Das nuances e estruturas da Teoria acerca da Verdade Pragmática de Willian James



Das nuances e estruturas da Teoria acerca da Verdade Pragmática de Willian James [1842-1910].

 

Ana Monique Moura de Araújo

Graduanda em Filosofia – UFPB

Área de estudo e pesquisas: Estética Kantiana, Filosofia Contemporânea, Filosofia alemã.

RESUMO: Este artigo focaliza atenção para a teoria pragmática pelo filósofo Willian James, buscando uma reflexão que dialoga com o ceticismo e também com a questão da razão pragmática na sociedade.

 

PALAVRAS-CHAVE: , verdade pragmática, utilidade, fatos, razão pragmática.


ABSTRACT: This article focuses attention to the pragmatic theory by philosopher William James, trying a reflection that dialogues with the skepticism and also with question of the pragmatic reason in society.
 
KEYWORDS: Pragmatism, pragmatic truth, usefulness, facts, pragmatic reason.

 

 

Introdução

No âmbito metafísico, isto é, onde indaga-se pela essência da verdade, há quatro tipos de Teorias acerca desta, a saber, as Correspondentistas, as Coerentistas, as Deflacionárias e as Pragmatistas.  As Teorias Correspondentistas tomam o fato como gerador de verdade. Aqui, o portador de verdade expressa o seu gerador; ele só é verdadeiro se o gerador de verdade ocorrer ou for atual (exemplo: (f) f é verdadeiro se, e somente se, f diz que p e p) – a famosa concepção semântica da verdade do polonês Alfred Tarski, é defendida por ele como um estilo ou versão da Teria da Verdade como correspondência e o Tractatus lógico-Philosophicus de Ludwig Wittgenstein, bem como os estudos de Bertrand Russell são referências relevantes para o tema da verdade correspondentista – . Nas Teorias Coerentistas, a relação não se dá entre geradores de verdade e portadores desta, mas apenas entre os próprios geradores de verdade (exemplo: (f) f é verdadeiro se, e somente se, f faz parte de um conjunto coerente de portadores de verdade que descreve completamente o mundo). De acordo com as Teorias Deflacionárias, a verdade não é algo substancial e de natureza oculta. As Teorias Pragmatistas afirmam que um portador da verdade é verdadeiro quando a crença na sua verdade tem valor útil prolongado (exemplo: (f) f é verdadeiro se, e somente se, a crença que f é verdadeiro é útil a longo prazo).

 

 A verdade no pragmatismo é tomada como aquilo que serve de solução imediata aos problemas, sem prender-se a um sistema moral normativo; O que se toma, aqui, como verdadeiro não é o agir humano segundo a bondade, mas segundo objetivos práticos. Dentre as quatro Teorias da Verdade, nos ateremos ao Pragmatismo, corrente filosófica norte-americana, difundida, mais exatamente, na cidade de Nova York, no final do século XIX.

O pragmatismo se fez corrente dominante nos Estados Unidos até o início da Segunda Guerra Mundial. Seu declínio se deu pela forte influência do pensamento analítico no país. Mas as idéias pragmáticas ressurgiram a partir da obra de Richard Rorty. E, ainda hoje, se devemos nos referir a um sistema de pensamento predominante neste país, não há dúvidas, de que ele é o Pragmatismo.

Os fundadores da corrente pragmática foram Charles Sanders Peirce, com seu artigo “How to make our ideas clear”, e Willian James, que publicou e aprofundou as idéias de Peirce, com a obra “Pragmatismo”, sobre a qual apresentaremos nossa reflexão por meio do presente artigo.

 

 Verdade Pragmática


Segundo Willian James, o Pragmatismo de sua época não inaugurou um método puramente inovador na história da filosofia. O método pragmático não é genuinamente contemporâneo, ele apenas alcançou sua emancipação na atualidade. “Não há nada de novo absolutamente no método pragmático. Sócrates foi adepto dele. Aristóteles empregou-o metodicamente. Locke, Berkeley e Hume fizeram pequenas contribuições à verdade por seu intermédio. Shadworth Hodgson insiste em que realidades são somente o que sabemos delas. Esses precursores do pragmatismo, porém, usaram-no de maneira fragmentária: apenas o preludiaram. Não foi senão em nossa época que se generalizou, tornou-se consciente de uma missão universal, aspirou a um destino conquistador. Acredito nesse destino, e espero poder terminar transmitindo-lhes toda a minha fé.” (JAMES, 1989: 19).

