Alfândega, onde florescia público e notório o contrabando, chegando a desfaçatez ao ponto de possuírem oficiais dela lojas de fazendas, como na Intendência de Marinha, ninho de falcatruas.
Remetendo para a França o Preciso de José Luiz de Mendonça, penhor do seu republicanismo violentado, o capitão da Perle achava-o razoável, enumerando as queixas que havia da corte, a começar pela agrava-ção das contribuições.
O governador, todos concordavam e a testemunha ocular do Correio o proclamava, era o único talvez dos altos funcionários limpo de mãos; mas se a sua indiferença otimista rastejou antes do levante na inconsciên-cia, tomando reuniões de conspiradores por assembléias de mações, achando-lhes até graça e cerrando os olhos a fatos iniludíveis, ao ponto de correrem no Rio boatos que em Pernambuco Caetano Filho desconhecia e no entanto diziam respeito ao seu governo, depois do levante a sua cordura foi quase cobardia.668
Não foi certamente seu exemplo que inspirou o conde dos Arcos, o qual, sem esperar instruções da corte, tomou logo na Bahia as providências necessárias para a pronta.repressâo da sedição vizinha, adotando uma atitude militante e até feroz, despachando a bloquearem o Recife o único pequeno navio armado que tinha à sua disposição e dois mais que obteve ou arrancou de particulares, e fazendo antes de decorrido o mês de março seguir um corpo, disponível e improvisado, de 1.500 homens para a comarca das Alagoas com ordens terminantes de levar tudo a ferro e a fogo. "Nenhuma negociação será atendida, sem que preceda como preliminar a entrega dos chefes da revolta, ou a certeza de sua morte; ficando na inteligência de que a todos é lícito atirar-lhes a espingarda como a lobos." Era destas proclamações que Maler se espantava malgrado todo seu espírito reacionário.
A perspectiva não se oferecia desanuviada aos olhares ansiosos dos patriotas. Já a 29 de março de 1817 escrevendo ao seu governo, o cônsul britânico John Lampriere augurava mal do movimento: "I think to per-ceive that the generality of the inhabitants become daily more gloomy."669 Com efeito os soldados da revolução desertavam em grande número, apesar do tão considerável aumento na sua paga, tendo que serem alistados, para encher-lhes os claros, muitos escravos aos quais por este motivo se concedia alforria, dando-se ou prometendo-se indenização aos senhores Sobretudo não chegavam notícias, as almejadas notícias da Bahia, onde os rebeldes contavam com adesões seguras, quando ao invés, desse mesmo lado do qual no século XVII viera o socorro definitivo para a expulsão dos holandeses — auxílio tão indispensável quanto foi no século XVIII o francês para a libertação das colônias inglesas — partia agora a reação contra o grito pernambucano de independência.
Também a pobre insurreição em parte alguma deparava com as simpatias a que tinha ou se julgava com direito, ou de que nutria confiança Nas capitanias do norte por onde até certo ponto se propagara o movimento, mas que eram porções do litoral pouco favorecidas, menos povoadas e constituindo a seção mais desprovida de recursos do país, a contra-revolução lavrou rápida: no Rio Grande do Norte, logo que se ausentou o contingente paraibano de José Peregrino, na Paraíba por um impulso espontâneo do velho espírito tradicional que produziu uma reação fatalista, originando um conflito de princípios em que o receio representava um papel secundário.
A comarca das Alagoas conservara-se pode dizer-se fiel à causa legal Nela ecoara debilmente o clamor subversivo e estalou quase sem provocação a contra-revolução no Penedo, passando de pronto a Maceió e vindo em ofensiva deter a marcha do reforço de José Mariano Cavalcanti, mandado do Recife para o sul da província.
Com as colônias revoltadas da América Espanhola não houve tempo nem sobretudo ensejo de firmar solidariedade. Nos Estados Unidos a repercussão foi nula. O emissário Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, para lá despachado a obter o reconhecimento e proteção, só alcançou a tardia remessa por especulação particular de provisões de guerra e também de boca, que estas andavam caríssimas no Recife, chegando um alqueire de farinha, que custava dantes 1.600 a 1.920 réis, a pagar-se por 9.200, sem aparecer o gênero no mercado.
