Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

A CULMINÂNCIA DO REINADO – D. João VI no Brasil – Oliveira Lima




D. João VI no Brasil – Oliveira Lima

CAPITULO XXIII

A CULMINÂNCIA DO REINADO

 

Nenhum resumo mais entusiástico nem redigido em mais bela lingua­gem se poderia tentar da obra de Dom João VI no Brasil do que a elogiada oração do acadêmico Garção Stockler,744 delegado pela Academia Real das Ciências de Lisboa para falar em nome da deputação encarregada de felicitar o príncipe por ocasião da sua exaltação ao trono. Pronunciou-a Stockler na presença real aos 12 de maio de 1818, no ano das mais pom­posas festas de corte que jamais se fizeram entre nós, ano da culminância do reinado, quando o fácil esmagamento da revolução pernambucana de 1817 parecia assegurar para sempre o prestígio da coroa portuguesa na América, e não soprava ainda do velho reino abandonado o vento impe­tuoso da rebeldia de 1820.

Vimos que o movimento republicano do Recife provocara no centro uma espontânea e considerável manifestação de dedicação dinástica e leal­dade monárquica, oferecendo-se numerosos milicianos para irem combater os revoltosos, e concorrendo no mesmo fim avultadas contribuições pecuniárias. Somente na cidade do Rio ter-se-iam apresentado 7.000 vo­luntários e apurado 200 contos, num cálculo de Mello Moraes que, à vista da realidade de outras informações, se me afigura encerrar gente a mais e dinheiro a menos.

O positivo é que a exibição, naquele momento, de amor pelo sobera­no foi mais do que calorosa, foi delirante. No teatro, que já começava a ser o lugar capital das demonstrações políticas fluminenses, como acontecia em Paris durante a revolução, agitavam-se lenços com o perfil do rei e motes de devoção à sua pessoa e às instituições, dos quais se havia fabri­cado dez mil; cantava-se o hino escrito e composto para a ocasião; aclamava-se estrepitosamente o governante sagaz que tudo aliás pusera em jogo para encarecer sua popularidade, aparecendo, mostrando-se, agitando-se, fazendo gala da sua atividade, ele tão sedentário, e da sua bono-mia, armando ao efeito com afadigar-se muito ao sério para conseguir aquilo que foi quiçá, nos preparativos pois que a execução lhe escapou, a mais fina amostra, a mais forte expressão, o mais sério esforço da nossa moderna história militar, somente comparável ao que sucedeu ao tempo da guerra do Paraguai.

O próprio Dom João VI devia ter sido o primeiro a surpreender-se do arranco, visto que finamente penetrara a antipatia dos seus súditos ame­ricanos aos serviços de guerra: tanto assim que, em conversação’ com Ma-ler,745 manifestou um dia o desejo — que o filho mais tarde converteu em realidade — de mandar vir, para incorporá-los ao exército, dois regimen­tos estrangeiros. Era em mercenários suíços, os fiéis suíços do 10 de agos­to, que pensava o rei, em razão da grande dificuldade que no Brasil ofere­cia o preenchimento dos efetivos militares.

Apesar de moribundo, foi Barca, o suspeito jacobino, o braço da rea­ção de que era o monarca a cabeça; dando impulso a tudo, ao mesmo tem­po que simulava indiferença pela sublevação e aparentava confiança ex­trema na estabilidade do trono. "O conde — escrevia Maier — tudo dis­farça, afetando tratar a cousa como um ato de loucura."

Tinha pois sobeja razão o eloqüente acadêmico de Portugal quando exclamava no Paço da cidade, refletindo o pensar de tantos e aludindo à abertura dos portos, à elevação do Brasil a reino, à exclusão da Inquisi­ção, à política liberal para com os exploradores científicos, os artistas e os colonos, à conquista da Cisplatina e às promessas oficiais de aboli­ção do tráfico de escravos: "As gerações futuras admirarão a sábia e libe­ral política, com que V. M. franqueando o comércio desta riquíssima por­ção do Novo Mundo a todos os povos civilizados, abriu para os seus habitantes a fonte mais caudal de riqueza e prosperidade: a justiça com que igualando em tudo e por tudo a sorte de seus vassalos, nas quatro partes do globo que habitamos, e elevando o Brasil a dignidade de reino, pôs termo à funesta rivalidade que existia entre os portugueses america­nos, e os portugueses europeus: a prudência com que cerrou a entrada do novo e ainda mal povoado reino a uma antiga instituição, que a piedade de um dos seus augustos predecessores havia admitido nos seus domínios da Europa e da Ásia; mas que sendo olhada com horror pela maior parte dos governos, e dos homens alumiados, seria um gravíssimo obstáculo ao aumento da população, e aos progressos das luzes e da indústria no Brasil … Elas admirarão não menos a bem entendida e generosa liberalidade, com que V. M. tem pretendido atrair para este vastíssimo continente agricultores e artistas de todas as partes do mundo: a prudência e o vigor com que afugentando de nossas fronteiras vizinhos turbulentos e agitadores, animados de princípios incompatíveis com a tranqüilidade interna, pro­cura encerrar os seus domínios americanos em barreiras naturais, que jun­tamente facilitem a sua defesa, e segurem aos seus vassalos a fruição sos­segada dos bens que a natureza liberalizou a estes fertilíssimos países: … a humanidade e a circunspecção com que pela gradual e progressiva abo­lição do comércio da escravatura, vai suavemente substituindo a servos des­tituídos de todo o estímulo de emulação e brio, homens que reconhecen­do a vantagem que deve resultar-lhes do aperfeiçoamento de seus talen­tos, e do assunto de sua perícia nas artes e misteres que exercitam, se es­forcem por melhorar a sua condição, por meio da aplicação e assiduidade ao trabalho, e concorram assim eficazmente para a pública felicidade."

