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D. MARIANA CARLOTA – Paulo Setúbal




D. MARIANA CARLOTA
Paulo Setúbal

Fonte: Companhia Editora Nacional, Ensaios Históricos

 

D. Mariana Carlota foi a primeira dama da meninice de D. Pedro II. A existência dessa proeminente senhora tem incidentes bastante curiosos. E como, na , são raros extremamente raros, os nomes de mulher que vêm à tona, vale sempre relembrar umas páginas da vida palaciana de tão simpática personalidade do primeiro reinado. Comecemos por evocar o caso tão falado, de D. Mariana e D. Pedro I.

* * *

D. Mariana Carlota Verna de Magalhães era a mulher daquele Verna de Magalhães, Conde de Belmonte, que viera tle Portugal com a fuga de D. João VI. Tiveram ambos, na corte do rei bonacheirão, destaque brilhante. Verna de Magalhães pertencia àquela velha escola de cortesãos rigidamente protocolares. Não é de admirar, portanto, ter sido a etiqueta que o matasse. Como?

Rezava-se, certa vez, grande missa em ação de graças pelo restabelecimento de D. Pedro, já então imperador. Verna de Magalhães ardia em febre. Mas o cortesão, ao saber da missa, não vacilou: ergueu-se, meteu a casaca de rico verde, espremeu o pescoço num colarinho de palmo, tocou-se para a igreja a fim de assistir à missa. Estavam no momento mais grave. O padre erguia o cálice. Todos ajoelhados. Eis que, de repente, estronda áspero baque. O povo alvoro-ça-se. Que foi? Isto: Verna de Magalhães desabara no chão. E desabara por quê? Fulminado por súbita apoplexia cerebral.

Está visto que D. Pedro, desde esse desastre, tomou sob a sua alta proteção a viúva do cortesão perfeito.

A senhora Verna de Magalhães, condessa de Belmonte, passou a ter na corte de D. Pedro I o mesmo relevo fúlgido que tivera na corte de D. João VI.

* * *

Acontecia que a condessa era linda. Lindíssima! Todos os contemporâneos falam da boniteza dela. Foi tida, sem discrepância, como a mulher mais fascinante da corte.

D. Pedro cobiçou-a. E para D. Pedro, quando cobiçava uma mulher, não havia estorvos. A história com ele era sumária: ver e realizar. Com D. Mariana, porém, fracassaram os atrevimentos do Imperador.

A Condessa de Belmonte teve, para com aquele estúrdio, filho de D. João VI, uma atitude singularmente ríspida. D. Mariana recusou, com acinte, os galanteios do Imperador.

Qual o resultado dessa recusa? D. Mariana caiu em desvalia. Retirou-se do paço. Foi habitar a sua chácara, arredada. Vivia lá sem amigos, ferida de morte pela desgraça imperial. Todos a evitavam. Ninguém mais no Rio ouviu falar dela. A mulher mais bela do primeiro império morreu para as galas e para a vida. A Condessa, no entanto, suportou com alegria o desfavor. Tinha mesmo orgulho na sua solidão.

Mas o mundo dá volta. Certo dia, sacudindo a corte, eis que reboa esta notícia aterradora: morreu a Imperatriz.

Deixava D. Leopoldina vários filhos. E sobretudo, deixava uma criancinha de apenas um ano. Era o príncipe herdeiro. Era o futuro D. Pedro II.

O viúvo, na sua desolação, correu os olhos pelas senhoras da corte. Tinha necessidade de colocar no paço alguém que servisse de mãe àquele pequerrucho. Ouem haveria de ser? D. Pedro não titubeou. Havia, capaz para tanto, uma pessoa só: a condessa de Belmonte. O imperador, em pessoa, foi buscá-la no seu exílio. Instalou-a em S. Cristóvão. Cobriu-a de honras. D. Mariana tornou-se, de novo, o alvo de todos os olhares. Foi uma senhora de destaque marcado na vida íntima de S. Cristóvão.