Contra essa infração de neutralidade, posto que não oficial, merecendo contudo a fiscalização oficial, protestou aliás sem demora o ministro Corrêa da Serra, sendo atendido pelo governo federal, como o fora na sua reclamação contra navios armados nos portos americanos, com bandeira dos insurgentes espanhóis, para atacar as embarcações da metrópole, e também as portuguesas, estando em luta o governo do Rio com Artigas e podendo dar-se a todo momento o rompimento com Buenos Aires.670
Outro motivo de declaração por parte de Corrêa da Serra seria, após sufocada a rebelião de 6 de março, o proceder do cônsul americano Jo-seph Ray, acusado pelo próprio juiz relator da alçada, entre outros feitos de natureza política, de comunicações mais que suspeitas com os revolto-sos e com oficiais estrangeiros por estes aliciados (os três bonapartistas, do exército francês, engajados pelo Cabugá nos Estados Unidos, chegaram tarde) e de acoutar na sua residência três chefes do movimento sedi-cioso na Paraíba, que daí foram arrancados pela polícia. O governo americano houve que destituir o seu cônsul.
Na Inglaterra, onde o governo provisório sonhara fazer de Hipólito o seu ministro, o apoio à revolução foi igualmente, e com maior razão, negativo, obtendo pelo contrário Palmela facilmente do governo do dia, como era de prever, quanto pretendia em detrimento da república. Só não conseguiu, porque o gabinete britânico invocou a propósito a neutralidade adotada, entre a Espanha e suas colônias sublevadas, como um precedente a respeitar, a coadjuvação de fragatas de guerra que sugerira, ao julgar no primeiro momento mais temerosa a insurreição do que na realidade ela se revelou.
Acontecera que as notícias mais cedo espalhadas tinham sido as trazidas pelo negociante inglês do Recife Bowen, amigo de Domingos José Martins e o mesmo em favor de quem os rebeldes abrandaram o decretado embargo marítimo. Bowen não só disseminou informações muito otimistas com relação ao triunfo dos patriotas, como em defesa deles fez insinuações nos Estados Unidos, para onde se dirigira, e ao Foreign Office, por intermédio do ministro britânico em Washington. Lord Castiereagh desprezou porém semelhantes insinuações e, sob pretexto de atacar o governo legal, contrariou quanto pode o movimento de Pernambuco.671
O Board of Trade mandou afixar um edital aconselhando os navios ingleses que pretendessem comerciar com a praça do Recife, a dirigirem-se primeiro à Bahia a fim de colherem informações sobre a marcha do conflito e estado do bloqueio, que poderia entretanto haver sido levantado. O governo britânico consideraria boas presas de guerra, e não reclamaria os navios seus nacionais que fizessem sinal de querer romper esse bloqueio participado e admitido.
O correio deixou de receber cartas de Pernambuco, a não ser via Bahia. Mandou-se embargar nas alfândegas inglesas as cargas de pau-brasil — monopólio da coroa — que os insurgentes pudessem ter remetido para disporem de fundos. A conduta do cônsul Lampriere, de apresentar-se a receber o seu reconhecimento da junta revolucionária,672 foi fortemente desaprovada, informando-se disto o funcionário que o governo britânico acreditava em todo caso ter erroneamente agido por zelo, para mais eficazmente proteger as pessoas, bens e comércio dos vassalos ingleses, e não por extemporânea e indevida boa vontade para com os insurgentes.
Foi em nota de 17 de julho que Palmela se queixou do ato estranhá-vel de um funcionário estrangeiro que aceitava de uma junta rebelde67^ a confirmação de suas funções, autorizadas pelo governo legal. Na sua resposta de 13 de agosto, comunicava o principal secretário de estado na repartição dos Negócios Estrangeiros, que "recebera ordens do príncipe regente, para declarar ao conde de Palmela a fim de que o participe a S. M. Fidelíssima, que ele fortemente desaprovou o comportamento daquele empregado público, e que, em conseqüência disto, ao mesmo empregado público se fez saber, que ele obrara de um modo diretamente contrário ao teor da sua comissão; e que não devia ter-se apresentado tão cedo perante aquelas autoridades irregulares, ou fazer, sem positiva compulsão, qualquer ato que fosse, pelo qual desse a entender a um governo usurpador, que ele era reconhecido por um funcionário britânico".674
Como a Inglaterra segue contudo invariavelmente a norma de defender quanto possível os seus funcionários no exterior e nunca os deixar a descoberto, lord Castiereagh acrescentava: "O abaixo assinado roga todavia ao conde de Palmela haja de certificar ao seu governo, que o governo de S. A. R. está convencido, de que tudo o que o cônsul de S. M. obrou naquele caso, foi mero efeito de um zelo mal entendido, para proteger a legítima propriedade e comércio dos vassalos de S. M. e que por nenhuma forma fora em razão de ser afeiçoado aos insurgentes, ou de ter má-vontade ao governo de S. M. Fidelíssima, o que amplamente se aprova pela sua correspondência oficial."