O pragmatismo tem como característica epistemológica a postura empírica. Contrapõe-se à metafísica clássica por não enxergar nesta um princípio de utilidade, critica os dogmas, a pretensão teleológica da verdade e, prioritariamente, não credita respaldo a conceitos de razões a priori e idéias do Absoluto. Contudo, faz-se relevante frisar aqui: O método pragmático possui um caráter sincrético, na medida em que se esforça por absorver o conhecimento de valor prático a partir de uma forte atividade especulativa. “O pragmatismo está disposto a tomar tudo, a seguir ou a lógica ou os sentimentos e contar com as experiências mais pessoais e mais humildes. Levará em conta experiências místicas se tiverem conseqüências práticas. Acolherá a um Deus que viva no âmago mesmo do fato privado – se esse lhe parecer um lugar provável para encontrá-lo.”(JAMES, 1989: 30).

A dinâmica da investigação pragmática reside no foco sobre os fatos, característica esta que opõe-se, com efeito, a que marca o Racionalismo, cuja atividade volta-se para as abstrações. Enquanto a “verdade” especulada pelos racionalistas é concebida como objetiva, elevada, refinada e nobre, aos pragmatistas ela tem de ser tão somente útil e satisfatória, devendo-se, por conseguinte, corresponder-se com os meios que condicionam o pensamento e não com aquilo, como prefere pensar o Racionalismo, que devemos pensar incondicionalmente.

Willian James critica a metafísica relacionando-a a um conhecimento simplório. Para ele, o saber metafísico limita-se aos termos que lhe são caros, como Deus, Absoluto e Razão, e deles nada produzem ao conhecimento válido, ou seja, neste caso, prático.

Deve-se considerar, contudo, que, apesar da relação intrínseca do pragmatismo com os fatos, ele não deve ser enquadrado em um empirismo radical. O método pragmático está sujeito, até mesmo, a recorrer ao sistema de abstrações, se esta fortalecer o percurso pragmático dentro dos fatos e/ou particularidades. “Primeiramente, chamei-o [O ABSOLUTO] de majestoso e disse que concedia conforto a uma classe de espíritos, e em seguida acusei-o de remoto e estéril; Na medida, porém, que proporciona esse conforto, seguramente que não é estéril; tem o seu valor; realiza uma função concreta. Como bom pragmatista, devo chamar o Absoluto verdadeiro, então, “como devida reserva”; o que, sem hesitação, faço agora.” (JAMES, 1989: 27-28).


Processos-verdade



Dentro do pragmatismo de Willian James, o processo de absorção da verdade se dá pela simples adição de novas espécies de fatos à nossa experiência. Trata-se, portanto, de um acréscimo de conteúdos novos. “Os novos conteúdos em si não são verdadeiros, simplesmente aparecem e são. A verdade é o que dizemos a respeito deles, e quando dizemos que aparecem, a verdade é satisfeita pela simples fórmula aditiva.” (JAMES, 1989: 23-24). Por conseguinte, o pragmatismo toma como idéias verdadeiras aquelas às quais pode-se avaliar e validar de acordo com os fatos e a praticidade. “Verdadeira é o nome para qualquer idéia que inicie o processo de verificação, útil o nome para sua função completada na experiência. A idéias verdadeiras jamais teriam sido isoladas como tais, jamais teriam adquirido um nome de classe, e menos ainda um nome que sugerisse valor, a não ser que tivessem sido úteis, desde o início, nesse sentido.” (JAMES, 1989: 73).

O valor prático das idéias depende da importância prática que os objetos têm para nós, importância esta que é meramente temporal. Aqui, Willian James inseriu o conceito de verdades extras, que seriam úteis para situações possíveis na realidade dos fatos. “[...] visto que quase qualquer objeto pode, algum dia, tornar-se temporariamente importante, a vantagem em ter-se um estoque de verdades extras, de idéias que serão verdadeiras de situações meramente possíveis, é óbvia.” (JAMES,1989: 73). Toda verdade está sujeita à mutação, uma vez que é adquirida pela experiência fundada. A verificação é o processo da verdade, e constitui o que Willian James chama, portanto, de processo-verdade. Onde há processos-verdade, os fatos determinam nossas crenças temporariamente, posto que neles, os diversos fatos adicionados na experiência constituem a mutabilidade dos contextos que são, por sua vez, sustentados pela crença e, com efeito, é aqui que surge a verdade.

