Consciênia - Filosofia e Ciências Humanas

Pesquise livros no UOL!
Platão Aristóteles Descartes Rousseau Nietzsche Marx



A FORMAÇÃO ÉTNICA - História do Brasil - Ary da Matta

Guarde ou compartilhe este endereço

História do Brasil -Manual Didático para a Terceira Série Ginasial por Ary da Matta (1947)

UNIDADE III
A FORMAÇÃO ÉTNICA
1.0 elemento branco; 2. O indígena brasileiro; 3. O negro; 4. A etnia brasileira.


A etnia brasileira formou-se do contacto de raças, línguas e culturas diíerentes correspondentes aos grupos de imigração caucasóide, negróide e dos mongolóides já existentes na América em período muito anterior à época dos descobrimentos.
O elemento branco foi representado predominantemente pelos portugueses peninsulares e ilhéus. Os negros provenientes da Africa eram originários dos grupos linguisticos sudaneses e bantos que aportaram ao Brasil desde a 3ª década de colonização. Os, estoques mongolóides aqui existentes e que logo entram em contacto com os outros elementos foram os do grupo linguístico tupi, jé, aruacos, caribas, panos, e guaicurus.
Não se tardou a verificar o fenômeno da mestiçagem provocado pelo contacto biológico de raças diferentes e os fenómenos de aculturação, resultante do contacto de culturas diferentes.
Assim, aos poucos, um novo tipo físico foi-se delineando nas terras do Brasil, muito longe ainda de constituir uma raça mas que já possui essenciais características de uma etnia.

1. O elemento branco

Ao lado do negro importado da África e do indígena aqui encontrado veio formar o elemento branco europeu, representante da cultura ocidental, na colonização de nossa terra. Entre eles se verificou a influência predominante da etnia portuguesa cuja formação já mereceu nossa atenção anteriormente.

Foram os colonos portugueses do Brasil provenientes de três centros emigratóríos: 1) Peninsulares meridionais (Alentejo, Extremadura e Algarve ofereceram maiores e mais influentes contingentes); 2) Peninsulares setentrionais (Beira Alta, Beira Baixa, Minho, Douro, Trás-os-Montes); 3) Ilhoa (Madeira, Cabo Verde e Açores, principalmente este último, cuja influência na formação de nossa etnia ainda não foi convenientemente estudada).

Historicamente, os primeiros elementos brancos aqui chegados são os dois degredados contemporâneos do descobrimento, abandonados por Cabral em Porto Seguro ao retomar o roteiro da Índia.

Náufragos, desertores ou degredados de origem portuguesa foram encontrados regularmente pelos colonizadores. Alguns deles, identificados com os naturais, prestaram bons serviços à colonização, como o famoso Diogo Álvares Correia, o Caramuru, radicado na Bahia, próximo à foz do rio Vermelho, ao sul do local da futura Salvador; João Ramalho em São Vicente, casado com Bartira, filha do chefe Tibiriçá, e que auxiliou Martim Afonso na fundação da Vila e foi o primeiro alcaide de Santo André da Borda do Campo; o célebre Bacharel de Cananéia, de nome e procedência discutíveis; Chico Chaves (Francisco Chaves), encontrado também ao sul por Martim Afonso de Sousa.

Refere Southey que regularmente eram enviados para o Brasil, todos os anos, 400 degredados. Há patente exagero em se considerar a influência destes colonos {orçados na formação social brasileira. Mesmo que o número fosse grande (o que aliás não é verdade), vale a pena lembrar que os condenados por crimes inalcançáveis eram justiçados mesmo em Portugal ou cumpriam degredo na África e na índia. Degredados para o Brasil foram réus primários, acusados de crimes políticos ou de delitos leves. (Não vinham réus de heresia, sodomia, traição, moeda falsa).

Imigração espontânea. — A imigração espontânea para o Brasil só se iniciou a partir de 1530 com a expedição de Martim Afonso de Sousa. Para a vila de São Vicente, por êle fundada em 1532, vieram nobres em grande quantidade e homens livres, conforme atestam os cronistas e linhagistas Frei Gaspar de Madre de Deus, Pedro Taques de Almeida Pais Leme, Santa Maria.

Para as capitanias vieram representantes de velhas casas portuguesas, heróis da índia, embaixadores, vice-reis e capitaes-mores, ao lado de gente sem brasão e de genealogia desconhecida. "Minhotos e algarvios se encontraram na colonização da Madeira e dos Açores. Andaram juntos os fidalgos da Beira com os plebeus de Viana e do Porto no primeiro século do Brasil", escreve o Prof. António Traverso transcrevendo Nuno Simões.

