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Alexandre Herculano – Inteireza dos Andradas


Inteireza 1) dos Andradas

Acerca da pobreza de José Bonifácio, que não possuía mais do trinta mil réis quando foi prêso e deportado, contarei uma ane­dota, que não será lida sem interêsse.

Os ministros da regência de reduziram os orde­nados à metade do que eram no tempo de . Fica­ram em quatro contos e oitocentos mil réis anuais, pagos mensal­mente.

José Bonifácio recebeu quatrocentos mil réis em bilhetes do Banco, de um mês do seu ordenado, os msteu no fundo do chapéu, e no teatro lhe roubaram o chapéu e o conteúdo.

O do Império do Brasil achou-se no dia se­guinte sem ter com que mandar comprar o jantar. Não possuia nem um vintém mais, e seu sobrinho Belchior Fernandes Pinheiro foi quem pagou as despesas do dia.

Em conselho, José Bonifácio referiu esta ocorrência e a ex­trema necessidade a que ela o reduziu e a sua família.

O imperador entendeu que o ministro, visto a penúria em que se achava, devia ser indenizado, pagando-se-lhe outro mês de ordenado, e, neste sentido, deu ali suas ordens ao ministro da fa­zenda.

Martim Francisco não obedeceu. Disse ao imperador que nãç havia lei que pusesse a cargo do Estado os descuidos dos empre­gados públicos; que o ano tinha para todos doze meses e não tre­ze para os protegidos; e, finalmente, pedia a Sua Majestade que retirasse a sua ordem, porque era exequívl que êle Martim Fran­cisco, repartisse com seu irmão o seu ordenado e que viveriam ambos com mais parcimônia aquêle mês, o que era melhor do que dar ao país o funesto -exemplo de se pagar ao ministro duas ve­zes o ordenado de um só mês.

Êste incidente não foi mais adiante. Martim Francisco re­partiu com seu irmão o dinheiro que tinha, e José Bonifácio dali por diante tomou mais cuidado no chapéu e no dinheiro que ti­nha.

Sem religião não há civilização verdadeira; sem civilização não há bons costumes, e sem êstes não só a liberdade não é possí­vel> mas nem sequer a sociedade.

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Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

1) inteireza — integridade, honradez, probidade.

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