Foi este mesmo erudito a pessoa encarregada pelo conde da Barca de elaborar um projeto de organização da instrução pública no Brasil, "quando pareceu necessário dar-lhe um plano sistemático, em virtude do qual os estabelecimentos literários e científicos criados estivessem ligados entre si, dependentes uns dos outros, e subordinados todos a um só pen­samento, a um centro de direção. Sob a influência deste modo de ver as cousas, propunha Stockler que uma Sociedade Real das Ciências e Artes fosse no Rio de Janeiro o centro único de toda a instrução pública brasi­leira."746

O Instituto Acadêmico, por alguns denominado Universidade, que Dom João VI deliberara fundar no Rio com o donativo do comércio da capital, feito para comemorar sua aclamação e cujo rendimento devia ser perpetuamente aplicado a estabelecimentos que promovessem a instrução nacional, obedecia ao mesmo ideal de unidade ou centralização pedagó­gica.747

"Todos os descobrimentos novos que à Sociedade ideada por Stock­ler fossem devidos, ou para os quais contribuísse de algum modo, bem depressa seriam transmitidos aos professores respectivos; e o mesmo suce­deria em quanto aos descobrimentos feitos em outros países, pois que, por hipótese, estaria a sociedade em correspondência ativa com eles, e trans­mitiria depois o que chegasse ao seu conhecimento. Para a constituição da Sociedade Real, seria possível atrair alguns estrangeiros sábios, que o estado público da França e da Alemanha obrigava a expatriarem-se. A ins­trução pública seria dividida em 4 graus, sendo as respectivas escolas de­nominadas pedagogias, institutos, liceus e academias e abrangendo, as pri­meiras, os conhecimentos que a todos são necessários, qualquer que seja o seu estado e profissão; as segundas, o desenvolvimento da maior parte destas noções e os conhecimentos essenciais aos agricultores, artistas e co­merciantes; as terceiras, os conhecimentos científicos que devem servir de introdução ao estudo profundo das ciências e de todo o gênero de erudi­ção; as quartas, finalmente, o ensino das ciências, tanto abstratas, como de aplicação, consideradas na sua maior extensão e em todas as suas di­versas relações com a ordem social, e o estudo das ciências morais e polí­ticas, designadas com a denominação de ciências sociais."748

Diz Ferdinand Denis, o qual esteve no Brasil muito poucos anos de­pois do regresso da corte para Lisboa, que o belo plano pedagógico de Garção Stockler, expressão do afã reformador e das intenções levantadas que distinguiram entre nós esse momento histórico, foi rejeitado pela in­fluência das pessoas que pretendiam conservar o Brasil no estado moral, já que não mais político, de colônia portuguesa, e às quais não convinha tão completa emancipação intelectual. O rei não podia arcar em tudo e por tudo com o elemento reacionário que o cercava: era-lhe mister fazer algumas concessões.

O grau de progresso atingido pelo novo reino sob o governo de Dom João VI, seu criador, tem que ser, para melhor avaliação, comparativa­mente calculado e descrito, porque não é tanto absoluto como relativo. Confrontado com o que era dez anos atrás, quando ao Rio de Janeiro chegou a corte portuguesa, o país em 1818 oferecia sem a menor dúvida um notável desenvolvimento. A população crescera com as entradas de fora, além do resultado da natural progressão.

Calculava-a o conselheiro Veloso de Oliveira na sua informação de 1819,749 que devia servir de base à projetada divisão dos bispados e na qual se propunham sete províncias eclesiásticas ou dioceses arquiepisco-pais, em 2.697.099 habitantes, excluídos os índios bravos. Acrescentando-se, como querem, um terço por causa da inexatidão e deficiência dos ma­pas coligidos, sem excessiva diligência, num tão vasto território, com nú­cleos de população muito disseminados e muito refratários a qualquer es­tatística, chega-se ao algarismo de 3.596.132 habitantes civilizados, e com 800.000 índios bravos, conta redonda e imaginativa, se perfaz um total de 4.396.132 habitantes.

Para o Rio somente dava Henderson no mesmo ano o algarismo de 150.000 habitantes, dois terços dos quais de cor, ou melhor de cores (exhibiting every variety of complexion). Os brancos contavam entretanto na afluência da Euopa um contingente fixo, mesmo de franceses, que são re­conhecidamente os europeus que menos imigram. Num de seus ofícios de 1817 participava Maler a chegada nos dois últimos navios de 54 súditos do Rei Cristianíssimo, na maioria artífices. A capital tendia assim a embranquecer-se.

A imigração em geral cada ano se fazia maior, e não se cifrava so­mente nos suíços relegados à sua colônia de Nova Friburgo e nos ilhéus distribuídos pelo país com provisão de instrumentos agrícolas, ou enrai­zados nas imediações da capital, suprindo o seu mercado cada vez mais exigente porque, crescendo o conforto e surgindo o luxo, a mesa tinha fa­talmente que se tornar mais variada e esmerada. Abrangia ela crescido nú­mero de outros portugueses do reino e estrangeiros, entre os quais elementos rouco desejáveis que a polícia arbitrária, quando não abusiva,750 de Paulo Fernandes Viana e Vidigal trazia sob a sua rigorosa fiscalização, sobretu­do depois do inesperado se bem que explicável rebentar da revolução de 1317 e da descoberta de numerosas sociedades secretas.751

A vida fluminense oferecia toda ela uma aparência mais animada e atraente, tendo perdido bastante do seu aspecto quase vegetativo para as­sumir um caráter inteligente. Luccock, que chegou ao Brasil em 1808 e se retirou justamente em 1818, escrevia que deixava a sociedade com que tratara dotada de muito mais energia individual, de muito mais espírito de trabalho, de muito mais iniciativa (pushing). Os interesses particulares obravam e impeliam, tornando aguda e instante a luta econômica e social onde dantes havia apatia.

A paixão pela agricultura, pela indústria, pela mineração, por tudo quanto representasse progresso material e servisse de base à riqueza priva­da e pública, acendera-se por forma tal que perdera a noção do meio e chegava pela ambição a tingir-se de ingenuidade. Assim em 1816, a pro­pósito do Instituto Acadêmico planejado, se entendia e declarava que os jovens destinados à religião e à magistratura deveriam possuir "conheci­mentos de história natural, agricultura e artes de que ela depende", sendo os curas obrigados, antes de admitidos aos benefícios, a demonstrar, co­mo acontecia na Suécia com os pastores luteranos, ciência agronômica apli­cável ao ensino e aproveitamento dos seus fiéis.

Não existia ainda casa regular de instrução dessas matérias agronô­micas, mas já alguns conhecimentos técnicos se poderiam alcançar na au­la de agricultura e botânica que, a cargo do competente frei Leandro do Sacramento, começou a funcionar a 13 de março de 1815. Tinha lugar o curso, para o qual entravam alunos ordinários e voluntários, que estes não eram obrigados a exames nem a matrículas, no Passeio Público: "e em muitas tardes far-se-ão digressões pelos montes para estudá-los", dizia o edital que estabelecia esse "ensino de anatomia, fisiologia e classificação das plantas, princípios e prática da agricultura para instrução dos pro­prietários de engenhos e fazendas".

Pelo que respeita à proteção em si dos interesses agrícolas, desde 21 de janeiro de 1809 um alvará concedera aos habitantes do Brasil o privilé­gio de não serem executados na propriedade dos seus engenhos, fábrica e lavoura e somente em uma parte dos seus rendimentos.

