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Pânico na população do Rio, durante a revolta da Armada


Pânico na população do Rio, durante a revolta da esquadra em setembro de 1893

1894-Juan-Gutierrez-Revolta-da-Armada

Uma tarde espalhou-se em todo o comércio, com o mistério apavorante de um agouro, a notícia de que a esquadra bombar­dearia a cidade no dia seguinte.

O clamor subiu numa lamentação de desastre. Justamente eu chegava à rua do Ouvidor, quando estrídulos toques de clarim faziam mover a multidão num ondular tumultuoso como o ocea­no sob a lufada violenta de um ciclone, e começaram a passar, com estridor de ferragens, os pesados armões da artilharia.

As peças descobertas vinham salpicadas de lama, brancacen- tas de poeira, e os soldados, que as seguiam a pé, de espada nua, enlameados, suados, arquejavam correndo de quando em quando. Abriam-se claros, mas logo animais a trote avançavam arrastando, com fragor, outras carretas até que a bandeira, desfraldada no punho de um cavaleiro moço, passou, palpitando gloriosamente, saudada pelo povo.

Uma banda vinha tocando, como nos dias tranqüilos de festa, mas o fragor da artilharia mal deixava ouvir a música, já próxima. Erguendo-me nas pontas dos pés espiei por entre os ombros dos que me apertavam e vi, ao longe, a cintilação das baionetas que um sol triste e pálido brunia: mas ainda vinham lentps canhões rolando e passavam até que a infantaria irrompeu.

Os soldados marchavam curvados ao pêso das mochilas; pa­ra vam de vez em vez e ficavam marcando passo, num. farfalhar contínuo como se fôssem caminhando sôbre a folhagem morta e sêca dum campo.

Vieram, em seguida, os voluntários: todos moços animados de um entusiasmo que lhes transparecia nos olhos, que se acusava em todos os seus movimentos.

Seguiam para a morte como para um apoteose; satisfeitos, orgulhosos, sem sentir o pêso das armas sôbre os ombros desacos­tumados, marchando com a regularidade dos veteranos largamente exercitados na paz e na guerra. Levavam os olhos altos, fitando o povo, buscando, pelas janelas, um rosto venerável de parente ou os olhos perturbados de lágrimas da noiva que os esperava para o adeus, o último talvez. Das sacadas, senhoras acenavam agitan­do lenços, afastando bandeiras de todos os países, que tremulavam à brisa, protegendo as casas, como penates santos retirados dos tabernáculos para defenderem o lar ameaçado.

Ao clangor das charangas possantes o entusiasmo subia, co­municando-se ao povo que abria alas à passagem das tropas.- Por último foi um batalhão que desfilou ao rufo dos tambores, ao som vibrante das cornetas e por muito tempo óuviu-se o trepidar dos passos dos soldados. Olhando então para a rua, tive a impressão estranha de um rio rútilo, a correr, tal era o brilho das baionetas juntas, parecendo um só corpo luminoso, espelhento, que fugia.

Lentamente comecei a subir a rua do Ouvidor e, quando che­guei ao largo de S. Francisco, era tal a multidão que me detive um instante.

Um grosso tumulto de gente precipitava-se para os bondes com algazarra; mulheres corriam, arrastando crianças que chora­vam; outras, sobraçando embrulhos, seguiam com lentidão, arfan­do. Uma velha, que caminhava em passo miúdo e rápido, parou de-repente como assustada e pôs-se a olhar em tôrno, indo e vindo, estonteadamente. Veio até junto de mim, mas voltou de novo pa­ra o largo e com as mãos ambas na cabeça, num grande desespêro, pôs-se a chamar alguém aos gritos. Os que passavam, surdos, nu­ma ânsia de salvação, empurravam-na; e ela volta-se olhando para todos os lados, sempre a gritar, aflita; desapareceu, como se a ti­vessem pisado os que corriam, mas os seus gritos ainda vibravam, mas longe, perdendo-se a pouco e pouco, até que apenas ficou o marulho do povo que abalava desordenadamente. E os bondes eram invadidos; senhoras iam de pé nos estribos, agarradas aos balaustres ou entre os bancos. Pobres mulheres levantavam nos braços criancinhas tenras, embrulhadas em toalhas e pediam,’ por piedade, que lhes cedessem um lugar, contando que haviam deixa­do o leito, que mal se podiam suster. Mas ninguém ouvia; o pânico acossava a multidão, como as tempestades nos desertos levam as caravanas batidas até à morte.