Chegou Palmela a alcançar,675 com sua insistência amável e graciosa persuasão, que os capitães dos paquetes ingleses676 deixassem de admitir a bordo e transportar para Lisboa, exemplares do Correio Brazliense e do Português que, a propósito da revolução pernambucana, inseriam artigos julgados sediciosos e publicavam verdadeiros libelos contra os governadores do Reino de Portugal e Algarves.677 Assegurava Palmela na sua correspondência oficial que obteria o mesmo com relação ao Brasil caso o quisesse o governo do Rio como o tinha querido a regência de Portugal. A pouca vontade da corte em associar-se a essa atitude de Palmela para com certa imprensa periódica, confirma porém que Hipólito era, como se dizia em Londres, protegido do gabinete, senão do próprio monarca.
Das monarquias européias nunca tinham esperado simpatia os rebeldes pernambucanos, sobretudo das continentais. O agente consular francês, que era o horticultor Germain, e nem recebera ainda o exequatur ré-gio, mostrou-se sem rebuços infenso ao movimento, pelo que ficou suspeito à Junta — a qual aliás o destituíra do seu cargo de botânico em Olinda — e teve por melhor retirar-se para o Rio de Janeiro, onde faleceu ao chegar. As esperanças de reconhecimento, concentravam-nas os revoltosos nos Estados Unidos, em Artigas e no governo de Buenos Aires, ao que contou na corte um negociante francês de Bordéus, Mr. Vigneaux, embarcado no
lercure, do Havre, que a caminho do Rio fizera aguada em Pernambuco no dia 5 de abril, aí tomando aquele passageiro.678
A revolução pernambucana, se não fosse a atmosfera glacial que lhe tolheu os movimentos,679 tinha condições em si para vingar e expandir-se, tomando-se Pernambuco o centro de atração do Brasil independente, ou mais verossimilmente a primeira seção independente do novo Reino desagregado. O exemplo das colônias espanholas agia em seu favor, e o gover-no descurara anteriormente e por completo o perigo desse inevitável contágio emancipador. O capitão Hareng, do La Perle, de Honfleur, depôs que tendo partido para Pernambuco em fevereiro de 1816, encontrara a terra sossegada, apenas frio o negócio, mas nos espíritos tão grande a fermentação que tudo anunciava que a província não tardaria em participar no movimento revolucionário que sacudia a América Espanhola. "Seguia-se com particular empenho os progressos dos insurgentes espanhóis, sabendo o próprio governo que existiam com eles inteligências pela via marítima. Para alterar-lhes o efeito, foi que o capitão-general entendeu fazer proclamações e passar revistas, recordando aos habitantes e às tropas a confiança e fidelidade para com o soberano, e prometendo pronta distribuição de víveres pois era sobretudo da carência de alimentação que os perturbadores tiravam partido para açular os ânimos."650
Por outro lado, chegada a ocasião do perigo, o governo encontrava-se na situação mais crítica para combatê-lo e extirpar o mal: a braços com a guerra do Sul o exército, um exército de oficiais e para mais incapazes
— que custam muito e de nada servem, deles escrevia Maler —, e sem recrutas; a administração concentrada nas mãos ‘ ‘de um ancião minado pela febre e pelas convulsões" como era Barca; "esgotadas as finanças e nulo o crédito".681
Tanto mais louvável e admirável foi portanto o sério movimento de reação que teve lugar na capital brasileira contra a implantação da desordem no país e que compreendeu, além do estabelecimento, a 16 de abril, de um severo bloqueio da costa pernambucana e paraibana pela esquadra legal,6" a organização de um sólido corpo expedicionário às ordens de Luiz do Rego, que Maler apelida de militar bravo e leal, sem qualidades de administrador, porém geralmente estimado pelas suas excelentes qualidades.
A dificuldade em arranjar soldados era igual à de desvencilhar-se o governo dos muitos oficiais, uns a meio soldo, outros circunstancialmente licenciados, pertencentes ao exército de Portugal, que pediam serviço. "Os oficiais portugueses — comunicava o encarregado de negócios de França — serão sem dúvida preferidos, e é para recear que isto produza mau efeito entre brasileiros. Em ocorrências e conjunturas como as presentes, urge não se deixar só guiar pelos princípios militares."
