Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

GIL BLAS, por Paul de Saint-Victor



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GIL  BLAS

Paul de Saint-Victor

Gil Blas é um desses livros que relemos quatro ou cinco vezes na vida: a impressão muda com as leituras.

O encantamento não enfraquece, mas o julgamento se modifica. Quiseram ver no herói de Le Sage o tipo da espécie humana.

Demasiado entusiasmo e pouco amor-próprio. Estudai de perto esta fisionomia sob diversos ângulos; achareis somente os traços vulgares da humanidade subalterna.

Vê-los-eis partir de Oviedo, ao trote de sua mula; sem um sentimento de pesar por seu pai, nem uma lágrima por sua mãe, nem uma saudade do velho tio, que lhe cuidou na infância. Diz-se que Panúrgio parece ter nascido dos amores de um presunto com uma garrafa, tanto é êle destituído de ternura humana; é também pouco sensível; êle é como Fígaro, "o filho de alguém", mas é tudo.

Parte, fazendo soar os cincerros de sua mula e os du-cados de sua sacola. O mendigo de escopeta na mão dá-lhe a primeira lição de prudência; o parasita da fritada faz-lhe avaliar seu primeiro dissabor. Ladrões prendem-no num bosque e o engajam ao bando. Admirai a flexibilidade de Gil Blas ao conformar-se com esta vida nova.

Êle chora, sem dúvida, desola-se, tem horror dos companheiros, mas é necessário uivar com os lobos, e Gil Blas incorpora-se ao bando sem grande escrúpulo. Êle despoja um frade com a alegria que teria ao representar um ridículo papel; com sua carabina atira na carruagem de Dona Mência com a resignação de um conscrito decidido a realizar seu mister. Ei-lo livre e fugindo com uma grande dama, mas, das mãos dos soldados, cai nas garras gordurosas dos carregadores, e daí por diante Gil Blas não distinguira mais nitidamente a justiça das estradas das dos tribunais e cartórios.

                                                                                               

É pela antecâmara que Gil Blas entra no mundo, e, queira ou não Le Sage, seu herói permanecerá lacaio através de suas metamorfoses. Guarda o andar oblíquo, os instintos de saqueador, os sentimentos baixos da servidão. "Quando os Deuses — diz um velho, — reduzem um homem à escravidão, eles lhe tomam a metade de sua alma. Gil Blas, conseguindo livrar-se, perde esta parte elevada da alma que a independência leva com ela.

Daí por diante, faça o que fizer, cheirará a serviço e a criadagem.

Até quando êle rouba os cofres do rei da Espanha, reconhece-se o homem que furta nas compras.

Que vocação, aliás, mais flagrante e mais decisiva! Êle é lacaio para todos os serviços. Vê-lo-emos à cabeceira da cama do licenciado Sedillo, fingindo devotamento, na esperança de um legado, e vertendo lágrimas de carpideira.

Enganado pelo testamento daquele homem simples, entra para o serviço do médico que o "despachou". Sangrando, arma-o com sua camada de água tépida e com seu bis-turi, mais assassinos que o punhal e a taça de veneno da tragédia. Êle aquece e realiza a sangria branca de seus doentes, e é rindo que conta as proezas de sua medicina homicida: "Procedemos de tal maneira que em menos de seis semanas fizemos tantas viúvas e órfãos quanto o cerco de Tróia. Parece que a peste assolou Valladolid, tantos foram os funerais".

Da província, passa para a capital, e do serviço dos burgueses para o de grandes senhores e casquilhos. Lá, seu vôo se estende, seus vícios se aperfeiçoam; êle aí duplica, na escola dos Mascarillos de Madri, a retórica da trapaça e da impudência. Pede emprestada, para obter favores, a roupa de seu patrão; em troca, empresta-lhe sua letra para falsificar cartas galantes. Sua educação aperfeiçoa-se nos bastidores de teatro. Um comediante transforma-o em mordomo de seu albergue erótico. Vê de perto os senhores de ouropel e as princesas envilecidas; é iniciado na cozinha de teatro e nos bordéis. Desta vez o desgosto apossa-se dele; deixa este mundo de ruído e perdição. "Estou decidido, não quero permanecer por mais tempo com os sete pecados mortais ".

