A vingança de Antoine Wiertz

A vingança de
um pintor


cêrca de trinta anos vivia em Bruxelas o pintor belga Antonio Wiertz
*). A originalidade e perfeição dos seus trabalhos haviam-lhe conquistado grande
renome e estava em moda o fazer-se retratar por êle. Era um favor êsse, porém,
que o pintor

não
concedia a qualquer, senão àqueles tão somente cujas fisiono­mias pendiam mais
para o exquisito e ridículo do que para o belo.

Levado
pelo desejo de se fazer imortalizar pelo pincel do ar- tista, foi procurá-lo um
dia Pedro von Spach, tabelião de notas da cidade. Lia-se no rosto enrugado do notário a expressão da astúcia e certo ar dè filáucia.
Era um dos homens mais ricos de

Bruxelas,
e tanto tinha de rico como de avarento; o que lhe valeu a alcunha de mestre
Harpagão.

Conhecia-lhe
o pintor o lado fraco, mas, sem hesitar, acedeu ao seu pedido. E’ que a cabeça
do tabelião, logo à primeira vista, o havia impressionado. A calva, a testa
enrugada, as sobrance­lhas hirsutas, o nariz adunco, os lábios delgados, em uma
palavra, àquela cabeça característica era um verdadeiro tesouro para o nos- o
artista, que ficou logo encantado; e, enquanto o escrivão expu­nha o seu
desejo, estava o pintor a gravar na memória um a um os traços fisionômicos do
seu interlocutor.

"Quanto poderá custar o retrato?” perguntou
o cauteloso notário.

“Dez mil francos é o preço”, respondeu Wiertz.

O
velho avarento encolheu os ombros e, pegando no chapéu, disse secamente: “Então, até outra vista.”

Receando,
porém, o artista perder modelo tão prometedor, apressou-se a acrescentar: Êste
é o preço comum, mas, como as suas feições se prestam admiràvelmente,
não tenho dificuldade em fazer uma exceção em seu favor. Fica-lhe o
retrato por cinco mil francos.”

Ao
tabelião afigurou-se ainda exagerada demais essa exigên­cia por um retalho
de pano pintado,
como êle dizia. Mas afinal, depois de muito
regatear, acordou em que pagaria três mil fran­cos pelo retrato, inclusive a
moldura; e, ao despedir-se, pergun­tou quando se devia efetuar a primeira
sessão.

“Não
há pressa”, tornou-lhe o pintor, que já o tinha retra­tado bem no espírito,
“trago entre mãos outro trabalho que preciso acabado *) quanto antes; Quando
fôr ocasião, mandá-lo-ei avisar.”

Mal
o tabelião deixou a oficina [1]), mete o pintor mãos à obra;
’e, estendida na grade uma tela nova, toma do pincel e da palheta, e começa a
pintar de memória os lineamentos do quadro.

Sabia
trabalhar com admirável presteza, e antes do escurecer estava o quadro
concluído. O nosso notário estava representado de face,
sentado à sua mesa de trabalho, coberta de papéis e autos, *

A
cabeça, magistralmente executada, sobressaía em um fundo escuro. A parecença era flagrante, saltava aos olhos, e dava não só os
traços fisionômicos, mas ainda o caráter e expressão do original. Em uma
palavra, a tela parecia animada.

No
dia imediato, de manhã, deu o artista a última demão [2])
e, guarnecendo o retrato de uma moldura, enviou-o ao notário, re­comendando
ao portador que esperasse pela resposta.

O nosso
pintor esfregava as mãos de contente, antegozando a
surprêsa e alegria do velho e a sensação que o seu trabalho iria produzir na
roda dos artistas seus colegas.

Qual
não foi, porém, o seu espanto, quando pouco depois vê voltar o portador, numa
das mãos o quadro, noutra uma carta re­digida nestes têrmos:

“Meu caro senhor. Tomo a
liberdade de lhe devolver o seu borrão, que julgo não ser o
meu retrato, pois nenhuma parecença

vem comigo. Na arte, como em tudo
o mais, quero o meu dinheiro bem despendido, e de forma alguma me passa pela
mente pagar

10x mil francos por um trabalho de poucas
horas. Como
y. jul- gou não valer a pena retratar-me
seriamente, resolvi cortar tôda e qualquer transação com
V., de quem me subscrevo.

Cr.º mtatt.°

P. v. Spach.

Quando o pintor tornou a si da primeira impressão que esta singular
carta lhe produziu, não pôde ter mão em si que não soltasse uma estrondosa
gargalhada.