Com efeito o movimento, ao mesmo tempo que antidinástico em anti-português e desta sua cor tiveram nítida impressão a fidalguia e o comércio do Rio ao tomarem a dianteira em todas as manifestações de solidariedade com Dom João VI, afligido mas não sucumbido, e bem disposto a dar um desmentido às previsões pessimistas de Maler e dos seus colegas diplomáticos, os quais todos não enxergavam os meios de imediata repressão, acreditavam na propagação do mal anárquico e até já viam iminente a forçada deserção de Montevidéu perante a diminuição do" efetivo de ocupação e bloqueio e o desânimo dos partidários da anexação.
A 7 de abril informava contudo Maler para Paris que o Erário vazio fora suprido pelos muitos dons voluntários e os empréstimos gratuitos. "O Banco desta capital pôs à disposição do governo um milhão de cruzados, a título de empréstimo; o barão do Rio Seco deu 50.000 cruzados, e outros capitalistas deram igualmente somas consideráveis; o conde de Belmonte ofereceu 10.000 cruzados, o marquês d’Angeja a sua baixela para ser fundida, que era obra do ourives de Paris Germain, e toda a alta nobreza lhe seguiu o exemplo."
Em Lisboa, o fervor pela sufocação da rebelião colonial foi muito menor, o que facilmente se compreende em vista do afastamento e do descontentamento que causava a indefinida ausência da corte. A regência, no fundo pouco comovida, não quis entretanto deixar de patentear sua lealdade e devotamento ao soberano, logo organizando uma pequena força marítima para ir bloquear o porto rebelde e redobrando de rigor na fiscalização dos navios procedentes do Brasil. A exibição de energia do conde dos Arcos na Bahia, onde os primeiros armamentos navais, ajudados espontânea ou calculadamente pela gente abastada da terra, se fizeram na frase de Maler, com uma presteza que não era de esperar da índole portuguesa,6-3 instigou tanta atividade entre os governadores do reino que os levou a extremas violências políticas.
Segundo o cônsul-geral Lesseps,684 foi da sedição pernambucana que nasceu a idéia de uma conspiração "cuja existência e fito não posso ainda adivinhar, mas que podia entretanto fazer temer a disposição do espírito público. Convocou-se adrede uma reunião extraordinária dos membros do governo, com assistência do marechal [Beresford] e de todos os conselheiros d’estado, guardando-se sobre ela o mais rigoroso sigilo, até que ontem se soube, com grave surpresa de todos os habitantes, que muitas prisões tinham sido efetuadas na noite de domingo para segunda-feira de Pente costes, circulando muitas tropas na cidade, e estando pronto a entrar ao primeiro sinal um reforço de alguns regimentos congregados nos subúrbios de Lisboa e pelos quais se distribuíra cartuchame."
Tão de molde aparecia essa conspiração, que não faltou quem pensasse e há quem pense ainda que Beresford se inspirou em Fouché e se valeu de tal meio para preparar os resultados de um plano mais vasto, o qual, no dizer de Lesseps, o espírito perspicaz da multidão imediatamente descobriu entre os refolhos da política inglesa: quer isto dizer que compartilhava de semelhante opinião o cônsul do rei cristianíssimo.
O meio de fato mais seguro para o governo britânico de obstar à tão falada invasão espanhola de Portugal em represália da ocupação de Montevidéu, seria preveni-la por meio de uma ocupação inglesa de Lisboa, assim indiretamente provocada pela revolta de regimentos nacionais. Por outro lado parecia este o melhor modo de dar realidade ao constante desejo da corte de Saint James e fazer regressar para o velho reino a família real portuguesa.
Gomes Freire foi a vítima ilustre que na ocasião se ofereceu e cujo suplício precedeu de três anos a explosão do rancor popular. Então o seu patíbulo se ergueu a meio do espanto, da consternação e do receio, assim como na Bahia o trágico episódio do fuzilamento do padre Roma, encarregado de ativar as ligações clandestinas, se passou rodeado dum silêncio lúgubre e medroso. O ano corria péssimo para as idéias liberais.
Quando o corpo expedicionário de Luiz do Rego, de quase 3.000 homens,685 embarcou a 30 de abril686 juntamente com muitos voluntários das milícias, formando com a gente da Bahia, Sergipe e Alagoas um total aproximado de 8.000 homens, no cálculo de Maler, o desânimo reinava sem partilha na província rebelde. No Rio no entanto constava e causava apreensões a propalada atividade do governo provisório no organizar a resistência, confiada em terra a 4.000 ou 5.000 homens, conforme se orçava depois de aumentados os regimentos, e no mar "a um brigue com 22 canhões, uma bela escuna americana armada, várias grandes chalupas e canhoneiras prontas a sair, além de outros grandes navios mercantes que pretendem armar em guerra".687
Dizia-se, com o mesmo exagero, serem permanentes os trabalhos no arsenal do Recife, como com verdade o estavam sendo os esforços bélicos do governo do Rio, sobressaindo em afã o monarca que não cessava de visitar os arsenais de guerra e marinha e em pessoa apressar — ‘ ‘com sua presença, seu ardor e seus cuidados" — os preparativos de repressão, que fazia morosos a falta de trabalhadores e de materiais.