 

Estas veleidades de virtude não duram muito: reencontramos em seguida Gil Blas filiado a um bando de trapaceiros.

Êle se disfarça com seus camaradas em temíveis roupe-tas da Inquisição, para roubar o cofre de um velho comerciante judeu. Nem um escrúpulo, nem um remorso! "Acossamos nossos cavalos para Segorbe dando graças ao Deus Mercúrio por um tão feliz acontecimento".

Quanto mais prossegue, mais se dissipam os seus preconceitos. As viagens aguçam-lhe o apetite e alargam-lhe a consciência. A notícia falsa que êle dá a um velho fátuo sobre a traição da amante, corrige-o para sempre do zelo; o passaporte que recebe do arcebispo de Granada o cura de verdade.

Aprende na casa de um perdulário a prática e a teoria da pilhagem: e adquire, servindo-se de seu macaco favorito, a flexibilidade da espinha dorsal que exige a intriga. Ei-lo adestrado às manhas, exercitado nas baixezas, despojado de todos os princípios, e de toda a integridade. É então, que a fortuna favorece o improvisado favorito do duque de Lerme, e o eleva ao alto de sua roda. Aí êle aparece na atitude do Mercúrio de João de Bolonha, perna no ar e o caduceu na mão. O duque encarrega-o das mensagens galantes do Infante da Espanha. "Não examinei ainda se isto era bom ou mau: a qualidade do galante atordoa a minha moral. Que glória para mim ser ministro dos prazeres de um grande príncipe!"

É o tesouro público que paga suas comissões equívocas; vende, em leilão, graças e favores; negocia privilégios; bebe o jari’o de vinho até à borra; deriva avidamente os bens obtidos pela simonia e peculato.

— Bom apetite, Gil Glas! — ter-lhe-ia dito Ruy Blas, seu glorioso confrade.

Seu coração avilta-se nesta profissão de usurário público; a corrupção seca, particular à vida da corte, endurece sua alma; informa-se, sem pestanejar, da indigência de seus velhos pais; renega descaradamente os amigos de quando era pobre. A desgraça e a prisão corrigem-no um instante; mas, ao primeiro retorno dos favores, entrega-se ao ames-tramento de seu caráter.   Vamos encontrá-lo garatujando,

no gabinete de Olivares, panfletos contra seu benfeitor exilado. Retoma, com a pena do escriba, o caduceu do mediador. O brilhante Scapín de outrora continua suas trapaças sob os cabelos brancos de Leporello: basta-lhe apenas a queda de seu segundo patrão para despedir-se do serviço.

Tal é Gil Blas, reduzido à sua expressão mais simples e arrancado do turbilhão de aventuras no meio da qual desaparece coberto pela rapidez de suas mudanças contínuas de opinião; um intrigante medíocre, por sua vez ativo e acanhado, maleável ao vício, invulnerável às paixões, cuja única ambição é o bem-estar, incapaz, até quando as asas lhe impelem e quando o vento sopra em suas velas, de deixar o terreno chão do interesse quotidiano: numa palavra, um subalterno do espírito e do coração.

Recuso-me a reconhecer nesta máscara agradável, mas depreciada, de escudelo cômico, o tipo do homem médio cue se acreditou ver nele. Pela própria multiplicidade de suas transformações e de seus disfarces êle escapa à fixidez do retrato. É menos um caráter do que uma matéria humana que o artista amassa entre os dedos como um pedaço de cera, e que modela alternativamente à imagem dos vícios que êle deseja descrever e dos ridículos que quer exprimir. O único traço que nele persiste é seu bom humor, e este humor é também o encanto da epopéia prosaica da qual é êle menos o herói do que o factotum. Por certo, a confissão de Gil Blas, despojada do colorido da narração, espantaria um confessor aguerrido; mas o imperturbável sorriso com o qual o penitente a divulga, obriga-nos sempre a absolvê–lo. Conta suas maldades com um ar tão natural, que as julgamos peculiares à sua constituição. Afeiçoamo-nos — é a expressão — a este groeculus da intriga e do expediente; rimos dos saltos ágeis como das piruêtas, pelas quais se salva de uma desagradável confissão. Agrada-nos sua facilidade em viver e sua jovialidade perpétua. Êle se bate contra o destino com armas tão brilhantes e tão desiguais, avalia as decepções com tanto espírito e tão poucas caretas, passa sem surpreender da cambalhota à apoteose, vai alegremente jogar "à la fossette" após as quedas pavorosas, que o mais severo estóico lhe daria sua simpatia, recusan-do-lhe sua estima.