* * *

A 7 de abril de 1831, como toda a gente sabe, desencadeiam-se na corte os maiores acontecimentos políticos do primeiro reinado. D. Pedro I abdica. Abdica e parte. Antes de partir, contudo, nomeia, por um decreto, como tutor de seus filhos, e, particularmente, tutor do pequeno D. Pedro II, aquele cidadão "probo e honrado", a quem o monarca deposto, naquele momento cruel da sua vida, pedia que fosse o amigo certo da hora incerta: amicus certus in re incerta cernitur, dizia. Este amigo era José Bonifácio. D. Pedro, confiando a tutoria do filho ao Andrada, ia tranquilo. Ia também tranquilo em deixar o herdeiro do trono entregue às mãos de D. Mariana: "S. M. o senhor D. Pedro I certo de que a Exma. Sra. D. Mariana seria uma verdadeira mãe para a criança Imperador, S. M. D. Pedro II".

O patriarca no entanto só assumiu o seu honro-íssimo posto de tutor depois de aborrecimentos mortificantes. A assembleia pôs-se a discutir, com severidade, sobre a validade ou não validade de tal decreto. No começo dos debates, a comissão, incumbida de estudar o assunto, foi de parecer que o decreto era nulo na parte em que respeitava ao Imperador menor, visto que ia de encontro ao art. 130 da Constituição do Império; mas julgava, contudo, que dito decreto era válido no que dizia respeito às augustas princesas. A discussão, no plenário, foi longa e azeda. Terminou-se, afinal, por declarar o decreto nulo em ambas as partes: quanto à primeira, "porque esbulhava a assembleia de uma das suas atribuições básicas, expressamente declaradas na Constituição"; quanto à segunda, "por não ser de acordo com o direito comum que um pai nomeie tutor a seus filhos a não ser por testamento; e um lestamento não se reputa valioso enquanto vive a pessoa do testador".

José Bonifácio lançou um formidável e caloroso "Protesto à Nação e ao Mundo inteiro". Mas a assembléia continuou inabalável; anulou o decreto e elegeu a regência que devia dirigir os destinos do país. Foi a regência de Lima e Silva, Costa Carvalho e Bráulio Muniz. Esta regência, acomodando aquele efervescente estado de coisas, ratificou a vontade de D. Pedro: nomeou, definitivamente, a José Bonifácio para tutor de D. Pedro II e das princesas.

* * *

"O snr. Tutor effectivo, (lá diz a crónica) mal se havia accomodado na Quinta da Boa Vista, quando, pelo seu modo de proceder, deixou a todos, e mormente ás Damas, muito surprehendidas. É que o Snr. Conselheiro José Bonifácio tratava as pessoas do Paço com um autoritarismo, que desgostava muito. E desgostava principalmente a quem alli governava desde o falleci-mento de D.a Leopoldina". (Isto é: D. Mariana).

Este traço de "autoritarismo" foi sempre o traço antipático do caráter do patriarca. Foi ele sempre extremamente rude nas maneiras, Muito chocante. Pequenas coisas revelam o ânimo e a descortesia com que o velho político pôs-se a tratar as damas dos adolescentes imperiais. Isto, por exemplo: havia no Paço um quarto, com armários, onde se guardavam brinquedos para os pequenos príncipes. Estes brinquedos, distribuíam–nos as damas aos meninos com equilíbrio e ordem. Que faz o tutor? "Mandou chamar os seus augustos pupilos, e, depois de os haver reunido, franqueou-lhes todos os brinquedos, dizendo: acabou-se o monopólio; podeis brincar com tudo, pois tudo vos pertence!"

O incidente é pequenino, não há dúvida. Mas é um incidente, como se vê, que desrespeitava e feria a autoridade das senhoras. Era, para com elas, menoscabo e desprestígio. Outros choques, e vários, seguiram-se a este. Os descontentamentos avolumaram-se. "As damas do Paço dividiram-se então em dois grupos, conta-nos Raffard; um favorável ao tutor, que era o chefiado pela condessa de Itapagipe e por D. Joaquina Adelaide de Verna e Bilstein; e outro contrário ao tutor, que era o de D. Mariana, sua sobrinha D. Maria José, e de D. Joana Pinto".