A grande dificuldade que sofria a política colonial portuguesa era sua escassa densidade demográfica. Um milhão de habitantes para a conquista e colonização da África, índia e Brasil.

Para Silvestre Rebelo o elemento branco na colonização do Brasil "compõe-se de descendentes de muitos fidalgos portugueses e de alguns espanhóis: I. de cidadãos, de gente limpa, mas não nobre, vinda de Portugal e das ilhas, tanto dos Açores como da Madeira; II. de degredados que desde 1549 foram sentenciados com pena de degredo para o Brasil, segundo várias leis, muito principalmente depois de 1600".

 

2. O indígena brasileiro

EVOLUÇÃO DOS ESTUDOS INDIANISTAS

As primeiras informações. — As primeiras informações sobre o indígena brasileiro surgiram no relato dos cronistas quinhentistas do Brasil. Figuram„já na carta de Pêro Vaz de Caminha e na correspondência de Vespúcio notícias sobre o gentio encontrado.

Contribuição dos cronistas inacianos. — A partir de 1549, com o início do governo geral os trabalhos de catequese iniciados por Nóbrega e seus companheiros de jornada forneceram os primeiros resultados no que se refere ao conhecimento e informações sobre o indígena brasileiro. Nóbrega e Azpilcueta Navarro estudaram-lhe as línguas e a cultura, traduzindo para eles sermões, orações e autos religiosos. A grande contribuição foi realmente a de Anchieta, autor de uma "Arte da Gramática da língua mais usada na terra do Brasil" (1595). Outras contribuições valiosas são devidas aos padres Montoia (1598), Luís Figueira (1587) e Cristobal de Gusmão (1641). Deve-se ao padre Fernão Cardim os Tratados da Terra e Gente do Brasil (1584) (vol. 168 da Brasiliana), relatando o que observou na terra entre 1583 e 1590, onde foram reunidos "Do clima e terra do Brasil", "Do princípio e origens dos índios do Brasil" e "Narrativa’ epistolar de uma viagem e missão jesuítica".

Outras contribuições. — Tornaram-se clássicas em nossa literatura as informações de Hans Staden (1557); Thevet (Singularidades da França Antártica); Jean de Lery (1578) (História de uma viagem feita à Terra do Brasil antigamente chamada América); Pêro de Magalhães Gandavo, autor de uma História da Província de Santa Cruz vulgarmente chamada Brasil (1576); a História do Brasil de Frei Vicente do Salvador (1627); Barleus (1654), Pizo e Marc Graf figuram entre os mais credenciados cronistas  holandeses  da época  da conquista flamenga.

 

 

Ataque a urna taba de tupiniquins. (Gravura da obra de Hans Staden — Francfort, 1592.)

 

Naturalistas e viajantes dos séculos XIX e XX — A partir do século XIX é que se iniciaram em relação ao indígena brasileiro trabalhos mais criteriosos e de observação mais apurada e a aplicação de métodos científicos. A esta fase da evolução dos estudos indianistas pertencem naturalistas viajantes que percorreram o Brasil desde 1815. ..A este grupo se filiam: Alexandre Rodrigues Ferreira, Eschwege (1816), Saint Hilaire, Escragnole Taunay (1869), Carlos Frederico Hartt.

Os naturalistas alemães Spix e Martius não só trouxeram informações preciosas como também tentaram classificações linguísticas de grande interesse antropológico, reformadas depois pelos estudos de Karl von den Stein e Ehrenreich e Koch Grunberg.

Contribuição dos especialistas brasileiros.

O contingente de estudiosos brasileiros que se. dedicaram a estes assuntos é grande e profícuo.

Em 1876 Batista Caetano realiza pesquisas linguísticas de grande interesse, embora sujeitas a revisão à luz dos novos métodos e novas técnicas antropológicas. João Barbosa Rodrigues estudou e pesquisou os indígenas da Amazónia. O general Couto de Magalhães escreveu "O Selvagem" em observações realizadas no Araguaia.

Mais recentemente o general Rondon entra em contacto com os índios de Goiás e Mato Grosso da Serra do Norte, retificando e reformando velhos conceitos geográficos e trazendo inestimável contribuição etnográfica. Ro-quette Pinto (1912) penetra o sertão para estudar os parecis da Rondônia. Capistrano de Abreu, Ladislau Neto, Rodolfo Garcia, Heloísa Alberto Torres, Angione Costa, Taunay, Artur Ramos, Marina de Vasconcelos Plínio Airosa, constituem o grupo mais recente dos grandes especialistas que se dedicaram ao assunto.

