CAUSAS DA GRANDEZA E DA DECADÊNCIA DOS ÁRABES — SEU ESTADO ATUAL

CAUSAS DA GRANDEZA E DA DECADÊNCIA DOS ÁRABES — SEU ESTADO ATUAL

Dr. Gustave Le Bon (Sorbonne)

A Civilização árabe (1884) –Livro Sexto

DECADÊNCIA DA CIVILIZAÇÃO ARABE

Capítulo II

CAUSAS DA GRANDEZA E DA DECADÊNCIA DOS ÁRABES — SEU ESTADO ATUAL

I

CAUSAS DA GRANDEZA DOS ÁRABES

Terminaremos a nossa historia da civilização dos árabes resumindo, num ponto de vista geral, as causas de sua grandeza e de sua decadência.

Como fator preparatorio da grandeza árabe, destaca o momento em que êle surgiu.

Tanto para os indivíduos, como para os povos, esse fator preparatorio possui uma importância enorme, pois muitas qualidades apenas podem desenvolver-se em momentos especiais. Assim como Napoleão não teria sido o senhor da Europa se tivesse nascido no tempo de Luís XIV, do mesmo modo, se Maomé tivesse nascido no tempo do poderio romano, nunca os árabes teriam certamente saído da Arábia, continuando desconhecidos da história.

Maomé nasceu num momento propício; já demonstramos que quando êle surgiu o velho mundo desmoronava, e que foi suficiente tocarem-no os adeptos do Profeta para que êle desabasse.

Mas não basta derrubar um império para fundar uma civilização, e a prolongada incapacidade dos bárbaros, que herdaram a civilização dos romanos no Ocidente, como os árabes a herdaram no Oriente, prova a dificuldade da empresa. O fator preparatório que citamos tornava possível a criação de um império novo e de uma nova civilização, mas não era possível criá-lo sem o concurso de outros fatores essenciais, que agora temos de determinar.

Entre os que mencionaremos em primeira linha está a influência da raça.

Já esclarecemos consistir o que sobretudo caracteriza uma raça em certo número de sentimentos e aptidões parecidas, coexistentes em seus indivíduos e tendentes a produzir o mesmo resultado.

Este conjunto de sentimentos comuns, criado por lentas acumulações hereditárias, isto é, o caráter nacional, representa a herança de um passado que cada um dos nossos antecessores contribuiu para criar, e que nós igualmente ajudamos a aumentar para os nossos descendentes, herança que se varia muito de um para outro povo, varia pouco no mesmo.

Cada geração modifica indubitavelmente este elementos fundamentais do caráter nacional, porém de um modo tão lento que se necessita o concurso de muitos séculos para que a soma das ligeiras transformações produza uma alteração sensível. A educação, o meio e as circunstâncias parecem às vezes causar algumas modificações rápidas, mas são efêmeras.

Na realidade, os caracteres morais e intelectuais de uma raça são tão estáveis quanto os caracteres físicos das espécies. Hoje sabemos que estes acabam mudando ao fim de muito tempo, porém com tal lentidão que outrora os naturalistas os consideravam absolutamente invariáveis.

Procurei demonstrar em outra obra que não a inteligência mas a associação inconsciente dos sentimentos integrantes do caráter, constitui o móvel fundamental da conduta, e por isso é necessário começar por seu estudo para conseguir explicar o papel que os indivíduos ou os povos desempenharam na história. "O amor às revoluções e a facilidade de empreender guerras sem motivo, e deixar-se abater pelos reveses" que Cesar observou antigamente entre nossos antepassados, explicam muitos episódios da nossa história.

Seria fácil provar historicamente que as conseqüências do caráter variam segundo a circunstância, e que as qualidades e defeitos que em certa época engendraram a grandeza de um povo, podem acarretar em outra a sua decadência.

Fig. 362 — Árabe vendedor ambulante de pães, em Jerusalém.

Fig. 362 — Árabe vendedor ambulante de pães, em Jerusalém.

Os árabes oferecem-nos um exemplo disto. Porém, dentro da divergência dos efeitos, uma análise bastante penetrante facilmente descobre a identidade das causas. Dir-se-ia à primeira vista que há um abismo entre um grego do tempo de Péricles e um bizantino do Baixo Império, e no conceito social há verdadeiramente um abismo. Mas o fundo do caráter é idêntico, apenas tendo variado nas circunstâncias em que se desenvolveu. Manifestando-se noutro meio e noutra época, a finura e subtileza filosóficas e a formosa linguagem do grego converteram-se nas astutas perfídias, nas restrições teológicas e no pairar inútil do bizantino. O inquisidor da Idade Média com sua ardente fé e seus violentos instintos conservadores, o jacobino moderno com seu ateísmo feroz e os instintos revolucionários talvez pareçam muito diferentes, mas bastará um momento de reflexão para admitir que o segundo é parente muito próximo do primeiro, não havendo entre ambos outra diferença além da troca de nome da criação.