Para levantar a mineração, muito abandonada desde que as minas escassearam ou entraram a produzir menos, fez o governo de Dom João VI administrativamente o possível. A carta regia de 12 de agosto de 1817 ao governador e capitão-general de Minas Gerais, D. Manoel de Portugal e Castro, ocupava-se, última em data de uma série de providências, da for­mação de sociedades destinadas a promover a lavra das minas de ouro: "empregando-se os fundos dessas sociedades, por conta das mesmas, no estabelecimento de lavras regulares e metódicas, mas debaixo da direção de um inspetor geral versado em ciência montanística e metalúrgica, no­meado pelo soberano. As referidas lavras serviriam ao mesmo tempo para instrução pública, patenteando-se aos habitantes as grandes vantagens que resultam do método científico dos trabalhos montanísticos, aproveitando-se os terrenos inutilizados e melhorando-se os métodos de mineração."

Se resultou platônica a recomendação e a mineração continuou em repouso, a culpa foi da falta de capitais, mais mesmo do que de atividade industrial. Os capitais particulares eram, neste sentido de disponíveis, à busca de colocação, nulos no Brasil. Na falta de um comércio extenso e proveitoso à economia nacional, que estava ainda e continua em forma­ção, constavam de terras que davam na melhor hipótese um rendimento absorvido pelas escravarias, sempre a renovarem-se, e pelas exigências cres­centes da vida social num meio em transformação.

O governo, por seu lado, não tinha dinheiro supérfluo752 para criar ou fomentar indústrias, por mais remuneradoras que as antecipasse. Suas únicas tentativas neste campo foram a fábrica ou fundição do Serro do Frio, mandada construir à custa da real fazenda pelo intendente geral do distrito diamantino, e a fábrica de ferro de Ipanema, igualmente de ini­ciativa do conde de Linhares, o qual em 1810, tendo notícia das extraordi­nárias quantidades de minério existentes naquela localidade paulista, man­dou ali estabelecer mineiros e fundidores suecos.

A manufatura de Ipanema produzia em 1817 quatro mil arrobas de ferro anuais, havendo contudo a fábrica sofrido extensões e passado por alterações e modificações importantes depois de confiada sua gerência ao

tenente-coronel alemão Varnhagen, que levantou uma fundição pelo cus­to de 300.000 cruzados e mandou vir da Alemanha fundidores para a exe­cução de trabalhos mais delicados.

Spix e Martius, que visitaram São Paulo exatamente quando estavam terminadas as novas construções e dado o novo impulso, relatam que a fábrica nunca rendera quanto se calculara a princípio, opinando uns que não era boa a qualidade do ferro depois de refinado e fundido, atribuindo outros o relativo malogro em parte talvez às comunicações difíceis e cer­tamente muito à concorrência dos produtos ingleses, tão favorecidos pelo tratado de 1810.

Em Minas Gerais pequenas fábricas particulares, levantadas sob a di­reção do barão de Eschwege, testemunhavam entretanto o custoso desper­tar industrial do Brasil, também revelado no melhoramento de estradas, no lançamento de pontes, na condução d’água potável para os centros de população, no aumento da tecelagem na mesma considerável província de Minas.

Uma carta-régia de 16 de janeiro de 1817 aprovava o estabelecimento da companhia de mineração de ferro de Cuiabá, dando estatutos para sua regulação, e insinuava a conveniência de mandar pessoas aprenderem a ar­te de fundir nas fábricas de São Paulo e Minas; outrossim recomendava que se perscrutasse a existência de minas de sal na capitania de Mato Grosso.

Outro assunto que como sabemos mereceu bastante a atenção do go­verno, foram as comunicações fluviais, as mais indicadas, as únicas indi­cadas mesmo num país de tão exageradas proporções, com um sistema hidrográfico perfeito, e quando se não achavam previstas na prática as estradas de ferro. Procurou-se com empenho ligar por esse meio, o mais possível, a costa com o interior, isto é com Goiás e Mato Grosso, quer pelo Amazonas e seus afluentes e sub-afluentes, quer pelo Tietê e Paraná e daí por diferentes rios mais ou menos navegáveis indo dar no São Lourenço e Cuiabá.

A carta-régia de 5 de setembro de 1811, expedida ao governador e capitão-general de Goiás, sancionava o plano de organização de uma so­ciedade de comércio entre a referida capitania e a do Pará, e concedia pri­vilégios aos acionistas. Reportando-se com louvores a tal tentativa, Hipó-lito propugnava no Correio a idéia de uma capital central, perto das cabe­ceiras dos grandes rios, que se deviam tornar inteiramente navegáveis, e clamava uma vez mais por legislação liberal que atraísse uma imigração estrangeira mais profícua e estável do que a meramente composta de ne­gociantes — "cuja pátria são a carteira e o escritório".753

 

Com vista nestes resultados práticos arranjaram-se explorações na­cionais que o governo muito animava, como animava até certo ponto as missões estrangeiras que acudiam seduzidas pela novidade e cativadas pe­lo interesse do país. Algumas das últimas deixaram nome ilustre nos fas-tos científicos: a austríaca e a bávara entre outras que acompanharam a arquiduquesa Leopoldina em 1817, composta a segunda dos célebres na­turalistas Spix e Martius, abrangendo a primeira, preparada por Van Schrei-bers, diretor do Museu Imperial de História Natural de Viena, o profes­sor Míkan, de Praga, encarregado da parte botânica e da entomologia; Pohl, da mineralogia; Natterer, da zoologia; Ender, pintor paisagista; Buck-berger, pintor botânico, e Schost, horticultor.

Por conta própria mesmo o governo de Dom João VI, intolerante neste assunto só quando se lhe despertava a desconfiança, subvencionava ex­plorações feitas por estrangeiros distintos ou competentes. Assim, por de­creto de 1 de julho de 1815, mandou pensionar dois naturalistas alemães, Freyzen e Sellow, com 400.000 réis anuais para estimular seus trabalhos, ‘ ‘com obrigação de apresentarem nesta corte no fim de cada uma das suas viagens, não somente a memória descritiva delas, mas os exemplares de todos os objetos que tiverem analisado e coligido, os quais serão recebi­dos no real gabinete, que para este fim me proponho mandar estabele­cer". Assim anunciava o rei a fundação no Rio de Janeiro do Museu Na­cional, que veio a prestar serviços tão inquestionáveis à nossa história na­tural, antropologia e etnografia.

