Átila o Huno, por Paul de Saint-Victor

Átila o Huno, por Paul de Saint-Victor

guerreiro-huno

ÁTILA

Paul de Saint-Victor

(Trad. de Mário Ferreira dos Santos)

Não
uma história, mas uma epopéia em língua bárbara é que Átila mereceria. Pasmou
até o século quinto, tão acostumado aos assombros. Acreditar-se-ia que se
precipitara sobre a terra o quarto Cavaleiro do Apocalipse.

"E
eis o corcel branco; e chamavam Morte àquele que o montava; era seguido pelo
Inferno e lhe foi dado o poder sobre quatro partes da terra, para matar os
homens pela espada, pela fome, pela mortalidade, pelos animais ferozes".

Quem, na
verdade, não teria visto, no exército de Átila, o Inferno a escoltar a Morte?
Os Hunos amedrontavam os Bárbaros; ao lado deles, os Vândalos pareciam soldados
de Atenas. Contavam os godos que um dos seus deuses havia desterrado, para os
confins da Cítia, feiticeiras que aí haviam encontrado os demônios errantes
das estepes. Da conjunção nascera a horrível raça dos Hunos: — "Espécie
de homem gerada dos pântanos, — diz Journades, — pequena, franzina, de aspecto
terrível, que de humano possuía apenas a palavra".

Amiano
Marcelino debuxa-os como Plínio em sua História Universal descreveu
os animais ferozes. É com horror que fala de seus corpos de membros grossos,
da dimensão monstruosa de suas cabeças, das narinas dilatadas, das faces
crivadas e cicatrizes para impedir a barba de crescer. "Diríeis animais
com dois pés, ou essas figuras de madeira grosseiramente talhadas, que decoram
os parapeHos das pontes".

Estas
tribos humanas tinham os costumes das alcatéias de lobos errantes nos bosques.
Não habitavam nem casas nem cabanas, qualquer recinto de muralhas lhes parecia
um sepulcro. Os gauleses apenas temiam que o céu desabasse sobre suas cabeças:
os hunos só conheciam um medo, que os tetos caíssem sobre eles. Assim como os
animais, o uso do fogo era-lhes quase desconhecido. Alimentavam-se de raízes e
de carne crua amassada sob a sela. Traziam por roupa uma túnica de pano escuro
e um casaco de peles de ratos selvagens. Nunca mudavam essa túnica, que apodrecia
sobre seus corpos e por si mesma os abandonava como a queda do pêlo dos animais
no tempo da muda. A existência deles era totalmente eqüestre: pareciam
cravados ao dorso de seus cavalos, feios e infatigáveis como eles. Aí comiam,
aí dormiam, aí celebravam seus conselhos. A própria morte não desunia aqueles
grosseiros centauros: os hu-nos enterravam o cavaleiro com a montaria.

Não foi
conhecido nenhum de seus deuses: apenas os tímbalos mágicos das feiticeiras
despertavam em seus crânios espessos alguma vaga idéia do sobrenatural. Era a
guerra seu elemento e existência; viviam somente de pilhagens; era a
exterminação o seu trabalho: iam para a carnificina como para a colheita. Sua
crueldade inteiramente bestial somente se saciava com a destruição: após terem
despojado os ramos, cortavam a árvore, incendiavam a cidade após havê-la
saqueado.

Em
pleno século quarto, essa tribo feroz, até então mal divisada no horizonte da
Ásia, introduz-se no mundo bárbaro. À sua passagem, reuniram-se todas as
tribos eslavas, todas as populações teutônicas, todos os nômades da Tartária.
A bola de neve tornou-se avalancha, a barbárie íêz-se nação. Atingiu a
maturidade com Átila, e surgiu às margens do Danúbio ante a Europa consternada.