A estes elementos fundamentais do caráter nacional, tão imutáveis como as vértebras dos vertebrados, junta-se sempre uma multidão de elementos acessórios, tão variáveis como podem sê-lo a estatura, a conformação corporal e a côr dos vertebrados — elementos que com razão levam a dizer que o gosto e as idéias mudam de uma época para outra. Mas-nenhuma destas mudanças atinge os elementos fundamentais do caráter, que podem ser comparados a um rochedo incessante e inutilmente fustigado pelas ondas, ao passo que os elementos secundários se parecem com as camadas de areia, conchas e vegetais que essas mesmas ondas deixam ao pé do rochedo, e que pouco depois são arrastadas.

Do que ficou dito resulta que apenas o estudo dos elementos fundamentais do caráter nacional dará apoio à história para saber diferenciar os povos. Já descrevemos suficientemente os elementos fundamentais dos árabes, e seria inútil tornar a tratar disso. Deixando de lado o que se disse-de sua inteligência, entusiasmo e aptidões artísticas e literárias, sem as quais eles nunca se teriam erguido até à civilização, lembrarei apenas o concernente a seus inveterados costumes guerreiros, pois isto nos dá um exemplo notável do que acima dizíamos, ou seja que, segundo as circunstâncias, os mesmos costumes podem engendrar resultados opostos. Tão arraigados estavam aqueles nos árabes, que a Arábia- antes de Maomé não passava de um contínuo campo de batalha. Quando, sob a influência de uma crença comum, eles voltaram suas forças contra os estrangeiros, tais costumes foram uma das causas principais do seu triunfo. Mas quando já não tinham mais inimigos para combater, tiveram, em obediência ao seu temperamento batalhador, de voltar suas armas uns contra os outros, e assim os mesmos instintos que lhes haviam assegurado a grandeza, foram a causa da sua decadência.

Árabes nos arredores de Assuan (Alto Egito)

 

Pela mesma razão que o caráter pode às vezes produzir resultados tão diferentes, é evidente que este elemento, embora seja grande a sua importância, não basta para explicar sozinho a evolução de um povo; as circunstâncias e outros muitos fatores exercem também influência considerável.

À frente de todos os fatores que ainda devemos estudar, encontra-se aquele a que se deve a reunião num só povo de todas as tribos, antes tão divididas, dos árabes, a religião criada por Maomé, e que emprestou um ideal comum a povos que careciam dele — ideal capaz de inspirar um entusiasmo tão grande aos discípulos do Profeta que todos se dispuseram a sacrificar suas vidas por êle.

Já tivemos ocasião de repetir várias vezes que o culto de um ideal, de qualquer gênero que seja, é um dos mais poderosos fatores da evolução das sociedades humanas, pois seu poder é bastante grande para dar a um povo sentimentos comuns, esperanças comuns e uma fé tão viva que cada qual chega a oferecer sua vida para o ver triunfar. O ideal dos romanos consistia na grandeza de Roma, e o dos cristãos na esperança de alcançarem uma vida futura semeada de delícias. O homem moderno imaginou divindades novas, tão quiméricas para muitos quanto os antigos deuses, mas às quais com razão levanta estátuas, e cuja influência benéfica bastará talvez para sustentar mais algum tempo as antigas sociedades em decadência. A história é simplesmente a relação dos acontecimentos que o homem realizou perseguindo um ideal, pois sem a influência dele o homem viveria ainda na barbárie e não haveria ainda civilização. A decadência começa para um povo no dia em que êle deixa de possuir um ideal universalmente respeitado, e para cuja defesa todos os seus componentes não estejam dispostos a dar a vida.

O ideal criado por Maomé foi exclusivamente religioso, e o império fundado pelos árabes apresenta o fenômeno especial de ter sido o único grande império, constituído em nome de uma religião da qual fêz derivar todas as suas instituições políticas e sociais.

Este fator onipotente, o ideal, embora acrescentando-lhe os demais já enumerados, explica só por si a grandeza dos árabes? De modo nenhum; mas em todo o caso sempre avançamos alguma coisa sobre a explicação de há pouco. O velho mundo desmoronou; um povo cheio de qualidades guerreiras e compondo um só feixe pelas crenças comuns, vai iniciar sua conquista. Mas ainda precisa conquistá-lo, e depois terá de o conservar.

Já vimos como se verificaram as conquistas dos árabes, e de que modo, depois de sairem da Arábia e terem sido derrotados nos primeiros encontros pelos herdeiros do poder greco-romano, eles nem por um momento perderam a esperança e aprenderam na escola de seus vencedores. Assim, quando lograram igualá-los na arte militar, o êxito não podia ser duvidoso. Cada soldado do exército árabe estava disposto a dar a vida pela vitória da idéia sob cuja égide combatia, ao passo que no exército dos gregos estavam mortas desde muito as crenças e o entusiasmo que levam à abnegação.