CULTURAS INDÍGENAS ARQUEOLÓGICAS

Existem ainda no Brasil vestígios de culturas desaparecidas de grande riqueza atestada pelas escavações arqueológicas: sambaquis, estearias, depósitos oleiros em Marajó, Cunani, Santarém.

Sambaquis. — Sambaqui, sernambi, sarnambi, ostreira, caieira, caleira são vocábulos sinónimos usados para designar montículos de conchas de forma, tamanho e local muito variáveis, contendo fragmentos de cerâmica, material lítico, espinhas de peixe, ossadas humanas. Sua ocorrência mais frequente se verifica no litoral meridional brasileiro, entre o Rio de janeiro e o Rio Grande do Sul e nos rios do Amazonas, Pará e Maranhão. Não chegaram ainda os especialistas a um completo acordo sobre, a origem dos sambaquis. Para alguns são obra da natureza, formados pela ação eólia dos ventos e os movimentos de recuo dos mares; para outros são tipicamente uma invenção humana e estavam presos a ritos funerários ou ainda identificados com os "restos de cozinha”, varreduras ou kjokkemmoddings dos autores nórdicos. Uma corrente mais moderna de etnólogos prefere explicar a origem dos sambaquis como resultado de um trabalho de colaboração entre o homem e a natureza.

Shell-mounds.

— "Shell - mounds", nomenclatura dos autores americanos que corresponde a montículos funerários, são encontrados no Brasil, na ilha de Marajó e no nordeste da Guiana Brasileira, em Cunani.

 

Vaso pintado de Marajó. (Reproduzido da "Arte Indígena da Amazónia1‘, de Heloísa Alberto Torres.)

Urna de argila. (Mesma procedência.)

 

Em Marajó foram localizados ricos depósitos na ilha do Pacoval, no lago Arari (leste da ilha), em Camutins e Santa Isabel. Ao conjunto de objetos ali encontrados deu-se o nome de arte maraioara. O principal depósito é o do Pacoval, cujo "mound" foi reconhecido como uma evocação totêmica que lembra em suas linhas um jabuti. Foram estudados por Hartt, Ladislau Neto, Derby e D. Heloísa Alberto Torres.

Tanga feminina de cerâmica. Pacoval do Arari. (Mesma procedência.)

Foram retirados dos referidos depósitos: tangas de barro, potes, igaçabas (urnas funerárias), ídolos antropomórficos, pratos, discos. O que caracteriza a cerâmica amazônica além do cozimento do barro, da silhueta dos vasos, é a grande complexidade da ornamentação da louça, de desenhos caprichosos, de contornos geométricos e a estilização de motivos botânicos e zoológicos da Amazónia. Há a considerar dois tipos de louça: a de mesa e a de fogo.

Os povos oleiros de Marajó seriam provavelmente os extintos aruãs, como propõe Ferreira Pena. Está fora de dúvida que sofreu grande influência dos ceramistas da América Central, cuja técnica oleira fora ali introduzida pelas migrações dos aruacos.

Arte marajoara desenvolvimento do desenho de um vaso. (Mesma procedência.)

Em Santarém registrou-se também a presença de outro rico depósito oleiro estudado por António Serrano e a que se propõe chamar de arte tapajoara, para diferençada da encontrada em Marajó.

Estearias. — As estearias são as nossas palafitas, estacarias que em época remota serviam de sustentáculos às habitações lacustres desaparecidas. São encontrados vestígios nos lagos Cajari, Turi, Mearim, Pindaré no Maranhão e no lago Caboclo no Pará.

CLASSIFICAÇÃO DO INDÍGENA BRASILEIRO

A primeira classificação do indígena brasileiro não obedeceu a nenhum critério científico. Predominou como classificação a distribuição geográfica: os tupis constituídos pelas tribos da faixa litorânea do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, e os tapuias, agrupando tribos do sertão. Acrescentava-se a esta classificação linguística uma outra ainda mais empírica que os dividia em: língua geral ou brasílica, correspondendo aos tupis, e os de língua travada, correspondendo aos vários grupos linguísticos dos chamados tapuias.

Com von Martius (1867) surge uma classificação mais completa, embora discutível e criticável, hoje completa mente reformada, e que serviu de base às classificações posteriores.