Estranha
figura a desse Calibá da guerra! Amálgama a ferocidade dos brutos aos vícios
dos déspotas; é cruel como um chefe selvagem, e corrupto como um velho sultão;
tem a violência mongol e a perfídia bizantina; nele se aliam c ogro e o
diplomata. Não é somente pelo medo, é pela astúcia que êle ataca os dois Baixos-Impérios
do Oriente e do Ocidente. O tigre faz-se de gato para brincar com os débeis
césares que reinam na aparência sobre o mundo. Explora-os, injuria-os,
engana-os, adula-os, assusta-os, fa-tiga-os com embaixadas e negociações
irrisórias; pede-lhes o impossível, espada à garganta, e o impossível lhe é
dado. Roma e Constantinopla esgotam-se para satisfazer os caprichos desse
monstruoso filho minado da força.

Um
dia, intimou o imperador Teodósio "a entregar-lhe uma rica herdeira,
cobiçada por um de seus soldados: a jovem, espavorida, fugiu, e Teodósio, sob
pena de invasão, foi constrangido a substituí-la. Outra vez, reclamou a Valentiniano
os cálices salvos por um bispo da pilhagem de Sirmium: o imperador respondeu
que não podia, sem sacrilégio, entregar-lhe aqueles vasos consagrados:
ofereceu pagar-lhe duas vezes seu valor: — "Meus vasos ou a guerra"
— a resposta de Átila.

Do fundo de
seu palácio de madeira, habitado por seu serralho inculto e pela multidão de
filhos, esse cão Camulco aterrorizava o mundo. Como suplicantes, os embaixadores
do império aproximavam-se da tenda real; vagueavam demoradamente antes de
serem introduzidos no recinto de planchas e paliçadas. Ante Átila,
encontravam-se em face de um homem atarracado, nariz chato, imberbe, quase
negro, cujos olhos flamejavam de cólera.

Priscus,
que tomou parte na embaixada enviada por Teodósio ao rei bárbaro,
transmitiu-nos o quadro dessa corte fabulosa. Mostra-nos Átila entrando solenemente
em sua capital sob os véus brancos que traziam as virgens. Quando passa ante a
casa de seu ministro Onegésio, uma mulher sai, cercada de suas servas que,
trazem pratos de carne e uma taça de vinho. Aproxima-se dele e pede-lhe para
provar o alimento que ela preparou. Com um gesto, Átila consente; então,
quatro homens elevam à altura do cavalo uma mesa de prata, e sem desmontar-se,
o rei bebe e come.

Alguns
dias depois, Átila convidou a embaixada para um grande banquete. Os romano^
entraram numa sala mobiliada de bancos e de pequenas mesas. No meio, eleva–se
um estrado e sobre este a mesa real e o leito onde Átila estava deitado. Aos
seus pés, Ellak, o mais velho de seus filhos, em atitude de escravo, silencioso
e de olhos baixos. Serviam os convivas em pratos de prata, verteram o hidromel
em copos de ouro: mas Átila bebia num copo e comia em pratos de madeira. Em
meio do festim, dois bardos levantaram-se e cantaram em língua húnica, as
vitórias do rei. O hino exaltou o auditório; um entusiasmo frenético apossou-se
dos Bárbaros, gritos elevaram-se de seus peitos, lágrimas jorraram de seus
olhos; os semblantes assumiram a expressão furiosa do ataque e da defesa; a
sala assemelhava-se a um acampamento em pé de guerra.   A seguir, entrou um bufão, e suas contorsões provocaram grandes
gargalhadas. Mas, em meio do tumulto, Átila permanecia imóvel. Presidia em
silêncio à ruidosa orgia. Somente Quando Ermak, o mais jovem de seus filhos,
entrou na sala, um brilho de alegria iluminou-lhe o rosto sombrio; os olhos se
amansaram, e, com um gesto amoroso, conduziu a criança para si, acariciando-lhe
a face.

Contudo,
Átila respondia finalmente ao embaixador dos Césares. Dois mensageiros hunos se
apresentavam no mesmo dia, ante os imperadores Teodósio e Valentiniano. Estavam
encarregados de dizer a um e outro:


Átila, meu senhor e teu, ordena-te preparar-lhe o palácio, pois virá!