O Jardim Botânico (a princípio Real Horto), plantado originariamente para introduzir no Brasil a cultura de especiarias das índias Orientais, no lugar do engenho de Rodrigo de Freitas onde também se montara uma fábrica de pólvora, foi outra criação de Dom João VI cujos resultados científicos têm sido consideráveis e são inesgotáveis. Esse jardim que in­teressava o seu fundador ao ponto de, segundo se conta, aí passar dias inteiros, abrigou numerosas plantas exóticas e aclimou várias que hoje ad­miramos e usufruímos, tendo sido outras perdido por abandono. No nú­mero, das aproveitadas e das desamparadas, entram a cana de Caiena, o chá, a palmeira real — assim chamada por haver sido plantada pela regias mãos — o abacate, o olho de boi e o litchi da China, a canforeira, o cravo da índia, a fruta-pão, a noz moscada, o cajá-manga, a fruta do conde, a pimenta do reino, a carambola, a amoreira etc.754

Filiais do Jardim foram mandadas dispor em Pernambuco, Bahia, Mi­nas Gerais e São Paulo, dirigidas, a primeira pelo agrônomo francês Paulo Germain, vindo de Caiena,755 e a última pelo suíço João Baptista Badaró.

É natural que explorações geográficas, cultivo de ciências naturais, experiências agrícolas, leituras mais extensas e folgadas e um feitio de vi­da mais prático e desafogado redundassem numa produção intelectual mais característica e proveitosa do que exclusivamente a de sermões, panegíricos, ditirambos, elegias e discursos acadêmicos. De fato, se percorrermos o rol das edições da Tipografia Régia de 1808 a 1821, encontraremos, afo­ra as dulcíficas, todavia esclarecidas e progressivas observações comerciais e econômicas de José da Silva Lisboa (1808-10) e além de traduções de Yoltaire, Bernardin de Saint-Pierre e Delille (1811) autores muito ao gosto do tempo, dos infalíveis elogios históricos e orações fúnebres, e do poema Assunção da Virgem de frei Francisco de São Carlos (1819), misto de reli­giosidade e pompa retórica promissivo do palavroso romantismo cristão: roteiros como o de Silva Belfort, do Maranhão ao Rio (1810), e o de Oli­veira Bastos, de Santa Maria de Belém pelo rio Tocantins (1811); os esca­los profissionais de Vicente Navarro de Andrade756 e Correia Picanço;757 a tradução da Álgebra de Lacroix (1812); a da Mecânica de Francoeur por J. Saturnino da Costa Pereira (1813); a da Física de Hauy (1813); a da Eco­nomia política moderna de Herrenschewand; as elevadas preleções filosó­ficas de Silvestre Pinheiro Ferreira (1813);758 a Corografia do padre Aires do Casal sobre que se basearam tantas obras estrangeiras em matéria de geografia brasileira, e as Memórias históricas do Rio de Janeiro de Mon­senhor Pizarro, áridas no estilo mas fecundas com respeito a documentos e informações.759

Literariamente, porém, nada melhor reflete essa época de remodela­ção política e mais ainda social, e de inovação intelectual que, consciente ou instintiva, representa para o Brasil e sobretudo para a sua capital a trans­ferência da sede da monarquia, do que O patriota, revista precursora do Panorama de Lisboa, cuja publicação se encetou em 1813 e onde se en­contram conhecimentos úteis, variedades históricas, notas de explorações e trabalhos profissionais de botânica, medicina e outras ciências. O pa­triota foi a revista adequada à sociedade e ao momento histórico de Dom João VI no seu reinado americano. Correspondeu precisamente à curiosi­dade de saber que por esse tempo se desdobrou mercê do levantamento do nível nacional, e à expansão que no Brasil tomaram os estudos agríco­las, industriais, higiênicos, químicos, geográficos e outros dantes descurados, como se, na frase do editor, "a posição física retardasse a luz a che­gar ao nosso horizonte".760

A secção restritamente literária abrangia máximas do futuro marquês de Maricá, poesias novas ou conservadas inéditas de Bocage, Filinto Elisio, Dimz, Antônio Ribeiro dos Santos, Silva Alvarenga. Borges de Bar-ros (Pedra Branca). Se bem que nos pareça assaz repleta do mau gosto: da época, com todas suas amplificações retóricas e exageros cortesãos, es­sa secção era contudo em demasia reduzida para o que costuma ser a exi­gência do público numa terra de ingênita verbosidade e de intoxicaçãc sentimental.

Seria por isso que durou pouco a publicação, ano e meio apenas? O tom geral da revista não podia entretanto deixar de ser simpático, pois tra­duzia antes a preocupação, que com efeito aparecia geral e aguda, de dila-tar.a produção e comércio doméstico do Brasil, estendendo o seu povoa­mento pelo interior, cuja descrição se intentava e executava de acordo com explorações então recentes. As capitanias de Goiás, Mato Grosso, Piau: e Pará761 atraíam naquele tempo mais a atenção do que as do litoral, g não tanto pelo ouro que as duas primeiras produziam em pequena escala, como pelo gado que nelas todas se poderia criar, pelas lavouras que se poderiam propagar nas suas extensões, pelas culturas que se poderiam en­saiar nos seus climas.

Dir-se-ia que recuamos desta posição, porque é sempre recuar me­nosprezar o desenvolvimento dos possíveis recursos nacionais. A navega­ção a vapor e o telégrafo elétrico aproximaram-nos demais da Europa e distanciaram-nos do nosso próprio sertão. Nos começos do século XIX ainda se procurava, porém, com afã utilizar as vias fluviais e desbrava: vias terrestres em toda a superfície do país,762 com o fito de formar de Brasil um todo uno, compacto, forte, poderoso e agressivo.

O simples título da revista — O patriota — é também uma indicação inequívoca do quanto politicamente tinham mudado os tempos: já não arrepiava as carnes esse termo de cunho revolucionário, dantes proscrito sem remissão. E tão pouco escapava a observação aos contemporâneos que por este motivo escrevia Hipólito763 com muita razão: "Por mais in­significante que pareça a circunstância de se deixar correr um jornal com o nome de Patriota, ou permitir-se uma tradução da Henríada, nós julga­mos isto matéria de importância; porque é seguro indício, de que o terror inspirado pela Revolução Francesa, que fazia desatender a toda a propo­sição de reformas, principia a abater-se, e já se não olha para as idéias de melhoramento das instituições públicas, como tendentes à anarquia. em vez de servirem à firmeza do governo."