Fig. 364 — Jovem árabe do Alto Egito, fotografia do autor.

Fig. 364 — Jovem árabe do Alto Egito, fotografia do autor.

 

Se os primeiros triunfos tivessem envaidecido os árabes, levando-os a cometer os excessos tão habituais entre os conquistadores, sobretudo os de tratar duramente os vencidos e impor-lhes à força a nova fé que desejavam estender pelo mundo, teriam excitado contra a sua todos os povos. Mas eles contornaram habilmente esse escolho perigosíssimo, que as cruzadas não souberam evitar mais tarde, quando por sua vez entraram na Síria; com um gênio político raríssimo entre os adeptos de um novo culto, os califas compreenderam que as instituições e as religiões não se impõem pela força, e vimos que onde quer que entravam, fosse na Síria, no Egito ou na Espanha, tratavam as populações com toda a deferência, deixando-lhes as leis, instituições e crenças, sem outra obrigação além da de pagar-lhes um ligeiro tributo, quase sempre inferior ao que estavam anteriormente sujeitos. Os povos nunca viram conquistadores mais tolerantes nem religião mais suave.

Essa tolerância e mansidão, que os historiadores não têm sabido reconhecer, foram uma das causas da rapidez com que se propagaram as conquistas dos árabes e a razão principal que tornou seu culto, instituições e língua, facilmente aceitos em toda a parte; e de tal modo eles se arraigaram nesses povos que acabaram resistindo a todas as invasões e à própria saída dos árabes do cenário do mundo. Este fenômeno é sobretudo surpreendente no que respeita ao Egito, onde os gregos, persas e romanos que o dominaram, não conseguiram nunca derrubar a antiga civilização faraônica para a substituir pela sua.

Além da tolerância dos árabes e da mansidão de seu domínio, outras causas contribuíram ainda para assegurar a vitória do Corão e das instituições que dele emanam. De fato, essas instituições eram demasiado simples para não estarem facilmente em correspondência com as necessidades igualmente simples das classes médias das populações invadidas; e quando por acaso não podiam adaptar-se exatamente, os árabes não vacilavam em alterá-las para as pôr em harmonia com essas populações. Assim foi que, apenas com um Corão, as instituições muçulmanas da índia, Pérsia, África berbere e Egito não apresentavam às vezes grandes diferenças.

Chegamos ao momento em que os árabes terminaram a conquista do mundo, porém a nossa tarefa não acaba neste ponto, dado que o período das conquistas não passa de uma fase da história dos discípulos do Profeta. Estes fundaram então uma nova civilização que os fatores antes citados não bastam para explicar-nos, sendo necessário que tenham in-tervido outros elementos.

Duas causas dominantes deram origem a esta civilização: o novo meio em que se encontraram os árabes e suas aptidões mentais.

Esse meio já o descrevemos. Mal saem de seus desertos, entraram em contacto com as obras, para eles maravilhosas, da civilização greco-latina, e compreendendo sua superioridade intelectual, como tinham compreendido a militar, logo procuraram igualá-la.

Porém não se assimila uma civilização avançada sem possuir um entendimento cultivado, conforme demonstram os vãos esforços que durante séculos fizeram os bárbaros para se apropriarem dos restos da civilização latina. Felizmente os árabes não eram bárbaros, e embora ignoremos sua civilização na época, muito anterior a Maomé, em que comerciaram com o resto do mundo, já provamos que ao surgir o Profeta eles desfrutavam de uma cultura literária. É certo que embora um letrado ignore muitas coisas, suas aptidões intelectuais lhe permitem apreendê-las facilmente, e os árabes estudaram esse mundo tão novo para eles com o mesmo ardor com que o haviam conquistado.

Além disso, no estudo dessa civilização para a qual se viam tão bruscamente transportados, os árabes não se sentiam constrangidos por nenhuma das influências tradicionais que fazia tempo desconcertavam os bizantinos, e assim essa liberdade de inteligência foi uma das causas do rápido êxito com que aprenderam. Sucede freqüentemente na vida dos povos que a influência do passado, depois de representar um papel útil, sujeita os homens ao jugo de tradições envelhecidas, impedindo o menor progresso.

A natural independência de espírito dos árabes, sua imaginação e originalidade, logo se manifestaram cem novas criações, e já demonstramos que pouco tempo lhes bastou para imprimir à arquitetura e às artes, enquanto não chegava o dia de imprimi-lo às ciências, o cunho tão pessoal que à simples vista distingue suas obras. A filosofia especulativa dos gregos não estava em harmonia com seu talento, e portanto pouco se ocuparam dela; mas em troca as artes, as ciências e a literatura foram seu estudo favorito, e os progressos que fizeram nesses ramos já os demos bastante a conhecer.