Onde os objetos do conhecimento são mentais, isto é, onde há relações entre idéias puramente mentais, não há verificação. Mas isto não quer dizer que não haja verdade aí. Prescindindo da verificação, as verdades obtidas por meio destas relações, aqui citadas, aplicam-se à realidade e admitem utilidade. “Esse casamento do fato com a teoria é interminavelmente fértil. O que dizemos aqui já é verdadeiro de antemão, dispensando verificação especial se tivermos considerado nosso objetos corretamente. Nossa estrutura ideal já pronta, para todos os tipos de objetos possíveis, decorre da própria estrutura de nosso pensamento. Não podemos mais tratar levianamente essas relações abstratas, tanto quanto o fazemos com nossas experiências-senso. Elas nos coagem; precisamos tratá-las coerentemente, gostemos ou não dos resultados.” (JAMES, 1989: 76). Daqui decorre que nossas idéias devem concordar com a realidade concreta ou abstrata. Neste ponto, o intelectualismo (Racionalismo) e o pragmatismo se unem, provando a elasticidade da teoria do último e corroborando seu movimento dialético. “Concordar em um mais amplo sentido com a realidade só pode significar ser guiado diretamente a ela ou aos seus arredores, ou ser colocado em tal relação de trabalho de modo a poder operá-la ou a alguma coisa que lhe esteja ligada, melhor do que se tivesse concordado. Melhor intelectualmente ou pragmaticamente!” (JAMES, 1989: 76). Ora, o que importa, até aqui, é a idéia que permite um ajustamento à realidade, seja sob o prisma intelectualista ou pragmático. Trata-se de garantir, portanto, a realidade da verdade, estabelecendo, por conseguinte, processos de verificação, que levam, ou ainda, que devem levar, indelevelmente, a resultados práticos. Não há investigação pragmática sem o suporte da empiria. No pragmatismo, a verificação existe à favor dos resultados práticos, e adentrar na investigação pragmática é avaliá-los, visando a utilidade destes. Decorre disto que, é a utilidade dos fatos que determina a verdade dos mesmos. A verdade de um fato não se deve, simplesmente, porque ele ocorre (acontece no mundo) e, por conseguinte, porque existe, mas deriva do que ele faz (e/ou é capaz de fazer) acontecer em fins práticos.


Aspectos cruciais do sistema de Willian James e a postura da Razão Pragmática



Destarte, podemos traçar aqui alguns pontos pré-conclusivos acerca da fundamentação da verdade pragmática: 1. Pelo fato da Teoria Pragmática tomar como verdade aquilo que se sustenta em resultados práticos, ela está relacionada a uma determinada correspondência com a realidade destes. Assim, podemos dizer que, todo enunciado tem um valor pragmático se, e somente se, ela é verdadeira de acordo com uma correspondência estanque com a realidade de contextos factuais. Isto explica porque para Willian James, tomar a verdade na perspectiva pragmática, significa adequar-se a um determinado processo lógico. “Os meios condicionados pelos quais pensamos são de pouca relevância e interesse para a psicologia. Abaixo com a psicologia, para cima com a lógica, em toda essa questão!”. (JAMES, 1989: 25); 2. O estado de conforto com a utilidade do conhecimento que o investigador pragmático busca obter assemelha-se à atividade filosófica do cético pirrônico que, recusando dogmas e abstendo-se de idéias de difíceis avaliações, percorria por métodos fáceis e mais úteis para a promoção de sua ataraxia, ou seja, do seu bem estar. Além dessa possibilidade de analogia, podemos definir que o pragmatismo firmou-se como face positiva do ceticismo, posto que a postura cética é inteiramente negativa, no sentido de que nega a verdade. O pragmatismo é uma extensão do ceticismo, mas que não a negou, antes, afirmou-a. O verdadeiro, aqui, significa o mesmo que útil. “É dessa determinação prática de fins que o conhecimento humano retira seu sentido e seu valor. A verdade do conhecimento consiste na concordância do pensamento com os objetivos práticos do homem.” (HESSEN, 2003: 40); 3. Muito embora o pragmatismo defenda uma lógica em seu conceito de verdade, a relação entre verdadeiro e útil não é inteiramente acorde. Ainda que o Pragmatismo tome como suporte os fatos, o campo empírico pode provar que a, dita, verdade pragmática, é arbitrária e a utilidade uni-direcionada a fins práticos que uma verdade pragmática possui, pode, portanto, ser inconcebível. Para Hessen, a Primeira Guerra mundial é um grande exemplo de que a verdade nem sempre pode ser útil em sua totalidade, como defende o Pragmatismo: “A [Primeira] Guerra Mundial é especialmente instrutiva. De parte em parte, acreditava-se que a verdade deveria ser escondida, pois seus efeitos danosos eram temidos” (HESSEN, 2003: 41);