A divulgação das noções científicas e de economia social não ficou de resto sem resultados palpáveis. Assim, introduziu-se e aplicou-se no Bra­sil a vacina, contra a qual existiam as mais fortes prevenções, sobretudo na Inglaterra, onde até protestavam violentamente contra a inoculação os reais colégios de cirurgiões de Londres e Dublin, e se manifestava a pró­pria repugnância pessoal de Dom João VI, que pelo menos em 1807, an­tes de se mudar para o Brasil, chegou a mandar imprimir à sua custa um folheto desacreditando semelhante prática preventiva.

Outro tanto aconteceu no domínio da caridade pública. A Santa Ca­sa da Misericórdia instalou uma enfermaria especial para loucos, outra para mulheres. Separou-se a seção dos órfãos, fundou-se um recolhimen­to para os do sexo feminino e abriu-se um lazareto, onde em 1818 existiam 84 leprosos pobres. A Casa dos Expostos, em que as amas eram negras alugadas, cujos senhores percebiam os salários, oferecia mais do que lim­peza, certo capricho no conforto. Aliás a Santa Casa e suas dependências produziam sempre o melhor efeito sobre os visitantes estrangeiros pela sua cuidada conservação. Debret, entre outros, elogia sem reservas os hospi­tais brasileiros do tempo.

Em domínio algum todavia como no militar se apresentava mais vivo o contraste entre o que era o Brasil em 1808 e o que passava a ser em 1818. O apoucado dos recursos de defesa e a inferioridade dos instrumentos de ataque, vimos que foram os motivos principais da política vacilante do príncipe regente com relação à incorporação da Banda Oriental, até que pôde dispor em 1816 dos seus veteranos das campanhas continentais con­tra Napoleão. Só então lhe foi dado reforçar a expressão do seu feliz en­saio de imperialismo, que deu ao novo reino sua fronteira necessária, para isto afrontando o ciúme dos regulares brasileiros, cujos regimentos no entanto só conseguiam encher seus claros mediante levas forçadas.

O espetáculo militar diferia não obstante muito do colonial, e Linha­res, se estivesse vivo, de certo exultaria de ver que não ficara perdido ou inútil seu primeiro impulso com vista na fundação do poderio militar que devia servir de base à grandeza do Brasil, fornecido com a criação da Aca­demia Militar e outras providências tomadas no seu ministério, e que se foram ligando e fortalecendo e frutificando, não descurando sequer o so­lícito estadista a condição das famílias dos soldados.

Também a melhoria fora pronta e sensível, tanto pelo lado da administração, que se tornou mais zelosa e eficiente, posto na guerra de Montevidéu ocorresse ainda p fato, narrado por Luccock, de remeterem-se balas e cartuchos desproporcionados aos fuzis; como pelo lado profissional, para o que vieram contribuir muito, imediatamente antes da campanha contra Artigas, o desvelo e competência de Beresford, o qual tendo ido em pessoa ao Rio de Janeiro solicitar do rei recompensas para as forças portuguesas vitoriosas na guerra peninsular, disciplinou e remodelou quan­to pôde no curto prazo da sua estada o pequeno exército brasileiro, ten­tando incutir-lhe o essencial espírito militar que lhe faltava.

Ao visitar o Rio em 1813, no ano seguinte ao da morte de Linhares, a fragata Nisus, achara Prior,764 que não fazia cerimônia em pôr defeitos no que via, a guarnição, além de considerável na aparência, bem unifor­mizada e disciplinada. O príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied, que era da profissão e combatera contra os exércitos napoleônicos, comparava, porém, ainda desfavoravelmente poucos anos depois o aspecto, que achou soberbo, dos regimentos vindos de Lisboa — os aguerridos voluntários reais — com o dos regimentos brasileiros, no seu dizer "efeminado e im­potente". Em 1819 von Leithold,765 o oficial prussiano, cunhado de Sil­vestre Pinheiro Ferreira, apenas se mostrou impressionado, em matéria mi­litar, pelo brilho exagerado de alguns dos fardamentos, repetindo o que ouvira no tocante à valia do estado-maior, que se dividia em duas partes, uma que dormia e outra que velava.

Para quem tivesse acompanhado as cousas desde o começo, a trans­formação apareceria apreciável em todos os departamentos militares, e se é fato que a vida dos quartéis e acampamentos continuava a mostrar não possuir sedução para a gente da terra, a não lhe falar absolutamente à al­ma, também é verdade que a vida de soldado não encerrava entre nós com­pensações, nem oferecia garantias de espécie alguma.

Os voluntários faziam seus contratos por seis e oito anos: os recruta­dos, que serviam indefinidamente, quando obtinham baixa por enfermidade ou velhice, viam-se reduzidos a mendigar pela ruas. É quase inútil ajuntar que a lei de recrutamento se não aplicava com severidade, nem mesmo com exatidão. Os comandantes de distritos, incubidos desse serviço público, por interesse ou condescendência isentavam indivíduos sãos e capazes para alis­tarem indivíduos débeis e mal conformados, somente porque não tinham dinheiro nem contavam com proteções. E, conquanto semelhantes abusos fossem bem patentes, continuava a situação no mesmo pé porque, na frase mordaz do viajante L. de Freycinet,766 o defeito da administração portu­guesa, transmitido à brasileira, consistia em seguir à risca a máxima de "evi­tar todo escândalo e não comprometer pessoa alguma (eviter tout ce qui peut faire de 1′éclat et ne compromettre personne)".

O essencial parecia residir em não fazer novidade. Por isso os qua­dros nunca se encontravam completos, e aliás era de toda conveniência para a boa economia dos regimentos conservarem-se os efetivos — que deviam compor-se em cada caso de 1.557 homens — muito abaixo do limite normal, não excedendo freqüentemente de 400 soldados, visto o es­tado pagar os 20 réis diários para fardamento, além dos 70 réis do soldo, sobre a base de 600 homens em regimento.

D. João VI melhorou muitas dessas faltas capitais da organização mi­litar, assegurando aos soldados, com a baixa, reformas e pensões e, crian­do estabelecimentos de inválidos. No que diz respeito ao velho reino, o comando estrangeiro — tradicional recurso de que se valera Pombal com o conde de Lippe, em que pensara o príncipe regente com Waldeck e que aplicou Beresford — foi indubitavelmente um bem, porquanto sob ele, que era a teoria, e ajuntando-se a prática da guerra, o soldado português, sem nada perder do seu denodo, aperfeiçoou o seu garbo militar e aprendeu a manobrar com mais precisão, assim lucrando também debaixo do ponto de vista técnico.