“Ah fona, ah unhas de fome! — exclamou êle — desta vez te lograste a ti próprio. Podias vender o quadro
pelo quíntuplo do que te custa. Mas deixa estar, mestre Harpa gão, que esta
hás-de pagar caro e bem caro; hei-de pregar-te uma boa peça.”

Sem mais demora senta-se a’ trabalhar, pega do
pincel e da palheta, e em pouco tempo operou uma transformação completa no
quadro. Sem alterar a parecença, mudou o rosto exageran-

do-lhe os traços característicos.

Os olhos encovados adquiriram um brilho sinistro, os lábios delgados
uma curvatura maliciosa, os supercílios híspidos uma ex­pressão ridícula; uma
barba de bode cobria-lhe o queixo; a posição lornou-se mais encurvada e lassa.
Também os acessórios do qua
dro sofreram radical mudança; o fundo convertido em paredes de cela com
janelas gradeadas; e, em lugar da mesa com a papela- da,
um môcho debaixo do qual estavam à vista um púcaro d’água eum pão.
Concluído o quadro, lançou o pintor o sua assinatura, e
no caixilho pregou com caracteres bem visíveis o seguinte dísti­co: —. o
caloteiro engaiolado.

Com o retrato assim transformado foi a casa de um negocian- te de objetos d’arte e disse-lhe: “Trago-lhe aqui um trabalho que, a meu
ver, não é mau. Pode ceder-me um lugar na sua vitrina para
expô-lo?”

“Lugar para o seu retrato?! E ainda o pergunta?!” tornou- lhe o
negociante. “Da sua mão ainda não saiu, que eu saiba[3]),
coisa mais original nem mais bem acabada; e isto quer dizer mui­to. Quanto devo
pedir pelo quadro?”

“Ainda não resolvi,” respondeu o pintor. “Havendo compra­dor, mande-me
aviso.”

Imediatamente foi o retrato colocado no lugar de honra, atraindo logo a
atenção dos que passavam. Todo aquêle dia houve grande ajuntamento de curiosos
diante da vitrina; no imediato ocupavam-se as fôihas circunstancialmente e com
aplausos da úl tima produção de
Wiertz; e novos grupos de
espectadores vinham aglomerar-se para ver a tela. Entre êstes últimos
achou-se
tam bém um amigo do velho notário: e, vendo a êste em tão crítica
situação, não queria dar crédito aos seus próprios olhos. Deitou logo a correr
a casa do amigo, e pouco depois entrava esbaforido o notário pela casa do
negociante, que logo reconheceu nele o ori­ginal do quadro em exposição.

 

“Senhor, exclamou êle, sou vítima de um gracejo de mau gôsto de um dos seus fregueses. O retrato que ali está
exposto é o meu. O tabelião von Spach desacatado por um pintamonos, e atado ao
pelourinho do vilepêndio!! Se V. não retirar dali in- continenti aquêle borrão,
entender-se-á com a polícia.”

O negociante, sorrindo à ameaça, respondeu-lhe mui cortês­mente:
“Meu amigo,
entenda-se com o dono do quadro; sem auto­rização
dêle não o posso retirar.”

Escumando de raiva, correu o notário a casa do pintor, a quem encontrou
refestelado em uma poltrona a saborear um bom charuto, sendo recebido por êle
da maneira mais delicada possível.

“Ah! o senhor por aqui?! A que devo a honra e o prazer desta visita? Sem-cerimônia,
sente-se, e dê-me licença para lhe oferecer um charuto.”

O tabelião atalhou estas cortesias, dizendo
sêcamente: “Va­mos, sem delongas, ao que me traz aqui. Em casa x) de
Fulano

[1] Vide a nota
2) à pág. 42.

está
exposto um retrato, uma caricatura que me torna a fábula
de toda a cidade. Exijo que o mande retirar já e já. Percebe?”

"Não bem", retrucou o outro com a maior tranqüilidade
dêste mundo “E’ verdade que em casa de Fulano está em exposição um
trabalho meu: não vejo, porém, como isto o possa tornar ridículo
aos olhos dos outros.”

Como não, se é o meu retrato?”

"O seu retrato?!” perguntou o outro fingindo-se muito admirado,

"Meu sim; não há quem o não reconheça à primeira vista.”