Tais foram as causas essenciais da grandeza dos árabes; vamos agora procurar as de sua decadência.

II

CAUSAS DA DECADÊNCIA DOS ÁRABES

Muitos dos fatores que acabamos de indicar para explicar as causas da grandeza dos árabes, podem servir-nos também para explicar as de sua decadência. Basta introduzir esse elemento importante a que temos chamado o momento, para ver como as qualidades mais úteis produzem os resultados mais funestos. Ocorre na vida dos povos o mesmo que nas dos indivíduos. As aptidões de caráter ou de inteligência que num dado momento são causa de um triunfo seguro, são noutro dado momento as de um fracasso não menos certo.

Já demonstrei antes como aqueles instintos altercadores e batalhadores dos árabes, que tão úteis lhes foram na época de suas conquistas, se tornaram nocivos quando essas conquistas terminaram por falta de inimigos. Seus hábitos seculares de desunião recuperaram o antigo incremento, dando início ao fraccionamento de um império que terminaram por levar à ruina. Foram as suas dissenções internas que sobretudo os fizeram perder a Sicília e a Espanha, pois unicamente suas perpétuas rivalidades permitiram aos cristãos expulsá-los daqueles países.

As instituições políticas e sociais dos árabes que indicamos como uma das causas de seu rápido progresso, podem por outro lado aduzir-se como fatores de sua decadência. Os árabes só souberam conquistar o mundo no dia em que, graças à nova religião pregada por Maomé se sujeitaram ao jugo de uma lei fixa, único capaz de reunir as forças da Arábia antes espalhadas.

Mas este jugo de uma lei rígida foi excelente enquanto as instituições do Profeta puderam continuar adaptadas às necessidades de seu povo. Quando, porém, os progressos da civilização exigiam que elas se modificassem, o jugo da tradição já se tornara pesado demais para se desprender dele, e as instituições do Corão, que eram a expressão das necessidades árabes no tempo de Maomé, deixaram de o ser alguns séculos depois; e como este livro era um código, ao mesmo tempo religioso, civil e político, e sua origem divina o tornava imutável, não se podia modificar-lhe as partes fundamentais.

Fig. 365 — Mercador tunisiano.

Fig. 365 — Mercador tunisiano.

 

As conseqüências deste desacordo evidenciaram-se sobretudo quando o poder dos árabes começou a enfraquecer, e surgiram reações religiosas que, a pretexto de regenerar o islamismo, pretenderam devolvê-lo estritamente à letra do Corão, quando nas épccas brilhantes dos califados de Córdova e Bagdad, os muçulmanos sabiam muito bem impor aos mandamentos desse livro as modificações requeridas pelos costumes dos povos que o adotavam.

Em parte alguma se fêz sentir mais fundamente que nas instituições políticas dos árabes, o inconveniente de não se poder modificá-las bastante. Essas instituições, que colocavam à frente de um império um soberano revestido de todos os poderes militares, civis e religiosos, eram evidentemente as únicas que permitiam edificar com eficácia um grande império, embora fossem ao mesmo tempo as que menos permitiam consolidá-lo. As grandes monarquias absolutas, nas quais todos os poderes derivam de uma só mão, só conseguem prosperar tendo à frente homens de prodigiosa capacidade — e no dia em que estes faltam, tudo desmorona.

Um dos primeiros resultados do mau sistema política dos árabes foi o desmembramento de seu império. Os governadores das províncias, delegados dos califas, vendo-se revestidos com eles de todos os poderes civis, religiosos e militares, logo quiseram governar por sua própria conta, e como nenhum outro poder contrabalançava o deles, era-lhes fácil alcançá-lo. O êxito de alguns animou os outros, e assim as províncias mais importantes do império não tardaram a constituir reinos particulares e separados.

Este fraccionamento teve conseqüências prejudiciais e úteis; prejudiciais, porque o desmembramento debilitava o poder militar dos árabes, e úteis porque facilitava o progresso da civilização. Nunca o Egito e a Espanha alcançariam a prosperidade que sabemos, se não se houvessem separado do império. Se continuassem administrados por governadores sempre substituíveis, não interessados em vê-los prosperar mas apenas em enriquecer-se, tornar-se-iam o que foram mais tarde sob o mando dos governadores enviados por Constantinopla. A prosperidale de algumas dessas pequenas monarquias independentes foi enorme, mas todas acabaram tendo a sorte dos antigos impérios em que o poder militar, em vez de apoiar-se como hoje na posse de um material de guerra importante, apenas se apoiava no número de soldados e no valor destes, motivo pelo qual bastava uma invasão qualquer para as derrubar. A civilização ameniza os costumes e cultiva o espírito, mas como não desenvolve o militarismo prepara a queda dos impérios. Os povos em que cada cidadão possui certo bem-estar, são logo ameaçados por aqueles cuja maioria se encontra na indigência e procuram melhorar de sorte. Assim pereceram quase todas as grandes nações antigas, e assim como foi esse o destino dos romanos, foi também o destino dos árabes. Os diferentes conquistadores que os derrubaram, como por exemplo os mongóis, os turcos, etc, ter–se-iam estatelado se em vez de os atacarem quando eles estavam em plena civilização, os houvessem atacado quando acabavam de fundar o império e constituíam ainda um povo endurecido no trabalho, acostumado a todas as privações e ao qual nada havia debilitado.