São nove os grupos da classificação linguística de Martius:

1.         Tupis e guaranis — os guerreiros.

2.         Jês ou crãs — os cabeças.

3.         Guck ou coco — os tios.

4.         Crens ou guerens — os velhos.

5.         Parecis ou posagis — os de cima.

6.         Goitacás — os corredores da mata.

7.         Aruaques ou aruacos — a gente da farinha.

8.         Lengoas ou guaicurus — os cavaleiros.

9.         índios em transição para a cultura e língua portuguesa.

Von Stein, outro etnógrafo alemão que visitou o Brasil e realizou em 1884 uma expedição ao Xingu, repetida em 1887-1888, acompanhado nesta por Ehrenreich, modificou a classificação de Martius, propondo o quadro:

 

 

Aldeia bacuiri.

(Reproduzido do livro "O Brasil Central", de Karl von den Stein — Brasiliana, grande formato.)

1   — Tupis

2   — Jês

3   — Caribas

4   — Nuaruaques ou maipures

5 . Qoitacás 6.— Panos

7   — Miranhas

8   — Guaicurus

Mais recentemente há ainda a considerar as classificações de Roquette Pinto, João Ribeiro, Jònatas Serrano, Rodolfo Garcia, Estevão Pinto e Capistrano de Abreu.

Roquette Pinto:

1 — Tupi 2 - Jô

3 - Aruaque 4 - Caraiba

5   — Betóia

6   — Pano

7   — Guaicuru

8   — Alófilo

João Ribeiro:

 

NAÇÕES

 

NAÇÕES QUASE

 

NAÇÕES NÃO

CLASSIFICADAS

i-

CLASSIFICADAS

 

CLASSIFICADAS

1 — Tupis

1

— Carajá

1

— Juris

2- Jês

2

— Pano

2

— Tecunas e uapés

3 — Nu-Aruaques

3

— Miranha

3

— Trumaís

4 — Caribas

4

— Guaicurus

4

— Bororós

 

5

— Puri?

5 6

— Guatós

— Quiriris

Jônatas Serrano:

1   — Tupis-guaranis

2   — Guaicurus

3   — Maipures ou nu-aruaques

4   — Cariris

 

Estêvão Pinto:

1 —

Tupis-guaranis

2___

Nu-aruaques

3 —

Caraíbas

4 —

Jôs

5 —

Cariris

6 —

Tucanos

7 —

Panos

8 —

Guaicurus

9 —

Charruas

10 —

Chirianas

 

6 —

Caraíbas

7 —

Panos

8 —

Betóias

9 —

Bororós

10 —

Nhambiquaras

11

— Uitotós

12

— Juris

13

— Catuquinas

14

— Muras

15

— Nambiquaras

16

— Trumaís

17

— Bororós

18

— Carajás

19

— Goitacás

Ajustando elementos fornecidos por etnógrafos, etnólogos, historiadores e geógrafos estudiosos do indígena brasileiro e apurando o grau de responsabilidade e autoridade de cada autor e sujeitando cada informação a crivo rigoroso, Capistrano de Abreu propõe um excelente esquema que nos dá conta do estado atual das classificações do indígena brasileiro:

1.           Tupis-guaranis, localizados na Bolívia Oriental, Paraguai, Argentina e litoral brasileiro até o Rio Grande do Norte;

2.     Guaicurus no Uruguai, Rio Grande do Sul, talvez em São Paulo, no Paraguai, em Mato Grosso;

3.     Maipures ou nu-aruaques, nas Guianas, no baixo e médio Amazonas e seus afluentes;

 

4.     Cariris, no Maranhão, Ceará, à esquerda do baixo São Francisco;

5.     Jês, em vários pontos do Brasil central;

6.     Caraíbas, no Xingu, etc.

7.     Panos, desde o Madeira até o Ucaiale;

8. — Betóias, disseminados pelo Solimões e pelas Guianas.

QUESTIONÁRIO REFLEXIVO

1 — Quais os primeiros critérios de classificação do indígena brasileiro?

2  — Qual o valor da classificação de Martius?

3  — Compare a classificação de Ehrenreich e Jônatas Serrano.

4  — Qual a classificação de João Ribeiro?

5  — Quais os sobreviventes destes grupos?

EXERCÍCIOS

Assinalar num mapa-mundo a distribuição do indígena de acordo com o quadro de Capistrano de Abreu.

