Baía de Chacororé – Mimoso

Baía de Chacororé – Mimoso

lagoa encantada

XACORORÉ

Mimoso!

Se fosse possível identificar a localidade onde, ao tempo do Pai Adão, o Padre Eterno construíra, com as próprias mãos, o Éden terrestre, creio que acertaria quem afirmasse ser o Mimoso, o berço natal do General Rondon, o outrora Paraíso, que a serpente pôs a perder por causa de uma simples maçã.

Beleza, amenidade, fartura, deleite, eis os predicados que se podem aplicar ao trato de terras privilegiadas que se estendem às margens da maravilhosa lagoa de Xacororé.

Campos rasos, cobertos de admiráveis pastagens, onde predomina a gramínea que impôs o seu próprio nome às paragens edênicas do Mimoso, desdobram-se, a perder de vista, manchados, aqui e ali, por bosques de elegantes buriritis e capões férteis de essências vegetais.

Nestes sítios opulentos pastam milhares de reses bovinas e equinas em promiscuidade com manadas de veados brancos e emas de grande porte.

A beira da lagoa, nuvens de pássaros aquáticos, de matizes e tamanhos variados, cruzam os ares em revoadas ou pousam serenamente sobre os camalotes, a cata da farta subsistência, que é sobejamente encontrada na abundante fauna ictiológica daquela massa de água doce.

Na orla do vasto campo esmeraldio, brancas e isoladas, as pitorescas casinhas mimoseanas formam como que um semicírculo, dominando as bordas da grande área paradisíaca. Constituem-se essas habitações rurais o povoado do Mimoso, cujos habitantes masculinos, destros cavaleiros e hábeis laçadores, meteriam num chinelo, se comparados, os mais afamados "caw-boys" do "Far West" americano.

— "É muito linda a lagoa", disse eu ao Euzébio, rapaz típico do Mimoso, aparentando descender, em linda quase reta, de bugres outrora ali radicados.

— "É nhôr sim, seri moco, mas tem um grande defeito …"

— "É incantada".

— "Acaso a Mãe d’Água?…"

— "Nhôr não, — é que mora bastante morado no fundão da baía. Inté eles tem criação… "

— "Conta-me lá isso", pedi ao Euzébio, e este narrou-me o caso seguinte:

Noite clara de lua quase cheia. Euzébio, bem montado, laço à garupa, regressava do íamandaré onde fora a negócios. Nesse momento, meia-noite, atravessava o extenso lago, já antegozando as delícias da sua rede cuiabana. Ao passar por perto de um barreiro, no sopé de uma moita de carandaí, ouviu muito distintamente os gritos de alguém que tocava uma rês. O generoso mimoseano bambeou a rédea e o pangaré, acostumado aos trabalhos pastoris, foi-se aproximando do local onde um vaqueiro lutava para encaminhar um garrote, que, laçado, arranchara-se perto de um cupim-guaçu, não dando mostras de querer obedecer aos brados do boiadeiro. Euzébio, tendo balbucaido o competente "Bas noite", que não foi correspondido, desenrolou o laço de couro cru no intuito, para todo o mimoseano louvável, de ajudar o patrício, embora não o reconhecesse ao clarão da lua. E laçou a rês, que, sob dois jugos, agora somente teve de acompanhar o esquisito campeador noturno. Este fez a guia e o grupo se encaminhou, não sem que isso causasse estranheza ao Euzébio, rumo ao imenso lago, nesse momento silencioso e tranquilo. E cada vez mais se aproximando da vasta planície líquida, Euzébio notou, com quase terror pânico, que cavalo, cavaleiro e garrote, em desabrida carreira, foram-se metendo, lagoa a dentro, desaparecendo no misterioso seio das águas amareladas da Xacororé. Momentos de angústia para o mimoseano, que tudo compreendera. Estava auxiliando um habitante da lagoa encantada! Puxar pela afiada carniceira, cortar o laço e disparar para trás, foi obra de alguns segundos, e o vigoroso descendente da outrora gente brava que se araa-locava nas margens da Xacororé chegou ofegante à sua pitoresca casinha, onde sua velha mãe, depois que ouviu do filho a trágica narração, o apostrofou:

— "Bem feito! isto é para ocê me oví. Já não le disse que não navegasse de noite pela beirada da baía?"

Wisses Cuiabano: Revista da Academia Maiogrossense de Letras.

Ano 8, Tomos 15 e 16, 1940, pp. 31-32.

Fonte: Estórias e Lendas de Goiás e Mato Grosso. Seleção de Regina Lacerda. Desenhos de J. Lanzelotti. Ed. Literat. 1962

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