Entre as causas da decadência dos árabes cumpre ainda acrescentar a diversidade de raças submetidas ao seu domínio. A. influência deste fator manifestou-se por dois meios diferentes e igualmente funestos, pois a diversidade de raças concorrentes resultou, por um lado, no contacto e rivalidade de umas com as outras, e por outro em numerosos cruzamentos que não tardaram a alterar o sangue dos vencedores.

Essa mistura de povos diferentes num mesmo império sempre foi a causa de rápida dissolução, e a história prova não ser possível conservar raças diversas sob o mesmo cetro, a não ser mediante duas condições essenciais que são: que o poder do vencedor seja tão grande que cada povo se convença da inutilidade de qualquer resistência, ou que o vencedor não se cruze com o vencido para que este o não absorva. Os árabes jamais cumpriram esta última lei, como tampouco a não cumpriram sempre os romanos, caindo em decadência no dia em que deixaram de segui-la. Entre as diversas causas da dissolução do velho mundo romano, avulta a facilidade com que os antigos senhores do mundo terminaram por conceder aos bárbaros todos os direitos do cidadão romano. Roma viu-se então povoada de diferentes -raças em que já não dominavam os romanos, e onde logo se extinguiram os sentimentos que haviam originado sua grandeza; e assim como antes um cidadão da antiga metrópole não vacilaria em sacrificar-lhe a vida, porque a grandeza de Roma era o ideal supremo para êle, agora semelhante ideal nada significava para um bárbaro.

Obrigar a viver sob a mesma lei povos de diferentes raças, dotados quase sempre de interesses e sentimentos opostos, é uma empresa de grandes dificuldades que só se leva a cabo por meio de compreensão rigorosa, como prova o que hoje sucede com os irlandeses e os hindus.

Os árabes não tiveram de exercitar essa compreensão nas raças diferentes que submeteram, porque elas aceitaram facilmente a religião e as instituições deles, que tratavam com a mais perfeita igualdade todos os que abraçavam o islamismo. Assim o mandava o Corão, cuja lei os vencedores não pediam deixar de cumprir. No começo, vencedores e vencidos formaram apenas um povo, com os mesmos sentimentos, crenças e costumes, de modo que enquanto por toda a parte o poder dos árabes foi bastante grande para impor respeito a cada qual, reinou boa harmonia em todas as regiões do império.

Mas se as rivalidales de todas essas raças estavam adormecidas, não se tinham extinguido, e quando as inveteradas dissenções dos árabes reapareceram, essas rivalidades despertaram também. Todos os países convertidos ao Islam se cobriram de partidos que estavam em pugna incessante, chegando a tal extremo que no próprio momento dos cristãos sitiarem Granada esses partidos continuavam a despedaçar–se.

A existência de raças diferentes em todos os territórios submetidos ao Islam, teve também o outro resultado cujo perigo assinalamos antes, a necessidade de se misturarem os árabes com todos os povos entre os quais viviam. Esta circunstância, se com raças que talvez lhes não fossem muito inferiores, como por exemplo os cristãos espanhóis, podia valer-lhes a aquisição de alguma nova aptidão, por outro lado com raças inferiores, como certos povos asiáticos e os berberes, não deixava de rebaixá-los. Em ambos os casos tais cruzamentos acabariam fatalmente por destruir os caracteres cuja associação constituía sua raça, e o fato é que quando o seu poder político desapareceu em conseqüência da perda do Egito e da Espanha, os países por eles submetidos continham muito poucos árabes.

A simples mistura de raças que acabamos de assinalar bastaria para produzir a falta de invasões e outras diversas causas que motivaram a decadência dos árabes. Assim o prova Marrocos, cujo império, embora lograsse subtrair-se às invasões estrangeiras, e em outros tempos gozasse de uma prosperidade tão grande que chegou a rivalizar com a da Espanha maometana, recaiu hoje numa semi barbárie. O predomínio dos berberes, e sobretudo os repetidos cruzamentos com o elemento negro, rebaixaram consideravelmente o nível da civilização. Tem-se pretendido que o futuro pertence aos mestiços, mas se a profecia tem de cumprir-se não o desejo aos povos que querem conservar no mundo sua posição de gente civilizada.