A revolução não merecia mais tanto. Ao recrutamento em terra correspondia no Recife a emigração, seqüestrando a Junta os bens dos que assim se ausentavam, como seqüestrara os navios portugueses. Não menos se despovoava a cidade pelo pavor do bombardeio por parte da esquadra legal, cujo aparecimento originara defecções entre os capitães portugueses — os únicos possíveis à falta de nacionais — dos navios armado: em guerra pelos rebeldes.
Perdera-se de vista o lado teórico; sumira-se o idealismo da revolução. Ninguém mais cogitava dos princípios liberais, das leis reformadeiras: o essencial era a salvação de cada um. Uns poucos — o padre Joãc Ribeiro, Domingos Martins, Antônio Carlos, Domingos Theotônio — mantinham-se firmes, se já lhes não era lícito esperar. Os outros tão desorientados andavam que os portugueses ricos se atreviam a oferecer 100 contos aos membros do governo, para que renunciassem à luta e se evadis-sem. O povo, por sua vez, tratava todos eles de aristocratas e não mais se deixava impressionar pelas suas arengas. Aliás o povo conservara-se, como o observou Tollenare, sem entusiasmo pelo ensaio democrático que diante dele se desenrolava, sem mesmo uma compreensão nítida do que se estava passando: somente percebia com clareza que a sua situação não melhorara efetivamente como lhe haviam anunciado, e que continuava a sofrer as mesmas privações que dantes. Quanto ao comércio, escusado é referir, andava por completo paralisado, irritando a gente que dele vivia.
A revolução pernambucana foi derrubada pelos próprios elementos conservadores e até populares da capitania, antes de se dar a intervenção de fora, da mesma forma que a restauração portuguesa de 1654 foi executada pelos elementos brasileiros desajudados mesmo da metrópole. Antes de chegadas as forças da Bahia, que subiam lentamente ao mando do marechal Cogominho de Lacerda,688 já a república estava militarmente desmoralizada. A luta civil abrira-se entre realistas e patriotas, os senhores de engenho fiéis com quem do seus navios689 se correspondia o almirante Rodrigo Lobo, e os 400 homens, parte saídos do Recife, onde havia ao todo, entre regulares e milicianos, 4.000 homens ou mais, e parte reunidos no Cabo, sob as ordens de Francisco de Paula Cavalcanti que foi o peco general desse simulacro de república.
O combate de Utinga, um assalto de engenho, foi um episódio inteiramente local pela composição das facções que aí se disputaram. Entretanto, na capital, Pedroso, passando das bravatas aos atos de que era um dos poucos capazes, assinalava o início da anarquia com os seus fuzilamentos sem processo dos desertores, anunciando com tais descargas haver cessado a legalidade democrática.
Uma relativa cordura nunca faltou contudo à rebelião de 6 de março que, antes de varrida pelo temporal levantado do sul, se tinha ido desfazendo com as manifestações separadas de reação provincial, provocando uma geral conflagração graças à tentativas de repressão do governo provisório. A estas se associara em pessoa Domingos Martins, indo porém es-tonteado entregar-se, sem possibilidade de resistência, pela dispersão das forças, a um destacamento de Cogominho, o qual entrementes alcançara Serinhaém e, subindo até Ipojuca, a 13 de maio690 destroçou Francisco de Paula, obrigando-o a refugiar-se no Recife.
A causa foi então considerada perdida e tratou-se da capitulação, mas :endo Rodrigo Lobo recusado aceitá-lo nos termos propostos pelos revoltosos e mostrado mesmo desdenhar as ameaças de morticínio de todos os europeus, formuladas em ultimatum por Domingos Theotônio erigido em ditador — tão certo estava o lobo do mar da doçura do cordeiro republicano —, assistiram as destinadas vítimas da sanha jacobina ao espetáculo inesperado da evacuação da capital, sede do governo rebelde.