Pondera todavia Freycinet, dos mais conscienciosos e bem informa­dos visitantes do Brasil de Dom João VI, que o soldado português cujos predicados principais eram, além da bravura, a subordinação e a sobrie­dade, perdera justamente em relação a estes aspectos, tornando-se menos temperante, exigente e muitas vezes indisciplinado (mutin), por haverem-no os chefes estrangeiros, o interesse dos quais estava em captar a con­fiança e a estima da força da nação, afeito a contínuas reclamações e des­te modo levado a despir-se da antiga e ilimitada docilidade.767

O importante porém era que o Reino Unido de Portugal e Brasil con­tava agora com um exército moldado por uma composição militar. Vimos como foi especialmente satisfatória a exibição bélica por ocasião da revo­lução pernambucana; como foram os seus arranjos executados de um modo firme e decidido, desenvolvendo o próprio rei, contra seus hábitos comodistas, notável atividade física nas visitas seguidas aos quartéis e aos ar­mazéns. Não deixa de ser curioso e sugestivo que do mesmo Rio de Janei­ro onde, por ocasião da chegada da corte, parecia até difícil manter-se uma guarnição insignificante por falta de matéria-prima elementar saíssem, em 1816 uma considerável expedição militar e naval contra os rebeldes estran­geiros do Uruguai e em 1817 outra quase tão considerável contra os rebel­des nacionais de Pernambuco; logrando a primeira cumprir seu progra­ma, que era de anexar ao Brasil a cobiçada ,768 e só não cabendo à segunda a honra de repor a autoridade real nas capitanias re­voltadas, por já estar completa a tarefa com os elementos locais.

Ambas as expedições forneceram contudo testemunho positivo do vi­gor militar, natural ou artificialmente, adquirido pelo Reino americano, e que com o Império se extenuou sem maiores esforços. Nem isso ficara

o Rio de Janeiro desprotegido: a sua guarnição, segundo Luccock, passou a ser suprida, afora alguns corpos regulares que ainda permaneceram, por milícias do interior, rendidas todos os meses, e cuja aparência e disciplina igualmente se tinham reformado, regressando outrossim os milicianos, da capital para seus sertões ou campos, com hábitos menos atrasados e idéias progressivas.

Esta reflexão do citado autor inglês é feliz: precisamente uma das van­tagens da residência da corte no Rio de Janeiro foi essa, de permitir uma influência mais direta, mais sugestiva e mais eficaz sobre os costumes e o pensar da totalidade do Brasil. A transferência da sede da monarquia podia ter produzido o efeito, de certo modo contrário ao progresso nacio­nal, de desviar a atenção da periferia para o centro, acabando com as li­gações independentes das capitanias com a metrópole portuguesa e retar­dando portanto o seu desenvolvimento paralelo e autônomo, além de onerá-las com encargos suplementares, quando as vantagens da permanência da corte eram auferidas pela nova metrópole, a brasileira.

Por outro lado porém, a trasladação veio emprestar ao país aquilo que lhe faltava para entrar nessa categoria, uma capital convergente e pro­pulsora que enfeixasse as aspirações e as tornasse harmônicas. Os deputa­dos das câmaras municipais das províncias que concorreram ao Rio de Janeiro para agradecer a Dom João a elevação do Brasil a reino, eram os portadores na grande maioria inconscientes destes votos de unidade polí­tica sob que se aninhavam e medravam ambições de perfeita soberania, quando o monarca julgava ter-lhes ido ao encontro, fazendo do Brasil a parte preponderante do império lusitano.

Ponto Central do círculo que abrange

As plagas quatro em que teu solio firmas,

Divergerás fulgor almo e Divino,

E a ti convergerá do espaço imenso

Espontânea homenage igual aos Evos.769

É fácil prever o resultado que teria tido a crise de federalismo, se não fosse a robustez do sentimento unitário e patriótico cristalizado com a mu­dança do trono português para a América. Um dos poetastros que perpe­tuavam a tradição dos vates palacianos no meio fluminense, sempre indi­ferente quando não hostil aos seus encômios cortesãos, feria entretanto a justa tecla, quando exclamava no ápice do seu curto estro:

 

Três séculos havia

Fora a planta lançada

Do Brasílico novo vasto império;

Mas, árvore deixada à natureza,

Crescia vagarosa:

Benigna sobra lh’era

Mais que tudo precisa: eis chegas, toma

Novo viço e vigor, e já robusta

Não receia tufões de bravos Euros:

            Tens de grandes destinos

Nobre porção cumprido!

Que monarca europeu transpôs o oceano,

E à quarta parte nova há dado a glória

De possuir um trono?

Tu primeiro te aclamas

Entre Povos que nem pensá-lo ousavam!…

Mas a Lísia reservas mór ventura: Um dia… Aqui silêncio m’impõe Febo!770

Não esqueçamos porém que não só do batismo militar do Brasil-reino foi padrinho o exército das campanhas peninsulares, como que de 1816 a 1820 foi contínuo, por instruções da corte, o afluxo de tropas portuguesas ao Brasil, inspirando confiança aos portugueses que já se arreceavam das idéias separatistas, e insulando despeito nos brasileiros que enxergavam nas forças transplantadas um precioso instrumento de jugo e opressão.771

Refere Luccock que a esquadra em 1818 se achava muito aumentada, pois desde o ano de 1813 se lhe tinham agregado, em que pese às informa­ções oficiais de Maler, importantes unidades, construídas as mais delas no Rio e na Bahia, onde já nos tempos coloniais se fabricavam navios. Luccock porventura força neste ponto a nota otimista, mas é fato que Türn-bull, o qual fez de 1800 a 1804 uma viagem em redor do mundo, estando no Brasil, fala com muitos elogios do arsenal da Bahia, em cujo estaleiro encontrou uma nau de 64 chamada príncipe do Brasil, admiravelmente construída com madeira do país. "Concebo que é de justiça acrescentar — escrevia ele772 — que este navio me pareceu uma completíssima, e bem acabada peça de mão d’obra; e juntamente com a sua elegância, combi­nava fortaleza e substância, que se não podem exceder, e comumente não se igualam nos estaleiros da Europa."

 

Em 1818, além de novos navios lançados ao mar, tinham sido repara­dos os velhos, remodelado o almirantado, restauradas as fortalezas de Santa Cruz e Villegaignon, armazenada a artilharia pesada na ilha das Cobras, levantadas novas baterias de defesa em posições estratégicas, edificados quartéis, artilhadas as praias. Assim nos informa Luccock, e a sua infor­mação discordante da de Maler e mais fidedigna por ser a de um homem do mundo comercial indiferente a questões exclusivamente políticas, indi­ca que o agente diplomático via e julgava a expansão portuguesa na Amé­rica, muito melhor aparelhada como estava sendo, pelo prisma deturpa-dor do seu legitimismo e do seu europeanismo, igualmente infensos à li­bertação da América espanhola e ao engrandecimento no Novo Mundo de uma potência que já não era colônia, mas sim a metade melhor da mo­narquia portuguesa.

