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Alcácer – crônica de Alexandre Herculano


Alcácer

Alcácer achava-se no século XII decaída da anterior grandeza: mas ainda se distingüia pelo pitoresco do sítio e pelo seu aprazí­vel aspecto. Assentada nas margens do Chetavir, grande número de embarcações subiam e desciam o rio, carregadas com as mer­cadorias que lhe alimentavam o comércio, necessàriamente ativo pela proximidade da populosa e opulenta leborá (Évorá) :i). Cer­cavam-na por todos os lados extensos pinhais, e as madeiras que neles se cortavam, constituíam um dos principais objetivos de ex­portação. Naturalmente férteis, os seus arredores eram ricos de gados, que produziam abundância de laticínios e carnagens. O mel que ali se recolhia, formava uma porção de sua riqueza. Tal é o quadro que, a-pesar-da decadência política de Alcácer, ainda nos fazem delas os escritores árabes do século XII. Da sua importân­cia militar, da fortaleza do castelo que a defendia, é argumento quanto sangue custou aos cristãos conquistá-la e reconquistá-la de­pois de perdida de novo.

Hoje de tudo isto restam apenas largos panos de muros rotos e pendidos, tôrres derrocadas ou fendidas, que vacilam e ameaçam esmagar parte da povoação assentada a seus pés. Os bosques de­sapareceram em grande parte, e os prados, que alimentavam nu- .níerosos armentios converteram-se em alagadiços, donde mana a corrupção. As febrjes mortíferas do estio tingem o gesto dos ha­bitantes de urna côr de cadáver, que harmoniza tristemente com aquelas pedras tombadas e pálidas, com os vestígios de duas gran­des civilizações que passaram por esta terra de muitos’ séculos. Ã raiz do alto eubelo sarraceno faz o fuste da coluna ropiana: a ins­crição latina faceia o muro da que, talvez, foi mesquita muçulma­na e que hoje é um pobre templo . Ruínas sôbre ruínas, ci­mentadas com o sangue de muitos combates, e no meio delas uma população enfezada e doentia, eis o que. resta da bela Alkassar Ibn-Abu-Danés, afora uma pouca atividade comercial que os. erros dos homens não puderam destruir, porque dependia da situação do lugar, empório e mercado natural das terras sertanejas que demo­ram ao norte e oriente do Sado. .


3) Pigmalião — famoso escultor da ilha de Cipre; fêz uma estátua, de Galatéia, sua obra prima, diz a lenda, que, a instâncias suas, , ani­mou, e que êle desposou depois.

6) Calícrates — outro arquiteto do mesmo tempo; trabalhou também no Partenão.

1) Encausto ou encáustico — pintura feita sôbre camada de côra.

2) Sátrapa — governador de província entre os antigos persas 6

sin. de grande senhor, déspota.

3) Na construção dêste período, há o que se chama Sincse. Vide

Gram. elementar de Epifânio Dias § 250 c.

4) Armentios — gado vacum.


Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

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