III

LUGAR DOS ÁRABES NA HISTÓRIA

O que até agora dissemos demonstra terem os árabes possuído grandes qualidades, não menores defeitos e aptidões intelectuais muito relevantes; e embora eles fossem muito inferiores aos romanos em instituições políticas e sociais, fo-ram-lhes superiores na extensão dos conhecimentos científicos e artísticos. Podemos assim dizer em tese geral que ocuparam na história um lugar muito alto, e cumpre-nos tentar discernir qual foi êle.

Para um julgamento fiel, seria necessário dispor de uma escala que nos permitisse medir com exatidão o mérito de um indivíduo e de um povo, e como nos falta essa escala, resulta que as nossas opiniões se baseiam muito mais em sentimentos do que na razão, e a variedade destes basta para evidenciar sua incerteza.

Mesmo no caso de possuirmos esse modelo psicológico do mérito dos homens, seria necessário renová-lo continuamente, pois a medida do grau de superioridade válida em certa época, deixa de o ser em outra. Com efeito, o mais alto grau de superioridade que poderia desejar r.m grego era ser o primeiro nos jogos olímpicos, isto é, o primeiro na luta, na corrida, no pugilato e em outros exercícios análogos, sendo tão grande a honra atribuída a essa superioridade que quem a possuía via seu nome gravado em mármores, e tinha o direito de entrar em sua terra por uma brecha expressamente aberta para êle nas muralhas. Tais honras eram indubitavelmente justificadas numa época em que a força e a destreza corporais desempenhavam um papel importante, mas em nossos dias semelhante superioridade apenas se aprecia nas feiras dos povoados, e apenas dá a seus possuidores o pão cotidiano.

Saltando a corrente dos séculos, vemos que a escala da superioridade muda sem descontinuar, e que se na Idade Média prosseguia residindo na força corpórea e na intrepidez, mediu-se em outras épocas pelos conhecimentos científicos, artísticos e literários, e em outras ainda pela aptidão para dissertar com eloqüência sobre diversos assuntes. Atualmente tende a medir-se pela quantidade de dinheiro que alguém possui, e os reis do século em qüe vamos entrar serão aqueles que melhor souberem apoderar-se das riquezas. Os judeus possuem essa aptidão a um extremo que ninguém ainda igualou, e no movimento geral que por toda a parte se inicia contra semelhante gente há sintomas precursores de terríveis lutas, que será necessário sustentar contra eles para nos subtrairmos a seu ameaçador poderio.

Quando examinamos as condições que determinam o êxito dos indivíduos ou dos povos, no mundo, causa verdadeira surpresa ver quão pouca eficácia teve nele a inteligência, e quanto maior foi a da vontade, da tenacidade e de outras qualidades de caráter. Entre dois indivíduos, ou dois povos, um de inteligência comum, porém com bastante coragem, vontade e paciência, e com o espírito disposto a sacrificar a vida pelo triunfo de um ideal qualquer, e outro indivíduo ou povo de inteligência superior, mas sem as aptidões que acabo de mencionar, o vaticínio não é difícil: indubitavelmente o menos inteligente sairá vencedor. Considerando a inteligência como único elemento de êxito, poder-se-ia dizer que. sempre que ela excede certo nível médio torna-se mais prejudicial que favorável. E se esta proposição se afigura paradoxal, reconhecer-se-á o contrário imaginando uma luta entre dois povos: um com todas as qualidades de caráter de que falei, outro composto de uma aglomeração de filósofos e grandes pensadores, que nada esperam de um mundo melhor, conhecem a inanidade de todo o ideal, e portanto se acham pouquíssimo dispostos a sacrificar suas vidas para fazer triunfar algum. A frivolidade das concepções metafísicas de Maomé faria sorrir estes últimos, e contudo o mundo jamais conheceu filósofos cujas doutrinas contivessem um átomo do formidável poder das ilusões que os fundadores de religiões souberam criar. Seja o crente romano ou árabe, tenha por culto Alá ou a grandeza de Roma, a energia de suas crenças e a facilidade com que lhe dedicam a vida o farão triunfar sem grande custo. Sempre assim foi, e nada indica que o sistema venha a alterar-se. Quando os romanos eram senhores do mundo nunca tiveram nas artes nem nas ciências a superioridade intelectual dos gregos, que em todo o respeitante ao talento eram seus mestres; isto porém não impediu que Roma fosse a senhora de Atenas.

Fig. 366 — Tamborete de madeira incrustada de nácar, de Damasco.

Fig. 366 — Tamborete de madeira incrustada de nácar, de Damasco.

 

Se portanto nos colocássemos apenas do ponto de vista do êxito, diríamos que nas qualidades de caráter antes enumeradas deve ser procurada a superioridade, mas também essa escala nos enganaria pois só tem importância para medir o êxito imediato, fora do que não serve para nada.

