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Discurso da Academia Sueca para Albert Camus, prêmio Nobel de literatura


Discurso de Recepção pronunciado por Anders Österling – Secretário Perpétuo da Academia Sueca por Ocasião da entrega do Prêmio Nobel de Literatura a no dia 10 de Dezembro de 1957.

Fonte: Editora Opera Mundi, 1973.

Sire,

Senhora, Altezas Reais,

Senhoras e senhores,

A literatura francesa não está mais ligada geografi­camente às fronteiras da França na Europa. Sob muitos aspectos, ela faz pensar em uma planta de jardim, nobre e insubstituível, que quando é cultivada fora de seu chão, nem assim deixa de conservar suas características distintas sob novos climas, sem que nela deixe de agir a seqüência alternada da tradição e evolução. O laureado pelo Prêmio Nobel de literatura deste ano, Albert Camus, é um exemplo disso. Nascido em uma cidadezinha do oeste da Argélia, é a este meio norte-africano que nos devemos voltar para encontrar a fonte de todas as impressões determi­nantes que marcaram a criança e o jovem que ele foi. Tem ele consciência de ser, ainda hoje, a criança chegada à idade de homem deste grande território francês de ultramar, e o escritor que nele existe fez freqüentemente questão de lembrá-lo.

De origem quase proletária, Camus viu-se obrigado a vencer pelos seus próprios meios; estudante pobre, exerceu toda a espé­cie de profissões para prover às suas necessidades, escola dolorosa, mas que, na variedade de seu ensino, certamente não foi inútil ao homem de ação que viria a ser. No decorrer dos anos de estudos que passou na Universidade de Argel, aderiu a um grupo de intelectuais, que deveriam, mais tarde, representar um papel importante na Resistência norte-africana. Foi uma casa editora de Argel que imprimiu seus primeiros livros, mas, aos 25 anos, tendo ido à França como jornalista, logo conseguiria na metrópole a reputação de um escritor de primeira ordem, precocemente amadurecido pela atmosfera áspera e febril dos anos de guerra.

Encontra-se em Camus uma atitude espiritual visível desde seus primeiros escritos, nascida das contradições irredutíveis que nele existem entre o próprio sentimento da vida terrestre e da tomada de consciência da realidade da morte. Não se trata aqui tão-somente do fatalismo típico do homem do Mediterrâneo cuja origem é a certeza que o esplendor ensolarado do mundo não passa de um instante fugitivo destinado a ser apagado pelas sombras. Camus representa igualmente o movimento filosófico que traz o nome de e que, para caracterizar a situação do homem no universo, recusa-lhe qualquer significação própria, nela só vendo o absurdo. Esta palavra “absurdo” volta tão freqüentemente sob a pena de Camus que se pode considerá-la um leitmotiv de sua obra, desenvolvido em todas as suas conseqüências lógicas e morais no plano da liberdade, responsa­bilidade e que dela decorrem.

O mito grego de Sísifo, que carrega eternamente sua rocha até ao cume da montanha de onde ela torna a cair, converte-se, em um dos ensaios de Camus, no resumo simbólico da vida humana, Mas Sísifo tal como o interpreta Camus, é feliz no mais profundo de sua alma, pois a luta que trava é suficiente para satisfazê-lo. O essencial para Camus não é mais saber se a vida vale a pena ser vivida, mas como é preciso vivê-la, com o quinhão de sofrimentos que ela comporta.

Esta breve apresentação não permite que me demore nos caminhos intelectuais de Camus, tão atraentes. Melhor será ir às obras nas quais, utilizando um estilo de uma pureza clássica e uma concentração intensa, concretizou esses problemas de tal maneira que personagens e ação se encarregam de viver suas idéias, sem que haja necessidade de comentários supérfluos. É o que ilustra O Estrangeiro, publicado em 1942. O personagem, empregado em um escritório, mata um árabe em conseqüência de um encadeamento de circunstâncias absurdas; depois, indife­rente ao seu destino, ouve a própria sentença de morte; mas, no último momento, volta a si, e sai de uma passividade próxima do torpor. Em A Peste, romance simbólico de maior envergadura de 1947, figuram dois homens, o médico Rieux e seu assistente, que combatem heroicamente a calamidade que assolou uma cidade norte-africana. Em sua objetividade exata e calma, esta narração, de um realismo convincente, é, entretanto, uma conseqüência das experiências vividas durante a Resistência e exalta a revolta despertada no coração do homem, profunda­mente resignado e desiludido,pelo mal avassalador.

Muito recentemente, Camus nos deu A Queda, esta narrativa monologada tão notável, que se acrescenta sem assina­lar o menor enfraquecimento àquelas que já testemunharam o domínio com o qual sabe construir uma narração. É a história de um advogado francês que, num bar de marinheiros em Amster dam, faz seu exame de consciência, traça seu próprio retrato, espelho onde seus contemporâneos podem, igualmente, reconhe­cer-se. Nestas páginas temos a impressão de ver Tartufo estendera mão ao Misantropo em nome do conhecimento do coração humano que a França clássica possui. A ironia mordaz manejada por um autor combativo, apaixonado pela verdade torna-se uma arma contra a hipocrisia universal. Pode-se, é verdade, perguntar onde Camus quer chegar, insistindo assim sobre um senso de culpabilidade à maneira de Kierkegaard, cujo abismo sem fundo está onipresente; tem-se todavia a impressão de que o autor chegou a uma encruzilhada de sua evolução.

Pessoalmente, Camus ultrapassou, evidentemente, de mui­to o nihilismo, e as meditações de uma grande austeridade que ele consagra à esperança de consertar sem descanso o que foi ferido e de tornar a justiça possível em um mundo injusto, fazem dele antes um humanista que não esqueceu o culto da medida e da beleza gregas, tais como lhe foram reveladas na luz resplandecente do verão à margem do Mediterrâneo, em Tipasa.Ativo e rico, ainda, do que vai criar, ele está, atualmente, no centro do interesse do mundo literário, mesmo fora da França. Existe nele uma participação moral autêntica que o leva a dedicar-se audaciosamente e com toda a sua pessoa às grandes questões fundamentais da vida, e é, sem dúvida, legítimo afirmar que esta aspiração corresponde ao ideal pelo qual o Prêmio Nobel foi fundado. Por trás de sua incessante afirmação do absurdo da condição humana, não há uma recusa estéril: a sua visão das coisas completa-se por um imperativo enérgico, um apesar-de-tudo”, um apelo à força de vontade que impele à revolta contra o absurdo e que, por isso mesmo, cria um valor.

O orador dirige-se, então, em francês, ao laureado:

Caro Senhor,

Sois um dos mais jovens de todos esses laureados cujos nomes representam mais de meio século de evolução tia história da literatura moderna. A Academia sueca, que vos felicita neste momento, julgou tomar uma decisão acertada ao distinguir em vossa pessoa um escritor cheio de seiva e de quem o mundo tem o direito de esperar ainda oferendas consideráveis. Exprimindo esta convicção, peço-vos receber, das mãos de Sua Majestade o Rei, o Prêmio Nobel de literatura deste ano.

Tradução de Abelardo Fonseca


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