Tollenare conta com mais pormenores do que Muniz Tavares como se passou a contra-revolução. De 19 para 20 de maio, os patriotas, de todo descoroçoados, retiraram-se para Olinda em número de 6.000, inclusive os escravos e libertos, levando as bagagens, a artilharia e o cofre militar. A cidade ficou virtualmente deserta, do que um padre correu a dar aviso aos marinheiros das embarcações surtas dentro do porto, para que desembarcassem de madrugada a tomarem conta do Recife, arvorando de novo o pavilhão real que o mesmo sacerdote ia desfraldar "por sua conta e risco". Ao nascer do sol uma pequena embarcação portuguesa içou com efeito a bandeira legal, outras imitaram-na e seus canhões salvaram, sem que lhes respondessem, mudas, as fortalezas de terra, ainda com guarnições insurgentes, que constituíam uma reserva à disposição de Francisco de Paula Cavalcanti para proteger a retirada do grosso das forças.
Nos quartéis abandonados encontrou a marujada portuguesa, uma vez em terra firme, armas e munições bastantes, e dos fortes se apoderou serr. oposição porque as seus defensores já lhes faltava por completo o estímulo, tendo-se o chefe, Francisco da Paula, bandeado com a multidão que dava vivas ao rei, e à frente desta corrido ele próprio a libertar os presos políticos da revolução, entre os quais o marechal José Roberto, que provisoriamente se encarregou do governo/’91
Os brigues armados pelos patriotas foram igualmente desamparados e ocupados sem combate. Às 7 horas a mutação de cena era perfeita, agitando-se de novo as cores portuguesas à viração que ia passar a soprar do mar, onde se divisava imóvel a esquadra do bloqueio, que só às 811/2, informada por mensageiro dos gratos sucessos, deu sinal de si, respondendo às jubilosas saudações de terra. Passava de 4 horas da tarde quando Rodrigo Lobo desembarcou com 50 homens, insuficientes mesmo para guarnecer as fortalezas e sobretudo para conter os marinheiros libertadores que, ébrios percorriam, as ruas dando tiros, perseguindo os poucos patriotas que se afoitavam a sair, e ao acaso matando também neutros.692
Durou esta desordem três dias, porque a 23 chegava do sul, com os louros de um fácil triunfo, o exército legal. O exército patriota, abandonado à sua sorte pelos chefes que, com exceção do padre João Ribeiro, fugiram disfarçadamente, cada um pelo seu caminho, debandara a três léguas do Recife, voltando os soldados para a cidade atraídos pelo perdão, e entregando-se com as armas na mão —os que ainda as conservavam intactas, pois não poucos as tinham quebrado no primeiro momento de desespero. Outros muitos, os constrangidos, desertaram em massa, como o deixava prever a pouca firmeza com que tinham marchado à saída da praça. Nenhum no entanto, lembram com justo orgulho os panegiristas da revolução pernambucana, se manchou com assassinatos e pilhagem. Os que retrocederam e se renderam, carregaram até como penhor da submissão o cofre militar incólume.693
Noutras disposições de espírito a resistência teria sido fácil e a vitória ilustraria a bandeira republicana nos primeiros encontros, pois, no dizer de Tollenare, as forças da Bahia não inspiravam extraordinário receio, só tendo de sofrível a cavalaria. No seu número entravam em proporção não desprezível índios com seus arcos e flechas, lavradores e moradores agarrados sem armas e quase sem roupa no caminho da fiel comarca das Alagoas para o norte rebelde. Os bons militares disciplinados, os aguerridos veteranos portugueses, tropas que Tollenare chama excelentes, só depois, a 29 de junho, chegaram com Luiz do Rego, portador de proclamações e instruções redigidas na corte sob o influxo benigno de Dom João VI e a tendência que nunca deixara de ser liberal do conde da Barca, e destoando singularmente das enfáticas, sôfregas e cruéis exortações, que Maler apelidava des boutades irréfléchies, de Arcos.
No Rio de Janeiro a notícia da sufocação do movimento foi acolhida com foguetes, repiques de sinos e iluminações gerais, escrevendo Maler que nas noites de 15 e 16 de junho a sua modesta casa foi o sol do seu bairro. No momento de espalhar-se o feliz boato, dessa vez verdadeiro, 400 a 500 ressoas da corte correram a felicitar o monarca pelo restabelecimento da sua autoridade, pejando os salões de São Cristóvão. Tão satisfeito ficou também o rei com a nova da rápida desaparição do movimento sedicioso, de que muito se temera a generalização, quão pesaroso — ele próprio o repetiu várias vezes a Maler694 — pela dura necessidade a que se via exposto de ter que mandar executar os cabeças da revolução.