Bastará que nos coloquemos no ponto de vista do interesse geral da civilização, ou seja da humanidade, para descobrir que não é nas já citadas qualidades de caráter, mas apenas no nível intelectual que se deve procurar a superioridade. É claro que Leibnitz ou Newton nunca teriam triunfado nos jogos olímpicos, nem teriam resistido por um momento a qualquer soldado romano; mas essas circunstâncias não impedem que esses semideuses do pensamento tenham produzido mais transformações no mundo, com as conseqüências imediatas ou futuras de suas descobertas, que todas as hordas asiáticas fundadoras de grandes impérios. Quando o futuro julgar o passado com a isenção de ânimo que nós ainda não podemos ter, dirá sem dúvida que invenções como a imprensa, a máquina a vapor, os caminhos de ferro, o telégrafo elétrico e muitas outras, acarretaram na maneira de viver dos homens transformações tão importantes que, comparadas com elas, as produzidas pelas revoluções mais famosas pouco são.

Se pois, por nossa parte deixamos de lado esses triunfos materiais que constituem para as massas, freqüentemente seguidas demais pelos historiadores, o único critério real do mérito dos indivíduos e dos povos, devemos manifestar em voz bem alta que o fizemos na convicção de que só o número de homens superiores que uma nação possuiu dá a medida exata de seu mérito intelectual, e por conseguinte do nível que ela tem na escala da civilização; e que a superioridade intelectual poderá aumentar o triunfo, se ao mesmo tempo que um limitado número de homens superiores ela possuir uma massa suficiente de indivíduos que, embora de inteligência e instrução comuns, desfrutem em alto grau das qualidades de caráter já manifestadas.

Com estas explicações preliminares podemos desde logo dizer com suficiente exatidão que lugar ocupam os árabes na história. Tiveram homens superiores, como o provam suas descobertas, porém grandes homens como os que citei há pouco não creio que tenham produzido nenhum; foram inferiores aos gregos em muitas coisas, igualaram sem dúvida os romanos em inteligência, mas faltaram-lhes as qualidades de caráter que tornaram tão duradouro o império destes, ou pelo menos só as possuíram por tempo escasso.

Se em vez de comparar os árabes aos povos que desapareceram do cenário do mundo, nos arriscássemos a pô-los em paralelo com as nações européias, poder-se-ia dizer que no conceito intelectual e moral eles foram superiores a todas as que existiam antes da Renascença, desde que as universidades não tiveram durante a Idade Média outro alimento além de suas obras e doutrinas, e que suas qualidades morais estavam muito acima das de nossos antepassados.

Pela Renascença os árabes desapareceram da história, sendo-nos impossível dizer o que teriam chegado a ser no caso contrário. Todavia, não nos abalançamos a crer que chegassem a exceder o nível já alcançado, pois a inferioridade de suas instituições opunha-lhes demasiados obstáculos.

Não é evidentemente possível comparar épocas tão diferentes como aquela em que desapareceram os árabes e os tempos modernos. Porém, se nos fosse exigida essa comparação, diríamos que entre os árabes os homens superiores estiveram muito abaixo dos homens superiores da idade atual, embora as classes médias de sua raça tenham sido pelo menos iguais, e por vezes superiores às das populações civilizadas dos nossos dias.

O que dizemos das classes médias árabes, não vacilaríamos em aplicá-lo à maioria dos orientais do presente., quer se trate dos árabes, dos chineses ou dos hindus, pois as classes médias destes de nenhum modo são inferiores às da Europa. Com efeito, possuem agricultores e operários pelo menos tão hábeis como os nossos, e a esmagadora concorrência feita na Austrália e na América pelos chineses aos operários angio-saxões, concorrência tão prejudicial que foi necessário expulsá-los, prova-o suficientemente. Os orientais igualam-nos em habilidade, tanto mais quanto o sistema das especialidades lhes não embruteceu a inteligência; além disso superam-nos na sobriedade, na simplicidade de suas exigências e em sua vida patriarcal. Apenas uma coisa lhes falta para igualarem os europeus, apesar de se tratar de uma coisa fundamental: um punhado de homens superiores e alguns grandes homens.

Felicitemo-nos, contudo, por eles os não possuírem, porque então as qualidades da massa daquelas populações lhes permitiriam facilmente suplantar-nos, colocando-se por sua vez à cabeça da civilização. Se algum dia chegasse a realizar-se o sonho dos nossos socialistas modernos, baseado numa sociedade de inteligências medianas, com a gradual exclusão de toda a inteligência superior, o império do mundo não tardaria a pertencer às populações do extremo Oriente.

IV

ESTADO ATUAL DO ISLAMISMO

Os séculos cairam no pó dos árabes, e sua civilização desde há muito tempo pertence à história. Contudo, não podemos dizer que tenham morrido de todo, uma vez que a religião e a língua por eles introduzidas no mundo estão ainda mais disseminadas que nas brilhantes épocas de seu esplendor. O idioma árabe é universal desde Marrocos até à índia, e os progressos do islamismo não diminuem.