11 mondo va da se. É a conclusão deste livro, que não convém nem depreciar nem superestimar.   Seu horizonte é baixo, seu nível medíocre; nele, a grande observação não projeta os raios que investigam profundamente os homens e as coisas. Reina ali um dia de teatro que atinge de uma cor artificial as mil figuras que o encobrem. Quanto mais se elevam, mais decresce e se altera a semelhança delas. Aquelas que compõem os planos inferiores impressionam o espírito pela exatidão e a nitidez de seus traços, mas custa a reconhecer os personagens colocados na ribalta. As senhoras da alta sociedade de Le Sage quase não se distinguem de suas aias e criadas; a corte da Espanha, tal como nos. mostra, não difere de uma tavolagem de viciados ou de um negócio de pilhagem. É Térniers deixando sua taverna pelos palácios da pintura. Lá onde o olho de um La Bruyére penetra ao fundo e atravessa as almas, a luneta cósmica de Le Sage só percebe as minúcias e os pormenores. Não tem a intuição que suplanta o testemunho ocular. Sua janela dá para a rua e não domina a cidade. Os grandes vícios como as grandes virtudes excedem ao alcance de seu olhar agudo.

A alegria sustenta-o e ela domina com seu sopro esta longa narrativa igual a uma planície sem elevação e sem movimentos; ela arrebata toda a monotonia. Por desacreditada que seja no fundo, sentimo-nos satisfeitos nesta sociedade tão social; surpreendemo-nos a deplorar por não termos vivido aí. Seus vícios não ofendem mais que os ridículos, suas calamidades agradam como catástrofes teatrais. Que concepção prévia da vida e de seus reveses! Que filosofia nesta maneira de olhar o mundo como uma tragicomédia de disfarces! Todas estas pessoas bebem avidamente, comem com vontade, amam quando querem e seguem, sem discutir, a lei natural. A amplidão de suas consciências é igualada somente pela capacidade de seus estômagos. Cometem, dando risadas, os pecados que nos encheriam de espantosos remorsos. Não aprofundam seus sofrimentos, não exageram seus pesares; vivem em promiscuidade com a miséria, sem engendrar a melancolia. Não se conhece, no seu mundo, nem o sonho, nem o ideal, nem o tédio, estas queridas e cruéis doenças modernas que tão dolorosamente vêm complicar os males reais da vida.

Tudo é olhado como se apresenta, não se analisa nada, nem sequer seu mal; há no ar não sei que alegria que dissipa a tristeza e torna leve a existência.

 

Apesar de tudo, sente-se a alma seca e o espírito alterado com a leitura de Gil Blas. Esta ausência de paixões, esta desnudez de ideal, esta maneira positiva e fria de encarar o espetáculo da vida humana, este sangue frio chocarreiro, em face das iniqüidades e das injustiças, tudo isto finaliza por entristecer com o decorrer do tempo.

Verteremos uma lágrima ao percorrer este belo livro, tão valioso como um copo de água no deserto brilhante e árido. Quando o fechamos, sentimos necessidade de ler uma página de Homero, um pensamento de Marco Aurélio, um canto de Dante, algo que eleve a alma deste terra-a-ter-ra, algo que a exalte até ao heroísmo ou a conduza até à beleza pura.    Sursum corda!

Recordamo-nos, depois, do Cavaleiro de Ia Mancha que um século antes, cavalgava, ereto em sua armadura, pelos mesmos caminhos de Espanha, onde Gil Blas cabriola correndo mundo. Que contraste entre sua grandeza de alma e a velhacaria do aventureiro. Que diferença em seus destinos !

Enquanto Don Quixote escalava o atalho pedregoso da áspera Sierra, procurando a caverna do dragão, a torre do gigante, a fonte encantada, Gil Blas espreita nos atalhos, à procura de um hóspede para enganar, de um judeu para roubar, de um lucro para obter.

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