Pode-se, aqui, esboçar a crítica de que o Pragmatismo abandona o princípio de autonomia do conhecimento, no momento em que subsume o conceito de “verdadeiro” ao de utilidade. O conceito do bom, neste sentido, está condicionado pelo o que se toma como útil a longo prazo. A razão pragmática corresponde à não-exigência de uma racionalidade absoluta e pura, posto que ela se estende na experiência, a partir da práxis humana. Destarte, falar em Razão no Pragmatismo, não consiste em fazer referência a um tipo de razão que determina todo o arcabouço de decisões éticas ou políticas por esse sistema filosófico. A razão pragmática se esforça por determinar aquilo que antecede todas as escolhas do homem, a saber, sua liberdade. Assim, se no projeto iluminista ou, mais precisamente, no sistema da filosofia kantiana, a razão foi tomada como aquilo que servia de regulação para o agir humano e, portanto, como símbolo de um apelo para o progresso da humanidade, a razão pragmática se afirma como derivada e condicionada pelos fatos. Com efeito, ainda que postule o útil como o bom, não fundamenta, com isso, um programa estanque e pretensiosamente universal acerca do que, especificamente, deve ser útil e bom para a humanidade. Resta ao Pragmatismo, portanto, recusar o otimismo que, outrora, a utopia do Aufklärung disseminou, e habitar outro tipo de otimismo, a saber, a de que o bom está no homem quando a utilidade está para ele. O pragmatismo, neste sentido, se firma, então, em certa instância, como uma filosofia da sobrevivência humana. “Primum vivere, deinde philosophari” (Primeiro viver, depois filosofar), quando, embora negando princípios universais, afirma que o útil é um bem universal.



BIBLIOGRAFIA:

JAMES, Willian. Pragmatismo. Coleção Os Pensadores. Nova cultural. São Paulo, SP. 1989.

HESSEN, Joannes. Teoria Geral do Conhecimento. Martins Fontes. São Paulo, SP. 2ª ed. 2003.

JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. Jorge Zahar Editora. atual. Rio de Janeiro, Rj. 4ª edição. 2006.

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. Tradução de Alfredo Bosi. Martins Fontes, São Paulo, 2000.

LENK, Hans. Razão Pragmática. A filosofia entre a ciência e a práxis. Tradução de Emanuel Carneiro Leão. Tempo Brasileiro. Série Estudos Alemães. Rio de Janeiro, Rj. 1990.

DOCUMENTOS NA INTERNET:

Pragmatismo/ 24 de Fevereiro, 2008. Produced by Wikipédia. Disponível em: pt.wikipedia.org/wiki/pragmatismo > Acesso em 29 de Agosto, 2008.

Teorias da Verdade/ 6 de Janeiro, 2008. Produced by Wikipédia.Disponível em: pt.wikipedia.org/wiki/teorias_da_verdade > Acesso em 29 de Agosto, 2008.

Verdade Pragmática/ site sem data. Disponível em: ww.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40141991000200010&script=sci_arttext > Acesso em 29 de Agosto, 2008.

 

Comentários

comments

Mais textos

4 comentários - Clique para ver e comentar

Prezado visitante: por favor, não republique esta página em outros sites ou blogs na web. Ao invés disso, ponha um link para cá. Obrigado.


Parceiros
  1. Blog do Miguel
  2. Conexões Epistemológicas
  3. Consistência
  4. Diário da fonte
  5. Filosofonet
  6. Ricardo Rose – Da Natureza & Da Cultura
  7. Umas reflexões
  8. Veritas

Início