Ferveram intrigas. As mulheres, nesse momento, politicaram a valer. D. Mariana, que era grande amiga de Aureliano Coutinho, urdia, com o prestígio deste grande político, tudo o que era possível para afastar o patriarca da tutoria. José Bonifácio e D. Mariana, está visto, incompatibilizaram-se logo. Incompatibilizaram-se radicalmente, D. Mariana viu-se forçada a se retirar do Palácio. Conta o cronista: "Desgostosas, as senhoras D. Mariana e D. Maria Antónia se fizeram exonerar e se retiraram do Paço. Isto foi em 1833. D. Mariana Carlota Verna de Magalhães continuou, porém, a conservar os seus aposentos e a respectiva sege. Mas nó a utilizava de quando em vez, só para ir visitar o Imperador quando este adoecia. Depreende-se das cartas escritas por D. Pedro II e pela princesa D. Fran-cisca que ambos muito sentiram a retirada das duas senhoras — as queridas Dadama e Totônia, como gentilmente as chamavam. Se tivessem os príncipes tido mais idade certamente teriam sabido manifestar o seu descontentamento e as damas não se teriam exonerado".

A Condessa de Itapagipe tornou-se, com a saída de 1). Mariana, "Dama de S. Majestade". Todas as outras, que pertenciam ao partido da condessa, também subiram. D- Mariana, e as que se retiraram, lá foram engrossar as hostes vermelhas e coléricas, dos que combatiam José Bonifácio.

Por esse tempo, o patriarca metera-se, com os irmãos e sequazes, à frente do Partido Caramuru, isto é, "O partido da restauração".

Era um partido que propugnava, como medida suprema, como salvação da Pátria, a volta de D. Pedro I ao Brasil. José Bonifácio botou-se, com violência, à realização de tal plano. Aliciou amigos. Coordenou forças. Mancomunou-se com o coronel Bulow. Mandou distribuir cartuchos aos seus fiéis. Preparou todo um levante. Chegou, na sua paixão, a enviar Martim Francisco à Europa a fim de buscar o Imperador. Mas a Regência não tolerou, de braços cruzados, tamanha urdidura. Os adversários do velho Andrada não dormiam. E os regentes, influenciados por eles, tomaram, com espanto do País, esta medida radical: "No dia 15 de Novembro o Paço Imperial da Boa Vista foi então cercado por ordem do Governo; o tutor José Bonifácio, destituído immediatamente da tutoria, foi levado preso para a Ilha do Paquetá e processado. Para substitui-lo, nomeou a Regência o Marquez de Itanhaen".

Bem se pode imaginar a alegria borbulhante das Damas adversárias ao patriarca! Que vitória a delas!

Dão bem ideia de quanto D. Mariana ansiava por este desfecho, do quanto andava ela empenhada contra José Bonifácio, estas duas cartas que lhes foram enviadas, a toda a pressa no momento mesmo em que se desenrolavam esses acontecimentos. Uma é de Paulo Barbosa da Silva, oficial da Secretaria, que diz assim:

"Exma. Snra.

"Está o tutor preso e está em seu lugar o Marquez de Itanhaem. Os Snrs. do Governo estão a espera de S. Magestade Imperial agora mesmo; elles pretendem que o tutor chame V. Ex. para o Paço; entretanto queira V. Ex., de ordem dos Snrs. do Governo, vir para o Paço da cidade hoje mesmo o mais breve possivel, onde receberá a ordem do tutor.

Digne-se receber meus parabéns. Seu obrigadissi-mo e affectuosissimo criado. Paulo Barbosa da Silva".

A outra carta foi a do próprio Aureliano Coutinho. Ei-la:

"Parabéns, minha Snra.. Custou, mas demos com o colosso em terra. A conspiração estava disposta para arrebentar qualquer destes dias, e chegaram a distribuir antes de hontem 18 mil cartuchos, e algum armamento. Tudo foi descoberto e providenciado a tempo. O ex-tutor resistiu ás ordens e ao Decreto da Regen-cia; foi preciso empregar a força, e prendê-lo. Seria bom que V. Ex. viesse hoje para minha casa, pois que vamos fallar ao novo tutor para chamar a V. Ex. para o Paço, porque convém muito que ao pé do Monarcha esteja pessoa sua amiga, e de toda a confiança. Não tenho tempo para mais. Sou

De V. Ex. Affectuoso respeitador e criado. Aureliano".

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