Acresce que a França da Restauração, esquecida de que sob os Bour-bons se tinham deixado perder o Canadá, a Acádia e a Lousiania, afora no Oriente a índia, não perdoava a Buonaparte a venda aos Estados Uni­dos do imenso território d’além-Mississipi, que o imperador não podia manter francês sem esquadras, e que sobretudo desejou resguardar de uma conquista inglesa, a qual seria inevitável, alargando-se então extraordina­riamente a esfera do domínio britânico na América setentrional, em de­trimento das suas ex-colônias, cuja doutrina fundamental externa ainda lhes não fora dado condensar, nem o seria até Monroe, vinte anos depois da compra da Lousiania.

Uma das ilustrações da marinha nacional, o Sr. almirante Jaceguai, observa com muita inteligência no seu estudo sobre a formação da arma­da brasileira773 que "de todas as colônias americanas a única que, por ocasião de emancipar-se, possuía elementos para lutar contra o poder na­val da metrópole foi o Brasil, circunstância esta ainda não notada explici­tamente por nenhum historiador, mas que talvez tenha sido a que influiu mais poderosamente para abreviar a nossa completa independência política".

Aqueles elementos foram os deixados pelo governo de Dom João VI nesse Rio de Janeiro que se tornara o centro dos recursos navais da nação, mesmo porque era a verdadeira capital do Reino Unido e porque se dissolvera o estabelecimento marítimo de Portugal. Trouxera consigo o príncipe regente todos os bons elementos da armada, navios e pessoal, — lembra ainda o Sr. Jaceguai — só deixando as embarcações imprestá­veis. Quando porém regressou, levava o rei apenas uma fração da arma­da luso-brasileira: o que ficava774 constituiu o núcleo da marinha imperial, sendo já nacional pelo espírito quando não pelo nascimento. Essa marinha de guerra, herdada do reino do Brasil, foi na crise da Indepen­dência o instrumento mais adequado e mais oportuno da unidade políti­ca quando ainda o composto oferecia o perigo de desagregar-se.

Na administração da justiça foram menos sensíveis as reformas por­que o mal jazia na natureza mesma das cousas, e só o tratamento mais enérgico, mais radical, o poderia debelar. Com sua habitual mordacidade de funcionário mal pago e que, consoante suas queixas, ainda recebia com dificuldade seus parcos vencimentos,775 escrevia Maler por esse tempo776 que no Brasil por toda parte havia juízes sem haver tribunais, por toda parte havia administradores sem haver administração. Nas cidades princi­pais existiam uns fantasmas de corporações municipais chamadas Sena­dos, cujas funções mais importantes consistiam porém em votar fundos para cerimônias públicas.

Logo, dando a mão à sua crítica, ponderava o cônsul-encarregado de negócios ser assim sem apoio, sem ligações, que o governo do Rio ca­minhava ou melhor se arrastava, esquecido do passado e destemeroso do presente: "Já olvidou as causas que revolucionaram a Europa e o força­ram a refugiar-se sob o trópico, e sem inquietação vê estas mesmas causas agitarem tudo quanto o cerca."

Nos tribunais superiores do reino do Brasil encontrava-se comumente espírito de eqüidade, no sentido que seus membros não eram no geral acessíveis ao suborno e se contentavam, na pior hipótese, com serem sub­servientes ao governo do qual dependiam por completo. Nos juízos infe­riores, entretanto, a venalidade não era cousa rara, declarando alguns dos magistrados sem rebuço que os seus lugares constavam como vencimen­tos de emolumentos que as partes deviam pagar, visto os ordenados serem ridículos para os gastos que a corte reclamava dos distribuidores da real justiça.

Contudo neste terreno também se conheceram vantagens. Muitos juízes de fora foram criados para uma mais pronta e acertada distribuição dos julgamentos; novas comarcas fundadas com partes das antigas divi­sões judiciais, por serem estas em demasia extensas e impossibilitarem as correições dos ouvidores; os processos tornados mais sumários e menos demoradas as demandas, apenas chegando à capital as de maior monta e sendo as outras resolvidas pelos ouvidores das comarcas e governadores das capitanias, depois províncias.777

A criminalidade era grande, porque somente de vinganças havia abun­dância, e pareciam elas até naturais numa sociedade como essa, mais desorganizada que primitiva, porque os moldes rígidos da legislação não as­seguravam sós a solidez do composto. Primitiva também até certo ponto se a poderia chamar, pois que era o sopro poderoso da livre natureza que sacudia a dureza da administração, mitigando-lhe a ação, e era a sua alma em boa parte feita de paixões mal reprimidas, para corrigir as quais só dispunha o estado de uma justiça morosa, não em absoluto respeitável, e dispersa na vastidão territorial da ex-colônia.

A polícia agia entretanto com rigor na forma por que a concebera e organizara a monarquia portuguesa, esforçando-se por manter a segu­rança pública e também a moralidade, visto que se empenhava particular­mente em reprimir o jogo. O próprio governo porém, invocando motivos financeiros, estabeleceu com suas loterias mensais uma detestável forma de jogo que criou as mais fortes raízes.

Os crimes eram de ordinário mais de natureza sentimental do que de interesse. Nos campos, afora gado, não havia mesmo muito que roubar, e as questões de terras não eram vulgares, não só porque sobrava espaço, como porque se respeitavam as propriedades quando ofereciam 60 anos de ocupação contínua e indisputada na família, sendo considerado tal pe­ríodo título suficiente de posse. Nem se pode dizer que fosse ligeira a ga­rantia num país de exploração progressiva, ocupação indisciplinada e fal­ta de tradições locais.

Avesso a rei a assinar sentenças capitais778 e não existindo ainda a prisão celular, a punição exercia-se pela prisão comum, a degradação e o degredo.

Nas cidades o crescimento da população pela afluência do interior e de fora, trazendo na enxurrada os melhores elementos e igualmente os piores, determinara um aumento positivo da criminalidade. A proporção devia ter ficado sem alteração nos campos, cuja vida seguira praticamente a mesma, no seu acanhamento de produzir pouco e consumir pouco. Já por este motivo, já pelo fato de mais emigrar então a gente urbana que a rural, muito apegada à terra, era a tendência toda para a aglomeração nas cidades dos imigrantes, na grande maioria artesanos.

