´
Prefácio a Ilíada
Por Augusto Magne. Fonte: Clássicos Jackson.
A PESSOA de Homero está para sempre imersa nas trevas impenetráveis da lenda. Ignoramos quando viveu; não sabemos que terra privilegiada lhe ouviu os primeiros vagidos. Apenas nos conta que várias cidades da Iónia — e outras ainda — disputavam entre si honra tão subida. Uma tradição mais persistente e quiçá menos remota da verdade o dava como natural de Esmirna, onde teria nascido por volta do século IX ou VIII antes de Cristo; dizia mais que, embora natural de Esmirna, exercera a maior parte de sua atividade na ilha próxima de Ouios, onde, efectivamente, em tempos históricos, lhe era prestado culto, e que mantinha uma escola de rapsodos chamados Homéridas, ou seja "descendentes de Homero". Venerandas tradições representavam-no como um velho cantor, pobre e cego que, peregrinando de terra em terra, recompensava a quem o agasalhava com a declamação dos seus poemas. Mas este quadro é pura fantasia a que não corresponde personalidade individual. É apenas a figura idealizada dos rapsodos perambulantes, de que Homero era tido como protótipo.
Se da pessoa do poeta nada sabemos, não é menos impenetrável o véu que encobre a composição dos poemas e sua autoria. Com efeito, já entre os antigos havia profundo desacordo no tocante às obras de que Homero teria sido autor; duvidavam se eram dele tanto a Ilíada como a Odisséia, ou apenas um destes dois poemas; e bem assim se lhe pertenciam ou eram de outros poetas as epopéias que integram o chamado ciclo épico — a Tebaida, os Epígonos, os Cantos Cíprios.
Tudo isto deu origem a um grave problema, a que se costuma dar o nome de "questão homérica", problema que deita as suas raízes já na própria antigüidade e que tem por objeto delimitar a produção genuína de Homero. A princípio, além dos Hinos e de poemas menores como o Margites e a. Batracomiomaquia, eram, sem discriminação alguma, atribuídos a Homero quase todos os poemas do ciclo épico. Assim, por exemplo, o poeta elegíaco Calino, que viveu no século VII antes de Cristo, dava Homero como autor da Tebaida. Mas com o despertar da crítica entre os próprios Gregos, aos poucos o cenário se foi modificando, devido, cm especial, a influência dos sofistas e dos historiadores iónio-áticos no século V A.C., e ao ensino dos gramáticos alexandrinos. Heródoto, por exemplo, atribuía ainda a Homero a Tebaida, mas hesitava quanto aos Epígonos e aos Cantos Cíprios.
Só no século IV, em princípio do período alexandrino, o patrimônio de Homero ficou geralmente restringido à Ilíada e à Odisséia, não tanto por motivos históricos quanto em virtude de considerações estéticas: os poemas do Ciclo eram apreendidos como obra de arte inferior e produto de inspiração diferente. Mas, dentre os gramáticos alexandrinos, alguns, como Zenão e Helânico — impugnados, a este respeito, por seu ilustre contemporâneo Aristarco de Samotrácia — foram mais longe e chegaram a negar a Homero a própria Odisséia, por este poema lhes parecer mais recente que a Ilíada; separavam, pois, uma da outra as duas grandes epopéias, sendo, por isso, alcunhados de "separatistas", Khorizontes. A maior parte dos outros gramáticos, seguindo na esteira do celebérrimo Aristarco, julgaram poder joeirar os poemas homéricos, e do elemento fundamental, genuíno, separavam acréscimos adventícios e partes de autenticidade controvertida, sem falar em interpolações de versos ou grupos de versos.
Reacesa nos tempos modernos, a questão homérica tomou novo aspecto, muito mais sério, cm conseqüência de pungente dúvida que fugira aos antigos — a dúvida relativa à própria existência pessoal de Homero. O primeiro cm levantar a suspeita foi o abade francês Fr. Hedelin d’Aubignac em suas Conjecturas académiques ou dissertation sur l’lliade, publicadas cm 1715, mais de meio século após a morte do autor, e eme, naquela época, passaram quase por completo despercebidas. Seguiu-se lhe o italiano G. B. Vico em Scienza Nuova (1725) e finalmente, com mais apreciável resultado, Frederico Augusto Wolf, cujos Prolôgomena ad Homerum são de 1795. Todos eles, baseados cm razões históricas, filológieas ou estéticas, sustentaram e tentaram demonstrar, por processos embora diferentes, que os chamados poemas homéricos não constituem obra pessoal de determinado poeta, mas enfeixam numerosas composições de acdos anônimos e até mesmo do próprio povo grego em seu período lendário de gestas e heroísmo. Assim Homero foi reduzido a mero símbolo e seu nome foi considerado seja como simplesmente alegórico, seja, quando muito, como o nome de um dos supostos autores primitivos, quiçá de todos o principal, seja, por fim, como o nome do compilador definitivo de rapsódias tradicionais.