Os geógrafos fazem ascender a 110 milhões o número de maometanos existentes no mundo, mas esta cifra deve ser inferior à realidade por datar de uma época em que não eram suspeitados os seus progressos na China e na África central. Fora da Arábia o Corão é professado atualmente no Egito, Síria, Turquia, Ásia Menor, Pérsia, e em partes importantes da Rússia, África, China e índia; alcançou já Madagascar, penetrou na África Austral, é conhecido nas ilhas da Malásia, observam-no muitos habitantes de Java e Sumatra, avança para a Nova Guiné, e com os negros da África penetrou na América.

A assombrosa facilidade que tem de propagar-se pelo mundo é um fenômeno característico. Onde quer que um muçulmano ponha o pé, aí fica sem dúvida a sua religião. Países que os árabes nunca visitaram como conquistadores, visto que só os percorriam seus comerciantes, como por exemplo certas partes da China, da África Central e da Rússia, contam hoje por milhões os secretários do Profeta. Todas essas conversões se fizeram livremente, sem violência, nunca se tendo ouvido dizer que fosse necessário enviar exércitos socorrer esses simples traficantes árabes, que desempenhavam as funções de missionários. Onde quer que seu culto se estabeleceu, tem crescido continuamente. Implantou-se na Rússia há muitos séculos, e ninguém pôde jamais desarraigá-lo. Há atualmente (mais de 50 milhões) * de muçulmanos na índia, e nem todos os esforços dos missionários protestantes, aliados aos favores do governo inglês, lograram converter gente. Ignora-se quantos há na África, mas por longe que se tenham internado os exploradores, sempre encontraram tribos maometanas. O Corão civiliza atualmente as populações da África até onde isso é possível, e em todas elas exerce a mesma ação benéfica.

(*) 450 milhões nos nossos dias (N. do T.).

"Graças a isto — diz com justiça Duval, — os fetiches e ídolos desaparecem da terra, os sacrifícios e a antropofagia vão sendo abolidos, reconhecem-se os direitos da mulher embora em grau muito inferior ainda ao direito absoluto; a poligamia regulariza-se e restringe-se, os laços da família estabelecem-se e consolidam-se, o escravo vai-se tornando indivíduo da família e abrem-se-lhe caminhos tão fáceis quão numerosos para alcançar a liberdade; a oração, a esmola e a hospitalidade purificam e elevam os costumes públicos, o sentimento da caridade e da eqüidade entra nas consciências, os chefes dos povos aprendem a saber que têm deveres como seus próprios súditos; a sociedade assenta em bases regularizadas, e embora a multidão de abusos ali subsista como em outras partes, a justiça divina reserva-lhes seus rigores, ao passo que a esperança de uma vida futura, ditosa e reparadora, sustenta as vítimas da sorte ou da iniquidade. Tais são alguns dos benefícios que por toda a parte assinalam o advento do islamismo nas sociedades não civilizadas".

Mas é sobretudo na China que esta religião faz grandes progressos, e enquanto os missionários europeus se vêem obrigados a confessar sua própria impotência, o islamismo consegue os mais brilhantes resultados. Já vimos que existem agora na China (20)* milhões de sectários do Profeta, dos quais 100.000 só na cidade de Pequim. "Tendo entrado no Celeste Império pelo mesmo caminho do budismo — escreve o professor Vasilieff — o maometismo não tardará a substituir a doutrina de Çakya-Muni e a pôr-se em seu lugar. Os muçulmanos chineses não duvidam disso. Este ponto é da mais alta importância, porque se o acontecimento chegasse um dia a realizarse, se a China, que compõe pelo menos um terço da raça humana, se convertesse ao maometismo, todas as relações políticas do antigo mundo ficariam consideravelmente modificadas, e a religião de Maomé, estendida desde Marrocos até ao Pacífico, poderia ameaçar de novo o cristianismo".

Terminado o nosso livro, vamos resumi-lo em algumas palavras. No conceito da civilização bem poucos povos sobrepujaram os árabes, e a poucos se citaria que em tão breve tempo houvessem realizado tantos e tão grandes progressos; no conceito religioso, fundaram uma das mais poderosas religiões que ainda reinaram no mundo, uma daquelas cuja influência é hoje em dia mais eficaz; no conceito político criaram um dos mais gigantescos impérios que a história conheceu, e no conceito material e moral civilizaram a Europa. Poucas raças se ergueram tanto, mas também poucas caíram a maior profundidade e nenhuma é exemplo mais surpreendente da influência dos fatores que dirigem o nascimento, a grandeza e a decadência dos impérios.

Mapa dos impérios árabes
Mapa dos impérios árabes - clique para ampliar

 

Tradução de Augusto Souza. Fonte: Paraná Cultural ltda

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