Realmente,
êle chegou nesse terrível ano de 451, predito pelos cometas, pelos eclipses da
lua, pelas nuvens de sangue em meio das quais se esbatiam fantasmas de lanças
flamejantes. Nunca o mundo esteve tão próximo de seu fim. Não era uma invasão,
era um dilúvio. Hunos, ala-manos, gelões, ostrogodos, gépidos, ávaros,
búlgaros, turcos, húngaros, a totalidade da Barbárie ondulava em torno de
Átila. A multidão inteira dos animais insurgidos contra o homem, e reunindo-se
ao redor de um monstro dotado de vontade e de inteligência, dificilmente daria
a idéia do perigo que correu a civilização nessa data sombria. Em alguns
dias, as duas Germânias e a Gália desapareciam sob turbilhões de cavalos e
cavaleiros. As populações fugiram em debandada ante a tempestade humana que
pilhava, esmagava, chacinava, devastava, saqueava e terminava pela chama a
obra iniciada pela espada. De todas as partes, ouvia-se apenas o estrépido das
cidades que caíam e o es-tertor dos povos degolados. O sangue jorrava e
transformava-se em torrentes; esvaziavam-se cidades, abarrotavam–se
florestas; a terra cultivada desaparecia sob o nível da destruição. Dir-se-ia
que, do fundo da Ásia, os Hunos trouxeram o deserto, e que o desenrolaram como
um lençol sobre o mundo antigo. Átila metamorfoseava-se em meio da tempestade
que desencadeara; surgia aos clarões das cidades incendiadas, sob a forma de
um animal quimérico. Emprestavam-lhe algumas crônicas uma cabeça de burro; outras,
focinho de porco; aquelas privavam-no da palavra e faziam-lhe proferir apenas
resmungos surdos. A tradição consagrada via nele um açoite bíblico, um Flagelo
que pulverizava nações, e que a mão de Deus sacudia por entre as nuvens.   Êle
próprio aceitou este cognome sinistro.

A
lenda relata que Átila, ao ouvir um eremita chamá-lo "o Flagelo de
Deus", saltou sobre êle num acesso de alegria infernal:


"A estrela cai, exclamou, a terra treme; eu sou o Malho que castiga o
mundo!"

Stella cadit, telus
fremit, et ego Malleus orbis!
É com
este nome que os bispos o interpelavam, em pé à sua passagem, mitra à cabeça e
o báculo na mão, às portas das cidades. Havia respeito nas apóstrofes que lhe
lançavam: os homens do Evangelho saudavam, ao exorcizá-lo, o Dragão do
Apocalipse.


Quem és tu? — perguntou São Lobo, do alto das muralhas de Tróia. — Quem és tu,
que dispersas os povos como a palha, e despedaças as coroas sob o casco de teu
cavalo?

—   
Sou Átila, Flagelo de Deus!

—    Ó!, responde o bispo, sê bem-vindo, Flagelo de Deus,
de quem sou servidor.   Não serei eu quem te deterá.

E
descendo com seu clero, abriu de par a par as portas, tomou pela rédea o
cavalo do rei dos Hunos, e o introduziu na cidade.


Entra, Flagelo de meu Deus, e vai até onde te impulsa o seu braço.

Átila
entrou, com o exército, mas um véu sobrenatural envolveu a cidade: uma miragem
a afastou dos olhos dos bárbaros: eles a atravessaram, julgando percorrer uma
vasta campina.