A teoria era destinada a encontrar favorável acolhida nesse primeiro despertar do romanticismo, que, na poesia de épocas obscuras e barbáricas, descobria as manifestações da índole dos povos, a emancipação do estro popular, a geração espontânea das grandes epopéias nacionais.
Dos ensinamentos de Wolf surgiu toda uma escola de filólogos que desfrutaram incontestável predomínio no século XIX. Estes desagregaram em mil maneiras a unidade quer da Ilíada, quer da Odisséia, dominados pela obsessão de discriminar a contribuição parcial de cada um desses inumeráveis cantores e reconstituir os poemas primitivos — esses poemas que, segundo o conceito predominante na corrente filológica do tempo, um compilador qualquer, talvez chamado Homero, teria simplesmente amalgamado em um todo artificial.
Hoje, vão-se desvanecendo aos poucos as teorias de Wolf; em geral, não por acrisia, mas por nova atitude crítica, refletida e consciente, volta-se a admitir a unidade fundamental dos dois poemas que, vistos à luz de sua inspiração poética e em sua coerência artística e espiritual, não podem resultar da fusão mais ou menos feliz de poemas diversos. Que nos poemas homéricos como em todos os poemas hajam confluído materiais preexistentes, que neles, por exemplo, estejam elaboradas as breves e vetustas canções eólicas que se nos deparam na fase evolutiva inicial da epopéia, a ninguém deverá fazer estranheza; mas este material pressuposto nada tira ao valor criativo daquele que efetivamente compôs quer a Ilíada, quer a Odisséia em sua forma atual. Em obra de arte, fator essencial é a "forma", cunho privativo e insubstituível do gênio. A pesquisa das fontes, se é legítima e até mesmo oportuna, não deve exorbitar da própria esfera.
Igualmente, torna-se a acreditar na existência de Homero considerado não já como simples rapsodo, como cantor apenas de um episódio, como autor do núcleo originário de uma das epopéias ou de ambas, senão como o poeta genial que criou aquele todo unitário. Está hoje em plena decadência o conceito romântico da poesia nascida do povo — conceito de que, ou consciente ou inconscientemente, manava toda a crítica desagre-gadora de Homero. Já não se admite que uma obra de arte possa ser criação colectiva de um povo e possa derivar de outra fonte que não seja uma determinada individualidade artística. Ora esta individualidade se manifesta sem dúvida alguma tanto na Ilíada como na Odisséia. Questão diferente — secundária — é a de saber se é um e o mesmo o autor de ambos os poemas. Nem tão pouco nos assiste direito algum de lhe tirarmos o nome de Homero, que lhe atribui a antigüidade. De sua pessoa, nada . nos refere a história, que em seu tempo não existia; nada nos diz o próprio poeta, todo absorto na contemplação mística que ele reanima ante nossos olhos com objetividade perfeita. Sua existência, em todo caso, não será anterior ao século IX-VIII A.C., É autor da Ilíada, e talvez da Odisséia que, no caso negativo, deverá ser considerada a mais feliz criação da escola fundada pelo sumo poeta, cujos discípulos, os Homéridas, seguindo-lhe as pegadas imortais, urdiram a rede complexa do ciclo épico da lónia antiga.
Tanto a Ilíada como a Odisséia constam de vinte e quatro livros ou cantos. Esta divisão, conquanto não primitiva, talvez seja anterior aos gramáticos alexandrinos, a que se costuma
atribuir.
* * *
A llíada é a epopéia da conquista de Ilio, nome com que, na mais remota antigüidade, era designada a cidade de Tróia.
Em poucas linhas, é o seguinte seu entrecho.