Cultura indígena no Brasil

Não possuíam os indígenas do Brasil cultura uniforme. A cada grupo corresponde um tipo de cultura diferente sujeito embora aos fenómenos decorrentes dos contactos culturais (aculturação, empréstimo, sobrevivências) que não foram ainda devídamente estudados. Por isso, considera-se anti-científico um estudo em conjunto do indígena, visto os fatõres diferenciais de língua, cultura material e não material e espiritual e talvez mesmo quanto à raça e seus caracteres somáticos específicos. Como nos faltam até agora dados concretos para uma classificação cultural, aceita-se a classificação linguística. Passamos a estudar os grupos mais conhecidos e os principais aspectos da cultura material, cultura não material e cultura espiritual.

TUPIS-GUARANIS

Os tupis ter-se-iam irradiado provavelmente da região compreendida entre o alto Paraguai e o médio Paraná. Dali, em direção ao sul, descendo o Paraguai e o Paraná, atingiram o Prata e se alojaram pelo litoral. Para o norte, subiram pelo Paraguai, de onde passaram para a bacia amazônica. Em direção de oeste, atingiram a Bolívia. Mundurucus, maués e juninas realizaram, ao que parece, movimentos migratórios para o Amazonas em período anterior ao descobrimento. Foram contemporâneas dos primórdios da colonização as migrações dos tupinambaranas para o Madeira, tupinambás para o litoral.

Caracterizavam-se pelos hábitos guerreiros. Construíam aldeias fortificadas protegidas por palissadas, desenvolveram a caça e a pesca, dedicavam-se à navegação e conheciam rudimentos de agricultura, cultivando milho e mandioca.

 

Atendendo aos aspectos linguísticos, von Stein classificou-os em tupis puros e tupis impuros. Ao primeiro grupo pertencem os omáguas, campevas, ucaialis, habitantes das ilhas fluviais do Maranhão. Merecem referência especial os omáguas que, além de bravos navegadores, foram notáveis pela deformação intencional do crânio, por meio de talas fortemente amarradas de modo a dar à cabeça um

Azas de flechas usadas pelos bororós.

(Reproduzido do livro "Bororós Orientais" Colbachini — Brasiliana,

grande formato.)

formato oblongo. Pertencem ao 2.° grupo (tupis impuros) os mundurucus, maués, do Tapajós, os guernias do médio Madeira, os manitoduás, os jurunas.

Outra classificação agrupa os tupis em tupis orientais ou tupis da costa, tupis do Norte e tupis do Sul.

No ponto de vista do interesse histórico, o tupi-guarani constitui o grupo mais importante e sua língua foi estudada desde logo pelos missionários. Ao tupi antigo e ao tupi da costa denomina-se abaneenga e ao tupi moderno, nhengatu.

Pontas de flechas usadas pelos bororós. (Mesma procedência da gravura anterior.)

NU-ARUAQUES

A grafia dêste vocábulo não foi ainda uniformizada. Usa-se também Aruak, Aruac ou, de acordo com a proposta do Museu Nacional, aruacos. A partícula Nu, sabe-se hoje, corresponde ao possessivo da primeira pessoa.

Os aruacos irradiaram-se da região compreendida entre o Orenoco e o Negro. Tomaram a direção do litoral. Ocuparam o sul da Venezuela, de onde passaram às Antilhas (pequenas Antilhas: Trinidad, Martinica; grandes Antilhas:, Porto Rico, São Domingos, Jamaica, Cuba) e foram encontrados também no sul da Flórida. Na direção de oeste

ocuparam a meseta boliviana, de onde teriam atingido o litoral do Pacífico. Para o sul atingiram até.as regiões setentrionais do Paraguai.

Foram rivais do caribas com os quais andavam em luta permanente e que acabaram por lhes roubar as mulheres. Conheciam a cultura da mandioca, a técnica de fabricação da farinha, construíram redes, de dormir de embira.

Pertencem aos aruacos os pamanradis, habitantes das matas entre o Purus e o Juruá (perfuravam os lóbulos da orelha e o septo nasal); os parecis nas cabeceiras do Paraguai e do Guaporé; manaus, aldeados no Uarirá, afluente do Negro, e suas imediações.

CARIBAS Usa-se também a forma cariba ou caraíba como propõe VON SlEIN.