O sentimento não parece destituído de sinceridade, pois que a rigidez com que procedeu Luiz do Rego, em desacordo com o espírito das ordens que recebera, mais tarde descontentou o soberano. A 3 de novembro de 1817 escrevia Maler que a conduta do governador-geral de Pernambuco, a saber, a severidade excessiva por ele empregada, refreara os ânimos mas revoltara toda a gente e alienara todos os corações. Sabia o encarregado de negócios de França estar o rei muito desgostado, ainda que pela natural hesitação que o distinguia até tomar uma deliberação — quando a vacilação se convertia em obstinação — não tivesse ainda cuidado de dar-lhe um sucessor mais prudente e mais adequado ao estado convulsionado da capitania, que assim continuava, notando Tollenare como custou a restabelecer-se a confiança, afluir a gente do mato e reanimar-se o comércio.
O espetáculo que a Luiz de Rego se deparara tinha entretanto sido de índole a abrandar qualquer furor, de tão triste e impressivo. Da Junta, c padre João Ribeiro, frio e intrépido esse, tivera único a coerência de morrer como cidadão livre, suicidando-se, e a sua cabeça, decepada do corpo mutilado e passeada em triunfo, entre motejos, pelas ruas da cidade, estava exposta descarnada e horrível no Pelourinho. Corrêa de Araújo já ante: do dia 20 traíra a causa que nunca de coração abraçou. José Luiz de Mendonça, preferindo não ser traidor, entregara-se à prisão. Domingos Martins, preso, espumava de raiva impotente, enquanto o não transportavam com Antônio Carlos (recolhido de motu próprio à cadeia), Pedroso, José Mariano Cavalcanti e uma porção mais de patriotas amarrados ou acorrentados, para os cárceres e patíbulos da Bahia. Domingos Theotônio. o ditador, que faltara ao seu destino para que não possuía o talento nem :o vigor das resoluções decisivas e salvadoras, era atraiçoado no seu esconderijo, do mesmo modo que o Leão Coroado, o vigário Tènório de Itamar e Antônio Henriques, o único dos quatro que escapou à forca do Recife. O elemento português, novamente preponderante na orientação política, reclamava porém severidade na reação, consubstanciando suas idéias de governo no regime militar arbitrário aplicado ao Brasil, inclinad: a rebeldia, e muito especialmente na restauração do monopólio comercial O corpo de negociantes do Recife expressara seu júbilo fazendo um dom de 30 contos ao exército libertador e organizando em sua honra uma festa de espavento na matriz do Corpo Santo, com três dias de lausperene, cânticos sem fim, dois sermões e duas bênçãos do Santíssimo por dia.
Os pregadores trovejavam em vernáculo salpicado de muito latim contra a impiedade e o jacobinismo; pregadores d’além-mar já se sabe, visto os padres do novo reino quase todos se enfileirarem entre os liberais ou nutrirem simpatia pela revolução, e isto por duas razões: 1º, porque eram das poucas pessoas que sabiam ler e das raras instruídas, para as quais portanto o horizonte se abria amplamente; 2?, porque eram muito mal renumerados, embolsando o rei o dinheiro do dízimo como grão-mestre de Cristo, senhor do padroado e sustentador do clero e fazendo, do que percebia, uma magra distribuição que constituía ainda assim o melhor do apanágio eclesiástico.695
Nos intervalos dos sermões eivados de puro lusitanismo, e numa deliciosa combinação de sagrado e profano,.serviam-se iguarias, doces e re-frescos nas galerias superiores do templo. As damas em trajes de gala, carregadas de jóias, que se ajoelhavam e sentavam sobre os tapetes da nave, iam então espairecer com os oficiais de Luiz do Rego, gente da melhor, rapazes de bonne mise, escrevia Tollenare em seu canhenho, instruídos e finos: "ce que Peducation du grand monde offre de plus délicat, se presente dans leurs manières"
Sua entrada fora triunfal, por entre as aclamações do povo e as bênçãos dos mercadores assomados às janelas adornadas de alcatifas e colchas, de onde as senhoras sacudiam flores sobre os esbeltos restauradores da Lei, a cujo som longínquo de guerra se esvaíra de terror a segunda era da liberdade pernambucana — como a contava o maldito governo provisório, ingenuamente classificando como a primeira a do domínio holandês. Combates, lhes não proporcionara o fado na província que tivera a ousadia de pensar e a loucura de tentar a sua independência democrática: a tarefa estava mesmo abaixo de tão nobres e experimentados guerreiros, e melhor fora que a tivessem executado os da terra, os brasileiros bisonhos. Ficara-lhes o presenciarem as execuções, suavizando-as com zombadas aos patriotas, escutadas pelas damas temerosas, algumas delas muito vexadas com o seu cabelo cortado à Tito, para condescenderem com Domingos Martins que reclamara e cuja esposa dera o exemplo desse sacrifício da vaidade à austeridade republicana. Como entremez, as surras nos negros alforriados pela revolução, antes de restituídos ao senhores. Dos açoites públicos quisera até, no paroxismo da prepotência, Rodrigo Lobo fazer passível um capitão americano que conseguira escarnecer do bloqueio. Os processos de castigo eram todos sumários, mas exaustivos.