Causa da guerra foi, segundo a lenda, o Cacto de Paris, filho de Príamo, rei de Tróia, haver raptado a jovem Helena, esposa do príncipe grego Menelau. ]á corria o décimo ano da guerra, quando se produz violento dissídio, nos arraiais helênicos, entre o jovem chefe tessálico Aquiles e o poderoso rei de Argos, Agamémnon, comandante supremo de todos os Helenos ou Aqueus confederados para conquistar ílio. Agamémnon rapta a Aquiles a jovem cativa Briseida, que lhe fora dada em prêmio de seu valor e à qual dedicava profundo afecto. Aquiles, dominado da mais violenta indignação, declara que, dora em diante, tanto ele como seus valentes guerreiros Mirmidões hão-de desistir da luta, enquanto a mãe dele, a deusa marinha Tétis, consegue de Zeus, supremo regedor dos homens e dos numes, a promessa de que fará pagar caro a afronta feita ao herói. Com efeito, Agamémnon, enganado por sonho falaz de Zeus, se apronta para desfechar sem Aquiles o ataque decisivo. Antes de tudo, tenta, pouco oportunamente, as disposições do exército, onde, por pouco, alastra a revolta, sofreada graças a Ulisses, que fustiga o insolente e rebelde Tersites e lembra o oráculo dado por Calças em Aulis, segundo o qual Tróia devia cair após dez anos de sítio. Abalando os dois exércitos adversos para o campo da luta, Heitor, herói principal dos Troianos, propõe que a sorte da guerra seja decidida mediante um duelo entre seu irmão, o formoso Paris, raptor de Helena, e o rei de Esparta e irmão de Amémnon, Menelau, que, para reaver a esposa, coligara contra a Ásia todas as forças da Grécia. Neste imponente cenário, aparece o venerando rei de Tróia, Príamo que, ladeado dos filhos Heitor e Paris e da própria Helena, contempla do alto de uma torre o exército grego e cada um de seus chefes, apontados por Helena. O duelo, no entanto, não leva ao desempate operado porque Paris, no momento de sucumbir, é arrebatado, envolto em nuvem, por sua protetora Afrodite e um frecheiro aliado dos Troianos, Pândaro, fere traiçoeiro a Menelau com uma frecha. Então se desencadeia furiosa batalha (cantos V-VII). Sente-se que os Troianos, culpados de traição, devem levar a pior. Estão para vencer os Aqueus, dentre os quais especialmente Diomedes, amparado por Atena, faz prodígios, chegando mesmo a ferir Afrodite e Ares, protectora de Tróia. Heitor corre por um instante à cidade para ordenar à sua mãe Hécuba s às demais mulheres que tentem com preces aplacar a adversa Atena, e, junto às portas Ceias, se encontra com sua mulher Andrómaca e o filhinho Astíanax — encontro comovedor todo impregnado de trágicos presságios: sente-se que o herói deve sucumbir, que a sorte de Tróia está selada. Voltando ao campo da luta, Heitor suspende as hostilidades, desafiando a combate singular os heróis gregos. Ájax é escolhido. Mas tão pouco este duelo é decisivo, porque, antes de ele terminar, sobrevém a noite e é concluído um armistício. Os Aqueus aproveitam-se dele para sepultar os seus mortos e erguer um baluarte ao redor das . tendas. E logo, de súbito, ao romper da aurora, reacende-se nova batalha, que dura o dia todo (canto VIII) e termina desastradamente para os Aqueus, pois, desamparados de suas divindades, têm que acolher-se ao baluarte. Os Troianos, de tarde, acampam, ameaçadores, a pouca distância na planura. Assim, por entre vicissitudes, vem-se cumprindo a promessa de Zeus; os Aqueus são castigados da ofensa feita a Aquiles.
E assim termina o que se pode considerar a primeira parte do poema, que abrange os cantos I-VIII, ou seja exatamente um terço da epopéia.