Ter-se-iam irradiado, segundo a maioria dos filólogos, de uma região do Brasil central ao sul do Amazonas. Praticavam a antropofagia ritual com que coroavam sua belicosidade. O vocábulo cariba, alterado pelos espanhóis para canibal, como sinonimo de antropófago, nos dá uma impressão bem nítida de sua ferocidade. Figura entre seus hábitos a "couvade" ou "choco". Fabricavam redes de algodão. Com a mesma fibra teciam pulseiras que eram amarradas acima do cotovelo e abaixo dos joelhos. Eram exógamos, isto é, seus casamentos eram realizados entre elementos de famílias diferentes. Realizavam verdadeiras razias, pilhando, saqueando, devastando.

"Se excetuarmos os maias", escreve o prof. Jônatas Serrano, "povo aliás dos mais adiantados da América pré--colombiana, foram os caribas os únicos indígenas do Novo Mando que souberam usar velas nas suas embarcações".

Pertencem aos caribas os bacairis e nauguas do alto Xingu; os pimenteiras dos sertões de Pernambuco e Piauí; os araras do baixo Madeira e Purus; os apiacás da margem esquerda do baixo Tocantins.

Distribuição esquemática das principais famílias linguísticas do Indígena brasileiro, baseada no mapa do Museu Nacional.

JÊS

Os jês correspondem à antiga classificação de tapuias. A sinonímia é rica: tapujos, tapuias, tapuzas, tapuits. E de todos, o mais interessante grupo linguístico estudado por Martius, que observou a frequência com que se repetem os fonemas je, = chefe, pai, e crã = filho, nos vocábulos gentilicos ou patronímicos.

Localizaram-se na região central do planalto brasileiro e foram expulsos do litoral pelos tupis.

No ponto de vista cultural eram os mais atrasados. Desconheciam a agricultura, a cerâmica, navegavam apenas em balsas, desconheciam a rede de dormir. Usavam flecha de madeira com lâmina de taquara denteada unilateralmente.

Aos jês pertencem os caingangues do interior de São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul; os bugres da região serrana de Santa Catarina, cabeceiras do Uruguai; botocudos ou buruns do leste de Minas Gerais, regiões meridionais da Bahia, bacias dos rios Doce e Mucuri.

QUESTIONÁRIO REFLEXIVO

1   — Quais as principais culturas indígenas do Brasil?

2   — Que diferença, se poderá fazer entre as expressões: "cultura

material", "cultura não material", e "cultura espiritual" do indígena brasileiro? Exemplifique.

3 — Que diferença existe entre, "classificação racial", "classificação cultural" e "classificação linguística"? Exemplifique.

4   — Como podemos caracterizar a cultura material do3 tupis?

5   — Quais, as principais subdivisões da classificação linguística

dos tupis?

6   — Qual o motivo eh importância histórica deste grupo?

7   — Que diferença existe entre as denominações abaneenga e

neengatu?

8   — Qual o foco provável de irradiação dos aruacos?

9   — Qual a área por eles ocupada?

10 — Como podemos distribuir geograficamente os diversos representantes deste grupo?

11      — Qual a área geográfica ocupada pelos caribas?

12      — Quais os aspectos mais característicos da cultura aruaque?

13      — Como se subdivide este grupo?

14      — Onde se localizavam os jês?

15      — Quais os principais representantes deste grupo?

Sugestões para exercício de redação e exposição oral:

a)    Descreva a cena da gravura da pag. 90.

b)   Pesquise no catálogo da biblioteca de sua escola a bibliografia indianista.

c)Reproduza documentadamente um fragmento do folclore- indianista.

EXERCÍCIO

Assinale num mapa-mudo os focos de irradiação provável dos tupis, jês, caribas e aruaques.

 

A CULTURA TUPI-GUARANI

De todos os grupos indígenas é o tupi o que maior interesse histórico possui dado seu contacto com os elementos alienígenas negro africano e branco europeu na obra de colonização e catequese.

Nossos conhecimentos sobre a cultura tupi baseiam-se na informação dos primeiros cronistas e viajantes e nos dados dos naturalistas dos séculos XIX e XX, enquanto pesquisadores de campo vão revendo e completando, à luz dos novos métodos de investigação e pesquisa, aquelas informações.

Organização social. — Entre os tupis encontravam-se formas elementares de hierarquia social, atendendo unicamente às necessidades imediatas da orientação de guerra, caça e pesca e ofícios religiosos. O poder cabia ao tubixaba ou tuxaua, autoridade mais elevada. Abaixo deles vinham os morubixabas, seus loco-tenentes, os capitães da guerra., Aos pajés cabia a função religiosa ligada à prática da medicina e o conhecimento de rudimentos de agricultura e a tarefa da perpetuação das lendas.

A família era poligâmica e o casamento de forma etidogâmica ou