"Desculpe-me, acudiu o pintor, ainda ontem mandou-me V.

dizer o retrato nada se parecia corn a sua pessoa. Aqui está
a carta em que o diz.”

Onotário mordeu os beiços, estava desarmado.

“Nestas
condições, prosseguiu o pintor, e tendo V. devolvido o retrato, entendi que
estava no meu direito de dispor dêle a meu bel prazer.”

O
tabelião passeava de um para o outro lado do gabinete, afinal com sorriso
amarelo disse:

“Ora,
vamos, acabemos em paz êste negócio que não me está
cheirando bem. Pago-lhe os três mil francos e V. mande retirar imediatamente o
retrato.”

“Meu
rico Senhor, respondeu Wiertz, meneando a cabeça, deve de
ter compreendido que o retrato nas condições atuais vale dez vezes mais do que
um simples quadro. E’ um produto da minha

fantasia,
é uma criação minha; e tenho-o na conta de um dos mais bem sucedidos: não o
posso dar por menos de quinze mil francos.

“Que! x) Quinze mil francos?!… exclamou o avarento. Não
faltava mais nada!… O senhor está a gracejar.”

“Não
há tal; é o preço: se quiser levar o quadro, leve-o; se não quiser, deixe-o
ficar; é como lhe aprouver.”

O nosso tabelião estava fulo de raiva.

“Então fique-se com o quadro,” bradou êle e saiu.

Não tinha, porém, chegado muito
longe, quando voltou sôbre os seus passos resmungando de si consigo: “Se o
maldito quadro continua exposto, não me posso deixar ver
mais em parte alguma.” Não havia remédio; era fazer da necessidade virtude[4]).

“Sr. Wiertz, disse êle, quando de
novo se achou na presença do pin­tor, refleti melhor; aceito as suas condições,
estou resolvido a le­var o quadro pelos quinze mil francos.”

“E’
muita bondade sua, respondeu o artista; mas que quer? também eu estive a pensar
e acudiu-me uma idéia felicíssima. . . grandiosa…” O pobre notário estava em talas, estremeceu todo, receando algum novo
desastre.

“Que é então?” perguntou êle com voz quase sumida.

“O meu
quadro, como sabe, produziu sensação na cidade, tenciono rifá-lo, vendendo a
cinco francos o bilhete; e, para que tôdaj a cidade o veja, vou encarregar alguém
de levá-lo em exposição de rua em rua. Não lhe parece original a minha idéia?”

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O tabelião quis falar, mas a voz
ficou-lhe prêsa na garganta. “Não, não; isto de certo não fará o senhor,”
gaguejou êle afinal.

“Por
que não? estou convencido de que a idéia há-de render-me pelo menos trinta mil
francos: e por menos não renuncio a ela.”

O notário tinha suores frios: ver o seu retrato carregado às
costas de um criado, com o letreiro: O
caloteiro engaiolado,
êste pensamento aterrava-o.

Desesperado
puxa da carteira. “Aqui tem, diz êle, um che­que da importância que exige. Pelo
amor de Deus, mande-me en­tregar o retrato e não falemos mais nisso.”

Meia
hora depois estava o avarento de posse da malfadada tela: mas, só quando a
arrancou do caixilho e a viu consumida *) pelo fogo, foi que êle se julgou
seguro de novos planos de vin­gança da parte do pintor.*

Êste
lá foi receber a importância do cheque; reservou para si dez mil francos-, sua
primeira exigência, e mandou entregar, em nome do tabelião, os restantes vinte
mil a uma instituição pia de Bruxelas.

(Tradução)


[1] Oficina — esta palavra tanto se emprega
para designar casa, sa­la, ou lugar onde se executam trabalhos mecânicos, còmo
trabalhos de ar­tes liberais: oficina âe ourivesaria, de escultura,
de pintura; oficina de fer­reiro; serralheiro;
dispensa o francesismo atelier. Entrou Alexandre Mag­no na
oficina de Apeles (Nova Flor.).

[2] a última demão — os últimos retoques.

[3] que eu saiba. — As orações
ligadas pelà conjunção que, quando
li­mitam ou restringem a generalidade de um assêrto, têm o verbo no con-
juntivo— Só êste autor, que eu
saiba, compreendeu e interpretou bem esta
estância de Camões.
(Epifânio — Lusíadas). Já vi enforcar três, que me tembre, por matadores (Camilo, Amor de Perd.
149).

[4] Que
significa a expressão:
fazer da necessidade uma virtude?

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.

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