Durante a noite, Agamémnon é tomado de remorso e, sem esperar pela aurora, a conselho de Nestor, manda a Aquiles uma embaixada composta de Ulisses, Ajax e o velho Eénix. Mas Aquiles é inexorável. Durante a noite ainda, dois dos principais guerreiros gregos, Diomedes e Ulisses, para mostrar que a coragem não desapareceu nos arraiais helênicos, tentam uma incursão no acampamento troiano. Em seguida, pela manhã, reacende-se a batalha mais longa e luriosa do que nunca. É a terceira batalha da Ilíada, que, através muitas peripécias, enche os cantos XI-XVIII. Os Aqueus, postos em fuga e perdido seu baluarte, recebem inesperado auxílio do deus marinho Posídon e da consorte de Zeus, Hera, que, com astúcia feminina, consegue adormentar no monte Ida, o divino esposo. Mas logo este, acordando, restitui a vitória aos Troianos, que já se precipitam para os navios inimigos, a atear-lhes fogo. Na iminência do perigo, Aquiles, implorado, entrega as próprias armas ao amigo Pátroclo, permitindo-lhe que, revestido com elas, desça ao campo á testa dos Mirmidões. E Pátroclo acorre e acossa os Troianos, perseguindo-os — contra a proibição de Aquiles — até às muralhas de Tróia, onde é morto de uma lançada desferida por Heitor. Em torno do cadáver, acende-se viva luta; as armas invencíveis são conquistadas por Heitor, mas Ajax arranca o cadáver aos inimigos e o leva às tendas. Então solta terríveis bramidos 0 desespero de Aquiles, que, sem armas, ao cair da noite, com seu grito possante, afugenta os Troianos.
E aqui termina a segunda parte do poema, de extensão pouco mais ou menos igual à primeira, e que abrange os cantos IX-XVIII.
Na terceira e última parte (cantos XIX-XXIVI), narra-se a volta de Aquiles ao combate e a vingança que ele toma do matador de seu amigo Pátroclo. Provido de novas armas, fabricadas por Hefesto a pedido de Tétis, reconciliado com Aga-mémnon, que lhe restitui Briseida, o valoroso guerreiro se atira à frente dos mais. Fere-se a quarta e definitiva batalha do poema (cantos XX-XXII), na qual. por expresso consentimento de Zeus, tomam livremente parte céu e terra, homens e deuíes. Aquiles vence a Eneias, trucida muitos dos inimigos, aferrolha a fúria do rio Escamandro e chega às portas de Ílio, onde o próprio Heitor, tomado de terror invencível, deita a fugir em corrida desabalada, acossado por Aquiles. No encalço, os dois guerreiros dão várias vezes a volta da cidade e por fim Heitor, condenado pela Fatalidade, pára, e, em combate singular, é morto ante os olhos dos seus. Do alto das muralhas de Ílio, Andrómaca vê o cadáver do marido atrozmente arrastado pelo carro do vencedor, que, inteiramente tresloucado pela sede de vingar a morte do amigo, celebra com jogos solenes os funerais de Pátroclo. Mas no fim do poema, ao encerrar-se o último canto da Ilíada — de todos o mais humano, porque, na visão lastimosa das tristes vítimas da sanha guerreira, purifica as atrocidades das paixões belicosas — o velho Príamo vem, de noite, pedir o cadáver do filho em termos tão comovedores que suas palavras constituem uma obra-prima da arte oratória. Aquiles, comovido, atende à prece do venerando ancião, e o poema termina com a narrativa confortante e pacificadora das honras fúnebres prestadas ao herói inimigo que caiu gloriosamente em defesa da pátria.
* * *
Por fim, algo deveríamos dizer no tocante à versão portuguesa da Íliada. Preferimos, no entanto, furtar-nos ao difícil encargo. Toda obra-prima de qualquer literatura é constituída pelo consórcio indissolúvel da idéia com a expressão verbal que a reveste. Não se traduz. Quando muito, será possível substituir uma obra-prima por outra de valor idêntico ou, quiçá, mesmo superior, No caso de Homero mais que em qualquer, traduttore há-de ser, fatalmente, traditore. Por isso contentamo-nos com augurar que a presente tradução portuguesa da Íliada desperte ca espíritos de escol o desejo de se habilitarem a apreciar no próprio texto os versos intraduzíveis do imortal cantor da Hélade.
Augusto Magne
Veja mais
Tudo sobre:Biblioteca, Grécia Antiga, Literatura, Mitologia.
Veja todos os textos do autor Homero
Avalie:
Tags:Arte, epopéia, Grécia, Homero, Ilíada, Menelau, Poesia, século XIX, Ulisses
Deixe um comentário
Avalie:
Tags:Arte, epopéia, Grécia, Homero, Ilíada, Menelau, Poesia, século XIX, Ulisses


Fórum de Discussões