Talvez assim sucedesse
ao mundo ocidental se, nos campos da Catalunha, Aécio não tivesse vencido
Átila.   Batalha gigantesca, cujas proporções desconcertam.   Duzentos mil
mortos; o sangue, em catadupas, escorria no leito de um regato, transformando-o
em rio; Átila entrincheirado atrás de seus carros, volvia-se, ébrio de raiva,
ao redor de uma pilha de selas em chama, na qual se atiraria, se o inimigo
invadisse seu campo!   Dir-se-ia uma gigantomaquia do Eda. Aécio ultrapassou Mário e atingiu César nesta luta épica; a
glória, contudo, mal ilumina seu nome de um brilho duvidoso. Na verdade, é
injusta a história em não erguer altares àqueles heróis da última hora. Próbus,
Póstumo. Stílcon, Aécio, que tão magnânimamente sustentaram c embate dos
Bárbaros e forçaram, como Josué, o sol da civilização romana, a retardar seu
crepúsculo sangrento. Mas era peculiar à Barbárie fazer a noite à sua volta: homens
e coisas se entenebreciam à sua aproximação; tornava-se bárbara a civilização
ao combatê-la; a Chaga das Tre-vas abatia-se igualmente sobre vencidos e
vencedores. As próprias vitórias obtidas sobre elas não subjugam a imaginação:
os clarins emitiam gritos roucos, os lauréis eram es-pinhosos como sarças.
Apenas sobraram vestígios de uma caçada aos lobos na espessura das florestas.

Repelido
das Gálias, o homem da presa derramou-se sobre a Itália que êle exterminou.
Queimavam-se as cidades, caíam os homens aos montes, os povos fugiam até ao
mar, para escapar-lhe. O horror não se alterava através daquela atroz
história: aquele sangue, que caía como a chuva, era, afinal, fatigante como
ela. A carreira de Átila tinha a monotonia do Inferno.

Finalmente,
voltou à sua aldeia, farto de carnificina e carregado dos despojos do mundo. Aí
morreu a morte de Holofernes, em seu leito de núpcias, degolado pela Judite
germânica. Seu exército urrou ao redor de sua tenda fúnebre como a matilha
junto ao corpo do caçador que a fartava de carniça. Mataram os escravos que
abriram o túmulo. O próprio cadáver de Átila não se eleva a uma verdadeira
grandeza. Existem apenas gritos, em sua celebridade; seu nome ressoa vazio de
sentido; sua história cinge–se à história natural dos flagelos físicos. Não é
mais humano que um tremor de terra, que a erupção de um vulcão, que o tufão
dos mares da China. O poder de destruir, que manifestou, tem algo de
inconsciente e de mecânico. Foi demasiadamente fatal para ser odioso,
demasiadamente impessoal para ser culpável. A história nem sequer se digna
acusá-lo: era a impronúncia de toda responsabilidade e de toda afronta;
reenvia-o à Natureza, da qual foi somente um dos agentes destrutivos. Acusá-lo
e condená-lo seria imitar Xerxes vergastando um elemento em fúria. O assassínio de Clito desonra mais a Alexandre  que o sangue de um mundo despovoado a Átila; mas também o menor combate grego,
inspirado pela virtude cívica e pelo heroísmo, sobrepassa todas as conquistas
do Bárbaro. O soldado de Maratona ao agitar a palma, é maior que Átila ao
receber os reis e os patrícios do dorso de seu cavalo descarnado, cujo galope
ressequia a terra.

Também,
não é na história, que o relega entre os fósseis de seus períodos caóticos, é
na lenda que Átila assume sua verdadeira existência. Cada povo se apodera dessa
figura brutal e a modela segundo seus instintos. A Itália a degrada, a
Alemanha a idealiza. Enquanto a tradição latina transmuda Átila em espectro ou
em monstro, os poemas germânicos transformam-no num rei condescendente e neutro,
que preside aos acontecimentos sem neles se intrometer demais, como o Agamenon
da Ilíada e o Carlos Magno da Távola Redonda. Transformação imprevista! O ogro
faz-se patriarca; o assassino do mundo torna-se o majestoso juiz de paz das
lutas dos Nibelungos.

Mais
arrojadamente ainda, a Hungria trata com um respeito filial o selvagem
antepassado de sua raça. O Átila das lendas magiares é santo como Davi, sábio
como Salomão, magnífico como Harum-al-Rasdhid. Não é mais o papa Leão que o
detém às margens do Tibre, é Jesus, descido dos céus, que discute diretamente
com êle, e que promete à sua posteridade a coroa da Hungria, para explicação
de Roma.

Mapa do Império Huno
Mapa do Império Huno
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