O povo, no seu egoísmo brutal, batalhava pela vida, surdo a gemidos, atirando-se aos bondes com a ânsia desinsofrida dos náufrágios que se arrojam em massa à mesma barca frágil. Às vêzes os cocheiros declaravam^ travando os carros: “que os animais não podiam”. Mas o povo irrompia em vozeria: “Que tocasse! que

seguisse!” Ameaçayanp^ e homens vinham impelir os carros aju­dando os muares até que se moviam e, ganhando impulso, faziam vagarosamente a volta com um rangido agudo pelos trilhos. E outros bondes chegavam já apinhados, rumorosos. Carros eram disputados; e de tôdas as ruas vinham ondas de gente, a correr, num escoamento ininterrompido.

Entretanto havia teatros acesos e justamente perto da praça Tira dentes, onde um foco elétrico projetava o seu raio errante, havia bagagens empilhadas: canastras, malas, leitos, como se vêem nas praias à chegada de uma leva de imigrantes; e num car­rinho, encolhido, um aleijado gemia.

No céu a lua brilhava de espaço a espaço, libertando-se das nuvens negras, como se quisesse alumiar o caminho do êxodo 1) terrífico.

A cidade emigrava para os arrabaldes, os bondes passavam apinhados, iam carroças cheias, carros vagorosos fechados, como se levassem enfermos, e, nas ruas, era como um desfilar de procis­são ao luar. Ãs janelas das casas apareciam vultos contemplando a dolorosa hégira *) dos pobres que trilhavam os caminhos a pé, levantfo ao colo crianças adormecidas. Homens, vestidos com de­cência, sobraçavam pesados embrulhos; pequenos levavam gaiolas, e cães seguiam os bandos como uma partida definitiva, abandonan­do uma cidade assolada pela peste.

De longe em longe, nos terrenos, vagos aparecia um pequeno acompanhamento, grupos internavam-se pelos capinzais indo falar aos donos dos estábulos 2) para que lhes permitissem pernoitar en­tre a erva onde os bois ruminavam, deitados tranqüilamente. Ba­tiam à porta das casas pedindo “por misericórdia!” um abrigo! e descobrindo embrulhos, mães desoladas mostravam criancinhas.

Entre os andaimes acolhiam-se famílias; mulheres exaustas deixavam-se ficar sentadas nos lagedos e sôbre o colo os filhinhos repousavam a cabeça e dormiam. Era a fuga precipitada, mobi­lização de um povo tocado pelo pavor.

Lamentei comovido êsse triste espetáculo e o cocheiro do til- buri que me conduzia à casa, suspirou:

Isso não é nada! E contou-me que os trens da Central par­tiam atarracados; que havia diante da estação um tal acúmulo3) de bagagens que mal se podia andar por ali.

Nunca imaginara que o Rio tivesse tanta gente! Para a Ti- juca eram incontáveis as pessoas que subiam, até em carroças de lixo, caminhando sempre, sem pa,usa, buscando um lugar bem alto, bem longe, aonde não pudessem chegar as balas dos navios. E baixinhos pressagiou: “Muita desgraça”.

Quantos doentes, quantas crianças não haviam de pagar com a vida aquela brincadeira…

Quando cheguei a casa[1]), minha mãe disse-me: “Que a casa estava cheia. Não tinham podido negar: era uma pobre família, com crianças, mocinhas solteiras e uma velha, que mal podia com as pernas de tão inchadas. Vieram de bonde; e, como vissem gen­te à porta da casa, uma das mocinhas pediu, chorando, que as re­cebessem por uma noite. Que se havia de fazer. Estavam tôdas na sala de jantar.”