Por mais que isto prejudicasse a agricultura e que fosse mister ir sal­dando as importações crescentes do luxo dos centros com o excesso da produção do solo, o governo nada podia contra esse defeito de distribui­ção originado na própria natureza da colonização e no maior atrativo exer­cido pelas cidades, num país sobretudo tão despovoado, inculto e atrasa­do como o Brasil.

Nem corria risco daqueles artífices, conforme mostrava Maler recear prejudicarem-se uns aos outros e lograrem apenas vegetar, quando se lhe depararia tanta ocupação numa terra até aí. fechada e agora em franco progresso. Os imigrantes de alguns cabedais, colocavam-nos logo em es­peculações no comércio, e aos desprovidos de recursos pecuniários, mas não de um mister, bastariam as obras particulares, sem falar nas públicas.

Não é de surpreender que, no balanço dado a um tão geral adianta­mento, a cidade mesma do Rio de Janeiro, a capital do novo reino, se apre­sente com um largo crédito ao seu ativo. A transformação de então foi, para o tempo e dado o desconto devido à diferença das idéias e dos meios, tão considerável como a que acabamos de presenciar. Remoçara e arrebiçara-se a cidade que Prior descrevia em 1813 formada de edifícios sujos, fortes desmantelados, habitações arruinadas e paredes nuas, horrorizando-se sobretudo da parte comercial, retrato da devastação, vis­to os portugueses, no seu dizer, fazerem da mercância e da porcaria com­panheiras inseparáveis.

Marrocos repetidas vezes fala nas suas cartas de trabalhos de aformoseamento intentados pela corte: "… sempre aqui se projeta em obras, e obras grandes: o Palácio de S. Cristóvão está muito adiantado: o de Santa Cruz vai a reformar-se e aumentar-se: há plano pronto para um palácio novo no sítio chamado a Ponta do Caju, orçando-se a obra em 17 milhões. A capela R. vai a dourar-se toda, … A Sra. D. Carlota vai para o palácio, em que habitou o conde das Galvêas, no sítio de Mata Porcos, que se está preparando, como foi o de Andaraí… "779

Muitas vezes, como é vezo nosso, as obras não passavam do projeto, ou os projetos não passavam da metade,780 mas noutros casos o planeja­do se executava e a corte ia sempre ganhando em exterioridade e decência. Nem podiam desaparecer como por encanto os defeitos essenciais da edi­ficação fluminense: a aglomeração das habitações, igrejas e o mais nas depressões formadas entre os morros donde, por ocasião das grandes chu­vas, descia a água aos borbotões, carregando as impurezas da cidade e algumas vezes também as casas antigas e estragadas,781 e a falta de gosto arquitetônico, reflexo do temperamento pouco artístico e da nenhuma edu­cação artística, parecendo até, na frase cáustica de Prior, que fosse impie-dade a elegância e o asseio pecado.

Mas depressa se corrigiriam as faltas se não fosse que, dos fidalgos da corte, pouquíssimos se interessavam pelos melhoramentos do Rio de Janeiro, pois lhes tardava sobremodo voltarem para Lisboa, donde se di­ria que tinha importado, para impiedosamente zelá-lo, algum do lixo me­tropolitano.782 Ainda assim, no período embora de expectativa de regresso, alguns, mui raros, contribuíram por este ou aquele motivo, por vonta­de ou por necessidade, para o embelezamento da sede ultramarina da monarquia.783

Não se podia, é bem de ver, passar a vida inteira em recordações sau­dosas do passado ou mesmo risonhas esperanças do porvir. O presente tinha suas exigências, e era mister ir tratando de fazê-lo agradável aí mes­mo, nesse desterro colonial que podia ainda durar anos. A mocidade so­bretudo, que não tinha as mesmas razões para tristezas e decepções adre­de exageradas, reclamava seus folgares e suas distrações. Por isso escrevia Marrocos754 que "a toda a pressa se está aprontando uma casa de Ópera particular no sítio de Botafogo, para divertimento de SS. AA. as meni­nas; e das fidalgas suas criadas: os representantes são os mesmos fidalgos rapazes, que fazem figuras utriusque sexus; e é muito natural que as fidal­gas moças os vistam, ornem e enfeitem, tudo grátis. Já se repartiram as partes; e me parece cousa muito digna que eles se ocupem num exercício, que no tempo presente lhes é bem análogo, visto que vão já a sair os fran­ceses da Península: e alguns daí vieram mui fatigados com o peso das ar­mas."

Pondo de lado as maldades do correspondente, vê-se que a vida de corte assim espontaneamente renascera, pois que a praia de Botafogo, onde dantes apenas viviam nas suas cabanas ciganos e pescadores, já era lugar de tão aristocráticos folguedos. E foros tais de largueza foi ga­nhando a convivência que, poucos anos depois, mandava o mesmo irô­nico cronista755 esta relação de uma festa brilhante oferecida à Princesa Dona Carlota: "S. A. R. a Sra. princesa D. Carlota com suas filhas e as competentes criadas foram passar um dia inteiro ao palácio novo de visconde de V.ª Nª da rainha, no sítio de Botafogo, por convite do mes­mo visconde; e foi a maior pompa que se tem observado pelo que per­tence a mesa e recreio, para obsequiar a SS. AA…. Excelente orquestra vocal e instrumental. Dança, refrescos, e tudo o mais que deveria soleni zar aquele dia, de tudo o visconde lançou mão, para se distinguir mais do conde da Louzã, e findou o divertimento pelas três horas da madru­gada do dia seguinte. S. A. R. se dignou a conferir-lhe a Nova Ordem Espanhola de Santa Isabel Americana: e passados poucos dias renovou a sua visita, com a diferença de não levar criadas, e foi igualmente servi da com a mesma magnificência."

Se o príncipe regente fosse, por seu lado, mais amigo de ostentação, a corte retomaria certamente todo o seu relativo esplendor lisboeta, esse aspecto de grandeza e decadência que lhe era peculiar e a que um observador inglês do tempo aplicava com felicidade a denominação composta e contraditória de shabby-genteel (mesquinho-garboso). Dom João era, po­rém, pessoalmente pouco inclinado a pompas, que só tolerava — e então até as estimulava e apreciava — em ocasiões excepcionais como as da sua aclamação e do casamento do herdeiro e filho predileto. No diário dis­pensava as magnificências posto que não as etiquetas, e bastantes vezes buscava até na simplicidade, que o tornava tão acessível, refúgio e distra­ção das fadigas, convenções e tédios da sua existência oficial.

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