Por fim a justiça militar suspensa por ordem do Rio e instituída uma alçada composta de quatro velhos magistrados do Desembargo do Paço e da Casa da Suplicação, que com sua meticulosidade irritante e legal impassibilidade rematou a obra dos carrascos e carcereiros que em Pernambuco e na Bahia tinham ceifado vidas honradas ou estavam cobrindo de opróbrio as torturadas existências dos patriotas agarrados, agrilhoados e Transportados para a capitania vizinha quando ainda falecia na rebelde autoridade para erigir tribunal, que não possuía o almirante nem o marechal Cogominho.
Foi esse o reinado menos violento, mas não menos perigoso da delação e da denúncia, e pareceu eternizar-se. Dois anos depois, não tinham terminado os trabalhos judiciais da corte especial. Removeram-na para a Bahia a exigências do capitão-general, enciumado na sua autoridade e também não enxergando mais utilidade num custosa aparelho de justiça que, para justificar sua função, ameaçava tachar de cumplicidade na revolta todos os pernambucanos ou melhor todos os brasileiros das capitanias comprometidas, por onde se estendia a sua jurisdição.
A alçada de 1817 foi brutalmente abolida pelos acontecimentos que responderam no Brasil à revolução liberal do Porto, de agosto de 1820, sendo a sua devassa substituída pela ação regular da justiça que, pela voz da Relação de São Salvador, pronunciou a nulidade do processo, inquinado de vícios, e mandou soltar os presos, com exceção de Pedroso e José Mariano. acusados de homicídio e condenados a degredo perpétuo — perpétuo, num momento em que nada havia senão temporário — para a Ásia. Descia o pano sobre este clemente epílogo de um drama de sangue sobre o qual, politicamente, Maler, bom contemporâneo de Marmontel, assim condensava sen-tenciosamente o seu juízo: "L’histoire, Monseigneur, conservers le souve-nir de peu d’événements aussi dangereux par les conséquences qu’il pouvai: avoir, et aussi promptement aussi facilement même prévenu dans ses effets.’
Com menos concisão e um nada mais de pretensão literária, verseja-va sobre o caso lealmente, ditirambicamente, pomposamente, com todos: os advérbios em mente que dizia haver proscrito seguindo "o imortal Fi linto Elísio", num canto épico à aclamação faustíssima do liberalíssimo Rei Dom João VI, o vate e vassalo fiel Estanislau Vieira Cardozo, ”Segundo escriturário do Banco do Brasil, e secretário do 1? Regimento de Cavalaria de Milícias da Corte":
Mas não te penes, Príncipe! Um momento
De
perfídia, e desdouro não faz vulto
No quociente de séculos de glória.
Troveja o claro céu; benigno é sempre.
Cumpre porém olhar atento a esfera:
São das exalações os raios prole.
Enunciada esta insólita ousadia,
Tua alma nobre por extremo aflita,
Mais pelo que urge o nacional decoro
Que pelo que é de ti, que em fim és grande,
Há de nadar de júbilo em torrentes,
Quando à porfia em turmas acorrerem
Povos fiéis ingênuos a offrecer-te
Os mais prezados bens — fortunas — vidas —.
Assim falava a Dom João VI espavorido, o gigante Amazonas, "de gotejante longa melena, e barba denegrida, e cor tostada", ao sair-lhe ao encontro, novo Adamastor, quando "do Pinhal undivago alvejavam inchadas velas" a caminho do Brasil onde
…. constante querer-te hão os povos.
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3 Comentários para “A REVOLUÇÃO PERNAMBUCANA DE 1817 – D. João VI no Brasil – Oliveira Lima”
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Fórum de Discussões
março 9th, 2010 at 8:48 pm
É muito bom e pá,mas é muita coisa poderia ser mais resumido porque tem qente q naum tem paciencia para ler tudo,e tambem nem tempo.
Eu mesmo naum tenho paciência mas tive q ler para fazer um trabalho.
março 5th, 2010 at 12:41 pm
vc quer me matar e
outubro 8th, 2009 at 5:32 pm
gostei muito!