Mamãe contou-me que, desde as cinco horas da tarde passava gente; que vizinhos haviam agasalhado algumas familias e que o jardineiro lhe dissera, entrando à noitinha, que uma pobre mulher dera à luz em plena rua, sendo recolhida pelos policiais.

No céu turvo estendia.-se de instante a instante, como uma via láctea, o raio do holofote, em direções diferentes, variando com a rapidez da flecha de um catavento que um vendaval desorienta.

A-pesar-da noite fria, saímos para o jardim, onde as magno­lias abertas rescendiam e ficamos numa contemplação muda, vol­tando os olhos para acompanhar no céu o palor do raio errante que, por vézes, chegando aos montes, criava um luar efémero, gal­vanizando de prata o arvoredo escuro.

Depois até tarde, da janela do meu quarto acompanhei com piedoso interesse a passagem do povo.

Pela alta noite, acordando ainda ouvi falas na rua, passos que fervilhavam em uma cantilena longínqua, amortecida, apaixo­nada. De manhã mamãe veio acordar-me cedo para que visse o — mundo de gente — que passava.

O terror havia estabelecido uma estreita solidariedade huma­na: não era um desfilar de grupos indiferentes, era a marcha as­sombrosa de uma grande família, ligada pelo elo comum do mes­mo sentimento. Tôdas as fisionomias tinham uma igual expres­são caraterística, em todos os olhares havia o irradiar do espanto, a mesma angústia, a mesma ansiedade; seguiam numa comunhão de amparo recíproco, de encorajamento mútuo.

O sol subia, um s)ol forte de estio, e o calor já era intenso; entanto pequeninos, as cabecinhas loiras e descobertas, iam ador­mecidas sôbre os ombros dos pais ou aninhados ao colo das mães; os mais fortes seguiam a pé, explorando os matos, arrancando flo­res aos cercados; alguns comiam, babujando-se, e a marcha seguia num derivar perene, ora compacta, nos caminhos estreitos, ora derramando-se pelos campos como as águas que, fugindo a uma gar­ganta apertada, dilatam-se ganhando a vastidão folgada de um estuário.

Estávamos à mesa do almoço, quando minha tia, depondo o talher, ergueu os olhos espantados; as duas mocinhas empalide­ceram; e foi o jardineiro quem nos veio anunciar, com a precipi­tação contente de quem traz uma boa nova: “Que a coisa come­çara!”

O ar atroava surdamente, longamente, como um gemido; era o canhoneio ao longe. A morte passava uivando pelos ares, além!

Os ribombos tornavam-se mais distintos com uma repercus­são soturna no ar puro e translúcido. Amiudavam-se os tiros e leves frêmitos passavam pela casa com um tinir brando de cristais. Eu sentia-me oprimido e ao mesmo tempo uma grande curiosidade cresceu no meu espírito.

Dos bondes que subiam, os passageiros gesticulavam, grita­vam para os que desciam: Que voltassem! que a cidade estava sen­do varrida a metralha! Que o Aquidabã e os frigoríficos faziam um fogo vivo para a terra, respondendo as baterias legais!

Que já havia mortos!. ..

Para a tarde os ecos recrudesceram, como se o canhoneiro se tivesse tornado mais vivo de parte a parte.

E cheio de apreensões e de lágrimas, passou êsse dia fúnebre e veio uma noite sem astros, fechada num pesado luto de trevas, iluminada apenas, de longe em longe, pelo raio sinistro do holo­fote, pálido como o Pavor, desfraldando-se no céu à maneira de um pavilhão lívido de morte.

Coelho Neto.


1) Êxodo — E’ o título do 29 livro da Sagrada Escritura, ero que Moisés * narra a saída do povo hebreu do Egito. — Aqui £ sinônimo de partida, emigração.

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

1) Hégira — do árabe hydgra; significa fuga, emigtação. Designa a era dos Maometanos, que começa do ano em que Maomet fugiu de Meca para Medina; corresponde ao ano de 622 da era cristã.



[1] Vide a nota 2) à pág. 42.

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